Com aquele clima de show no coreto, emoldurado por palmeiras – uma lembrança distante de uma vida mais interiorana que faz do projeto Piano na Praça uma ideia tão legal –, Eumir Deodato se apresenta amanhã (18) na Praça Dom José Gaspar.
Deodato é um gigante, que construiu sua carreira principalmente por seu talento de arranjador – que o colocou ao lado de lendas do mundo inteiro. Tom Jobim, Wilson Simonal, Frank Sinatra, Kool and the Gang, Björk… Isso para contar história, mas não precisa ficar preso a ela.
Ele continua criativo e buscando sempre novos parceiros, além de continuar com seu trabalho autoral. O encontro mais recente foi com o rapper americano Al Jarreau, na música ‘Double Face’, que está no repertório. Assista a um de nossos monstros em um clima muito mais informal do que se tem em um teatro: ocupe uma das 300 cadeiras da praça.
ONDE: Pça. Dom José Gaspar, s/nº, metrô República, 3397- 0160. QUANDO: Sáb. (18), 16h (show de abertura: 15h). QUANTO: Grátis.
Tags: bossa, Eumir Deodato, funky, fusion, grátis, jazz, Piano na Praça, Praça Dom José Gaspar, soul
Duas coisas me agradam muito: shows cheios de groove e horas ao ar livre. Juntar as duas coisas então… Por isso, agosto é um mês feliz. É nele que o Bourbon Street celebra o próprio aniversário com o Bourbon Street Fest, festival que remete a New Orleans com uma programação sempre repleta de artistas de jazz que honram as tradições da cidade americana que inspirou a criação da casa de shows de Moema. E o principal dessa celebração, que em 2012 chega à décima edição, são as apresentações grátis e ao ar livre. Neste ano, são duas datas: amanhã (11), no Parque do Ibirapuera, e domingo (19), último dia de festival, na R. dos Chanés, onde fica o Bourbon — e não faltam shows dentro da casa, mas esses são pagos, é claro. Confira abaixo a programação completa do Bourbon Street Fest 2012.
PARQUE DO IBIRAPUERA – Sábado (11)
Ao ar livre, grátis, para fazer piquenique e dançar. Tem como dar errado?
15h30: Orleans St. Jazz Band
Uma das mais antigas tradições musicais de New Orleans são as bandas que tocam caminhando pelas ruas. Essa banda de São Paulo, atração fixa nas últimas edições do Bourbon Street Fest, lembra essa linhagem a partir do costume de descer do palco para tocar interagindo com a plateia.
16h: Preservation Hall Jazz Band
Uma espécie de academia do estilo mais tradicional de New Orleans, aquele que imediatamente pensamos quando o nome da cidade surge. Um som com muito suingue, que artistas como Louis Armstrong imortalizaram, tanto nos shows de rua como nas casas da tradicional cidade americana. Em 2012, a banda, que mantém uma renovação constante em sua formação, completa 50 anos.
17h30: Bonerama
Poucas coisas representam tão bem a identidade de New Orleans do que as chamadas brass bands, bandas predominantemente de metais. No caso desta, que surgiu em 1998, trompetes e saxofones não têm vez. Só há lugar para os trombones, três no total, acompanhados por baixo, guitarra e bateria. No som, influências de funky e rock.
19h: Tony Hall & The Heroes (foto acima)
Um artificie do baixo elétrico, que já tocou com ícones da música, como George Clinton, Stevie Wonder e Wynton Marsalis, Tony, que nos anos 80 era integrante da importante banda de funk The Meters, se apresenta acompanhado de sua banda. Os shows costumam ser em clima bastante festivo.
RUA DOS CHANÉS - Domingo (19)
O palco montado na rua da casa de shows receberá, além das apresentações, uma performance quase carnavalesca, tradicional no Mardi Grass, o carnaval de New Orleans. Os shows mais dançantes e tudo grátis.
16h: Bonerama
17: Zulu Connection
Liderado pelo “big chief“ (chefe índio) Shaka Zulu, o grupo representa uma antiga tradição do Mardi Gras, ao mesmo tempo que resgata tradições afro-caribenhas através de dança, percussão, máscaras e figurinos coloridos, com direito a números musicais com acrobacias sobre pernas de pau. O nome Shaka Zulu é uma homenagem a um dos maiores guerreiros africanos.
17h15: Henry Butler apresenta Vasti Jackson
Tido por muitos como o melhor pianista de New Orleans, Butler não por acaso tocou com figuras lendárias, como Cannonball Adderley e George Duke. Adepto do clima mais festivo, passeia com classe por gêneros como rhythm & blues, boogie woogie, soul e funk. E ele não vem sozinho. Traz o guitarrista Vasti Jackson, que participou, entre outros filmes, de um dos documentários da série Blues, organizada por Martin Scorsese.
18h30: Playing For Change
Com mais de 40 milhões de visualizações, é difícil encontrar alguém que não tenha visto um vídeo divulgado pelo YouTube em que artistas de rua do mundo todo cantam o clássico ‘Stand By Me’. A montagem faz parte do CD/DVD ‘Playing For Change – Songs Around The World’, de 2009, que reuniu mais de 100 artistas. O nome da iniciativa sugere dois significados: tocando por um troco ou por uma mudança em sua vida. O projeto internacional, que teve o apoio de gente como o Bono Vox, tem no simpático o cantor e gaitista Grandpa Elliot (foto acima) um símbolo. Ele, que é de New Orleans, mostra porquê no palco da casa.
20h: Dwayne Dopsie and The Zydeco Hellraisers (foto abaixo)
Dwayne usa com categoria o acordeon em shows de um estilo pouco difundido no Brasil, o zydeco, algo parecido com a mistura de rhythm & blues com o cajun, um country com sotaque francês. O pai de Dwayne foi um dos pioneiros do gênero. O resultado é um show eletrizante, em que o acordeonista pula o tempo todo.
BOURBON STREET - R. dos Chanés, 127, Moema, 5095-6100.
Com programação do Bourbon Street Fest ao longo de toda a semana, com preços que variam entre R$ 55 e R$ 125.
> Sexta-feira (10)
21h30: Storyville Jazz Band
A banda, que reúne artistas como o trompetista Reginaldo 16 (Funk Como Le Gusta) foi formada especialmente para ser a residente do festival.
23h: Tony Hall & The Heroes
> Terça-feira (14)
21h: Dwayne Dopsie and The Zydeco Hellraisers
22h30: Preservation Hall Jazz Band
> Quarta-feira (15)
21h: Bonerama
22h30: Playing For Change
> Quinta-feira (16)
21h30: Donald Harrison
Saxofonista dos mais respeitados na atualidade, Donald tem três CDs gravados, que na formação da banda fica clara sua importância. No baixo estava apenas Ron Carter, gênio que integrava o Miles Davis Quintet. E com influências das mais diversas — o jazz dele flerta com soul, funk, hip hop, reggae e até MPB — ele é uma atração bastante festejada deste ano. Até de rapper ele ataca e contará com a participação especial do performer Shaka Zulu.
22h30: Mahogany Blue (foto abaixo)
Da histórica linhagem de cantoras influenciadas pelo gospel, caso de ícones como Aretha Franklin e as Supremes, esse duo vocal não é novidade no Bourbon e costuma agradar sempre que se apresentam na casa. Clássicos como ‘Proud Mary’ e ‘Lady Marmalade’ estão garantidas no repertório.
> Sexta-feira (17)
21h30: Storyville Jazz Band
22h30: Henry Butler apresenta Vasti Jackson
23h30: DJ Crizz
Discotecagem com, adivinha, sons de New Orleans, dos mais variados estilos.
23h30: Playing For Change
> Sábado (18)
21h30: Storyville Jazz Band
22h30: Dwayne Dopsie and The Zydeco Hellraisers
23h30: DJ Crizz
21h30: Mahogany Blue
Tags: ar livre, blues, Bonerama, Bourbon Street Fest, brass, Donald Harrison, Dwayne Dopsie, gospel, grátis, Henry Butler, jazz, New Orleans, Parque do Ibirapuera, Playing For Change, Preservation Hall Jazz Band, Tony Hall, zydeco
É possível que o nome Blitz The Ambassador passe batido por muito gente. Mas não precisa ser assim: basta não perder o show que o rapper nascido em Gana fará terça (24) e quarta (25) no Sesc Pompeia – parte da impecável programação musical da Mostra Sesc de Artes.
No repertório, Blitz mostra faixas de seus dois discos, os excelentes ‘Stereotype’ (2009) e ‘Native Sun’ (2011). As composições são marcadas pela inevitável influência do afrobeat de Fela Kuti, que ele ouvia na infância, e também por outros ritmos africanos, pelo jazz e pela Motown, e até por um pouco de rock.
Sua música é um instrumento de comunicação capaz de estar em qualquer lugar do mundo sem nunca estar deslocado. Passa por temas políticos, da vida e, claro, pelos problemas do continente africano. Uma voz que deve ser ouvida.
O nome Ambassador soa perfeito. É um embaixador de fato, da boa música, das boas ideias e da África. E confira – é fácil encontrar na internet – o curta-metragem ‘Native Sun’, dirigido por ele e lançado junto com o disco de mesmo nome. Assistir é um complemento essencial ao álbum.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: 3ª (24) e 4ª (25), 21h30. QUANTO: R$ 6/R$ 24. Cc.: D, M e V. Cd.: todos.
Tags: África, Blitz The Ambassador, brasil, dub, funk, hip hop, jazz, Mostra Sesc de Artes, rap, reggae, rock, soul

FALTA UM | Nic Endo e Alec Empire, que, com CX Kidtronic, formam o Atari Teenage Riot
Extremamente politizado, o alemão Alec Empire joga tudo que pensa nas músicas do Atari Teenage Riot, que faz show hoje (15), no Cine Joia. E isso sem ser um militante chato – ao contrário. Foi no grupo fundado no início dos anos 90 que ele criou o absurdamente pesado digital hardcore e mostrou ao mundo que o punk e o hardcore não estavam mortos, mas andavam diferentes, afeitos à música eletrônica, especialmente ao techno. Hoje, com bandas como LCD Soundsystem devidamente idolatradas, parece óbvio. Há 20 anos não era.
O grupo passou uma década parado após a morte de um de seus fundadores, Carl Crack, em 2001. Mas em 2011, simultaneamente ao Occupy Wall Street, Alec trouxe a banda de volta com o clipe de ‘Black Flags’, que apoiava as ideias do OWS e também do grupo de hacktivistas Anonymous. Em seguida, veio o disco ‘Is This Hyperreal?’ e a constatação de que o Atari continuava igual: relevante, pesado e excelente.
Para a volta do Atari, você chamou CX Kidtronick, um americano, para o grupo. O que ele acrescentou? Diferente do que muita gente pensa, ele não veio para substituir Carl Crack. São muito diferentes. Ele nasceu nos Estados Unidos, Carl nasceu na África e cresceu na Alemanha. E CX tem sua própria história. Tocou com Saul Williams, produziu coisas com Trent Reznor, fez beats para Kanye West… É um cara que definitivamente agrega elementos novos ao grupo. E pode falar com mais autoridade sobre temas que a gente aborda.
Está falando de política, certo? Também. Se faço uma crítica ao Obama, nem sempre prestam atenção. É tipo: por que esse branquelo alemão está criticando o Obama? CX pode fazer isso num caminho muito diferente do que eu, alemão, faria. Cresceu lá, tem informações políticas e musicais bem diferentes das nossas. Só tem a acrescentar.
Quando você fala sobre o processo do ATR, parece tudo bem livre na hora de criar. Como funciona? É um projeto aberto. Em estúdio ou ao vivo, há sempre muitas pessoas de fora envolvidas com o que a gente faz. São guitarristas convidados, vocalistas… Gosto disso porque mantém as coisas excitantes. Nunca é a mesma fórmula. Se você trabalha com pessoas diferentes, imediatamente passa a pensar diferente.
Vocês têm fãs como os integrantes do Slayer e Trent Reznor. Que tipo de música inspira você? Meu gosto é muito amplo e, algumas vezes, o que me inspira vem de modo indireto. O Atari é uma colagem que deseja trazer as pessoas para bons momentos. Mas posso citar o punk… Bad Brains, Ramones, sempre, X-Ray Spex é uma influência enorme. Muito Public Enemy.
O que são essas influências indiretas? Muito jazz, Miles Davis, John Coltrane, Sun Ra… Música clássica, como Stockhausen e Wagner. Noise japonês. Sou um grande fã do ska jamaicano dos anos 60 e do começo do dub, que não é óbvio, mas é importante no Atari. Funk e soul.
Você nunca menciona o industrial como referência. Muita gente pensa que fui influenciado pelo industrial. Mas, honestamente, eu não ouvia nada disso quando comecei a tocar. Conhecia mesmo uma música do Nine Inch Nails, que tocava na MTV e eu gostava. Mas no início dos anos 90 eu estava realmente muito mais ligado no techno underground de Detroit. Parece piada, mas Nic Endo pode provar isso.
Tags: Alec Empire, Atari Teenage Riot, Bad Brains, digital hardcore, eletrônica, hardcore, jazz, John Coltrane, miles davis, música, música eletrônica, Nine Inch Nails, Public Enemy, punk, Ramones, rap, ska, Slayer, Sun Ra, techno, Trent Reznor, X-Ray Spex

RENOVAR | John Zorn recria o klezmer – música tradicional judaica
O que Ornette Coleman, um dos nomes mais importantes da história do jazz, e as tradições judaicas têm em comum? Aparentemente nada. Mas como uma das especialidades de John Zorné explorar o que ninguém espera e transformar a seu modo, livremente, as duas coisas ganharam muita afinidade no projeto Masada, que ele criou em 1993 e traz pela primeira vez para São Paulo, amanhã (17), no Cine Joia.
A banda tem todas as marcas que consagraram o influente compositor e multi-instrumentista nova-iorquino: um free jazz de alma punk, que não se encerra nele mesmo e sempre busca outro ritmo pra dialogar. Pode ser rock. Pode ser o próprio punk. Pode ser uma canção francesa. Pode ser surf music. Pode ser country. Ou pode (por que não?) ser klezmer, uma música tradicional judaica, mas sem origem litúrgica.
Zorn mostra que não apenas pode, como ainda faz as canções de seu povo servirem perfeitamente para os ouvidos de todos os povos. E foi tudo bastante estudado. Por isso a palavra projeto é mais adequada até do que banda: quando Zorn, sempre com vocação para a vanguarda, idealizou o Masada, sua intenção era criar uma nova música tradicional judaica – queria, segundo ele próprio, escrever 100 músicas para a edição de um Song Book. Mas, rapidamente, o número cresceu para 200, 300, 400… Mais de 600 músicas. Nada incomum para um músico que produz insanamente – seu nome está em mais de 100 discos, entre trabalhos autorais e gravações com outros artistas.
Ao vivo, toda essa trajetória se faz presente, em apresentações que podem mudar de rumo a qualquer momento. Seu saxofone serve para confundir tanto quanto apreciar – uma referência mais do que direta ao sax de Ornette Coleman, citado logo no começo do texto. E o que parece confuso é na verdade belo. Não deixe de ir. A última chance de vê-lo no Brasil foi no extinto Free Jazz, em 1989. Vai esperar a próxima?
ONDE: Cine Joia (1.500 lug.). Pça. Carlos Gomes, 82, metrô Liberdade, 3231.3705. QUANDO: Sáb. (17), 22h30. QUANTO: R$ 150. Cc: todos. Cd.: todos.
Tags: free jazz, jazz, John Zorn, klezmer, música judaica, show
O saxofonista Thiago França lança ‘Sambanzo, Etiópia’, seu trabalho
mais autoral. No que depender dele, todo mundo vai dançar
“Me sinto leve.” Assim Thiago França define sua fase atual. E, preocupado apenas em curtir o que faz, tem feito muito. Entre o fim de 2010 e o começo de 2011, gravou sete discos: ‘Metá Metá’, com Kiko Dinucci e Juçara Marçal; ‘Nó na Orelha’, de Criolo; ‘Memórias Luso-africanas’, de Gui Amabis; ‘Um Labirinto em Cada Pé’, de Rômulo Fróes; ‘Caravana Sereia Bloom’, de Céu; no primeiro de seu trio de jazz MarginalS; e no ‘Bahia Fantástica’, de Rodrigo Campos.
Entre tantos e excelentes trabalhos, um diz mais sobre ele: ‘Sambanzo, Etiópia’, o primeiro do Sambanzo, projeto mais autoral de sua carreira. O disco mistura um pouco de tudo que o inspirou – do samba de gafieira e terreiro ao jazz, passando por sons latinos e do Caribe. Tudo sempre com uma identidade muito forte, com a cara de Thiago. Foi sobre esse trabalho, que ele lança terça (13) no projeto Prata da Casa, do Sesc Pompeia, que conversamos.
Etiópia’ soa um pouco diferente das outras. Por que ela dá nome ao disco?
O processo todo, como ela apareceu, foi muito emblemático sobre como é o Sambanzo. Estava com o disco pronto, com seis músicas, e a gente tinha o sábado no estúdio do Diogo Poças para gravar. E na quinta tinha um show nosso no Jazz nos Fundos. Na passagem de som, o (Marcelo) Cabral começou a tocar e chegou naquele groove. Na hora, lembrei de uma melodia que eu tinha feito uns 10 anos atrás, um funkezinho meio besta. Aí foi um lance de tocar sem falar nada. O Cabral começou, o Pimpa entrou, depois o Samba, em seguida eu, aí o Kiko… Achei legal demais e pensei na hora: essa tem que entrar. O disco estava inteiro uma porrada só. Precisava de um respiro. E tem outra. Todo mundo macumbeiro… Sete é um número bom.
O Sambanzo sempre segue esse formato nas músicas?
O começo já foi assim. O primeiro show com essa formação eu marquei em uma quinta para tocar no sábado. Não deu tempo de mandar nada, nenhuma referência. O Cabral e o Samba Sam já tocavam comigo. O Kiko e o Pimpa iam tocar pela primeira vez. Então fui pensando no que dava pra fazer. Aí falei de fazer uma base meio latina, Pará… Em outro momento, eu falava que era meio afrobeat. Todo mundo ia tocando e, quando azeitava, eu começava a tocar. E foi legal demais… Já saí de lá com outro show marcado.
Esse formato, de tocar sem falar nada, seria possível com outros músicos?
Não. Provavelmente não daria certo. Eu já tinha gravado um disco, que não saiu, com outra formação. E eu não consegui concatenar artisticamente o que eu gostaria com aquele disco, com aquela formação, aquela instrumentação, aquela sonoridade… A relação pessoal que a gente tem é imprescindível. Essa amizade. Você sabe como falar com cada um, sabe que vão te entender.
Esse é seu disco mais autoral. O que pensou para ele?
Eu sempre entendi que queria fazer as pessoas dançarem. Gosto de fazer algo com um clima bom, que a galera vá se divertir. A dança é um elemento transformador da sociedade. É muito piegas, mas é verdade.
O disco já está na internet?
Sim, mais um disco inteiro de graça na internet, a partir de sexta (9). O link é sambanzo.blogspot.com. A música é livre, pra sempre. Só peço que baixem no meu link para ter a qualidade certa e eu ter uma ideia de quantas pessoas ouvem.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: 3ª. (13), 21h. QUANTO: Grátis (retirar ingresso com uma hora de antecedência).
Tags: África, Etiópia, gafieira, Jamaica, jazz, Kiko Dinucci, marcelo cabral, Pimpa, Prata da Casa, reggae, samba, Samba Sam, Sambanzo, show, ska, Thiago França
Juntos, Gadi Mizrahi e Zev Eisenberg são bem mais que apenas um duo de DJs e produtores de música eletrônica. Sob o nome Wolf + Lamb, os americanos também são donos de uma gravadora, de uma festa, de um hotel de mentira e agitadores culturais de uma comunidade de artistas e público – com sede em Williamsburg, o bairro dos hipsters nova-iorquinos, mas que se estende para além das fronteiras do Brooklyn. Amanhã (25), Gadi e Zev mostram sua mistura de techno e house com jazz e soul na ‘Mothership’, da D-Edge.
Mas o som deles nem sempre foi esse. Das primeiras festas no Marcy Hotel, e durante o começo da gravadora que leva o nome do duo, a música era mais dark, e mais próxima do minimal. Foi durante várias idas ao Burning Man, um festival neo-hippie no meio do deserto de Nevada, nos Estados Unidos, que isso mudou. Primeiro, Gadi e Zev começaram a discotecar house durante as festas do Burning Man, por acreditarem que as pessoas lá queriam uma música diferente, com mais soul.
Essa música que eles não ouviam, mas imaginavam para o Burning Man, começou a mudar as produções do duo: logo o som estava mais lascivo, mais intenso. O primeiro disco do Wolf + Lamb, e por enquanto o único, saiu em 2010. ‘Love Someone’ é mais uma coletânea de faixas do que um álbum pensado como tal. Porém as variações de ritmos e conceitos não atrapalham na hora de afirmar essa estética: dançante e sexy, não exatamente alegre, mas mais profunda que sombria.
A gravadora Wolf + Lamb agora também reflete essa mudança. Nos últimos anos, eles colaboram com artistas já estabelecidos, como Seth Troxler, Lee Curtiss e Soul Clap – e ajudaram a lançar jovens, como Smirk, Sergio Giorgini, e o wunderkind Nicolas Jaar, que lançou aos 18 anos ‘The Student’, seu primeiro EP, pela gravadora, três anos antes do aclamado ‘Space Is Only Noise’, do ano passado.
ONDE: R. Auro Soares de Moura Andrade, 141, Barra Funda, 3666-9022. QUANDO: Sáb. (25), 23h59. QUANTO: R$ 40/R$ 70.
A apresentação da Sun Ra Arkestra, como esperado, foi bastante procurada e, se você não garantiu entrada para a apresentação de amanhã, pode se programar para o domingo. ganhou mais uma apresentação.
Jazz de vanguarda, coisa de maluco, de outro mundo, do espaço, talvez. O grupo surgiu no fim dos anos 50 nos Estados Unidos e fez história liderado por Herman Poole Blount – que trocou legalmente seu nome para Sun Ra (assumindo também outra personalidade).
De criatividade incontestável, o maestro criou um free jazz de swing muito próprio aliado à filosofia cósmica – teoria complexa criada por ele próprio, que se autoproclamava um “anjo da raça” nascido em Saturno. Divertida, é claro, e séria, ao pregar a paz.
Um malucão desses não morreria em 93 sem deixar discípulos. A missão de liderar ficou para dois saxofonistas: John Gilmore, morto em 95, seguido por Marshall Allen, no comando até hoje, aos 87 anos.
Não deixe de aproveitar a melhor forma de entender tudo isso: ouvindo e se divertindo.
ONDE: Sesc Pompeia. Choperia (800 lug.). R. Clélia, 93, 3871-7700. QUANDO: Sáb (11), 21h30, e dom. (12), 17h. QUANTO: R$ 16/R$ 32. Cc.: D, M e V.?
Tags: cósmico, espaço, filosofia, free jazz, jazz, música, show, Sun Ra, vanguarda

SAPOPEMBA | Esqueça o bairro e se ligue na voz do cantor
Sapopemba, 64, é dono de uma voz que faz tremer o chão – chão brasileiro que conhece como poucos, fruto dos muitos anos em que rodou (e ainda roda) em seu caminhão por todo o país. Pesquisador por afeição da cultura popular, o apelido de José Silva dos Santos vem do bairro em que morou quando chegou de Alagoas, aos 14 anos.
Mas sua personalidade tem uma feliz coincidência com a palavra. Em tupi, Sapopemba é algo como uma árvore de raízes fortes. E no palco, agora com Guga Stroeter & Orquestra HB, ele é exatamente isso. Uma árvore de muitos frutos, cada um deles com o sabor de uma região, lembrada em cantos e danças – as profundas raízes da cultura popular brasileira – recolhidas com o pé na estrada.
Até aqui parece uma aula chata de folclore. Esqueça. Sapopemba não é chato como eu. É um show dos mais alegres e belos, em que você dança e canta até cair. E, quando cai, sorri.
ONDE: Sala Crisantempo. R. Fidalga 521, Pinheiros, 3819-2287. QUANDO: Dom. (11), 21h. QUANTO: Pague o quanto achar justo.
Tags: Guga Stroeter, jazz, música popular, regional, Sapopemba

JOVEM | apenas 21 anos e um dos melhores discos do ano
Enfant terrible da música eletrônica atual, Nicolas Jaar se apresenta hoje (2), na Freak Chic – em noite que serve também para a D-Edge comemorar um ano desde a reforma que expandiu o clube de antes apenas um ambiente para proporções grandiosas.
Nascido em Nova York em 1990, passou boa parte da infância no Chile, país natal do seu pai, o artista Alfredo Jaar, e de uma das suas principais influências: Ricardo Villalobos, que vive na Alemanha desde os três anos de idade. Villalobos, gênio do minimal techno, entrou na vida de Nicolas em 2004, quando seu pai lhe deu o álbum ‘Thé au Harem d’Archiméde’. Em 2008, ele lançou seu primeiro EP, com cinco músicas, pelo ótimo selo Wolf + Lamb. Além do próprio Villalobos, o som de Nicolas busca influência em pianistas de jazz, e no compositor francês Erik Satie.
O primeiro álbum da carreira, ‘Space is Only Noise’, saiu em janeiro e é um dos melhores lançamentos deste ano. Seu mérito é tratar o eletrônico como uma ferramenta para fazer música, e não um estilo específico, ou um gueto. Nas 14 faixas, o clima é de melancolia, silêncio, com instrumentações às vezes esparsas, bastante jazz e um pouco de psicodelia – e mesmo se as composições não são exatamente para a pista, a influência da dance music (do minimal, do techno) é quase sempre visível no meio do experimentalismo.
Outra atração da noite é Kenny Dixon Jr., conhecido como Moodymann, DJ e produtor de techno e house na ativa em Detroit desde 1992. Dixon é defensor da importância da cultura afro-americana na música eletrônica (house e techno foram criados por negros em Chicago e Detroit) em contrapartida à dominância branca do gênero. Suas produção bebem em outros ritmos black: muito disco e funk e soul, além de samples de filmes de blaxploitation. O último álbum lançado pelo músico foi ‘Anotha Black Sunday’, em 2009.
ONDE: R. Auro Soares, 141, Barra Funda, 3666-9022. QUANDO: Hoje (9), 23h59. QUANTO: R$ 120. www.d-edge.com.br
Tags: D-Edge, DJ, eletrônico, Freak Chic, jazz, Moodymann, Nicolas Jaar, psicodelia, Space is Only Noise
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