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Sem-Teto não aceitam acordo com vereadores e prometem levar 15 mil para protesto na Câmara

Diego Zanchetta

11 junho 2014 | 16:23

Um dia após os vereadores decidirem travar a votação do Plano Diretor por estarem insatisfeitos, entre outros motivos, com a falta de ingressos para a abertura da Copa do Mundo, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) promete mobilizar novamente moradores das ocupações de São Paulo para um protesto na frente da Câmara Municipal, na próxima segunda-feira.

Ontem à noite, após reunião com o presidente da Câmara, José Américo (PT), que acabou por volta das 22h20, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, não aceitou que a transformação do terreno onde está a Ocupação Copa do Povo, em Itaquera, na zona leste, em zona de interesse social seja feita de forma separada do Plano Diretor, em uma votação desvinculada da proposta que reorganiza as regras de crescimento da cidade para os próximos 16 anos.

Em nota divulgada em sua página no Facebook, o MTST promete mobilizar 15 mil pessoas para protesto na frente da sede do Legislativo, no centro, na segunda-feira. O início da votação final do Plano Diretor deve ocorrer a partir de segunda-feira, segundo previsão da presidência da Casa feita no plenário hoje, por volta das 16h15. A partir das 15 horas da segunda-feira terão início três sessões extraordinárias marcadas para a discussão final do Plano Diretor.

Américo levou ao líder do sem-teto ontem à noite uma demanda de vários líderes de bancada que defendem a cisão da questão que envolve a ocupação em Itaquera e um acordo do governo federal com o MTST da segunda votação do Plano Diretor. A defesa é feita principalmente pelos vereadores de oposição Andrea Matarazzo (PSDB) e Police Neto (PSD), que se recusam a votar o Plano Diretor sem a separação da demanda dos sem-teto.

Mas Boulos e outras lideranças do MTST não aceitam a cisão. Eles querem que o Plano Diretor assegure que o terreno onde está a ocupação seja transformado em zona de interesse social, o que assegura a construção de moradias populares no espaço de 130 mil metros quadrados. Na segunda-feira, o ministro Gilberto Carvalho acertou com Bolos um acordo que prevê a construção de 2 mil moradias do Programa Minha casa Minha Vida no terreno, para as famílias que estão acampadas no local desde o início de maio. Quem vai construir os novos conjuntos habitacionais será a Construtora Viver, dona do terreno, evitando que a Prefeitura gaste dinheiro com a desapropriação da área, cujo valor estava estimado em mais de R$ 200 milhões.

Apesar de ter anunciado trégua nos protestos durante a Copa e o fim de uma “jornada vitoriosa” de três meses nas ruas, o MTST promete novas manifestações na frente da Câmara.

“Temos novas mobilizações previstas para os próximos dias, visando avançar nas pautas do Movimento em vários âmbitos e não apenas na luta pela moradia digna. A próxima batalha será a votação do Plano Diretor de São Paulo na próxima semana, onde pretendemos mobilizar mais de 15 mil pessoas na Câmara Municipal”, divulgou o MTST.

Hoje os vereadores também não conseguiram acordo para iniciar a leitura do relatório final do Plano Diretor. Na segunda sessão extraordinária do dia, que acontece neste momento, por volta das 16h45, os vereadores tentam votar um projeto do Executivo que libera o transporte e estacionamento de ônibus fretados em mais de 20 locais durante o período da Copa do Mundo.

No microfone do plenário, a vereadora Sandra Tadeu, líder do DEM, criticou o fato de a vice-prefeita Nadia Campeão, presidente do Comitê da Copa, ter enviado apenas 18 ingressos para os 55 vereadores, para o jogo de estreia entre Brasil e Croácia.

“Se teve Copa em São Paulo, quem decidiu essa Copa foi essa Casa. Temos de respeitar essa Casa. Aqui não ‘são’ um bando de pessoas ignorantes que não sabem nada. Se hoje tem essa Copa, foi porque esta Câmara quis”, discursou a vereadora, lembrando que foi o Legislativo que aprovou a concessão do terreno onde foi construído o Itaquerão da Prefeitura para o Corinthians. “Aqui somos todos iguais. O voto de cada um vale igual.”

José Américo (PT), presidente da Câmara, defendeu o fim dos ingressos de cortesia para qualquer evento. “Quem quiser que compre e acaba com essa coisa de ingresso de cortesia”, afirmou o presidente.

Nos corredores da Câmara, parlamentares e assessores agora tentam descobrir quem serão os felizardos que receberão os 94 ingressos de cortesia que serão distribuídos pelo governo. “Quem são esses 94 tão importantes personalidades que vão receber esses ingressos?”, questionou Sandra no plenário.

Vereadores campeões de votos na capital e na Câmara há mais de duas décadas, Roberto Tripoli (PV), Goulart (PSD), Milton Leite (DEM) e Adilson Amadeu (PTB) são alguns dos parlamentares que se indignaram com a “deselegância” da vice-prefeita em enviar apenas 18 convites.

Segundo o Comitê Organizador da Copa, o governo municipal rejeitou a compra de 1.200 “ingressos prioritários” feita pela Fifa. O comitê vai distribuir 94 ingressos (incluindo os 18 devolvidos ontem pela presidência da Câmara) nas esferas dos três poderes, de acordo com a “representatividade”.

Do lado de fora do Legislativo paulistano, no Viaduto Jacareí, no centro de São Paulo, sem-teto do movimento de moradia Anchieta fazem uma mobilização pedindo urgência na votação do Plano Diretor.

 

Sem-teto na frente da Câmara, há duas semanas: novo protesto marcado para a próxima segunda-feira