26.julho.2012 17:57:56

Drama real

por Marina Vaz

Religião e erotismo; realidade e violência; luz e sombra. Os dilemas de Caravaggio estão na cidade

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REFLEXO | A medusa se vê, degolada, no escudo de seu assassino

O perigo representado pela Medusa não era pouco: bastava fitar aquele ser, que tinha cobras no lugar de fios de cabelo, para que qualquer um virasse pedra. Defender-se de seu olhar mortal com um escudo refletor foi um golpe inteligente do herói Perseu. Mas Michelangelo Merisi de Caravaggio (1571-1610) foi até mais genial: pintou sua ‘Medusa Murtola’ (que você vê acima) sob o ponto de vista do ser mitológico, no instante derradeiro em que ela se vê, já degolada, refletida naquele escudo.

A obra foi reconhecida recentemente como a primeira Medusa pintada por Caravaggio – ‘desbancando’ o famoso exemplar que está na Galleria degli Uffizi, em Florença. A tela, que pertence a uma coleção particular e é exposta pela primeira vez fora da Itália, integra Caravaggio e Seus Seguidores, mostra que o Masp abre nesta 4ª (1/8).

Os contrastes abruptos entre claro e escuro – que consagraram o mestre barroco e que dão à sua obra forte carga dramática – podem ser vistos em seis pinturas. “Com o uso da luz, ele revela mas também esconde muita coisa; dá a noção de que o mundo não está totalmente revelado, existem mistérios”, diz Fábio Magalhães, um dos curadores.

Ao lado dessas obras, estão outros 14 trabalhos feitos pelos chamados ‘caravaggescos’, artistas influenciados diretamente por seu estilo. Entre eles, estão Artemisia Gentileschi (único que conviveu diretamente com o gênio) e Bartolomeo Cavarozzi. Tudo para mostrar como as técnicas de Caravaggio repercutiram em toda a Europa. E mudaram a história da arte. Marina Vaz

 Linha seguida
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Alguns pesquisadores argumentam que o Retrato do Cardeal (1599- 1600) seria, na verdade, um fragmento da obra original, na qual o religioso estaria retratado de corpo inteiro. A obra também é uma das três pinturas da exposição que, até o momento, são ‘atribuídas’ a Caravaggio (ou seja, sua autoria ainda gera debates para ser comprovada). Ainda assim, nela é possível identificar uma característica inerente ao mestre do barroco: o forte realismo. Das rugas na testa às marcas de expressão ao redor da boca do cardeal, tudo é verossímil, não idealizado – e, portanto, imperfeito.

 

Sentido vivo
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Um foco de luz transversal ilumina o rosto do santo e ressalta as dobras do tecido de suas vestes marrons. Nas mãos, uma caveira lembra um tema recorrente em Caravaggio: a morte e a consciência sobre a efemeridade da vida. São Francisco em Meditação (1606-1618) também dá indícios de outro ponto importante na obra do artista – o erotismo. Ainda que boa parte de seus trabalhos seja de temática religiosa, há neles certa voluptuosidade. “Nas pinturas dele, o corpo se mostra bonito, desejável; é visto como algo positivo”, diz Magalhães.

 

Gênio curioso

  • Caravaggio gostava de viver plenamente a vida urbana de Roma. Frequentava bares e praças – onde não raramente arrumava confusão. E amava o contato com tipos populares.
  • Prostitutas e ladrões eram comumente usados como modelos para suas obras. E o artista dependia muito deles, já que pintava diretamente sobre a tela, sem desenhos prévios.
  • Desregrado, o italiano intercalava intensa produção com períodos sem pintar. Deixou cerca de 60 telas – o suficiente para influenciar mestres como Velázquez e Rembrandt.

ONDE: Masp. Av. Paulista, 1.578, 3251-5644. QUANDO: 11h/18h (5ª, 11h/20h; fecha 2ª). Inauguração: 4ª (1/8). Até 30/9. QUANTO: R$ 15 (3ª, grátis).

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