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14.junho.2012 20:00:08

Barulheira boa

por Douglas Vieira


FALTA UM |
Nic Endo e Alec Empire, que, com CX Kidtronic, formam o Atari Teenage Riot

Extremamente politizado, o alemão Alec Empire joga tudo que pensa nas músicas do Atari Teenage Riot, que faz show hoje (15), no Cine Joia. E isso sem ser um militante chato – ao contrário. Foi no grupo fundado no início dos anos 90 que ele criou o absurdamente pesado digital hardcore e mostrou ao mundo que o punk e o hardcore não estavam mortos, mas andavam diferentes, afeitos à música eletrônica, especialmente ao techno. Hoje, com bandas como LCD Soundsystem devidamente idolatradas, parece óbvio. Há 20 anos não era.

O grupo passou uma década parado após a morte de um de seus fundadores, Carl Crack, em 2001. Mas em 2011, simultaneamente ao Occupy Wall Street, Alec trouxe a banda de volta com o clipe de ‘Black Flags’, que apoiava as ideias do OWS e também do grupo de hacktivistas Anonymous. Em seguida, veio o disco ‘Is This Hyperreal?’ e a constatação de que o Atari continuava igual: relevante, pesado e excelente.

Para a volta do Atari, você chamou CX Kidtronick, um americano, para o grupo. O que ele acrescentou? Diferente do que muita gente pensa, ele não veio para substituir Carl Crack. São muito diferentes. Ele nasceu nos Estados Unidos, Carl nasceu na África e cresceu na Alemanha. E CX tem sua própria história. Tocou com Saul Williams, produziu coisas com Trent Reznor, fez beats para Kanye West… É um cara que definitivamente agrega elementos novos ao grupo. E pode falar com mais autoridade sobre temas que a gente aborda.

Está falando de política, certo? Também. Se faço uma crítica ao Obama, nem sempre prestam atenção. É tipo: por que esse branquelo alemão está criticando o Obama? CX pode fazer isso num caminho muito diferente do que eu, alemão, faria. Cresceu lá, tem informações políticas e musicais bem diferentes das nossas. Só tem a acrescentar.

Quando você fala sobre o processo do ATR, parece tudo bem livre na hora de criar. Como funciona? É um projeto aberto. Em estúdio ou ao vivo, há sempre muitas pessoas de fora envolvidas com o que a gente faz. São guitarristas convidados, vocalistas… Gosto disso porque mantém as coisas excitantes. Nunca é a mesma fórmula. Se você trabalha com pessoas diferentes, imediatamente passa a pensar diferente.

Vocês têm fãs como os integrantes do Slayer e Trent Reznor. Que tipo de música inspira você? Meu gosto é muito amplo e, algumas vezes, o que me inspira vem de modo indireto. O Atari é uma colagem que deseja trazer as pessoas para bons momentos. Mas posso citar o punk… Bad Brains, Ramones, sempre, X-Ray Spex é uma influência enorme. Muito Public Enemy.

O que são essas influências indiretas? Muito jazz, Miles Davis, John Coltrane, Sun Ra… Música clássica, como Stockhausen e Wagner. Noise japonês. Sou um grande fã do ska jamaicano dos anos 60 e do começo do dub, que não é óbvio, mas é importante no Atari. Funk e soul.

Você nunca menciona o industrial como referência. Muita gente pensa que fui influenciado pelo industrial. Mas, honestamente, eu não ouvia nada disso quando comecei a tocar. Conhecia mesmo uma música do Nine Inch Nails, que tocava na MTV e eu gostava. Mas no início dos anos 90 eu estava realmente muito mais ligado no techno underground de Detroit. Parece piada, mas Nic Endo pode provar isso.

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