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Ainda sobre Nação e copa do mundo

Geraldo Miniuci

03 junho 2014 | 05:40

Meu artigo “Nação e copa do mundo” publicado neste espaço rendeu diversos comentários, alguns agressivos e mal educados. Não obstante o nível demonstrado, autorizei, como sempre faço, a publicação de todos, pois os comentários falam mais e melhor sobre seus respectivos autores do que eu jamais seria capaz de fazer.

Esqueçamos, porém, aquilo que não interessa, a forma dos comentários, e concentremo-nos em seu conteúdo, especificamente numa crítica que se repetiu e que dizia respeito a um aspecto periférico do texto: o engajamento da população com a copa do mundo. Tudo porque abri o artigo escrevendo que, “com a proximidade da copa do mundo, o verde-amarelo começa a ganhar as ruas, decorando bares, calçadas, casas e sítios de toda sorte. Em breve, a Nação brasileira estará em êxtase”. Leitores se manifestaram dizendo que isso não estava acontecendo na cidade de São Paulo, supondo por essa razão que também não estivesse acontecendo no resto do Brasil.

Ora, em primeiro lugar, o tema da copa do mundo foi apenas um mote que utilizei, dada a proximidade do evento. Para saber se os paulistanos estão ou não engajados com a competição, isso exigiria de mim uma onipresença na cidade de que não disponho. Posso falar dos bairros onde moro e trabalho ou de um ou outro que costumo frequentar. Mas isso é irrelevante. Sim, funcionários de uma padaria perto de minha casa vestem a camisa da seleção brasileira; sim, alguns carros já desfraldam a bandeira nacional, bem como uma ou outra janela dos prédios que eu normalmente avisto exibem o verde-amarelo. Se isso é ou não uma tendência, não o posso dizer; melhor esperar o início do torneio para medirmos com precisão o engajamento dos torcedores. Seja como for, trata-se de um problema menor, frente àquele que me propus expor.

Em vez de copa do mundo, eu poderia ter feito referência às eleições para o Parlamento Europeu, à ascensão da direita, a Marine Le Pen, mas, para falar sobre a Nação, optei por um tema de preferência nacional, o futebol, e concluí o artigo fazendo referência às manifestações de junho de 2013 e ao discurso nacionalista que as caracterizou.

Essencialmente, minha intenção era tornar presente aquilo que foi naturalizado e tomado como dado inconteste: a Nação. Esse termo, como observei, designa uma ideia que se apresentou como resposta para a dissolução de uma ordem social formada pela Igreja Católica, pela monarquia absoluta por direito divino e pela nobreza, isto é, no lugar de uma ordem cuja legitimidade e referência encontravam-se em Deus, surgiu uma ordem social cuja legitimidade e referência estão não mais no Deus universal, mas na Nação provinciana. O poder agora não emana da divindade, mas do povo, organizado em torno da ideia de Nação.

Disso resulta o nosso mundo. Olhamos para o mapa e vemos porções de terras divididas em unidades denominadas Estados nacionais, que terão, todos, suas canções, seus brasões, suas tradições e, em maior ou menor grau, sua gente orgulhosa de si mesma, apenas porque são brasileiras, francesas, canadenses, russas ou norte-americanas. A Nação pode ser evocada para justificar ações políticas (por exemplo, a incorporação da Crimeia pela Rússia); ações econômico-comerciais (por exemplo, adoção de medidas de protecionismo; reserva de mercado); ações de repercussão social (por exemplo, restrições ao emprego de mão de obra estrangeira; proibição da importação de livros estrangeiros; conteúdo nacional mínimo na programação radiofônica; revalidação de diplomas estrangeiros).

A ideia de Nação impregna todo o tecido social, em todos os setores, inclusive o esportivo, mas não somente ele, e se expressa em diversas situações: no uso da primeira pessoa do plural para designar eu e mais alguém que não conheço necessariamente, mas que compartilha comigo a condição de membro do mesmo grupo; no conceito de estrangeiro, ou seja, alguém que não é membro do grupo; na atitude que pessoas individualmente consideradas podem ter em relação à Nação, isto é, alguns matando e morrendo em seu nome, outros vivendo por ela, outros ainda apenas beneficiando-se das vantagens proporcionadas pela dupla-nacionalidade.

Não obstante tudo isso, surgem movimentos que apontam para a integração, o supranacionalismo, a superação da ideia de Nação, de sorte que, como resultado final, estamos, nos dias que correm, numa fase de fluxos e contra-fluxos: ao mesmo tempo em que temos, por exemplo, o Euro, como uma das manifestações mais importantes do supranacionalismo, testemunhamos também a ascensão da direita em países europeus e o fortalecimento da retórica nacionalista não somente na Europa, como também na América Latina, onde, sob esse aspecto, não há rigorosamente nenhuma diferença entre esquerda e direita. Todos veneram a Nação.

O provincianismo da Nação gera antagonismo, rivalidade, exclusão, tensão com o outro, mas, o que poderá ser colocado em seu lugar? Que norma fundamental terá a força de uma Nação para reorganizar a sociedade? Será a dissolução do Estado nacional inevitável diante dos problemas comuns que afligem a humanidade? Problemas ambientais, econômicos, comerciais, criminais não se resolvem apenas com os instrumentos do Estado nacional. Será preciso mais; será preciso superar as ficções que criaram as fronteiras e separaram as gentes. Mas, que outra ideia reorganizará a sociedade, da mesma forma que a ideia de Nação reorganizou uma sociedade que antes se fundava na ideia de Deus? Eis a pergunta que devemos responder, preocupação muito mais importante do que simplesmente vencer ou não a copa do mundo ou do que esperar que o torneio seja um fracasso.

Professor Associado do Departamento de Direito Internacional e Comparado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

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