
RENOVAR | John Zorn recria o klezmer – música tradicional judaica
O que Ornette Coleman, um dos nomes mais importantes da história do jazz, e as tradições judaicas têm em comum? Aparentemente nada. Mas como uma das especialidades de John Zorné explorar o que ninguém espera e transformar a seu modo, livremente, as duas coisas ganharam muita afinidade no projeto Masada, que ele criou em 1993 e traz pela primeira vez para São Paulo, amanhã (17), no Cine Joia.
A banda tem todas as marcas que consagraram o influente compositor e multi-instrumentista nova-iorquino: um free jazz de alma punk, que não se encerra nele mesmo e sempre busca outro ritmo pra dialogar. Pode ser rock. Pode ser o próprio punk. Pode ser uma canção francesa. Pode ser surf music. Pode ser country. Ou pode (por que não?) ser klezmer, uma música tradicional judaica, mas sem origem litúrgica.
Zorn mostra que não apenas pode, como ainda faz as canções de seu povo servirem perfeitamente para os ouvidos de todos os povos. E foi tudo bastante estudado. Por isso a palavra projeto é mais adequada até do que banda: quando Zorn, sempre com vocação para a vanguarda, idealizou o Masada, sua intenção era criar uma nova música tradicional judaica – queria, segundo ele próprio, escrever 100 músicas para a edição de um Song Book. Mas, rapidamente, o número cresceu para 200, 300, 400… Mais de 600 músicas. Nada incomum para um músico que produz insanamente – seu nome está em mais de 100 discos, entre trabalhos autorais e gravações com outros artistas.
Ao vivo, toda essa trajetória se faz presente, em apresentações que podem mudar de rumo a qualquer momento. Seu saxofone serve para confundir tanto quanto apreciar – uma referência mais do que direta ao sax de Ornette Coleman, citado logo no começo do texto. E o que parece confuso é na verdade belo. Não deixe de ir. A última chance de vê-lo no Brasil foi no extinto Free Jazz, em 1989. Vai esperar a próxima?
ONDE: Cine Joia (1.500 lug.). Pça. Carlos Gomes, 82, metrô Liberdade, 3231.3705. QUANDO: Sáb. (17), 22h30. QUANTO: R$ 150. Cc: todos. Cd.: todos.
Tags: free jazz, jazz, John Zorn, klezmer, música judaica, show
O saxofonista Thiago França lança ‘Sambanzo, Etiópia’, seu trabalho
mais autoral. No que depender dele, todo mundo vai dançar
“Me sinto leve.” Assim Thiago França define sua fase atual. E, preocupado apenas em curtir o que faz, tem feito muito. Entre o fim de 2010 e o começo de 2011, gravou sete discos: ‘Metá Metá’, com Kiko Dinucci e Juçara Marçal; ‘Nó na Orelha’, de Criolo; ‘Memórias Luso-africanas’, de Gui Amabis; ‘Um Labirinto em Cada Pé’, de Rômulo Fróes; ‘Caravana Sereia Bloom’, de Céu; no primeiro de seu trio de jazz MarginalS; e no ‘Bahia Fantástica’, de Rodrigo Campos.
Entre tantos e excelentes trabalhos, um diz mais sobre ele: ‘Sambanzo, Etiópia’, o primeiro do Sambanzo, projeto mais autoral de sua carreira. O disco mistura um pouco de tudo que o inspirou – do samba de gafieira e terreiro ao jazz, passando por sons latinos e do Caribe. Tudo sempre com uma identidade muito forte, com a cara de Thiago. Foi sobre esse trabalho, que ele lança terça (13) no projeto Prata da Casa, do Sesc Pompeia, que conversamos.
Etiópia’ soa um pouco diferente das outras. Por que ela dá nome ao disco?
O processo todo, como ela apareceu, foi muito emblemático sobre como é o Sambanzo. Estava com o disco pronto, com seis músicas, e a gente tinha o sábado no estúdio do Diogo Poças para gravar. E na quinta tinha um show nosso no Jazz nos Fundos. Na passagem de som, o (Marcelo) Cabral começou a tocar e chegou naquele groove. Na hora, lembrei de uma melodia que eu tinha feito uns 10 anos atrás, um funkezinho meio besta. Aí foi um lance de tocar sem falar nada. O Cabral começou, o Pimpa entrou, depois o Samba, em seguida eu, aí o Kiko… Achei legal demais e pensei na hora: essa tem que entrar. O disco estava inteiro uma porrada só. Precisava de um respiro. E tem outra. Todo mundo macumbeiro… Sete é um número bom.
O Sambanzo sempre segue esse formato nas músicas?
O começo já foi assim. O primeiro show com essa formação eu marquei em uma quinta para tocar no sábado. Não deu tempo de mandar nada, nenhuma referência. O Cabral e o Samba Sam já tocavam comigo. O Kiko e o Pimpa iam tocar pela primeira vez. Então fui pensando no que dava pra fazer. Aí falei de fazer uma base meio latina, Pará… Em outro momento, eu falava que era meio afrobeat. Todo mundo ia tocando e, quando azeitava, eu começava a tocar. E foi legal demais… Já saí de lá com outro show marcado.
Esse formato, de tocar sem falar nada, seria possível com outros músicos?
Não. Provavelmente não daria certo. Eu já tinha gravado um disco, que não saiu, com outra formação. E eu não consegui concatenar artisticamente o que eu gostaria com aquele disco, com aquela formação, aquela instrumentação, aquela sonoridade… A relação pessoal que a gente tem é imprescindível. Essa amizade. Você sabe como falar com cada um, sabe que vão te entender.
Esse é seu disco mais autoral. O que pensou para ele?
Eu sempre entendi que queria fazer as pessoas dançarem. Gosto de fazer algo com um clima bom, que a galera vá se divertir. A dança é um elemento transformador da sociedade. É muito piegas, mas é verdade.
O disco já está na internet?
Sim, mais um disco inteiro de graça na internet, a partir de sexta (9). O link é sambanzo.blogspot.com. A música é livre, pra sempre. Só peço que baixem no meu link para ter a qualidade certa e eu ter uma ideia de quantas pessoas ouvem.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: 3ª. (13), 21h. QUANTO: Grátis (retirar ingresso com uma hora de antecedência).
Tags: África, Etiópia, gafieira, Jamaica, jazz, Kiko Dinucci, marcelo cabral, Pimpa, Prata da Casa, reggae, samba, Samba Sam, Sambanzo, show, ska, Thiago França
Juntos, Gadi Mizrahi e Zev Eisenberg são bem mais que apenas um duo de DJs e produtores de música eletrônica. Sob o nome Wolf + Lamb, os americanos também são donos de uma gravadora, de uma festa, de um hotel de mentira e agitadores culturais de uma comunidade de artistas e público – com sede em Williamsburg, o bairro dos hipsters nova-iorquinos, mas que se estende para além das fronteiras do Brooklyn. Amanhã (25), Gadi e Zev mostram sua mistura de techno e house com jazz e soul na ‘Mothership’, da D-Edge.
Mas o som deles nem sempre foi esse. Das primeiras festas no Marcy Hotel, e durante o começo da gravadora que leva o nome do duo, a música era mais dark, e mais próxima do minimal Foi durante várias idas ao Burning Man, um festival neo-hippie no meio do deserto de Nevada, nos Estados Unidos, que isso mudou. Primeiro, Gadi e Zev começaram a discotecar house durante as festas do Burning Man, por acreditarem que as pessoas lá queriam uma música diferente, com mais soul.
Essa música que eles não ouviam, mas imaginavam para o Burning Man, começou a mudar as produções do duo: logo o som estava mais lascivo, mais intenso. O primeiro disco do Wolf + Lamb, e por enquanto o único, saiu em 2010. ‘Love Someone’ é mais uma coletânea de faixas do que um álbum pensado como tal. Porém as variações de ritmos e conceitos não atrapalham na hora de afirmar essa estética: dançante e sexy, não exatamente alegre, mas mais profunda que sombria.
A gravadora Wolf + Lamb agora também reflete essa mudança. Nos últimos anos, eles colaboram com artistas já estabelecidos, como Seth Troxler, Lee Curtiss e Soul Clap – e ajudaram a lançar jovens, como Smirk, Sergio Giorgini, e o wunderkind Nicolas Jaar, que lançou aos 18 anos ‘The Student’, seu primeiro EP, pela gravadora, três anos antes do aclamado ‘Space Is Only Noise’, do ano passado.
ONDE: R. Auro Soares de Moura Andrade, 141, Barra Funda, 3666-9022. QUANDO: Sáb. (25), 23h59. QUANTO: R$ 40/R$ 70.
A apresentação da Sun Ra Arkestra, como esperado, foi bastante procurada e, se você não garantiu entrada para a apresentação de amanhã, pode se programar para o domingo. ganhou mais uma apresentação.
Jazz de vanguarda, coisa de maluco, de outro mundo, do espaço, talvez. O grupo surgiu no fim dos anos 50 nos Estados Unidos e fez história liderado por Herman Poole Blount – que trocou legalmente seu nome para Sun Ra (assumindo também outra personalidade).
De criatividade incontestável, o maestro criou um free jazz de swing muito próprio aliado à filosofia cósmica – teoria complexa criada por ele próprio, que se autoproclamava um “anjo da raça” nascido em Saturno. Divertida, é claro, e séria, ao pregar a paz.
Um malucão desses não morreria em 93 sem deixar discípulos. A missão de liderar ficou para dois saxofonistas: John Gilmore, morto em 95, seguido por Marshall Allen, no comando até hoje, aos 87 anos.
Não deixe de aproveitar a melhor forma de entender tudo isso: ouvindo e se divertindo.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: Sáb (11), 21h30, e dom. (12), 17h. QUANTO: R$ 16/R$ 32. Cc.: D, M e V.?
Tags: cósmico, espaço, filosofia, free jazz, jazz, música, show, Sun Ra, vanguarda

SAPOPEMBA | Esqueça o bairro e se ligue na voz do cantor
Sapopemba, 64, é dono de uma voz que faz tremer o chão – chão brasileiro que conhece como poucos, fruto dos muitos anos em que rodou (e ainda roda) em seu caminhão por todo o país. Pesquisador por afeição da cultura popular, o apelido de José Silva dos Santos vem do bairro em que morou quando chegou de Alagoas, aos 14 anos.
Mas sua personalidade tem uma feliz coincidência com a palavra. Em tupi, Sapopemba é algo como uma árvore de raízes fortes. E no palco, agora com Guga Stroeter & Orquestra HB, ele é exatamente isso. Uma árvore de muitos frutos, cada um deles com o sabor de uma região, lembrada em cantos e danças – as profundas raízes da cultura popular brasileira – recolhidas com o pé na estrada.
Até aqui parece uma aula chata de folclore. Esqueça. Sapopemba não é chato como eu. É um show dos mais alegres e belos, em que você dança e canta até cair. E, quando cai, sorri.
ONDE: Sala Crisantempo. R. Fidalga 521, Pinheiros, 3819-2287. QUANDO: Dom. (11), 21h. QUANTO: Pague o quanto achar justo.
Tags: Guga Stroeter, jazz, música popular, regional, Sapopemba

JOVEM | apenas 21 anos e um dos melhores discos do ano
Enfant terrible da música eletrônica atual, Nicolas Jaar se apresenta hoje (2), na Freak Chic – em noite que serve também para a D-Edge comemorar um ano desde a reforma que expandiu o clube de antes apenas um ambiente para proporções grandiosas.
Nascido em Nova York em 1990, passou boa parte da infância no Chile, país natal do seu pai, o artista Alfredo Jaar, e de uma das suas principais influências: Ricardo Villalobos, que vive na Alemanha desde os três anos de idade. Villalobos, gênio do minimal techno, entrou na vida de Nicolas em 2004, quando seu pai lhe deu o álbum ‘Thé au Harem d’Archiméde’. Em 2008, ele lançou seu primeiro EP, com cinco músicas, pelo ótimo selo Wolf + Lamb. Além do próprio Villalobos, o som de Nicolas busca influência em pianistas de jazz, e no compositor francês Erik Satie.
O primeiro álbum da carreira, ‘Space is Only Noise’, saiu em janeiro e é um dos melhores lançamentos deste ano. Seu mérito é tratar o eletrônico como uma ferramenta para fazer música, e não um estilo específico, ou um gueto. Nas 14 faixas, o clima é de melancolia, silêncio, com instrumentações às vezes esparsas, bastante jazz e um pouco de psicodelia – e mesmo se as composições não são exatamente para a pista, a influência da dance music (do minimal, do techno) é quase sempre visível no meio do experimentalismo.
Outra atração da noite é Kenny Dixon Jr., conhecido como Moodymann, DJ e produtor de techno e house na ativa em Detroit desde 1992. Dixon é defensor da importância da cultura afro-americana na música eletrônica (house e techno foram criados por negros em Chicago e Detroit) em contrapartida à dominância branca do gênero. Suas produção bebem em outros ritmos black: muito disco e funk e soul, além de samples de filmes de blaxploitation. O último álbum lançado pelo músico foi ‘Anotha Black Sunday’, em 2009.
ONDE: R. Auro Soares, 141, Barra Funda, 3666-9022. QUANDO: Hoje (9), 23h59. QUANTO: R$ 120. www.d-edge.com.br
Tags: D-Edge, DJ, eletrônico, Freak Chic, jazz, Moodymann, Nicolas Jaar, psicodelia, Space is Only Noise
Wilton Júnior/AE
De mau mesmo em‘A Bad Donato’ só o jeitão na capa. O nome do disco se explica mesmo pela nova postura musical adotada pelo pianista e compositor João Donato em 1970. Afinal, numa época acostumada às melodias prosaicas da bossa nova, ver um artista criado nela com a ousadia de misturar ritmos caribenhos à batida já era petulância demais. Mas ele foi além e juntou também funk, psicodelia, soul, fusion, pitadas eletrônicas e (por que não?) afrobeat, embora o termo mal existisse – mas preste atenção nas músicas ‘Lunar Tune’ e “Debutante’s Ball”. E é desse disco que sai o repertório do show, como parte do projeto ‘Álbum’, organizado pelo Sesc.
Daniel Telles Marques
ONDE: Sesc Belenzinho. Teatro (392 lug.). R. Padre Adelino, 1.000, 2076-9700. QUANDO: Hoje (21) e sáb. (22), 21h; dom. (23), 18h . QUANTO: R$ 16/R$ 32.
Mostra multimídia sobre Miles Davis, um dos principais músicos do século 20, chega a São Paulo para ocupar o segundo andar do Sesc Pinheiros
A exposição Queremos Miles!, sobre o americano Miles Davis, começa no Sesc Pinheiros na quarta (19). A abertura é só para convidados, mas a partir de quinta você pode visitar a mostra, que busca reconstruir a trajetória do músico com uma coleção de mais de 300 peças, como instrumentos, partituras originais, manuscritos, fotos e obras de arte. As preciosidades incluem trompetes com o nome do músico gravado e um saxofone de John Coltrane, que tocou com Miles nos anos 50.
VEJA MAIS | Clique aqui para um passeio pela carreira de Miles
Dividida em blocos temáticos, a exposição segue uma ordem cronológica: da infância do músico em St. Louis, no estado americano do Missouri, até o concerto de julho de 1991 no La Villette, em Paris, pouco mais de dois meses antes de sua morte. E como apenas a visão não dá conta da grandeza do trompetista, a música de Miles também faz parte da exposição, além de documentários.
A ‘Queremos Miles!’ foi organizada pelo Cité de la Musique, de Paris, com curadoria de Vincent Bessiéres, e depois foi para o Museum of Fine Arts de Montreal, antes de vir para o Brasil.
Brasil que não está ausente da história do compositor: o músico alagoano Hermeto Pascoal foi parceiro de Miles, que o chamou de “o músico mais impressionante do mundo”. E a música ‘Little Church’ se chamava ‘Capelinha’.
Sesc Pinheiros. R. Paes Leme, 195, 3095-9400. 13h/ 22h (sáb. e dom., 10h/19h; fecha 2ª). Inauguração: 5ª (19). Grátis. Até 25/1.
Para ouvir ao vivo
+ A Orquestra Jazz Sinfônica apresenta duas suítes com temas do compositor – uma com músicas do álbum ‘Sketches of Spain’, e outra sobre ‘The Birth of the Cool’. Sesc Pinheiros. Teatro (1.010 lug). R. Paes Leme, 195, 3095-9400. 5ª (20), 21h. R$ 8/R$ 16.
+ Na próxima semana, o contrabaixista Ron Carter apresenta o show ‘Dear Miles’, em homenagem ao músico, com quem tocou na década de 60. Sesc Pinheiros. Teatro (1.010 lug). R. Paes Leme, 195, 3095- 9400. 6ª (21) e sáb. (22), 21h. Dom. (23), 18h. R$ 20/R$ 40.
Saiba mais sobre Miles:
Em quase cinco décadas de carreira, Miles nunca parou de mudar – mudando pelo caminho também o jazz. Ele começou a carreira tocando bebop, um estilo inovador e acelerado que surgiu na década de 40, mas sua abordagem íntima e lírica do trompete logo o levaria a dar um passo além do bop. E depois outro. E outro. E outro. Leia abaixo sobre três discos que marcaram revoluções das quais o músico participou.

Cool
O álbum Birth of the Cool foi lançado só em 56, mas as músicas foram gravadas por uma banda de nove músicos em três sessões entre 49 e 50. Essas composições marcam o início do cool, que manteve alguns elementos do bebop, com mais arranjos e uma pegada bem introspectiva. Por aqui, o estilo influenciou o surgimento da bossa nova.

Modal
Um dos maiores sucessos do jazz, o álbum Kind of Blue, lançado em 59, marca um encontro de dois gigantes: Miles e o saxofonista John Coltrane. Juntos, eles abandonaram as progressões de acordes e colocaram modos – tipo de escala musical – como pano de fundo para os solos. Na década seguinte, Coltrane se aprofundaria nesse estilo.

Fusion
Bitches Brew, de 70, não foi o primeiro disco ‘elétrico’ de Miles, mas foi o responsável por solidificar o gênero conhecido como fusion: improvisações de jazz sobre ritmos e instrumentos de rock (nada de baixo ou piano acústicos). James Brown e Jimi Hendrix foram algumas das influências absorvidas, e modificadas, por Miles nesse trabalho.
Tags: jazz, miles davis, mostra
A exposição ‘Queremos Miles!’ traz para o Brasil objetos que contam a história do americano Miles Davis. Mas mesmo na mostra eles sabem que ver apenas é pouco para entender a importância do compositor. Por isso, por lá, a música fará parte do passeio. E por aqui também. Como não queremos que você fique apenas na explicação que preparamos sobre algumas das mudanças estilísticas pelas quais o trompetista passou (listando apenas os três principais álbuns e gêneros), ouça uma seleção de músicas que mostram o envolvimento dele com o bebop, o cool, o hard bop, o jazz modal, o fusion, o jazz rap… Tem até ‘cover’ de Cyndi Lauper.
Tags: jazz, miles davis
Foto: divulgação

CONTATO | Mauricio Fleury (de óculos, à esq.) passeia por suas referências
Na edição desta semana do Divirta-se, entrevistei Mauricio Fleury, um dos 10 integrantes da big band de afrobeat Bixiga 70, que faz show quinta-feira (25), no Studio SP.
A entrevista foi tão legal quanto a banda, uma das melhores surgidas em 2010. E um dos grandes legados da conversa está em saber que o termo afrobeat é pouco para descrever o som que eles fazem, repleto de referências da música brasileira, que evidentemente tem seu próprio beat africano nas raízes.
E menos ainda serve para saber o que eles farão no futuro. Estudiosos, eles já têm planos de passear também por estilos latino-americanos, como a cumbia. Mas isso é papo para outra hora, quando eles chegarem nesse outro momento. Por enquanto, vale entender de onde saiu a sonoridade das composições do grupo, que logo mais, em outubro, estará nas prateleiras em dois formatos: um single no começo do mês e um disco completo, com sete faixas, no final.
E, já que ouvir música é um prazer, listo aqui algumas das influências citadas por Fleury, com os comentários do próprio. Seleção que ajuda a entender de onde vem a inspiração deles e também serve para perceber que o afrobeat surgia na Nigéria da década de 60, pelas mãos de Fela Kuti e Tony Allen, e aqui, sem esse nome, coisas com a mesma energia aconteciam (e continuam acontecendo).
Tudo isso misturado tem reflexo direto na música que o Bixiga 70 faz: um afrobeat que pode ser — sem medo de ser injusto com o gênio Fela Kuti, sempre determinante em qualquer banda que se preste ao som africano — simplesmente música brasileira. E das boas.
E, claro, aproveito para reproduzir a entrevista publicada na versão impressa. Basta seguir por aqui.
ONDE: Studio SP (450 lug.). R. Augusta, 591, Consolação, 3129-7040. QUANDO: 5ª (25), 23h. QUANTO: R$ 25.
FELA KUTI + TONY ALLEN
“A parada para mim começou com o Tony Allen [baterista que, ao lado de Fela Kuti, criou o afrobeat]. Foi totalmente um divisor de águas para mim. Eu senti uma responsabilidade enorme e fui do Canadá, depois que acabou a Red Bull Music Academy [projeto em que Fleury conheceu o baterista], direto para Nova York e comprei um monte de discos de música africana. Que era para chegar já rodando os discos. Quando eu fui, eu já conhecia, já gostava do Fela. Mas eu conhecia apenas, nunca tinha ouvido direito. Em 2005 é que eu comecei a baixar as primeiras coisas dele e ouvir mesmo. E não tem explicação mais óbvia de que eu chapei na música porque tem piano elétrico. É o instrumento que eu mais amo, que eu toco e eu sempre vou gostar quando tiver em uma música. Eu gosto principalmente de uma certa raiva que tem no som, de uma certa maneira de tocar. Que é você chegar meio rasgando. Não tem certo e errado. Vai da vontade com que você impõe seu discurso. Quando eu ouvi o Fela improvisando, chapou minha cabeça. Mas eu ainda não tinha entrado no som. Mas quando eu conheci o Tony, e principalmente o jeito que ele foi comigo… Até eu sacar com quem eu estava conversando demorou um pouquinho. Alguém apresentou dizendo: “olha, esse aqui é o brasileiro”. E ele não me largou mais. Ele falava comigo o tempo inteiro, na parte externa, fumando, conversando. Aí ele falava que queria ficar lá tocando com a gente. E a gente ia lá tocar. A gente chegou a gravar uma música. Eu senti uma responsa muito grande das mãos do Tony. Hoje em dia eu nem gosto de ficar falando em entrevista porque parece um pouco pedante. E é uma parada minha, não é dos caras. Mas para mim virou uma missão. Do jeito que ele botou fé em mim é uma coisa que eu não vou esquecer nunca. É uma lenda. Ele é um cara que pode chegar para um jornalista e falar que não tem influências. Ele sempre foi o maestro. Era o cara que o Fela mais respeitava. O único que ele deixava opinar musicalmente. O arregimentador. O Tony era o líder da banda dele.”
OS TINCOÃS
“A música ‘Grito de Paz’ é uma homenagem ao Tincoãs. Foi essa música que deu origem a banda. Foi por causa dela que a gente começou a tocar. O principal motor da banda são as composições, o fato de a gente fazer um trabalho autoral. Quando a gente não tinha nada, ‘O Grito de Paz’ era alguma coisa. E essa alguma coisa remetia, para mim, muito mais aos Tincoãs do que ao próprio Fela. Mostrando para alguns amigos especialistas em afrobeat eles falaram que tinha uma coisa mais brasileira do que africana.”
PEDRO SANTOS
“O Pedro Santos tem uma música que chama ‘Conflito’, que está no disco de um grupo chamado Conjunto Baluartes. O disco chama ‘Nira Gongo’. E a música ‘Nira Gongo’ é totalmente afrobeat. E a música ‘Conflito’ é afrobeat brasileiro absurdo e é a coisa mais louca que eu já ouvi na minha vida.”
CANDEIA
“Entre as nossas influências está também o Candeia. Aquela música ‘Saudação a Toco Preto’. São coisas que quando a gente começou a tocar, eu fiz questão de injetar. Para mim partiu de algo que até hoje eu vejo como uma homenagem aos Tincoãs. Se algum milagre acontecer, se Deus existe, eu posso um dia ainda vir a tocar com Mateus Aleluia [único integrante vivo do trio que formava os Tincoãs]. Existem muitas e muitas sonoridades africanas muito maravilhosas, que são trabalhadas no Bixiga 70, mas que não passam por esse filtro do afrobeat. Praticamente todos da banda foram criados ao som de Gilberto Gil. Todos conhecem discos como o ‘Refazenda’. E são discos que têm muito afrobeat.”
ORCHESTRE POLY-RYTHMO
“Nossa cozinha é toda de filhos de Oxossi. E no afrobeat o canto de Oxossi tem muito a ver. E ele é um orixá muito relevante no Brasil e em Cuba, e menos relevante na África. Você escuta a Orchestre Poly-Rythmo, do Benin, e eles poderiam ser da Bahia. Tem muito a ver. Existe uma conexão totalmente direta. E é isso que a gente busca. Uma conexão direta com a África.”
ORCHESTRA BAOBAB
“A Orchestra Baobab, que é do Senegal, é uma que eu gosto pra caramba. Eles fazem uma mistura de ritmos latinos com o toque deles. Então, para mim, está tudo muito ligado. Então a gente não faz questão do termo afrobeat. A gente ama afrobeat. E por isso que eu sempre fiz questão que a gente faça uma parada nossa.”
Tags: afrobeat, big band, jazz, MPB, música, orquestra, samba, show
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