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Dib Carneiro Neto

O mesmo grupo de dança que fez o espetáculo infantil Lúdico recentemente  – a Cia. Druw – está estreando nesta semana uma nova coreografia para crianças, Vila Tarsila. As diretoras Miriam Druwe e Cristiane Paoli-Quito entraram no universo da pintora Tarsila do Amaral e fizeram algo bem colorido e brasileiro. Vamos conferir?

Mas o que quero reproduzir aqui é um parágrafo da reportagem de Maria Eugênia de Menezes que está no Caderno 2 de sábado, dia 29. Vejam o depoimento da diretora Cristiane. Concordo em gênero, número e grau – e acho que todos devem ficar sempre atentos a isso, quando vão fazer arte para crianças. Lá vai. Obrigado, Cristiane Paoli Quito, por pensar assim e nos permitir refletir sobre isso:

“NÃO É PRECISO INTERAGIR O TEMPO TODO NO PALCO, SÓ PORQUE TRATAMOS COM CRIANÇA. ELAS ESTÃO PERFEITAMENTE PREPARADAS PARA A CONTEMPLAÇÃO.

EXISTEM ESCOLHAS A SEREM FEITAS QUANDO SE FALA COM ESSE PÚBLICO, MAS O IMPORTANTE É NÃO SUBESTIMAR A CRIANÇA NUNCA.”

 

Vila Tarsila: o Abaporu para menores!!!!

Cena de Vila Tarsila: o Abaporu para menores!!!!

 

serviço do espetáculo: VILA TARSILA. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. De quinta a domingo, 15 horas. Grátis. Até 6 de junho.

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Programe-se para seu fim de semana e os próximos, escolhendo uma dessas dicas de peças que eu adoro. Boa diversão. Me conte depois, neste blog,  o que você achou, o que sua família achou, o que chamou sua atenção ou coisas que você queira comentar sobre sua ida ao teatro infantil.

DICA 1 – ZOANDO COM O CIRCO

CIRCO DO SEU LÉ
O circo moderno ficou politicamente correto e ecológico. Sem bichos de verdade. Em busca de novas atrações, uma trupe se desdobra em criatividade. Direção de Marcelo Zurawski. 50 min.
Sesc Consolação. Teatro Anchieta (320 lug.). R. Dr. Vila Nova, 245, tel. 3234-3000. Sábado., às 11h. Grátis (ingressos 1h antes). Só até este sábado, dia 29.

DICA 2 – BICHARADA CRIATIVA

FILHOTES DA AMAZÔNIA
O cenário é bem criativo e foi bastante premiado (leia mais abaixo neste blog uma entrevista já publicada com o cenógrafo Beto Andreetta). A trilha é deslumbrante. Os bonecos, bem, nem se fala. Você não vai se arrepender. Tudo sem diálogos. Com a Cia. Pia Fraus. 50 min.

Tucarena (600 lug.). Rua Monte Alegre, 1.024, tel. 2626-0938. Sáb. e dom., 16h. R$ 30. Só até domingo (dia 30).
No feriado de Corpus Christi, vai ter uma sessão extra no Sesc Santana. Ginásio (400 lug.). Av. Luís Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. 5ª (dia 3), 17h. Grátis (retirar ingressos 1h antes).

DICA 3 – TIRINHAS SAEM DO PAPEL

MEU AMIGO, CHARLIE BROWN
Quem gosta das tirinhas do Snoopy vai vibrar com o capricho desta produção. E como todos cantam e dançam bem… Há cenas que os adultos gostam mais, porém outras fazem a alegria de toda a família. Direção de Alonso Barros. Com Leandro Luna, Mariana Elisabetsky e outros. 75 min.
Teatro Shopping Frei Caneca (800 lug.). R. Frei Caneca, 569, Bela Vista, tel. 3472-2226. Sábados e domingos, às 16h. R$ 60 (ou R$ 30 + uma lata de leite). Só até domingo (dia 30).

DICA 4 – REFRÕES LÚDICOS

GRANDES PEQUENINOS
A peça nasceu para “abrigar” as ótimas músicas do disco homônimo que Tania Khalill e Jair Oliveira fizeram em homenagem à filha. Vale mais para crianças bem pequenas e para pais e mães deslumbrados pela primeira experiência de ter filho – esse é o tema da peça. Direção de Isser Korik. Os coadjuvantes são ótimos. 60 min.
Shopping Pátio Higienópolis. Teatro Folha (305 lug.). Av. Higienópolis, 618, tel. 3823-2323. Sábados e domingos, às 16h. R$ 30. Até 27/6.

DICA 5 – PARA IR COM UM ADULTO

O ILHA DO TESOURO
Uma das peças interativas que mais resiste em cartaz em São Paulo, para pais e filhos aproveitarem juntos e na maior diversão, movendo-se por várias salas e até em trajetos ao ar livre, na busca por um tesouro. O final é lindo e tocante. Texto e dir. Ricardo Karman. 45 min.
Teatro do Centro da Terra (É preciso ir em dupla, lá você vai entender o motivo). R. Piracuama, 19, Sumaré, tel. 3675-1595. Domingos, às 11h. R$ 60, adulto acompanhado de uma criança. Até 27/6.

DICA 6 – FRENESI EM CENA 

PETER PAN E WENDY
Outra peça que está há tempos encantando o público de São Paulo.  A agilidade na troca de cenários deixa as crianças fissuradas. As mesmas atrizes fazendo vários papéis também alucinam a garotada, com tamanha versatilidade. Com a premiadíssima Cia. Le Plat Du Jour. Direção de Pedro Pires.  75 min.
Teatro Procópio Ferreira (670 lug.). Rua Augusta, 2.823, Bela Vista, tel. 3083-4475. Sábados e domingos, às 16h. R$ 40. Até 6/6.

DICA 7 – ENCANTO E EMOÇÃO

O POETA E AS ANDORINHAS
Superprodução de visual deslumbrante, que estimula a fantasia de todos nós.  Os figurinos são ricos em detalhes (leia mais abaixo, neste blog,  entrevista com o figurinista Leo Diniz). Tudo é baseado em contos tristes de Oscar Wilde. Direção de Paulo Ribeiro. 60 min.
Teatro Imprensa (449 lug.). Rua Jaceguai, 400, Bela Vista, tel.  3241-4203. Sábados, às 16h. Grátis. Até 26/6.

DICA 8 – INOVAÇÕES DE LINGUAGEM

RABISCO – UM CACHORRO PERFEITO
Num telão, imagens projetadas servem de cenário para a peça. Isso é bem impactante. Além disso, uma maquete fica no palco e os atores fazem ao vivo as cenas de animação que são exibidas no mesmo telão. Tudo isso a serviço de uma linda história sem palavras. Você vai se apaixonar e constatar como é possível ser criativo e inovador na linguagem cênica para crianças. (Leia mais abaixo, neste blog, a entrevista com o co-autor da deliciosa trilha sonora da peça, Daniel Maia.) Com a Maracujá Laboratório de Artes. 50 min.
Teatro Alfa. Sala B (200 lug.). Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000. Sábados e domingos, às 16h. R$ 24. Até 20/6.

DICA 9 – MANIPULANDO OS BONECOS

CIDADE AZUL
Um sucesso do início da Cia. Truks de animação está de volta em uma sessão especial. Repare no talento dos manipuladores de bonecos e embarque com a potência máxima de sua capacidade de fantasiar. A peça estimula a valorização da amizade.  Com a Cia. Truks. 50 min.
Sesc Santana. Teatro (349 lug.). Av. Luís Dumont Villares, 579, tel. 2971-8700. Só neste próximo domingo (dia 30), às 15h30. R$ 10.

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Cena da peça 'Cachorro Morto', que fisgou o interesse dos jovens

Cena da peça 'Cachorro Morto', que fisgou o interesse dos jovens

LEONARDO MOREIRA, entrevistado pela direção e autoria do espetáculo jovem Cachorro Morto

 

QUEM É LEONARDO MOREIRA: Tem 27 anos e nasceu em Areado-MG. Formou-se em Artes Cênicas pela USP. Em 2007, junto a um grupo de jovens atores, criou a Companhia Hiato. Por Cachorro Morto, foi apontado como um dos novos autores em destaque da cena paulista. Atualmente, além de dirigir um espetáculo em Buenos Aires, trabalha na criação de roteiros para a televisão e prepara uma peça infantil, Gente e Monstro.

Leonardo Moreira: autor e diretor preocupado em retratar todos os tipos de diferenças

Leonardo Moreira: autor e diretor preocupado em retratar todos os tipos de diferenças

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Imprensa (48 lug.). R. Jaceguai, 400, 3241-4203. 3ª e 4ª, 21h. R$ 20. Corra, só mais dois dias: Até 26/5.

 

A  ENTREVISTA:

Seu espetáculo, Cachorro Morto, além do público adulto que gosta de teatro, tem atraído a platéia jovem de forma incrivelmente bem-sucedida. Qual o segredo para levar jovens ao teatro?

Leonardo Moreira – Essa resposta tão bem-sucedida do público jovem tem sido uma surpresa maravilhosa, porque o espetáculo nunca foi pensado para um público ou uma faixa etária específica. Não sei qual é o segredo, mas tenho a impressão que Cachorro Morto tem um apelo juvenil forte porque há uma narrativa linear clara, uma história envolvente sendo contada, mas de forma múltipla e dinâmica. Conversando com o público adulto, percebo que há um envolvimento com a trajetória da personagem, com o drama familiar. Já com o público jovem, há um envolvimento com a estrutura do espetáculo, com a multiplicação dos personagens pelos cinco atores e o humor dos diálogos. Há outro fato determinante também: um dos livros que inspirou a peça foi lançado simultaneamente para adultos e pré-adolescentes (em duas edições, apenas com capas e divulgações diferentes). Isso faz com que a linguagem da peça seja ao mesmo tempo concisa (já que é estruturada a partir do ponto de vista de um autista) e profunda. Acredito que a identificação dos jovens com a peça acontece tanto por uma camada linear – uma história sendo contada – como por uma camada múltipla e que corresponde ao ritmo de acesso a informações a que está acostumado.

A temática das diferenças parece atraí-lo muito como artista. Por quê?

Leonardo Moreira – Atualmente, esse é o tema que mais me atrai e intriga. Até mesmo o nome da companhia que formei com os atores de Cachorro Morto remete a isso: Hiato. Porque é exatamente o que eu me pergunto o tempo inteiro: qual a distância entre o que eu digo e o que você entende/quer entender do que eu disse? Qual o tamanho da lacuna que existe entre a minha experiência e a linguagem? O que eu consigo expressar da minha experiência? E, para responder a essas perguntas, eu tenho que considerar que existem outras formas de perceber o mundo além da minha. E isso me faz voltar ainda mais e perguntar: como percepções de mundo, comportamentos, formas de pensamento podem ser consideradas adequadas ou inadequadas, se elas são únicas? Acredito que transformar isso em espetáculos é uma forma de, mais do que responder, compartilhar essas perguntas. No caso de Cachorro Morto, o espetáculo partiu da minha experiência pessoal, da minha “inadequação”, a minha “diferença” durante a infância e pré-adolescência e de como isso determinou a minha forma de perceber o mundo. E esse tema volta agora, dessa vez direcionado às crianças, num espetáculo infantil que estamos criando (e que deve estrear no segundo semestre): Gente e Monstro.

Conte alguma reação da plateia (preconceito, emoção, aversão…) que tenha marcado durante a temporada de Cachorro Morto.

Leonardo Moreira – Como o espetáculo está há quase dois anos em cartaz, em locais diferentes, viajando pelo interior, tivemos respostas muito diferentes. A primeira apresentação que fizemos foi para um grupo de autistas e seus familiares (que tinham contribuído com nossa pesquisa). Enquanto os pais estavam emocionados com o espetáculo, as crianças tinham um envolvimento muito diferente. Há uma cena em que um dos atores diz “eu tenho um mapa”. Nesse momento, um menino com Síndrome de Asperger na plateia grita: “Mãe, cadê meu mapa? mãe, cadê meu mapa?” e permanece assim até que a mãe lhe entregue o mapa. Em outra apresentação, havia um jovem que, a cada diálogo da peça, repetia “nossa!” Uma vez, um senhor veio conversar conosco, dizendo ter se emocionado muito porque recentemente (aos quase 50 anos) tinha descoberto ser Asperger. É muito curioso que é possível perceber um movimento diferente na plateia quando há familiares e pessoas envolvidas indiretamente com a síndrome: os familiares se emocionam muito e frequentemente vêm conversar conosco, compartilhar suas experiências.

Você e o elenco dialogaram com jovens e crianças atendidos pela AMA (Associação de Amigos do Autista), como preparação para o espetáculo. Como foi essa experiência?

Leonardo Moreira – Foi uma experiência incrível! A AMA gentilmente abriu suas portas e nos deixou conhecer sua metodologia, os estudos, as crianças atendidas por eles, os professores, os pais e até adolescentes que, mesmo não sendo mais atendidos, continuam a frequentar a AMA. Foram muito gratificantes e enriquecedoras todas as visitas que fizemos. Sempre saíamos de lá modificados, com muitos questionamentos quanto à melhor forma de se tratar de um tema tão delicado, com uma carga emotiva tão grande para os pais e familiares, sem ser assistencialista ou, pior, preconceituoso ao apontar a diferença. Por isso, nunca nos excluímos da diferença. Embora os atores tenham observado muito as crianças, embora a dramaturgia use momentos e diálogos que realmente aconteceram nesses encontros, sempre tentamos nos incluir na diferença. Tentamos nos perguntar: o que me faz diferente? Quando e como eu seria autista? E esse processo de descobertas é contínuo, porque muitos psicólogos, pedagogos, familiares de autistas têm nos visto e conversado conosco, ampliando ainda mais nossa percepção do assunto.

Como é seu processo de lidar com atores jovens? Quais as facilidades e as dificuldades de dirigir um elenco ainda inexperiente?

Leonardo Moreira – Todos nós, da Companhia Hiato, temos quase a mesma idade (de 26 a 28 anos) e compartilhamos nossas inexperiências: Cachorro Morto foi minha primeira direção. Em nossos dois espetáculos até agora, cada processo foi muito específico: em Cachorro Morto, trabalhamos com matemática (improvisação de equações, divisões corporais no espaço, etc.) e com a pesquisa da Síndrome de Asperger. Em Escuro, trabalhamos com níveis de respiração, taxonomia de emoções (Darwin) e visitas a centros especializados em deficiências. Mas o que une esses processos é o posicionamento pessoal, meu e dos atores – diante da criação (até mesmo por isso os atores são chamados sempre por seus nomes). Nunca tentei assumir a postura de diretor-mestre, mas de um diretor que compartilha suas incertezas e escolhas com o elenco. E essa troca é o que nos une, que nos move a querermos continuar trabalhando juntos, fazendo as mesmas perguntas juntos. E eu só posso agradecer ao elenco pela confiança e generosidade desmedida e irresponsável em minha pouca experiência, por se entregarem ao trabalho sem receio, emprestando seus questionamentos à peça, seus nomes aos personagens, suas experiências pessoais à dramaturgia.

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LEO DINIZ, entrevistado pelos figurinos premiados de O POETA E AS ANDORINHAS.

Leonardo Diniz: além de figurinista já premiado, também é ator e cantor

Leonardo Diniz: além de figurinista já premiado, também é ator e cantor

QUEM É LEO DINIZ: Leonardo Diniz, de 38 anos, nasceu em Curvelo, Minas Gerais. Pelo figurino de O Poeta e as Andorinhas, ganhou os prêmios APCA e Femsa de Teatro Jovem. Como ator, esteve na trilogia de Gabriel Villela da obra teatral de Chico Buarque, entre muitos espetáculos. Como cantor, fez o show-solo Tempo e o recente musical Emoções que o Tempo não Apaga.

Cena de 'O Poeta e as Andorinhas': dá vontade de tocar nas roupas

Cena de 'O Poeta e as Andorinhas': dá vontade de tocar nas roupas

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Imprensa (449 lugares). Rua Jaceguai, 400, Bela Vista, 3241-4203. Sáb., 16h. Grátis. Até 26/6.

A ENTREVISTA:

Como surgiu seu interesse específico pela criação de figurinos?

Leo Diniz – Desde a infância, meu interesse pelas artes plásticas era muito evidente. Desenhar e pintar eram parte da minha rotina. Vendi meu primeiro quadro aos 12 anos para um casal de colecionadores de arte, amigos de meus pais. Me lembro de visitá-los posteriormente e ver o meu quadro ao lado de um Portinari. Era um óleo sobre tela que retratava a fachada de duas casas. E a partir daí, sempre que nos visitavam, eles compravam um novo quadro, até que comecei a expor os meus trabalhos numa feira de artes da minha cidade e nunca mais parei de criar. Já o vestuário era para mim como uma extensão das pessoas e parte do universo que eu tentava ilustrar. Tinha um grande interesse pela moda e não só por aquilo que eu mesmo poderia vir ou não a usar, mas também pelo vestuário das pessoas que me circundavam. Como era costume no interior de Minas daquela época contratar costureiras para irem em casa fazer as roupas da família, eu mesmo acabava escolhendo o tecido e criava o modelo das roupas que seriam feitas para mim. O que eu vestia tinha sempre algo que saía do óbvio. Isso me encantava muito.

Como você resume suas intenções artísticas ao transformar a história e as histórias de Oscar Wilde em peças de roupa (O Poeta e as Andorinhas)? O que quis realçar e transmitir?

Leo Diniz – Na verdade, a minha primeira intenção talvez nem pudesse ser definida necessariamente como “artística”, pois eu pretendia, antes de mais nada, estar em coerência com as aspirações do diretor. Mas eu considerava as histórias de Wilde, embora voltadas para o público infanto-juvenil, um tanto duras na sua incisiva observação das nossas imperfeições. Assim, pensei inicialmente em tentar compensar essa crueldade criando algum tipo de alento para o jovem espectador. Como o Serroni já havia adiantado que seus cenários tenderiam mais para o sombrio e para o árido, achei que os figurinos poderiam servir de oásis para alguns olhares perplexos e, possivelmente, inexperientes. Parti, como sempre acabo fazendo, em busca da combinação das cores ideais. A criação dessa harmonia é sempre o que inicialmente me move. Começo com as cores e só então parto para as formas e para a escolha dos materiais. Uma outra coisa que me ocupou bastante foi o trabalho com as texturas dos figurinos e dos adereços. Queria, através da estimulação visual, aguçar também uma percepção “tátil” na plateia. Às vezes, eu acho uma pena que a distância entre o palco tradicional e o público, principalmente o infantil, seja tão grande. E uma das maiores recompensas que tive com esse trabalho foi escutar de um espectador que ele havia passado o tempo inteiro do espetáculo com vontade de tocar os figurinos.

Quem são seus mestres na área de figurinos/estilistas e por quê?

Leo Diniz – Por coincidência (ou não!), gosto muito de duas figurinistas japonesas: Emi Wada e Eiko Ishioka. A Emi já contribuiu com algumas obras-primas para o cinema de Kurosawa e Peter Greenaway, por exemplo, e pode ser apreciada também no mais recente O Clã das Adagas Voadoras e na ópera de Tan Dun O Último Imperador. Fico pasmo com a extraordinária e precisa escolha das cores e com a riqueza das texturas que ela utiliza. Já a Eiko faz de tudo: eventos, publicidade, teatro, cinema, Cirque du Soleil, ópera… O que me fascina nela é aquela sensação de que, para a sua imaginação, não parece haver limites. No Brasil, sou um devoto do trabalho de figurinista do diretor teatral Gabriel Villela. Seus figurinos têm uma beleza – nada vulgar! – e uma singeleza tão raras que só me resta ficar comovido. Para ficar apenas com um exemplo, o seu trabalho para o recente Vestido de Noiva é digno de qualquer prêmio. O uso do plástico bolha é nada menos do que genial. E não é apenas uma questão de gerar o mero encantamento visual – como muito se vê por aí. Suas personagens trajam sempre alguma coisa que está a serviço de algo maior, de uma transcendência, a serviço do Teatro mesmo. Criar assim é para poucos. Na área da moda, as recentes e trágicas circunstâncias acabaram por me aproximar mais de Alexander McQueen. Seu trabalho seria um ótimo parâmetro para alguém que tivesse a incumbência de discernir o que é pura tendência daquilo que seria a verdadeira criação artística. Essa moda-arte ou arte-moda me fascina demais. E são muitos os gênios dessa área, principalmente da haute couture, que, ao meu ver, fazem do seu trabalho verdadeiras obras de arte. Christian Lacroix, Jean Paul Gaultier…

Ganhar um prêmio APCA e um FEMSA de melhor figurino abriu portas? Você ficou mais respeitado?

Leo Diniz – Passei a receber mais convites para a criação de figurinos, inclusive para algumas pequenas produções de cinema (o que para mim seria a concretização de um sonho). Quanto ao respeito, acho que eu mesmo passei a me respeitar mais. No ano em que recebi o prêmio, artistas dos quais sou fã absoluto também foram agraciados. E, assim, fica difícil expressar a verdadeira dimensão dessa honra.

Conte sobre pesquisas, tecidos, texturas e materiais que usou na criação das roupas de O Poeta e as Andorinhas.

Leo Diniz – O diretor do espetáculo, Paulo Ribeiro, e eu optamos por localizar a narrativa nos séculos 16, 18 e 19. Achamos que essa escolha poderia abrir as possibilidades para a criação de peças de figurino em que o rebuscamento não soasse forçado ou artifical. Isso tenderia a transportar o público para um universo cada vez mais distante do seu cotidiano e, dessa forma, deixar mais amplos os terrenos para a intervenção da fantasia. Como disse, os tecidos usados, em sua maioria, eram cheios de texturas. Além disso, usamos o bordado em algumas peças. Por se tratar de um figurino de época, a maioria dos tecidos é de tapeçaria. São figurinos quentes e pesados, que muitas vezes chegam a incomodar o ator, mas, por outro lado, acabam lhes ajudando até mesmo na composição das personagens. O cuidado em criar adereços e figurinos que tivessem uma característica realista foi muito observado. E o lado infantil, mais lúdico, ficou a cargo do uso das cores fortes. Vale a pena ressaltar a competência e o amor dedicado a esse trabalho por parte das costureiras, Dona Inês e Vera. O trabalho teatral é feito em equipe e, sem dúvida, o resultado obtido é mérito dessa equipe que trabalhou com muita dedicação e prazer. Muito do que crio é intuitivo, mas também não tenho pudores quanto à origem do material a ser pesquisado: desde a internet até visitas a museus, de livros clássicos a publicações vagabundas, tudo é sempre bem-vindo. O que importa mesmo é no que isso tudo pode ajudar, o que essas informações e imagens nos trazem.

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VIRGINIA BUCKOWSKI, entrevistada como atriz de O TRAVESSEIRO

 

Virginia Buckowski (primeira à direita), com o autor Kiko Marques e a colega de elenco Alejandra Sampaio

Virginia Buckowski (primeira à esquerda), com o autor Kiko Marques e a colega de elenco Alejandra Sampaio

 

QUEM É VIRGINIA BUCKOWSKI: Natural de Porto Alegre, 33 anos, formou-se no Indac e, em 1995, ingressou no grupo Círculo dos Comediantes, de Marco Antônio Braz, atuando numa trilogia de Nelson Rodrigues. Depois fundou a Velha Companhia. Por Ay, Carmela!, recebeu o Prêmio Qualidade Brasil 2007. Além de O Travesseiro, está também em cartaz com A Alma Boa de Setsuan.

Cena da peça 'O Travesseiro': o irmãozinho morre, mas a menina Didi (centro) insiste que ele se transformou em travesseiro

Cena da peça 'O Travesseiro': o irmãozinho morre, mas a menina Didi (centro) insiste que ele se transformou em travesseiro

 

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Cacilda Becker (186 lugares). Rua Tito, 295, Lapa, telefone: 3864-4513. Sáb. e dom., 16h. R$ 10. Até 30/5.

 A ENTREVISTA:

Muitos atores/atrizes usam em cena um equivocado tom tatibitate quando interpretam crianças, porque pensam que atuar em teatro infantil exige fazer concessões de linguagem. O que você acha disso?

Virginia Buckowski – A peça (‘O Travesseiro’) tem mostrado que as crianças sim, entendem as convenções. Adoro criar tipos, mas esse meu trabalho atual é um drama para crianças, coisa não muito habitual no teatro infantil. Desse drama surge, em alguns momentos o patético, o engraçado, mas o pano de fundo está sempre ali, aos olhos do espectador. Procurei, através de sobrinhos, filhos de amigos e outras crianças, tirar as intenções das falas, mas sem me preocupar com a voz fininha, que na minha opinião talvez distanciasse o espectador (criança e adulto) do conceito que queríamos para esse espetáculo. É como a questão da barba, que o ator Silvio Restiffe usa. Muitos adultos reclamam por ele fazer o Celinho, que é o irmão da Didi, com barba. Mas até hoje nenhuma criança veio falar isso pra gente. Nossa preocupação era contar a trajetória da menina e de certa maneira revelando o faz de conta. Não sou criança, claro, e a Alejandra Sampaio e o Silvio fazem todos os outros personagens sem estarem completamente caracterizados e até mesmo fazendo algumas trocas aos olhos dos espectadores – e mesmo assim as crianças ficam envolvidas o tempo todo com a história.

Sua personagem, em ‘O Travesseiro’, perdeu o irmãozinho e inventa uma fantasia para (não) lidar com isso. Fale de sua experiência em lidar com a morte em cena, e numa plateia formada por crianças.

Virginia Buckowski – Minha formação artística vem do Círculo dos Comediantes, dirigido pelo Marco Antônio Braz. Foram 10 anos sem parar, fazendo Nelson Rodrigues. A morte pulsa em Nelson. Era difícil a gente pensar num infantil que fosse para a criançada só bater palminha. A gente queria um poema para crianças, e o Kiko Marques fez lindamente. Eu tenho pavor da morte, por isso me identifico com os autores, os personagens que falam de morte, que morrem em cena. De maneira catártica, canalizo esse medo na arte, tentando talvez driblá-la (risos). De certa maneira, estou agindo como a Didi. Para as crianças não tem todo esse peso. Não queríamos usar a palavra morte, na boca da Didi, simplesmente para que os pais tivessem o direito de dar vazão aos questionamentos dos filhos, ou não. A maioria das crianças não fala que o Celinho morreu. Fala que ele virou travesseiro. E aí cabe aos pais essa decisão. Mas elas sentem sim, que algum tabu existe ali. Os pequenos me deixam até constrangida, pensando o que pode estar passando dentro daquela cabecinha, tamanha atenção e arregalar dos olhos. Já tivemos pais que durante o espetáculo perguntavam aos filhos se queriam ir embora e as crianças relutavam até o fim. Isso é lindo. O tabu está nos adultos. Talvez se a gente soubesse lidar melhor com a morte como em outras civilizações, essa passagem toda fosse mais tranquila.

Você sente que o teatro infantil ainda sofre algum tipo de preconceito. Qual?

Virginia Buckowski – Sem dúvida. O preconceito de ser uma arte menor. Acho até que em função do que o público procura. A maioria dos adultos quer ver as crianças se divertindo a qualquer custo, mesmo que de maneira superficial. E o teatro infantil, em alguns casos acaba se vendendo a isso. Sinto que o teatro infantil ainda está encontrando a sua teatralidade, o seu respeito, e se diferenciando do entretenimento das festas infantis por exemplo. A própria classe artística tem preconceito do teatro infantil. Quando o Kiko escreveu o texto pra eu produzir e atuar há 10 anos, era com o intuito de eu deixar de ser garçonete, só me dedicar ao Circulo dos Comediantes, e ganhar um dinheiro com essa peça. Quando li, fiquei emocionada, mas tive um choque e disse: a gente nunca vai conseguir vender uma peça sobre a morte para crianças. Quem vai querer comprar? Engavetamos. É a primeira peça infantil da Velha Companhia, e a terceira que faço nesses 16 anos de teatro profissional. Nunca tive real necessidade de falar ao público infantil e tinha até um certo medo de ser catalogada. Essa vontade só veio com a morte da minha irmã, mais nova que eu, o que deixou meus dois sobrinhos pequenos com aquele olhar de “e agora?” Sinto que eles precisam conversar, falar sobre, e a arte é veículo prazeroso para isso. Até por isso nos cercamos de profissionais experientes em trabalhos infantis. Para que fosse reflexivo e prazeroso. A criança precisa do lúdico, da música, das cores, da festividade, até para falar de assuntos pesados. O adulto também, quando vai ao teatro, é para resgatar isso.

Na temporada de ‘O Travesseiro’, houve uma reação da plateia, curiosa, engraçada, triste, que sirva para ilustrar esse comportamento do público mirim diante do tema da morte?

Virginia Buckowski -Além dessa de os pais ficarem pedindo para o filho para irem embora, temos os casos do menino que me chamou de assassina, na cena em que os pais descobrem que eu matei o passarinho; o menino que, quando eu chego no lugar onde o poeta diz que mora Deus, falou desesperadamente: “Aí é que é o Deus? Fala papai, aí é que é o Deus?”; a menina com paralisia cerebral, que a mãe tentava levá-la em vários espetáculos e não havia jeito de ela se acalmar – a mãe nos escreveu um relato emocionado, dizendo que a filha ficou o espetáculo todo atenta e encantada; e muitos outros.

Recentemente, no teatro infantil, que atores/atrizes chamaram sua atenção pelo carisma com as crianças?

Virginia Buckowski – Gostei de Jacqueline Obrigon e Maurício de Barros em Assembleia dos Bichos; e Mariana Lima e Renato Linhares em A Mulher Que Matou os Peixes.

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DANIEL MAIA, entrevistado pela co-autoria da trilha de RABISCO.

Daniel Maia, autor de trilhas sonoras: pesquisas incansáveis e parceria de sucesso com Dr. Morris

Daniel Maia, autor de trilhas sonoras: pesquisas incansáveis e parceria de sucesso com Dr. Morris

QUEM É DANIEL MAIA: Mineiro de Belo Horizonte, 35 anos, Daniel Maia acaba de ganhar o Prêmio Sinparc pela trilha do balé 22 Segredos, para a Cia. de Dança do Palácio das Artes. Para crianças, em parceria com Morris Picciotto, compôs as trilhas de Rabisco – Um Cachorro Perfeito (Cia. Maracujá) e para os balés infantis Oras Bolas e 100 + nem menos (Cia. Noz).

Cena da peça 'Rabisco': espetáculo sem texto depende muito do ritmo da trilha sonora

Cena da peça 'Rabisco': espetáculo sem texto depende muito do ritmo da trilha sonora

SERVIÇO DA PEÇA: Teatro Alfa (200 lugares). Rua Bento B. de Andrade Filho, 722, telefone: 5693-4000. Sáb. e dom., 16h. R$ 24. Até 20/6.

 A ENTREVISTA:

É mais complicado fazer trilhas para peças adultas ou para as infantis? Por quê?

Daniel Maia – Pela necessidade de dinâmica, peças infantis pedem mais inserções de trilha. Em princípio, mais inserções significam mais trabalho, mas uma vez encontrado o universo de timbres e estilo, o desafio é servir à peça da forma mais criativa tentando escapar dos clichês. Por outro lado, na peça adulta leva-se mais tempo, imersão no texto e nas características da direção para se achar o caminho. No final das contas, entre desafio e trabalho, adulto e infantil acabam se equivalendo.

Muita gente diz que peça infantil sem música é um pecado mortal, pois criança precisa da ilustração dos sons para manter a atenção no enredo da peça. Você concorda?

Daniel Maia -Penso a música para a cena – seja teatro infantil ou adulto – como um componente que deva, mais do que manter a atenção do público ou dar “cama” para os atores, ampliar os sentidos da encenação. Se a peça precisa da música para manter a atenção da criança, algo está errado com o texto, direção ou atuação. Mas, sem dúvida, a música é fundamental para apoiar e fazer subir os degraus da dramaturgia, além de atuar no sensorial e emocional da plateia para além da compreensão do texto e da encenação. A tão temida (quanto comum) “infantilização” – que é subestimar a inteligência da criança – é uma armadilha que na trilha sonora surge também através da ilustração dos sons. É comum imitar ao vivo ou usar bancos de sons de cinema para sonoplastias; por exemplo, quando um personagem cai usa-se o som de um tímpano. Ao mesmo tempo em que é um código facilmente reconhecível, pode-se ampliar a imaginação da plateia e surpreendê-la usando para a mesma situação um violino tocado em pizzicato. Porém, sendo o teatro o lugar da imaginação por excelência, é mesmo necessário representar a queda do personagem através do som? Este som realmente serve à cena ou é simplesmente redundância?

Cite trilhas infantis que você considera exemplares.

Daniel Maia – Um exemplo maravilhoso são os desenhos animados antigos, cujas trilhas são todas orquestrais e criadas especialmente para eles. As trilhas do Hélio Ziskind para Cocoricó (TV Cultura) são sensacionais, com letras incríveis para qualquer idade. O Palavra Cantada também é um capricho, e as crianças adoram. Em teatro, alguns belos exemplos que posso citar são a Cia. da Revista, com A Odisseia de Arlequino; a Banda Mirim (Felizardo, Sapecado) e a Cia. Ópera na Mala (Rainha Marmota). Há muita música que nem é feita crianças, mas que elas adoram; Beatles e Beach Boys têm exemplos deliciosos, como os discos Yellow Submarine e Smiley Smile.

Quando compõe para crianças, sua inspiração vem da sua própria infância ou de onde?

Daniel Maia – Na verdade imagino o que faria surpreender as crianças de hoje, tão espertas e estimuladas. Surpreender – no sentido de apresentar timbres que elas ainda não reconheçam e que não estejam nos programas que assistem na televisão. E geralmente me inspiro no que estou ouvindo no momento da criação.

Há instrumentos musicais que caem melhor em trilhas infantis do que em adultas?

Daniel Maia – Uma das coisas maravilhosas em fazer trilha infantil é que é um lugar infinito para se inventar música. Vale rock, música eletrônica, timbres eruditos como cordas, madeiras e metais, banda de coreto, arranjos vocais, caixinha de música… realmente vale tudo, tanto com relação a estilo quanto a instrumentos. Eu me desafio a cada trabalho a não repetir os universos de timbres e estilos por onde “já estive”.

Qual trilha de sua carreira teve mais repercussão até hoje (mesmo que não seja para teatro infantil)? A que você atribui isso?

Daniel Maia – As que criei para os espetáculos sob direção de Gabriel Villela: Fausto Zero e Vestido de Noiva (pelas quais fui indicado para o Prêmio Shell), e as trilhas criadas para a Cia. de Dança Palácio das Artes: Coreografia de Cordel e Transtorna. O Gabriel (Villela) é um gênio, que leva todas as partes criativas de um espetáculo para além dos limites; sempre supero as minhas próprias expectativas com relação à criação da música quando sou dirigido por ele. Já com a Cia. de Dança Palácio das Artes, o processo de criação é por si só muito instigante, são 23 bailarinos criando simultaneamente, mais os diretores e coreógrafos. E as trilhas resultam muito intrincadas com os espetáculos, causando um impacto muito positivo no público.

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BETO ANDREETTA, entrevistado pela cenografia de FILHOTES DA AMAZÔNIA.

Beto Andreetta: cenógrafo premiado da Cia. Pia Fraus

Beto Andreetta: cenógrafo premiado da Cia. Pia Fraus

 

QUEM É BETO ANDREETTA Há 26 anos na Cia. Pia Fraus, Beto Andreetta, de 48 anos, ganhou o Prêmio APCA de melhor cenografia por ‘Filhotes da Amazônia’, entre muitos outros prêmios. Já atuou com os grupos XPTO, Parlapatões e Acrobático Fratelli e ajudou a criar o Circo Roda Brasil. Para adultos, fez recentemente ‘Primeiras Rosas’, baseado em contos de Guimarães Rosa.

Cena de 'Filhotes da Amazônia': cenário guarda uma surpresa no final

Cena de 'Filhotes da Amazônia': cenário guarda uma surpresa no final

SERVIÇO DA PEÇA: Tucarena (600 lugares). Rua Monte Alegre, 1.024, telefone: 2626-0938. Sáb. e dom., 16h. R$ 30. Até 30/5.

A ENTREVISTA:

Ao pensar num cenário para peça infantil, você pensa inicialmente no quê? Nas cores? Nas formas? No espaço?

Beto Andreetta – Em realidade, eu sou cenógrafo de um grupo só, a Pia Fraus. Como meu papel no grupo é o de conceber os espetáculos, as ideias chegam já se completando. O cenário está integrado a toda a ideia da encenação.

Há algo que você considere como pecado mortal quando se fala em cenografia para teatro infantil, algo inadmissível e equivocado?

Beto Andreetta – Acho que o tempo de cenários descritivos – reprodução da realidade – já passou. Prefiro os cenários sugestivos, que permitam surpresas.

Em Filhotes da Amazônia, seu cenário prima pela simplicidade e funcionalidade, surpreendendo a todos no final, com a transformação que se revela. Fale um pouco dessa sua criação.

Beto Andreetta – Eu estava em Manaus, no projeto Palco Giratório, e contei o roteiro de Filhotes para o Vinícius, um dos atores, e ele comentou que estava faltando uma estória de tartaruga. Eu fiquei pensando naquilo e me veio a ideia da tartaruga ser o centro da estória, o invólucro, onde tudo acontecia. No mesmo dia, ainda em Manaus, fui visitar um centro cultural em forma de uma grande oca e fiz as associações entre oca e tartaruga. Depois, foi só buscar as soluções de criar várias aberturas nessa oca/tartaruga, que dessem a sugestão da oca conter toda a natureza, como o rio, a própria floresta, a aldeia… E quando a tartaruga se materializa é prazeroso ver a surpresa nas pessoas, porque ela estava lá todo o tempo e as pessoas só notam no final.

Você acha que, ainda hoje, as produções infantis têm de pensar em cenários mais fáceis de montar e desmontar, pensando no pragmatismo de liberar o palco o quanto antes para a peça adulta que virá a seguir?

Beto Andreetta -Talvez eu seja uma voz dissonante, porém eu acho que as produções devem, sim, se adequar à essa realidade de monta/desmonta do cenário. O teatro é um prédio muito complexo e caro, ele deve ser utilizado ao máximo, abrigar várias produções. Eu não vejo como problema, vejo como uma situação que deve ser enfrentada com criatividade e competência técnica.

Numa peça para crianças, quais as dificuldades de se retratar o Brasil (bichos, matas, personagens)? Há o risco constante do didatismo e de se reproduzir estereótipos escolares?

Beto Andreetta – Nos 26 anos de Pia Fraus, realizamos 20 diferentes espetáculos, viajamos por 20 países diferentes e por todo o Brasil. Percebemos que os espetáculos bem brasileiros que produzimos geram grande interesse dentro e fora do País. Somos apaixonados pelo Brasil e toda a sua cultura é fonte riquíssima de inspiração para o grupo. A própria cultura popular brasileira criou soluções brilhantes de representação em todas as suas variantes – artesanato, dança, música etc… Sempre procuramos trabalhar com artistas que gostem de pesquisa e também de ousar. Creio que isso nos ajuda a sempre tentar coisas novas.

Que cenários recentes ou não, de teatro infantil, você citaria como exemplares e por quê?

Beto Andreetta – Gostei muito do cenário do Serroni em O Colecionador de Crepúsculos, direção de Vladimir Capela, pela monumentalidade e solução de materiais, todos de custo baixo e grande impacto final.

O fato de atuar como diretor e ator e, ao mesmo tempo, fazer o cenário da própria peça, deve trazer vantagens e desvantagens, não? Quais?

Beto Andreetta – A Pia Fraus é um grupo muito autoral. Criamos a concepção geral dos espetáculos. Isso eu considero um fator positivo do trabalho. Você está em cena mais convicto da verdade do espetáculo.

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Cada vez mais, os profissionais que atuam no teatro infantil e jovem circulam pelas mais variadas áreas das artes cênicas e se preparam com afinco e talento para derrubar os tabus e preconceitos que ainda prejudicam o setor. Na capa do Caderno 2 de amanhã, segunda, dia 24 de maio (edição impressa), escolhi cinco profissionais – em pleno momento de vigor criativo – para conversar sobre seus ofícios e os desafios de fazer a nova geração se interessar por peças teatrais de censura livre.

As entrevistas não estarão na íntegra no jornal, pois ficaram muito grandes, e papel tem lá suas limitações. Elas estarão todas aqui na íntegra a partir de amanhã.

Todos os cinco entrevistados estão com excelentes espetáculos em cartaz, de um nível que faz frente a qualquer produção, incluindo as atrações para adultos. O autor e diretor, Leonardo Moreira, de Cachorro Morto, fisgou o interesse dos jovens com um tema árduo: a síndrome de Asperger. Um cenógrafo, Beto Andreetta, da cia. Pia Fraus, encanta pais e filhos com uma solução cênica surpreendente, em Filhotes da Amazônia. Um figurinista, Leo Diniz, faz todo mundo querer subir ao palco para “passar as mãos nas roupas”, em O Poeta e as Andorinhas. Um compositor de trilhas sonoras, Daniel Maia, usa a música (em parceria com Dr. Morris) como a principal força dramática de um imperdível espetáculo sem palavras, Rabisco. E a atriz Virginia Buckowski dá seu tocante depoimento de intérprete que ousa falar de morte para crianças, no corajoso O Travesseiro.

“O importante é considerar que existem outras formas de perceber o mundo além da nossa”, diz Leonardo Moreira. “No caso de Cachorro Morto, o espetáculo partiu da minha experiência pessoal, da minha inadequação durante a infância e de como isso determinou a minha forma de perceber o mundo.”

“Às vezes, eu acho uma pena que a distância entre o palco tradicional e o público, principalmente o infantil, seja tão grande. E uma das maiores recompensas que tive com meu trabalho foi escutar de um espectador que ele havia passado o tempo inteiro do espetáculo com vontade de tocar os figurinos”, conta o figurinista Leo Diniz.

O Travesseiro é a primeira peça infantil do meu grupo, a Velha Companhia, e a terceira que faço nesses 16 anos de teatro profissional. Nunca tive a real necessidade de falar ao público infantil e tinha até medo de ser catalogada. Essa vontade veio com a morte da minha irmã, o que deixou meus dois sobrinhos pequenos com aquele olhar de ‘e agora?’ Sinto que eles precisam conversar sobre a perda, e a arte é um veículo prazeroso para isso”, declara a atriz Virginia Buckowski.

Cada qual com sua função e com seus depoimentos sinceros e pessoais, esse time de entrevistados nos contempla com um panorama atualizado de como se consegue fazer teatro para menores numa cidade cheia de atrativos culturais como São Paulo.

Não percam amanhã (segunda, dia 24) nas bancas no Estadão (Caderno 2) e também neste blog.

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Texto que escrevi para ser lido no palco do 17.º Prêmio Femsa, em homenagem à atriz e produtora Nydia Licia.

Nydia Licia, ao agradecer a homenagem que recebeu do Prêmio Femsa, no palco do HSBC Brasil

Nydia Licia, ao agradecer a homenagem que recebeu do Prêmio Femsa, no palco do HSBC Brasil

“- No fim do mês passado, dia 30, ela fez aniversário. Já são 84 anos de muito carinho, talento e generosidade artística. Nascida na Itália, em Trieste, e estabelecida no Brasil desde os 13 anos de idade, Nydia Licia Pincherle Cardoso marcou época como grande empresária teatral, autora, diretora, produtora e atriz.

 - Intérprete de destaque na primeira fase do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, Nydia Licia brilhou durante anos nos palcos paulistas, ao lado de nomes míticos como Cacilda Becker, Ziembinski, Adolfo Celi, Walmor Chagas, Eva Wilma, John Herbert, Yara Amaral, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado e, claro, o inesquecível Sergio Cardoso, com quem foi casada e montou sua companhia teatral.

 - Participou de montagens antológicas de Hamlet, Entre Quatro Paredes, Ralé, A Raposa e as Uvas, A Ronda dos Malandros, Boeing Boeing, Hedda Gabler e Um Dia na Morte de Joe Egg, entre tantas outras.

 - Fez filmes, telenovelas e escreveu livros importantíssimos, como as biografias de Sérgio Cardoso, Raul Cortez, Rubens de Falco e Leonardo Villar, além dos autobiográficos Eu Vivi o TBC e Ninguém se Livra dos Seus Fantasmas.

 - Em 1956, inaugura o Teatro Bela Vista, que hoje é o Teatro Sérgio Cardoso.  Já em 1958, fez seu primeiro infantil, A Menina Sem Nome, de Guilherme Figueiredo. Nos anos 70, alugou o palco de um colégio de freiras na Rua Domingos de Morais e criou ali o Teatro Nydia Licia, que durou 14 anos, sempre voltado principalmente para as produções infanto-juvenis. 

 - Ali, produziu clássicos como Pinóquio, Cinderela e muitos outros, mas logo se uniu a um competente grupo de autores e, juntos, todos começaram a escrever os próprios espetáculos, como Este Mundo É um Arco-Íris, Libel – A Sapateirinha e Como Era Verde o Meu Jardim.

 - Para Nydia, produzir teatro para crianças e jovens significa prestar muita atenção em itens como música, dança e cenografia. ”Capricho nisso é fundamental”, diz ela, “porque criança sabe ser exigente.”

  - Em suas produções, havia silêncio absoluto nas plateias. “Criança em silêncio é sinal de que estão gostando”, ensina a mestra. ”Quando querem subir no palco e entrar no meio do cenário também significa que estão gostando. A peça só é ruim quando fica aquela correria louca pela sala.”

 - Ela é mãe coruja da médica Sílvia, que aos 15 anos assinou o cenário de uma peça infantil, atuou em outra e escreveu ainda outra, virando a fotógrafa oficial das produções de Nydia. Tem dois netos, o pintor Pedro e o músico João, que, na infância, acompanhavam a vovó Nydia em apresentações de ópera. “Ópera é uma arte completa para crianças”, diz ela. “Os pais deveriam prestar mais atenção nisso.”

 - Sempre alegre, carismática, animada, ela nos ensina mais e mais. Nydia diz, com conhecimento de causa: “Teatro didático pode ser muito chato, mas o teatro também não pode ser deseducativo!” E mocinha muito boazinha ou vilão muito maldoso, ela também não recomenda. ”Não é assim na vida real, o mundo não é tão maniqueísta”, explica ela.

 - Quando a peça era voltada para os jovens, Nydia Licia se preocupava com a contextualização histórica. Ela própria escreveu, por exemplo, Esta Noite Falamos de Medo, em que começava com Adão e Eva no Paraíso e terminava com as profecias do fim do mundo, por Nostradamus, passando por referências da história como o nazismo, a escravidão, a Revolução Russa e até a Ku Klux Klan. Sem medo de abordar temas tabus, foi uma pioneira corajosa, que merece todo nosso reconhecimento. Este ser de luz nos faz lembrar sempre de como as artes cênicas são fundamentais para a formação de nossas crianças e jovens. ”

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Os apresentadores da animada cerimônia: a atriz Claudia Missura e o ator Fábio Lucindo, premiados no ano passado

Os apresentadores da animada cerimônia: a atriz Claudia Missura e o ator Fábio Lucindo, premiados no ano passado

Na noite de segunda, a classe teatral voltada especificamente para o teatro infanto-juvenil ganhou uma das festas mais animadas do setor. O 17.º Prêmio Femsa, coordenado pela atriz e dramaturga Luiza Jorge, da Academia de Arte, distribuiu seus troféus aos melhores de 2009 em uma explosão de alto astral, graças sobretudo à direção cênica da cerimônia, a cargo do ator e dramaturgo Ângelo Brandini, que optou por deixar no palco, o tempo todo, a divertida Banda Escalafobética.
Logo de cara, duas notícias que agradaram a classe, trasmitidas por Miguel Peirano, presidente da empresa, e por José Roberto Sadek, subsecretário municipal de cultura. A Femsa vai parar de descontar Imposto de Renda dos valores do prêmio: R$ 10 mil para as categorias de melhor espetáculo infantil e melhor peça jovem e R$ 5 mil para as demais. Esses valores passam a ser líquidos. A sala veio abaixo de contentamento. Outra boa novidade é a parceria da Femsa com a Secretaria Municipal de Cultura para duas iniciativas: espetáculos indicados ao prêmio do ano que vem serão exibidos no circuito dos CEUs e haverá mais uma mostra dos finalistas no Centro Cultural São Paulo.
Depois, a festa seguiu com a primeira homenagem: à atriz e veterana produtora cultural Nydia Lícia, de 84 anos, que produziu peças de teatro infantil e jovem sobretudo nos anos 70.

A equipe de A Odisseia de Arlequino com o presidente da Femsa, Miguel Peirano

A equipe de A Odisseia de Arlequino com o presidente da Femsa, Miguel Peirano

Na premiação, A Odisseia de Arlequino, da Cia. da Revista, que celebra a Commedia Dell’Arte, levou quatro troféus: melhor espetáculo infantil, direção, atriz e atriz coadvujante (leia todos os vencedores num post anterior deste blog. O diretor da peça, Kleber Montanheiro, comemorou: “Sem brincadeira, tenho em casa dez placas de indicado ao Femsa, não aguentava mais ser indicado e não levar o prêmio. Agora, levei – e deixei Meryl Streep para trás”, brincou. Outro espetáculo também levou quatro prêmios, O Colecionador de Crepúsculos, de Vladimir Capella, importante resgate da obra de Câmara Cascudo. Ganhou como melhor espetáculo jovem, iluminação, ator coadjuvante e figurino.
Amor e guerra. A melhor produção ficou para A Tragédia de Romeu e Julieta. O ator protagonista Raoni Carneiro declarou: “Não fizemos teatro jovem, nem infantil, nem adulto, apenas contamos uma grande história de amor num mundo de guerras”.

A equipe do espetáculo jovem O Colecionador de Crepúsculos, com o presidente da Femsa, Miguel Peirano

A equipe do espetáculo jovem O Colecionador de Crepúsculos, com o presidente da Femsa, Miguel Peirano

Premiado como melhor ator, por O Mistério do Fundo do Pote (que também rendeu ao veteraro Ilo Krugli o troféu de autor de texto original), Rodrigo Mercadante comentou: “É difícil falar em protagonismo quando se trabalha com um diretor como Ilo, que nos ensina a liberdade.”
Um dos mais emocionados era Amauri Falseti, da Cia. Paideia, que venceu como autor de adaptação, por Com o Rei na Barriga. A melhor atriz, Veridiana Toledo, de A Odisseia de Arlequino, anunciou que está grávida e, agarrada ao seu troféu, tascou: “Nossa, amanhã vou acordar com um gás…”

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