Na saúde e na doença. Na alegria e na tristeza. Quando se propõe a retratar histórias de amor, o cinema costuma se concentrar na primeira alternativa dessas frases. Em Amor, Michael Haneke segue na direção oposta.
Premiado com o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e concorrendo a cinco Oscar (filme, filme estrangeiro, diretor, roteiro e atriz), o longa mais recente do diretor de ‘A Fita Branca’ e de ‘A Professora de Piano’ fala do casamento de dois professores de música aposentados. E retrata, específica e minuciosamente, os últimos meses de vida de Anne (em interpretação suprema de Emmanuelle Riva). Depois de um derrame leve e de uma cirurgia, sua condição física e intelectual se deteriora lentamente. Na ausência de qualquer possibilidade de tratamento, cabe ao marido Georges, também octogenário, prover os cuidados paliativos, à espera do fim.
“Há coisas que não precisam ser mostradas”, diz George (o genial Jean-Louis Trintignant), em uma dura conversa com a filha (vivida por Isabelle Huppert, atriz fetiche do diretor). Haneke não pensa assim. E não faz concessões. Em 127 minutos, ele mostra com crueza todos os detalhes incômodos.
São duríssimos. Mas não desnecessários. Só quem vê o que se passa no dia a dia do casal é capaz de entender as decisões que serão tomadas. E a personagem da filha – que mora no exterior e visita os pais ocasionalmente – está ali para fazer o contraponto. Ela não compreende. E nem teria como.
Sim, este talvez seja o filme mais triste que você vai ver em 2013. Pode bem ser o filme mais triste que você vai ver na vida inteira. Sua proposta não é entreter casais e amigos entre baldes de pipoca. É falar de aspectos de um relacionamento que raramente vemos – e nos quais raramente pensamos. O que você faria se o amor da sua vida desaparecesse um pouquinho a cada dia, bem na sua frente? Como o confortaria nos momentos de dor ou de terror? É neles que Haneke, que também assina o roteiro, revela uma atípica doçura.
Tags: amor, emmanuelle riva, Globo de Ouro, michael haneke, oscar
O 20º Anima Mundi chega a São Paulo na 4ª (25), com 448 filmes, e celebra suas duas décadas de existência lembrando seus filhos mais pródigos
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Para os caçadores de estatuetas, esta é a hora de ir ao cinema. E que não se enganem os avessos a Hollywood: a maré também está para peixe (pequeno)
É verdade que, passado o Oscar, as salas de cinema da cidade estão tomadas pelos filmes indicados – e premiados. E muitos deles não fazem feio: ‘O Artista’ e ‘A Invenção de Hugo Cabret’ têm muito pouco da caretice associada às grandes produções. Mas já falamos bastante sobre eles em nossas últimas edições. Os filmes que indicamos a seguir, com exceção de ‘Drive’, têm pouco (ou nada) a ver com o glamour hollywoodiano. O que todos eles procuram é sair do curso: afastar-se completamente do cinema de entretenimento (caso de ‘Minha Felicidade’) ou fazer as coisas um pouquinho diferente. Uma missão que o Divirta-se aprova, claro.
É deles|
Aphoto/Joel Ryan

MELHORES| o elenco de ‘O Artista’, em cartaz, com seus prêmios
Anunciados os vencedores do Oscar 2012, começa a corrida para a temporada de prêmios de 2013. No entanto, ainda é possível assistir nos cinemas às principais produções contempladas na última edição da festa. Das principais categorias, oito vencedores ainda estão em cartaz. Não viu ‘Meia-noite em Paris’ (roteiro original), ‘Rango’ (melhor animação) e ‘Toda Forma de Amor’ (melhor ator coadjuvante para Cristopher Plummer)? Tudo bem, eles já estão disponíveis para locação.
La la land|
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GALÃ| Ryan Gosling entra para o hall dos heróis do cinema americano
“Música eletrônica e contos de fada”, respondeu o dinamarquês Nicolas Winding Refn sobre sua inspiração ao criar Drive, em entrevista ao Huffington Post. Ignorado nas categorias principais do Oscar, mas responsável por dar a Refn o prêmio de melhor diretor em Cannes no ano passado, o longa é o nosso preferido entre os filmes desta safra (e, ok, entre muitos outros).
Como todo conto de fadas – mesmo que violento e embalado por um synth pop viciante –, ‘Drive’ é centrado em um herói, e do tipo que evoca o clássico de Hollywood: o durão silencioso.
A Los Angeles encantada de Refn, tomada por perseguições de carro entre as avenidas largas que conectam a espalhada cidade, lembra a de Michael Mann. Nela, Ryan Gosling vive um motorista-dublê de filmes baratos e também o melhor piloto de fuga em assaltos. Tudo nele (com exceção da jaqueta) é pensado para não chamar atenção. O piloto não tem nome e não tem passado. Com sorriso tímido e olhar esquivo, ele dirige um Impala – “o carro mais comum em toda a Califórnia”, diz seu preparador.
Mas seu isolamento e controle é posto à prova – porque sempre é – quando ele conhece a princesa, Irene (Carey Mulligan, ideal para o papel). A angelical garçonete é casada e tem um filhinho (o amor, não consumado, torna-se imaculado).
Standard (Oscar Isaac), o marido, sai da prisão com uma dívida. Quando o piloto descobre que a garota e o filho correm riscos caso Standard não assalte uma loja de penhores a mando de um bandido, ele oferece suas habilidades.
O roubo acaba colocando o piloto no caminho de mafiosos que, para a descrição, basta dizer por quem são interpretados: Albert Brooks e Ron Perlman.
A hiperestilização, uma das marcas de Refn, é justificada pelo clima de fábula. E o diretor atinge um equilíbrio preciso entre o tom onírico e o ambiente urbano, povoado por tipos entre o mundano e o marginal. Carolina Arantes
Porto seguro|
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AMIZADE| diretor evita clichês em trama enxuta
Na costeira e industrial Le Havre, cidadezinha ao norte da França, Idrissa, um garoto africano que tentava chegar a Londres com outros imigrantes, consegue fugir da polícia e cai nas graças do engraxate de meia idade Marcel.
O leitor pode desconfiar do sentimentalismo latente que sugerem as linhas gerais deste filme, mas o grande trunfo de
O Porto é justamente a recusa do diretor finlandês Aki Kaurismäki de transformá-lo em um conto edificante.
(Neste sentido, vale lembrar, o filme é melhor resolvido que o elogiado argentino ‘Um Conto Chinês’, com Ricardo Darín, que tem mote similar).
O encontro de Idrissa com o boêmio Marcel e a relação do garoto com os moradores do bairro portuário servem de gancho para que Kaurismäki apresente o cotidiano daquelas pessoas, personagens adoráveis (e beberrões) como o roqueiro sessentão que topa fazer um show beneficente para arrecadar dinheiro para Idrissa, e o investigador que faz vista grossa e dá dicas indiretas da ação da polícia para que Marcel o proteja.
Emotivo e bem-humorado em doses equilibradas, ‘O Porto’ retrata a solidariedade não como atitude isolada, mas como forma de encarar a humanidade (entre necessitados ou não). CA
Loucuras, trapaças e um porco falante|
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Um porco falante de plástico é só um dos elementos nonsense da comédia Billi Pig. Dirigido por José Eduardo Belmonte, o filme presta homenagem ao humor ingênuo, típico das chanchadas, em um roteiro sobre um golpe planejado por um falso padre e por um contador malandro, casado com uma aspirante a atriz. Ramon Vitral
Sem saída|
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Road movie analisa a sociedade russa
Vale avisar: não afeitos a filmes contemplativos podem torcer o nariz para Minha Felicidade, primeiro longa de ficção do documentarista Sergei Loznitsa. Seus planos são longos e a trama, solta.
O filme acompanha Georgy, um motorista de quem não sabemos praticamente nada, que se perde com seu caminhão em uma pequena cidade do interior da Rússia e procura voltar. Mas esta enxuta narrativa central é entrecortadas por outras histórias – como a de um ex-soldado da Segunda Guerra a quem Georgy dá carona, e que lhe conta como um desentendimento com um militar de patente mais elevada (o abuso de poder, na verdade), na época, o levou a perder a noiva – e a própria identidade: já velho, o senhor não conhece seu nome.
Há também um flashback em que Loznitsa encena um episódio não relacionado a Georgy, em que dois soldados saqueiam a casa de um professor, que lhes oferece abrigo, também durante a 2ª Guerra.
Ao retornar ao período (e escolher personagens simbólicos – um motorista, um professor, um soldado), Loznitsa parece localizar ali um ponto de inflexão da sociedade russa, destinada à degradação moral. O próprio Georgy não passa incólume nesta busca (também simbólica) pelo caminho de volta. Um filme incômodo, até mesmo em função de sua encantadora plasticidade. CA
Crônica juvenil|
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A liga da justiça (teen) em ação
Mais improvável que um adolescente ganhar superpoderes ao ser picado por uma aranha geneticamente modificada, é um adolescente com superpoderes agir tendo como princípio as grandes responsabilidades impostas pelos novos dons.
Os protagonistas de Poder Sem Limites são semelhantes a Peter Parker, o alter ego do Homem-Aranha, no que diz respeito ao ambiente familiar conturbado, aos problemas no colégio e às habilidades sobre-humanas, mas a maneira com que fazem uso de seus poderes são bem mais verossímeis – especialmente se considerada a realidade hostil do Ensino Médio.
Filmado de forma semelhante a ‘Bruxa de Blair’ (1999), como um registro amador dos fatos, a produção americana segue três jovens de Seattle que estudam em um mesmo colégio. Por acaso, os três entram juntos em um buraco e ganham poderes ao encostar em uma misteriosa pedra fluorescente. Saber mais do que isso estragaria o bom entretenimento fornecido pelo filme – uma aposta audaciosa dentro do repetitivo, inflacionado e, sim, pouco original gênero dos super-heróis. RV
Tags: aki kaurismäki, billi pig, carey mulligan, cinema, Divirta-se, drive, grazi massafera, josé eduardo belmonte, le havre, minha felicidade, nicolas winding refn, o porto, oscar, peter parker, poder sem limites, Ryan Gosling, selton mello, sergei loznitsa
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ATRIZ| Glenn Close brilha no papel de uma mulher travestida
Um dos poucos casos em que os nomeados ao Oscar pela Academia refletem a opinião dos críticos, Albert Nobbs tem Glenn Close indicada ao Oscar como atriz principal e Janet McTeer, como coadjuvante. De fato, mais do que um bom filme, esta é uma obra de alguns bons personagens.
A trama é enxuta. Dirigido pelo colombiano Rodrigo García, escritor e diretor de episódios de diversas séries respeitadas da HBO, como ‘A Sete Palmos’ e ‘In Treatment’, o longa acompanha a história de Albert Nobbs (Glenn Close), uma mulher que se passa por homem durante toda a vida adulta para poder trabalhar e ter independência financeira na Irlanda conservadora do final do século 19.
Nobbs é o criado de uma pensão já decadente que recebe boêmios e nobres também um tanto decadentes. De olhar e andar arredio, e conservando a fragilidade física de um garoto, Nobbs é respeitado por sua retidão de comportamento – nunca surrupiando uma dose de uísque ou se escondendo com alguma criada nos cantos da pensão –, mas, em comentários maliciosos e sussurrados, é tido como ‘freak’ pelos outros criados.
Descobrimos quem é Nobbs pouco a pouco, a partir da chegada do pintor Hubert Page. Como há muito serviço, Hubert precisa passar alguns dias na pensão e a proprietária pede a Nobbs que ele fique em seu quarto. Não demora para que a farsa se revele ao bruto Hubert, que, surpresa!, descobrimos ser também uma mulher travestida. As duas tornam-se confidentes e, daí em diante, toda a trama paralela perde força – inclusive por uma atenção excessiva a um dispensável romance entre dois empregados, vividos pelos (fracos) atores Mia Wasikowska e Aaron Johnson.
Reunidos, os personagens de Close e McTeer brilham porque García explora de forma não taxativa nuances de identidade que partem da escolha de se vestir como homem por uma questão meramente prática até a sexualidade que se revela ora dúbia, ora incipiente, ou até, talvez, inexistente. Está neste jogo o trunfo do filme.
Tags: albert nobbs, cinema, Divirta-se, glenn close, janet mcteer, mia wasikowska, oscar, rodrigo garcía

MÁGICA| o ilusionismo inicia Hugo no mundo do cinema
O primeiro filme do diretor Martin Scorsese em formato 3D é uma ode às origens do cinema e ao ímpeto criativo dos precursores da técnica de captação de imagens em movimento. A Invenção de Hugo Cabret cria uma ponte entre as tecnologias mais modernas do cinema digital e os feitos analógicos dos primórdios da indústria.
É 1931 e o jovem Hugo Cabret realiza o trabalho que deveria ser de seu tio alcoólatra e ausente: é responsável pela manutenção dos vários relógios espalhados pela estação de trem em que vive. Do pai – morto recentemente – herdou a paixão por máquinas e um autômato, no qual estavam trabalhando juntos. Consertar o robô é, para o garoto, um meio de desvendar uma mensagem que teria sido deixada pelo pai.
A rotina leva Hugo a esbarrar com George Méliès, cineasta pioneiro, responsável por alguns dos mais emblemáticos e inovadores filmes produzidos ainda nas primeiras décadas do século 20. Tido como morto após a 1ª Guerra Mundial, Méliès é dono de uma loja de brinquedos instalada na estação – e peça-chave do segredo de funcionamento do autômato.
Longa com mais indicações ao Oscar 2012 – nomeado 11 vezes (incluindo roteiro, direção e melhor filme) –, ‘Hugo’ é o filme com melhor uso do 3D já produzido. Baseado em um livro homônimo, de 2007, editado no Brasil pela SM, não se perde em excessos gratuitos, como objetos saltando à tela, e investe na ilusão da percepção de profundidade de forma a causar inveja a ‘Avatar’ (2009).
Martin Scorsese é conhecido por suas produções urbanas, sujas e cruas. Seu filmes exalam testosterona e são pouco convidativos a crianças. ‘Taxi Driver’ (1976), ‘Touro Indomável’ (1980), ‘Os Bons Companheiros’ (1990) e ‘Os Infiltrados’ (2006) são só algumas das mais marcantes obras de uma filmografia marcada por sangue, loucura e lágrimas. Cinéfilo como poucos cineastas, Scorsese fugiu ao seu padrão em ‘Hugo’ e talvez tenha produzido a sua mais sincera declaração de amor ao objeto de seu trabalho. Ramon Vitral
Tags: a invenção de hugo cabret, cinema, Divirta-se, george méliès, martin scorsese, oscar
Astros de peso, Meryl Streep e Brad Pitt entram em cartaz neste fim de semana. Os dois filmes receberam indicações ao Oscar, que acontece no domingo que vem (26). Veja o que achamos deles.
Apelou, perdeu|
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Meryl Streep arrasa como Thatcher
Em uma cena de ‘A Última Noite’, de Spike Lee, uma aluna reclama ao professor que o colega faturou a nota máxima ao escrever sobre a avó, morta. “É isso que as avós fazem, elas morrem. Escrever sobre isso é uma garantia de ‘A +’”, argumenta. Lembrei desta cena ao ver A Dama de Ferro, cinebiografia de Phyllida Lloyd sobre a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher.
Lloyd e a roteirista Abi Morgan optam por fazer um retrato da velhice, e da perda progressiva da lucidez – contando para isso com as habilidades sempre impressionantes de Meryl Streep. Não seria um problema, se Thatcher não fosse um dos nomes mais controversos da história política e símbolo da ascensão feminina ao poder.
O filme situa Thatcher já velha e praticamente reclusa, e retoma sua trajetória a partir de fragmentos de sua memória pouco confiável. Estão lá episódios chave de sua atuação como premiê, como a repressão à greve dos mineiros e o ataque à Argentina na disputa pelas Ilhas Malvinas. Mas o foco está em seus valores – admiráveis. A política, entretanto, é elemento acessório na construção de um retrato doméstico. E o autoritarismo de Thatcher torna-se, perigosamente, sinônimo de retidão moral. Carolina Arantes
Calculou, venceu|
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Pitt manda bem como Billy Bane
Poucos esportes são tão ilegíveis para a maioria dos brasileiros quanto o beisebol. O Homem que Mudou o Jogotrata da modalidade, mas ela está longe de ser o cerne da produção.
Responsável pela administração de jogadores do mediano Oakland Athletics, o manager Billy Bane (Brad Pitt) investe na ideia de um jovem economista que crê no uso de um programa de computador para a formação de uma equipe barata e vencedora. A técnica inovadora e a demora para gerar resultados implica em descrença por parte da imprensa e dos dirigentes do time.
Adaptação de uma história real, que virou o livro ‘Moneyball’ em 2003 (ainda inédito no Brasil), a obra está indicada a seis prêmios no Oscar 2012 – incluindo melhor filme, ator (Brad Pitt), ator coadjuvante (Jonah Hill) e roteiro adaptado.
Aaron Sorkin, também autor do texto de ‘A Rede Social’ (2010), é um dos roteiristas de ‘O Homem que Mudou o Jogo’. E, a principal virtude da obra é justamente a mesma de ‘A Rede Social’, que vai muito além de seu objeto principal, o Facebook. Talvez não seja mérito exclusivo de Sorkin, mas este não é apenas um filme sobre beisebol, e sim um bom conto de leitura universal. Ramon Vitral
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PB| produção sentimental homenageia o cinema mudo
Não é pouco o burburinho em torno de O Artista, do francês-de-nome-difícil Michel Hazanavicius. Desconhecido em Hollywood, o diretor conquistou o público e os críticos com esta homenagem sincera – afetiva e ao mesmo tempo perspicaz – ao cinema. Venceu prêmios principais em Cannes, no Globo do Ouro e em diversos festivais menores. Agora, está indicado em dez categorias do Oscar, marcado para o fim deste mês.
A trama é simples e se passa quase toda nos sets de gravação dos estúdios de Hollywood, em 1927. George Valentin (interpretado pelo carismático Jean Dujardin) é um astro de filmes mudos que precisa encarar a realidade – ou melhor, o futuro: os filmes falados. Mas o pulo do gato está no formato do filme: ‘O Artista’ é, ele próprio, mudo (ao menos na maior parte do tempo) e preto e branco. Características que bastariam para assustar grande parte do público. Não é, no entanto, o que as bilheterias têm indicado.
Valentin resiste aos filmes falados e, como Davi contra Golias, tenta desenvolver sua própria produtora para dar continuidade aos filmes mudos. Ele encarna, assim, os últimos suspiros de uma era.
Mas é Peppy Miller, uma aspirante a atriz e futura musa do cinema, que descobre como trazer Valentin de volta aos sets mesmo sem que ele fale, em uma manobra genial de Hazanavicius para que a trama continue a contar (e emular) a história do cinema.
O longa tem os elementos básicos que consagraram os filmes mudos: um romance momentaneamente impossível, um cachorro do tipo melhor amigo responsável pela porção de comédia, um funcionário de fidelidade inabalável, um vilão que se redime no fim. E uma trilha sonora estridente, claro.
Não se pode ignorar o sentimentalismo que conquista de forma certeira uma plateia nostálgica desta certa inocência. Nem mesmo a simplificação que o longa faz de um sistema tão complexo como a indústria hollywoodiana. Mas é preciso tirar o chapéu para o voto de fé de Hazanavicius e seus produtores ao levar a cabo um projetotão apaixonado quanto arriscado.
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SERVIÇAL| Viola Davis rouba a cena em longa de mote racial
Histórias Cruzadas é o inócuo título dado por aqui ao drama ‘The Help’, de Tate Taylor, ambientado no interior do Mississipi, nos anos 1960, no início do movimento dos direitos civis. A expressão era usada pelos brancos para se referir aos empregados, todos negros, que serviam suas famílias. Reflexo da desumanização e da informalidade, ‘a ajuda’ não sugere uma relação de trabalho, como no caso de ‘funcionário’ ou ‘empregado’, mas uma ação informal, e que parece se materializar como mágica.
Na trama, baseada no bem-sucedido livro de estreia de Kathryn Stockett, ‘The Help’ é também o título de um livro anônimo que Skeeter Phelan (Emma Stone), uma jovem branca progressista que sonha com a carreira jornalística, planeja publicar. Nele, quer reunir relatos das empregadas domésticas de suas amigas de infância (do tipo country club) e expor a visão destas mulheres que ‘ajudam’ as brancas, cuidando de suas casas e criando seus filhos.
Com o desenrolar do movimento dos direitos humanos, e a intolerância crescente das ‘madames’, vemos a adesão progressiva das empregadas ao projeto, ainda que sob medo. A premissa da emancipação destas mulheres a partir da escrita é original e reside nela a força do filme. Ao colocar suas memórias no papel, elas se reconhecem e recuperam parte de sua individualidade. Quem melhor traduz esse movimento é Aibileen (Viola Davis, brilhante), a primeira empregada a conversar com Skeeter.
O maior problema da adaptação está na estrutura convencional – que às vezes lembra a das novelas –, com personagens bastante caricatos, como a negra ‘esquentada’ (Octavia Spencer) e a socialite ‘vilã’ (Bryce Dallas Howard). Já os papéis de Viola e de Jessica Chastain, que faz uma garota rica, mas caipira e excluída da alta sociedade, beneficiaram suas ótimas atuações. O elenco conquistou prêmios importantes no Globo de Ouro. No Screen Actors Guild Awards, considerado um bom parâmetro para o Oscar, Spencer venceu como atriz coadjuvante e Davis superou a favoritíssima Meryl Streep. Deve sair vitorioso.
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Esta não é uma sexta-feira qualquer para os fãs de Hollywood. Estreiam hoje os antecipados J. Edgar (foto), Os Descendentes e Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, dirigidos, respectivamente, por Clint Eastwood, Alexander Payne e David Fincher. Isso quer dizer também que Leonardo DiCaprio, George Clooney e Daniel Craig apresentam suas performances mais recentes.
Passada a consagração de ‘Os Descendentes’ no Globo de Ouro, a Academia anunciou seus indicados na última terça e incluiu o longa em cinco categorias, todas de peso. No papel de um homem prestes a tomar decisões radicais para sua vida – em meio a coqueiros e coquetéis de sua terra natal, o Havaí –, Clooney fecha 2011 como um dos melhores anos de sua carreira.
Eastwood junta-se a Leonardo DiCaprio pela primeira vez e apresenta sua sóbria cinebiografia de J. Edgar Hoover, revelando a vida privada do lendário criador (e poderoso chefão) do FBI.
E Fincher retoma o ritmo frenético que consagrou filmes anteriores seus, como ‘A Rede Social’ (2010) e ‘Clube da Luta’ (1999), para adaptar o início da saga Millennium, do sueco Stieg Larsson, um dos maiores fenômenos literários da última década.
Nós do Divirta-se aguardamos com frio na barriga esta sexta chegar. E insistimos, nas três páginas a seguir, que você descubra mais sobre os filmes, mesmo que seja do tipo que torce o nariz para Hollywood. À sua maneira, os três merecem ser vistos – e na telona.
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