17.outubro.2014 16:22:13

Vida Passando

por Rafael Sousa Muniz de Abreu

Ausência é desses filmes que, com pouco enredo, deixam muita impressão. O longa de Chico Teixeira não tem uma trama propriamente dita – constrói um personagem e seu mundo pelo acúmulo de cenas cotidianas, não dramáticas, planos lentos em que quase nada “acontece”.

A vida que se vê é a de Serginho, um adolescente de classe média baixa, abandonado pelo pai antes mesmo de o título do filme aparecer na tela. A ausência é a dele, mas também da mãe, alcoólatra e desempregada, entre momentos de carinho e surtos de impaciência com o menino. Como ela não trabalha, cabe a Serginho tomar posto na barraca de feira de seu tio, vendendo frutas e verduras para ajudar no orçamento doméstico.

Se o filme não parece ir a lugar nenhum é porque o próprio protagonista, no meio da puberdade, está confuso. O processo de amadurecimento do garoto é diluído ao longo de dias quietos, com poucos diálogos. No lugar de uma grande crise, o que ele vive é uma desorientação que lhe faz andar a esmo pela cidade e por sua própria rotina, pensando em outras coisas e outros lugares. Serginho passa os dias trabalhando, matando tempo na casa de um professor, espiando revistas pornô e conversando com ‘Mudinho’, um amigo do trabalho. Coisas banais, mas significativas em conjunto, num longa cuja qualidade consiste menos em episódios pontuais e mais numa atmosfera bela e triste.

Rafael Abreu

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17.outubro.2014 16:19:27

Engenho e Simplicidade

por Redação Divirta-se

As Noites Brancas do Carteiro, de Andreï Konchalowsky, é daqueles filmes que questionam as fronteiras, hoje bastante fluidas, entre documentário e ficção. Filmado num vilarejo russo quase isolado da civilização, leva os habitantes a interpretar seus próprios papéis. São todos amadores, com exceção de uma atriz profissional, “infiltrada” entre eles.

A narrativa apoia-se em um fio de trama. Há o carteiro, um ex-alcoólatra, apaixonado por uma mulher, que deseja mais que tudo sair da cidadezinha e morar em outra parte. Em torno deles, vivem os outros habitantes, com suas alegrias e tristezas, suas vidinhas. Como “apenas” isso pode nos encantar?

Bem, eis aí um dos mistérios do cinema. Pelo menos do cinema inspirado. Vencedor do Leão de Prata de direção no Festival de Veneza deste ano, Konchalowsky consegue nos conquistar com esse enredo em aparência fechado.

Claro que tudo depende de como o projeto é concebido. Konchalowsky parece mover-se com absoluta liberdade. Sem artificialismo, sem as imposições do “grande tema”, da necessidade de demonstrar isso ou aquilo, ou mesmo do sucesso. Um despojamento que se adapta ao mundo no qual quer mergulhar.

Esse frescor parece ainda mais admirável em um diretor veterano que, habituado a trabalhar com mais recursos, aqui, filma como um iniciante, porém forrado pela sabedoria do ofício.

Luiz Zanin Oricchio

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17.outubro.2014 16:10:59

Público jovem

por Redação Divirta-se

Pelo 15º ano, o Festival da Juventude é a chance de estudantes dos ensinos fundamental e médio assistirem a filmes que levam para o cinema questões da adolescência. As sessões são gratuitas e os ingressos podem ser retirados uma hora antes, com a apresentação de comprovante escolar. Na programação, o destaque nacional deste ano é ‘O Segredo dos Diamantes’ (dias 24, 26 e 29), novo longa de Helvécio Ratton (de ‘O Menino Maluquinho’). Pela história de três jovens que caçam um tesouro nas cidades históricas de Minas, o longa conta uma fábula universal sobre a amizade. 

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17.outubro.2014 16:06:44

Por dentro do pesadelo

por Redação Divirta-se

Primeiro longa de ficção de Noaz Deshe, Sombra Branca mostra-se, do começo ao fim, como um pesadelo. E isso é um elogio.

Nesse seu exercício onírico, muitas vezes impreciso e impressionista, o diretor examina uma situação que se revela absurda demais para ser compreendida na esfera do real: o sacrifício de pessoas albinas na Tanzânia para práticas de bruxaria.

Com uma câmera nervosa, uma montagem não-linear e boa parte dos diálogos deslocados das cenas, o filme chamou a atenção do júri do Festival de Veneza em 2013 por sua narrativa aparentemente não disciplinada do horror em estado bruto.

Os primeiros minutos da obra são, de fato, incompreensíveis . As ações só adquirem sentido algum tempo depois da primeira de uma série de tragédias na vida de Alias, o jovem protagonista.

Após a morte de seu pai, também albino, sua mãe teme que ele seja a próxima vítima e o envia para a cidade, lugar de resíduos tecnológicos e humanos. Um residual que se reflete igualmente nas imagens fragmentadas do longa.

Em seu novo lar, Alias vive com o tio. Conhece também uma criança albina com quem cria uma relação fraternal, pincelada no filme como parte de um devaneio. Nesse ambiente, afinal, o afeto só pode ser delírio. Concreta mesmo só a presença da morte. Assustadoramente sensorial, ‘Sombra Branca’ é uma estreia bastante sólida do cineasta.

Carol Almeida

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17.outubro.2014 16:01:54

Beleza do absurdo

por Redação Divirta-se

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência. Com este título exótico, o sueco Roy Andersson ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza de 2014. O filme é a última parte da trilogia que inclui ‘Canções do Segundo Andar’ e ‘Vocês, os Vivos’.

O filme abre com o que Andersson chama de “Três encontros com a morte”. Um homem sofre ataque cardíaco enquanto a mulher prepara o jantar na cozinha. No segundo, uma idosa moribunda segura as joias que pretende levar consigo. No terceiro, no interior de uma lanchonete, um homem desaba depois de haver pago seu sanduíche e a cerveja. Diante da tragédia, a garçonete pergunta aos outros fregueses se querem aproveitar aquele lanche grátis.

O humor de Andersson é assim mesmo. Mordaz. Outros personagens vão aparecer e dois deles se mantêm de maneira constante ao longo do filme. Referências a Dom Quixote e Sancho Pança caminham de modo patético por um mundo desencantado.

Há situações que flertam com o absurdo. Como quando a comitiva de um ancestral rei sueco, Carlos XII (1697-1718), a caminho da guerra, passa diante de um bar contemporâneo e manda que as mulheres saiam do recinto para que o soberano possa entrar. O humor não disfarça (antes, realça) a crítica a um modo de vida contemporâneo, que perdeu seu sentido. De certa forma, é um diálogo com Ionesco.

Luiz Zanin Oricchio

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17.outubro.2014 15:58:37

Caminhos cruzados

por Redação Divirta-se

O Pequeno Quinquin (dias 24, 25, 26, 28 e 29), de Bruno Dumont, marca dois cruzamentos importantes. O primeiro é entre o diretor francês (conhecido por seus dramas de vanguarda) e a comédia. O segundo é entre o cinema e a TV – a história do menino que segue detetives foi produzida originalmente para a televisão francesa. As relações entre a telinha e a telona serão tema de uma das ‘Conversas de Cinema’ da Mostra: após a exibição de ‘O Pequeno Quinquin’ e ‘A Cidade Imaginária’, o produtor Meinolf Zurhorst e o diretor Ugo Giorgetti debatem o assunto (dia 28, 14h, na Faap; grátis).

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Após um lançamento rodeado de polêmicas, ainda há assunto e cenas suficientes para manter a controvérsia de Ninfomaníaca a essa altura do ano. Rodado para ser visto de uma vez (são cinco horas e meia de filme), o drama estrelado por Charlotte Gainsbourg foi dividido em dois e editado sem o envolvimento do dinamarquês Lars von Trier. Só agora as versões do diretor dos Volumes 1 e 2 – da história de uma moça viciada em sexo – serão exibidas no Brasil. Se a versão ‘light’ já arrepiava os puritanos, os cortes originais prometem momentos chocantes. Dias 24, 25, 26, 27, 28 e 29.

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Cena de ‘A Fraternidade é Vermelha’

Na programação da Mostra, um dos homenageados é Marin Karmitz, produtor, diretor e distribuidor que fez história com a MK2, empresa fundada em 1974.

O romeno radicado na França começou a trabalhar por trás das câmeras: foi assistente de Jean-Luc Godard antes de dirigir seus próprios filmes, abrir seu próprio cinema e fundar sua produtora, a segunda encarnação da companhia originalmente criada em 1964. À frente dela, lançou mais de cem títulos de cineastas renomados. De Abbas Kiarostami a François Truffaut.

A retrospectiva dessa 38ª edição é formada por 30 filmes. Na seleção, o primeiro trabalho de Karmitz, ‘Sete Dias em Outro Lugar’, produzido após o maio de 1968, será exibido ao lado de longas como ‘A Professora de Piano’, de Michael Haneke, e ‘Chocolat’, de Claire Denis. Mas o biscoito fino é a versão restaurada da ‘Trilogia das Cores’, do polonês Krzysztof Kieslowski, formada por ‘A Liberdade É Azul’, ‘A Igualdade É Branca’ e ‘A Fraternidade É Vermelha’. Rafael Abreu

 

De novo (e melhor…)

Cena de ‘Falstaff – O Toque da Meia-Noite’

A Filmoteca Espanhola também tem sua programação retrospectiva na Mostra. Além de um conjunto de curtas restaurados, Falstaff – O Toque da Meia-Noite (foto), de Orson Welles, será exibido com outros quatro longas espanhois clássicos.
A Cinemateca Brasileira, por sua vez, traz
O Grande Momento, entre outros trabalhos do paulista Roberto Santos.

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17.outubro.2014 14:32:57

Confira dois shows gratuitos para este domingo (19)

por Renato Vieira

Elza Soares canta Chico Buarque no Ibirapuera

Dez nomes da música brasileira homenageiam os 70 anos do compositor Chico Buarque. São eles: Elza Soares (foto), Criolo, Nina Becker, Saulo Duarte e a Unidade, Blubell, Aláfia, Felipe Cordeiro, O Terno, Supla e João Suplicy.

Auditório Ibirapuera (plateia externa). Pq. Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2, 3629-1075. Dom. (19), 19h. Grátis.

Verônica Ferriani lança novo single

A cantora Verônica Ferriani lança seu novo single duplo – que inclui ‘Metamorfose’, de autoria própria, e uma interpretação de ‘Varre e Sai’, de Rômulo Fróes, Nuno Ramos e Clima. No show, ela também interpreta canções de seu último álbum, de 2013.

Centro Cultural Rio Verde (420 lug.) R. Belmiro Braga, 119, V. Madalena, 3459-5321. Dom. (19), 19h. Grátis.

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16.outubro.2014 20:52:28

Akram Khan retoma suas raízes no espetáculo ‘Desh’

por Gabriel Perline

Em suas raízes bangladeshianas o dançarino Akram Khan encontrou inspiração para ‘Desh’, sua nova montagem, com três apresentações na Temporada de Dança do Alfa.

O espetáculo retrata um homem buscando equilíbrio em um mundo instável. 90 min. Livre.

ONDE: Teatro Alfa (1.118 lug.). R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, 5693-4000.
QUANDO: Hoje (17), 21h30; sáb. (18), 20h; dom. (19), 18h.
QUANTO: R$ 50/R$ 190.

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