1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Sem ingresso para a abertura da Copa, vereadores travam votação do Plano Diretor

Diego Zanchetta

10 junho 2014 | 16:22

Atualizada às 21h06

A falta de ingressos para a abertura da Copa do Mundo para 40 dos 55 vereadores de São Paulo causou mal-estar suficiente para paralisar nesta terça-feira os trabalhos de cinco sessões extraordinárias e a votação definitiva do Plano Diretor na Câmara Municipal. A indignação da base governista teve início na noite de segunda-feira, logo após a vice-prefeita e coordenadora do Comitê Organizador da Copa, Nadia Campeão (PCdoB), enviar 18 ingressos – 14 para os líderes de bancada e 4 para o presidente da Casa, José Américo (PT).

Em solidariedade aos colegas sem ingresso, o presidente informou o governo nesta terça que não aceitaria nenhum bilhete de cortesia. “Os ingressos não vieram em número suficiente e nós os devolvemos. Não tem cabimento os líderes irem e seus liderados não irem”, afirmou Américo.

Ele admitiu ter recebido queixas de vereadores. “Recebi reclamações. Muita reclamação. Mas ninguém condicionou a votação do Plano aos ingressos”, despistou o presidente. Outros líderes negaram ter obstruído a votação da proposta por causa da falta dos bilhetes.

O dia todo, porém, foi marcado por reclamações indignadas de parlamentares e assessores sem ingresso pelos corredores do Palácio Anchieta. A votação do Plano Diretor deveria ter começado às 11 horas, mas não houve acordo durante quase oito horas entre as lideranças.

“Acho que ela (Nadia) errou de Câmara, porque ela mandou só 18 ingressos. E aqui somos 55, será que ela não sabe? Nunca vi uma coisa dessas”, disse Adilson Amadeu (PTB). “É uma medida que complica a situação na Casa, mas não tem problema, vamos mandar colocar um telão lá fora e assistir daqui mesmo, trabalhando pela cidade”, afirmou o vereador.

Os parlamentares contam que o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, havia prometido à Presidência da Casa, no mês passado, enviar ingressos para todos os vereadores. Os parlamentares disseram que foram avisados no fim de maio que o colega Netinho de Paula, também do PCdoB, iria entregá-los pessoalmente. Havia uma espera ansiosa pela cortesia. Na segunda, porém, os ingressos chegaram em número reduzido e foram enviados em envelopes pela própria vice-prefeita aos líderes. Ao ser informado da quantidade de cortesias, Américo mandou devolvê-los.

Oficialmente, os vereadores disseram que não podem votar um Plano Diretor que “fica à mercê da vontade do senhor (Guilherme) Boulos, líder dos sem-teto”, como argumentou o vereador Eduardo Tuma (PSDB). “Pelo menos deveriam dar a oportunidade de a gente comprar os ingressos”, disse Goulart (PSD). Os vereadores reclamam que o Comitê Organizador da Copa teria 90 ingressos para serem distribuídos ao Legislativo paulistano e que teriam sido retidos por Nadia.

Procurada, Nadia não foi localizada. Em nota, o Comitê SP Copa, da Prefeitura, informou ter recusado a compra 1,2 mil ingressos prioritários e disse ter recebido 94 cortesias que estão sendo distribuídas de acordo com critérios de representatividade nas esferas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Políticos influentes na Casa, como o ex-presidente Roberto Tripoli (PV) e os campeões de voto Milton Leite (DEM) e Goulart, ficaram sem ingressos e estavam indignados. Eles já foram atrás da vice-prefeita, mas ela “está incomunicável”, segundo um assessor próximo. Muitas autoridades e funcionários de alto escalão não param de procurá-la atrás de ingressos, segundo o assessor.

Defesa. Alguns vereadores tentaram, no início da noite, logo após encontro com o prefeito Fernando Haddad (PT) para discutir a votação do Plano Diretor, minimizar o mal-estar criado pela falta de ingressos. “É patético dizer que alguém não vai votar o Plano Diretor por falta de ingresso. Nem sabia que a Câmara tinha de receber ingresso. O que houve foi uma reunião com o prefeito para discutir detalhes do plano”, disse Andrea Matarazzo (PSDB), ao lado do vereador Jair Tatto (PT). Logo após se reunirem com o prefeito, vereadores da base governista foram apresentar a Matarazzo a possibilidade de dividir do Plano Diretor da questão da Ocupação Copa do Povo.

Outros vereadores como Marco Aurélio Cunha (PSD), Ricardo Young (PPS) e Ricardo Nunes (PMDB), líderes de suas bancadas, tentaram dizer que não foi a falta de ingressos que travou a votação. “A Fifa tem de reservar espaço para mais de 2 mil autoridades do mundo. É claro que não cabem todos os vereadores”, disse Cunha, ex-diretor de futebol do São Paulo.

Impasse. Oficialmente, os vereadores dizem que a discórdia em relação à votação do Plano Diretor é a inclusão de uma emenda do governo que transforma o zoneamento do terreno de 150 mil metros quadrados onde está a ocupação Copa do Povo, em Itaquera, na zona leste, em zona especial de interesse social (Zeis). Isso permite a construção de 2 mil moradias por meio do programa Minha Casa Minha Vida.

Na segunda-feira, após acordo com o governo federal que garantiu a construção das moradias no terreno e mudanças no programa habitacional, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) anunciou trégua em atos contra a Copa do Mundo. O líder da entidade, Guilherme Boulos, disse que a mobilização seria apenas pela votação do Plano Diretor.

“O que foi decidido com o prefeito (Fernando Haddad), que vamos ver agora com o Boulos se é possível, é fazer a mudança de zoneamento da ocupação Copa do Povo em um projeto de lei separado do Plano Diretor. Se isso for aceito, o plano tem grandes chances de ser votado até semana que vem com 50 votos favoráveis”, disse José Américo, presidente da Câmara.

Ingresso para a abertura da Copa no Itaquerão: 40 dos 55 vereadores não foram convidados para o evento