Não acompanho, pena, o que é feito no Rio de teatro para crianças. Vejo só o que vem para cá, a São Paulo. Gostaria de poder fazer mais essa “ponte aérea”. Em todo caso, conto a todos que nesta próxima segunda, dia 29, ocorre por lá a quarta edição do Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil (iniciativa do CEPETIN – Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil), sob o patrocínio da OI.
É a única premiação dedicada aos melhores do teatro infantil no Rio. Neste ano, vejam que maravilha, a homenageada é Tatiana Belinky, uma das mais importantes escritoras infanto-juvenis contemporâneas.
Veja abaixo a lista completa de indicados:
MELHOR ESPETÁCULO
1 O Cano
2 A Mulher que Matou os Peixes e Outros Bichos
3 Ogroleto
4 O Milagre do Santinho Desconfiado
MELHOR TEXTO
1 Grupo Udigrudi – O Cano
2 Karen Acioly – Fedegunda
3 Marília Gama Monteiro – O Milagre do Santinho Desconfiado
4 Marcio Libar – Triciclo
MELHOR DIREÇÃO
1 Leo Sykes – O Cano
2 Cristina Moura – A Mulher que Matou os Peixes e Outros Bichos
3 Karen Acioly – Ogroleto
4 Lucia Coelho – O Milagre do Santinho Desconfiado
MELHOR ATRIZ
1 Brunella Provvidente -Quixotesca e Pançuda
2 Laila Zaid – O Segredo de Cocachim
3 Carolina Kasting – Ogroleto
4 Isabel Francisco – O Planeta Lilás
MELHOR ATOR
1 Christian Coelho – O Cavalinho Azul
2 Maurício Grecco – Ogroleto
3 Fabiano Freitas, Martin Lima e Ricardo Gadelha – Triciclo
4 Marcelo Dias – O Milagre do Santinho Desconfiado
MELHOR MÚSICA
1 GRUPO Udigrudi – O Cano
2 Lucas Marcier – A Mulher que Matou os Peixes e Outros Bichos
3 Martin Lima – Triciclo
4 Marcelo Alonso Neves – O Milagre do Santinho Desconfiado
MELHOR CENÁRIO
1 Luciano Porto e GRUPO Udigrudi – O Cano
2 Mari Stockler – A Mulher que Matou os Peixes e Outros Bichos
3 Ney Madeira – Como Nascem as Estrelas
4 Derô Martín, Maíra Knox, Mauricio Grecco e Karen Acioly – Ogroleto
MELHOR FIGURINO
1 Célia Bispo – Através do Espelho o que Alice Encontrou Lá
2 Alexandre Colla – Lampiãozinho e Maria Bonitinha
3 Fernanda Sabino, Henrique Gonçalves e Karlla de Luca – A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto
4 Ney Madeira – Como Nascem as Estrelas
MELHOR ILUMINAÇÃO
1 Jorginho de Carvalho – A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto
2 Jorginho de Carvalho – Ogroleto
3 Jorginho de Carvalho – O Milagre do Santinho Desconfiado
4 Aurélio de Simone – Como Nascem as Estrelas
PRÊMIO ESPECIAL
Grupo Udigrudi em O Cano pela pesquisa de linguagem.

FOTO Caio Galucci /DIVULGAÇÃO
Preconceito com musical que vem da Broadway? Azar o seu, pois vai perder Meu Amigo Charlie Brown, em cartaz no teatrão do Shopping Frei Caneca. É ótimo. Tapa a boca de quem costuma dizer que no Brasil ainda não há atores preparados para cantar e dançar. Como o elenco está bem! Vou dar aqui os nomes de todos eles, que foram dirigidos e coreografados por Alonso Barros, com direção musical e vocal do maestro Marconi Araújo e produção geral de Ricco Antony.
O elenco é formado por Leandro Luna (o Charlie Brown), de quem eu já havia gostado bastante em O Cravo e a Rosa; Fred Silveira (Snoopy, que vem de papéis de destaque em Godspell e West Side Story); Paula Capovilla (como Lucy, aplaudida várias vezes em cena aberta na sessão a que assisti), a sempre ótima Mariana Elisabetsky (como Sally, além de assinar a versão brasileira do texto); Felipe Caczan (como Schroeder) e Thiago Machado (como Lino).
O espetáculo tem estrutura de esquetes independentes, mas com fôlego para dialogar entre si, formando um todo que dá um bom panorama da história criada nas tiras consagradas mundialmente como Peanuts, de Charles M. Schulz. A produção é impecável, com belíssimo e funcional cenário (nada exagerado, sem exibicionismos grandiosos), assinado por Chris Aizner e Nilton Aizner.
Agora, pra vocês, as cinco melhores cenas da peça, na minha modesta opinião. São cenas de forte empatia com a plateia e muito bem realizadas no palco. Lá vão elas.
1) A cena da pipa. O ator finge que está empinando um papagaio. No fim da cena, a pipa realmente cai na plateia e surpreende a garotada.
2) No cinema. Reprodução de uma sala de cinema, com o elenco acomodado nas poltronas para ver um filme no telão. Começam as imagens e, de repente, surge o ator que faz o Snoopy, pendurando num balão, interagindo com as imagens do filme.
3) Meu paninho e eu. Sabe aqueles pedaços de pano que viram inseparáveis de certas crianças? Pois há uma cena muito engraçada, em que dois irmãos brigam pelo pano. Empatia garantida na plateia. E coreografia nota dez.
4) Hora do recreio. Charlie Brown aparece sozinho no pátio da escola, na hora do intervalo. Ele não vê a hora de ouvir o sinal e a aula recomeçar, pois fica sempre solitário no recreio. Cena dura e tocante.
5) Ensaio do coro. Quando o menino Schroeder, fissurado pelo compositor Beethoven, resolve reger os amiguinhos num número de coral, todos intercalam à música os restos da conversa que foi interrompida. É hilariante.
O SERVIÇO DA PEÇA:
////TEATRO SHOPPING FREI CANECA (800 lug.). Rua Frei Caneca, 569, 6º andar, Bela Vista, tel. 3472-2226. SÁBADOS E DOMINGOS ÀS 16 HORAS. Ingressos a R$ 50. Até 27 de junho.
Hoje é Dia Mundial do Teatro para Infância e a Juventude. Dia 20 de março. Separei para vocês alguns depoimentos de quem atua na área. Gente muito talentosa, que não só faz mas pensa o teatro para crianças.
Lizette Negreiros, atriz, atualmente no Grupo Ventoforte: “Trabalhamos a favor da matéria prima mais complexa e difícil, mais sincera e desprotegida, mais necessitada do saber e do prazer: a criança e o adolescente. Usamos a alma para fazer teatro e para manter o teatro vivo.”
Gabriel Villela, diretor premiado por Os Saltimbancos, em 2001, peça que também montou duas vezes em Portugal, com a Seiva Trupe, e atualmente ensaiando O Soldadinho e a Bailarina: “Nós, artistas de teatro, temos a síndrome de Sherazade: contamos histórias para não morrer. E como criança não tem regras, ela faz como ninguém o trânsito saudável entre real e imaginário. Bombardear Bagdá é como bombardear a fábula, as 1.001 noites. O islamismo radical, as guerras santas, os ataques terroristas, a intransigência dos americanos, tudo isso faz o adulto viver uma fase descompensada, um pessimismo tenso. Mas a criança, na minha visão, está salva disso, porque usa seu estado pleno de sonho para ficar imune. Elas, as crianças, é que vão nos salvar, com sua capacidade de fabular sempre. Por isso é que eu arrisco dizer que, no mundo atual, é mais urgente montar Irmãos Grimm do que Shakespeare.”
Osvaldo Gabrieli, diretor do grupo XPTO e de espetáculos infantis como O Pequeno Mago e O Enigma do Minotauro: “Quando escolho um tema para uma peça infantil, penso muito nos temas que motivavam meus sonhos infantis. Fui uma criança cheia de fantasias, minhas brincadeiras criavam mundos e engenhocas. Quando um autor envolve a obra com depoimentos poéticos de sua vida, falando sobre seus sonhos, seus medos, suas verdades, suas dificuldades e conquistas, começa a criar um nível maior de interesse e traz humanidade ao espetáculo.”
Alexandra Golik, atriz e diretora do grupo Le Plat Du Jour e de espetáculos como Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos: “Querer ensinar no teatro é chato. A mensagem, a boa intenção, o melhor caminho, a honestidade, o caráter e tantas outras coisas mais passam para a criança por osmose, não precisa do teatro para isso. Criança é um ser extremamente sensível, que absorve por todos os poros. Se você apresenta uma peça de qualidade, não precisa apresentar serviço. A lição de moral é conseqüência.”
Vladimir Capella, premiado autor e diretor de peças como Miranda, Maria Borralheira e O Colecionador de Crepúsculos: “Um autor de teatro precisa levar em conta o ser humano, ajudá-lo a encontrar significados para a vida, trabalhar com as questões essenciais que o atormentam, fornecer subsídios para que ele possa identificar-se, projetar-se, rir, chorar, reflexionar e construir sua história. E isso pode ser feito com uma linguagem ultramoderna ou clássica, assim como um diretor pode conceber um espetáculo cibernético ou com velhas caixas de papelão.”
Jacqueline Obrigon, atriz premiada por Assembléia dos Bichos: “Sempre acreditei que a arte é transformadora, o mundo se abriu pra mim quando assisti a O Rapto das Cebolinhas, peça infantil de Maria Clara Machado, eu era uma criança com todas as minhas angústias na decada de 70, e essa epifania marcou a minha vida a ponto de definir o meu futuro profissional.Durante muitos anos ouvi artistas falando que teatro infantil era uma outra categoria de arte, como se não fosse teatro .E me pergunto que artistas somos nós que não respeitamos o que temos de mais genuíno, as crianças. Nosso público mais sincero e fiel.”
No próximo fim de semana, você poderá ver (ou rever) um grande sucesso da Cia. Truks, a peça VOVÔ. Na entrevista que fiz esta semana com o diretor da companhia, Henrique Sitchin, e que está neste blog (procure mais abaixo), ele cita a crítica que publiquei por ocasião da primeira temporada, em agosto de 2002, e que depois reproduzi no meu livro Pecinha É a Vovozinha.
Reproduzo meu texto, para vocês avaliarem se querem ver o espetáculo neste fim de semana. Fica em cartaz no sábado (dia 20) e no domingo (21), às 16 horas, na Funarte (Alameda Nothmann, 1.058, Campos Elíseos), tel. 3662-5177. Grátis.
Lá vai minha crítica:
Sabe quem vai estar aqui em São Paulo amanhã, sexta, dia 19? A carioca Karen Acioly, que vem para lançar um livro, um projeto pioneiro, o I Catálogo Livre do Teatro Infantil, da editora Aeroplano, em parceria com a Funarte. Dei já uma primeira olhada no caprichado volume e recomendo a leitura.
Karen é devota do teatro para crianças. Criou, no Rio, o I Centro de Referência do Teatro Infantil e também o Festival Internacional Internacional Intercâmbio de Linguagens (o FIL), já em sua sétima edição. É autora de mais de 25 textos de teatro para crianças.
O catálogo que ela lança agora traz reproduções de debates organizados no Rio, com depoimentos de muita gente boa que se dedica a esta arte, como Flávio de Souza, Hélio Ziskind, João Falcão, Vladimir Capella, Ilo Krugli, Sura Berditchevsky e muito mais.
O lançamento está marcado para as 18h30, de sexta, 19 de março, no Itaú Cultural, que fica na Avenida Paulista, 149. Dia 20 vai ser no Rio. Prestigiem.
É a primeira vez que o Itaú Cultural está sediando um encontro do Centro de Referência do Teatro para Infância, que é formado por Ana Luisa Lacombe, Deborah Serretiello e Gabriel Guimard. Tudo por ocasião do Dia Mundial do Teatro para a Infância e a Juventude, dia 20, sábado! No portal deles, tem umas perguntas para o Gabriel Guimard, diretor da companhia de teatro Megamini e fundador da Rede Cultura Infância e do Portal Cultura Infância. Peço licença pra reproduzir aqui uma delas, que vai nos ajudar a refletir. Quem quiser saber mais sobre a programação do encontro e do Itaú Cultural pode acessar o endereço http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2841&cd_materia=1259&mes=3&ano=2010
Como é o atual cenário do teatro infantil no Brasil?
GABRIEL GUIMARD – Percebo que o teatro para crianças no Brasil deu um salto quantitativo e qualitativo. Naturalmente com essa quantidade existem propostas meramente caça-níqueis, mas existe também o teatro infantil de qualidade, realizado por companhias e artistas engajados em oferecer o que há de melhor para as crianças. Pensando em termos nacionais, há problemas agudos em regiões como o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste. Falo delas porque o fomento, a formação, a difusão e a divulgação do teatro para crianças ainda é muito menor do que nos grandes eixos Sul-Sudeste. Salvo as grandes capitais do Nordeste, que mantêm uma produção de teatro infantil mais regular, as outras cidades têm uma produção mais voltada para atender às necessidades das escolas e com pouca pesquisa de linguagem e possibilidades de troca de informações. Acho que ações formativas e a circulação de espetáculos por essas regiões menos privilegiadas são essenciais para mudar o cenário.

Henrique Sitchin/ Foto Divulgação Cia. Truks
Segue na Funarte, em São Paulo, a programação dos 20 anos da Cia. Truks de Animação. Fiz cinco perguntas para o “pai” da companhia, o premiado Henrique Sitchin. Ele respondeu muito bem, com respostas bem longas, mas vale a pena usar um tempinho de vocês lendo tudo e aprendendo com este talento dos nossos palcos.
E para prestigiar a mostra dos 20 anos da Truks, que vai até o 25 de abril, aqui vai o serviço deste próximo fim de semana. A peça será a deliciosa e emocionante Vovô, sábado (dia 20) e domingo (dia 21), às 16 horas, com ingressos grátis, na Sala Guiomar Novaes, Funarte São Paulo (Alameda Nothmann, 1.058, Campos Elíseios), tel. (11) 3662-5177. Para saber mais, acesse o site da cia: www.truks.com.br
Agora, com a palavra, Henrique Sitchin.
1. Teatro de animação também pode falar de coisas tristes?
Henrique Sitchin: Sim, com certeza! Pode e deve! Coisas tristes são partes da vida de cada um de nós e também das crianças. Acho que, na verdade, NÃO falar das coisas tristes, apontando apenas o que é “feliz”, ou “bom”, é que é cruel para os pequenos! Porque somos todos feitos desta dualidade – o bom e o ruim, o quente e o frio, positivo e negativo, luz e sombra, alegria e tristeza! A tristeza faz parte da vida. Aliás, é fundamental para a vida. A dor serve para nos salvar, não é mesmo? Pois senão, correríamos o risco de morrermos queimados em um dia de frio em que considerássemos mais apropriado pular em uma fogueira para esquentar o corpo… Além da inevitabilidade da dor, temos também, como componente de nossas vidas, a angústia! A angústia faz parte de cada um de nós, e igualmente é capaz de nos salvar. Se ficamos muito angustiados com um problema, é aí que vamos em busca de resolvê-lo, e é para vencer a dor da angústia, uma dor aguda, que vamos colocar as energias corretas em ações concretas que, por fim, nos farão melhores… Muitas das ações mais contundentes e importantes de nossas vidas fazemos para vencer a angústia… Então, negar para as crianças a dor e a angústia é que é cruel, é mostrar um mundo de “mentirinha”. É enganar os pequenos e, assim, desrespeitá-los. Pois então, tantas e tantas vezes as crianças têm vontade de chorar e não lhes dão esse direito porque, afinal, chorar não é “bonitinho”. Estar triste com alguma coisa não é “fofo”… E criança serve para estar fofa o tempo todo, ou criança precisa ser respeitada como indivíduo, ser humano composto pela mesma dualidade que nos completa a nós, os adultos? Então acho que o teatro pode e deve falar TAMBÉM do que é triste!
O teatro de animação, especificamente, pode explorar ainda mais esta possibilidade, na medida em que substitui o ator de carne e osso, na cena, pela matéria que ganha vida. Fazer um ator morrer em uma cena teatral é exercício dificílimo, bem sabemos. Porque cada um de nós sabe muito bem que a vida continua no corpo do ator (morto somente em cena). Com o boneco é diferente: Ele é composto por matéria sem vida. Ganha a vida para estar na cena, e pode ter esta vida retirada de seu âmago a qualquer momento. Então acho que o teatro de animação pode, por exemplo, fazer cenas belíssimas de morte (parte da vida, não é?). A cena da morte de Mozart, em “Mozart Moments”, do Grupo Sobrevento, é uma das cenas de morte mais densas e completas que vi no teatro. Acho que em nosso espetáculo “Vovô” (da Cia Truks), também trabalhamos com muita poesia a realidade da morte, de forma a tocar fortemente as crianças. Entendendo a morte, elas são capazes de valorizar ainda mais a vida. Conhecer a dor e a angústia, através do teatro, pode ajudar, e muito, as crianças a entenderem e conviverem melhor com suas próprias dores e angústias! Não somente, tanto em CIDADE AZUL quanto em O SENHOR DOS SONHOS, montagens da Truks, apresentamos situações tristes, no primeiro a realidade de uma criança de rua, e no segundo um menino angustiado pela sensação de inadequação. As crianças da plateia se afeiçoam muito a estes personagens de forma que, no momento em que eles sentem dor emocional, as crianças sentem junto, e assim experimentam uma sensação das que creio ser uma das maiores necessidades destes nossos tempos: a cumplicidade que leva a solidariedade. Isso pode ser transformador…
2. Manipuladores de bonecos também são artistas da interpretação, mas ainda hoje há estigmas e dificuldades em considerá-los como atores?
Henrique Sitchin: Sim! Mais uma vez a resposta é “com certeza”! Como premissa para esta resposta vou usar um primeiro conceito importante de ser entendido: O teatro de animação é teatro! Ponto! Apenas que se utiliza de outros instrumentos – os bonecos, os objetos animados ou as formas animadas. No teatro de atores, como costumamos chamar, o ator de carne e osso utiliza-se de recursos do seu corpo para construir o personagem. No teatro de animação, o ator animador, ou manipulador, se utiliza do objeto intermediário, que está entre ele e a plateia, para fazer isso. No entanto, a qualidade que ambos terão que ter para fazer bem este ofício é a mesma. Eu costumo dizer que os bonecos precisam poder atuar tão bem quanto os melhores atores de carne e osso! Porque ora, se são personagens de um espetáculo, precisam atuar bem, não é mesmo? Ou seja, a energia atoral, a técnica, a emoção e todo e qualquer outro conceito relativo a uma boa interpretação, ou vivência em palco, é necessário tanto ao ator de carne e osso quanto ao boneco que cumpre um papel na trama. Pois então, como fazer para que o boneco possa ser bom em cena? Ora essa, precisamos, podem acreditar, de excelentes atores para fazer isto! Excelentes animadores que serão capazes de “preencher o boneco” com esta qualidade para a cena! E isso não é nada fácil!
Eu arrisco dizer que administrar a energia atoral em nosso corpo de carne e osso, e assim construir um personagem, pode ser um exercício até mesmo menos árduo do que fazer isto em um boneco. Porque as ações humanas nos são conhecidas e até mesmo automáticas. Ninguém pensa como vai fazer para sentar, ninguém analisa a melhor maneira de fazer um aceno, porque o corpo humano responde automaticamente a alguns estímulos. Com os bonecos isto não existe. Eles não são parte do nosso corpo. São elementos externos. Então tudo precisa ser previamente estudado, até mesmo um simples sentar, ou acenar. Os ensaios da Cia Truks começam por um estudo detalhadíssimo de repertórios específicos de movimentos. Como o boneco senta, como acena, como faz cada coisa. E depois repetimos tudo mil vezes, usando intenções teatrais distintas: faz os mesmos gestos com alegria, tristeza, ansiedade, etc etc. Não é ainda o exercício de ensaio que o ator faz já pensando no personagem. É um exercício prévio. É preciso aprender a transportar cada gesto para os bonecos, e isso é um exercício muito difícil. Às vezes ouço colegas contarem que montaram um espetáculo em “longos 2 meses”! E puxa vida, morro de inveja… Nunca consegui montar um espetáculo em menos de 5 meses…
Depois do treinamento técnico, o ator animador deverá ser capaz também de preencher o boneco com a intenção toda do personagem. Vai ter que aliar técnica (aplicada ao exercício da animação) com emoção de forma muito equilibrada. Ou seja, precisa ser um bom artista, um bom ator! Não somente, há um dado a mais no teatro de animação, vamos dizer, contemporâneo. O ator animador está cada vez mais presente na cena, junto com os seus bonecos. Há algumas décadas era estranho ver atores bonequeiros aparecerem ao público. Hoje a maioria das obras usa também o ator humano na cena. Então que não há como negar esta presença humana na cena, e muitas vezes este ator cumpre mais papéis, que vão além do exercício da animação. Então, além de doar a vida com qualidade para o personagem que não está em seu corpo, ele muitas vezes poderá também estar na cena, com o seu corpo, ou seja, dividindo-se entre estas funções: a animação do boneco e a atuação enquanto mais um personagem. Ufa! Não é nada fácil! E esta tem sido uma das minhas lutas nos últimos tempos: formar atores com esta capacidade também, de se dividir na cena. Acho que em ZÔO-ILÓGICO conseguimos, eu e Cláudio Saltini, algo notável, ao podermos ser personagens fortes, com uma relação humana forte, ao tempo em que animávamos os nossos bonecos também…. E bom… com certeza nem sempre este exercício tão árduo tem o reconhecimento que merece. Já tive atores na própria Cia Truks que, ao se despedir do grupo após alguns anos de trabalho, me diziam que queriam agora ter formação de ator. Eu costumava tentar convencê-los de que certamente estavam em um lugar apropriado para isto… O ator manipulador ainda é visto como um ator menor, infelizmente…
3. Qual peça nos 20 anos de carreira da companhia fez mais sucesso de público? E de crítica?
Acho que a peça que fez mais sucesso de público foi O SENHOR DOS SONHOS. Apresentamos este espetáculo desde 1999, e muito! Já são mais de 1400 sessões realizadas. As crianças se identificam muito com o Lucas, o menino protagonista da trama. TRUKS: A BRUXINHA também foi muito apresentada e procurada entre 1991 e 1998. CIDADE AZUL e VOVÔ também fazemos muito muito. Mas acho que O SENHOR DOS SONHOS superou as demais em procura pelo público.
De crítica, a mais bem aceita foi certamente CIDADE AZUL, que inclusive ganhou muitos prêmios. ZÔO-ILÓGICO também teve críticas muito boas e VOVÔ a mais bela de todas as críticas, escritas por um jornalista nota dez, o DIB CARNEIRO NETO! (risos). Foi uma matéria muito especial, que nos emocionou profundamente. A mais bela e sensível crítica já feita a algum de nossos trabalhos.
4. Qual delas você mais gosta de fazer e por quê?
Henrique Sitchin: A minha peça preferida é VOVÔ. É o espetáculo da Cia Truks de que mais gosto, até porque conta a história do meu avô, uma figura muito especial. Uma espécie de homem justo… Um homem bom, que exercia, entre outros, o papel de “pacificador” na família. Um contador de histórias, um desses vovôs simpáticos e queridos, de quem tenho especiais saudades. Então me emociono muito cada vez!
Agora no que diz respeito a atuar, o que mais gosto é do ZÔO-ILÓGICO. É um trabalho muito lúdico, muito divertido. Comecei com o Cláudio Saltini, que foi um verdadeiro mestre em cena, um grande e talentosíssimo companheiro de trabalho que me ensinou muito sobre a atuação. Infelizmente não pudemos seguir juntos, por questões de encaminhamento diferente das nossas vidas. Mas estamos preparando algumas apresentações especiais, em que estaremos juntos em cena de novo, tanto em ZÔO-ILÓGICO quanto em INZÔONIA, que também fizemos juntos, e que hoje integra o repertório do grupo Circo de Bonecos.
O especialíssimo é que hoje faço ZÔO-ILÓGICO com… com… O MEU FILHO! O GABRIEL, hoje com 20 anos! É uma grande alegria, uma honra estar ao lado de um filho em cena. E olha que o menino é bom, viu? Um incrível companheiro de cena! Me dá especial alegria e prazer estar atuando neste trabalho com meu filho.
5. Conte uma reação de adulto e uma reação de criança que marcaram você nas duas décadas da sua companhia.
Henrique Sitchin: Puxa vida… Houve muitas! Vou contar brevemente algumas, pela dificuldade em eleger uma única, ok?
Certa vez fazíamos uma apresentação de TRUKS: A BRUXINHA em uma praça pública de um bairro de periferia, e um homem muitíssimo bêbado assistia a apresentação. Durante a montagem do cenário ele já estava ali, e até mesmo sendo agressivo conosco. Ao começar a apresentação, no entanto, ele se sentou como uma criança para assistir ao espetáculo. No momento em que o “Monstrão” rouba a varinha da Bruxinha, ele se levanta chorando e implora ao “bicho”, porém muito gentilmente, que devolva a varinha da Bruxinha. Aquilo foi muito inusitado. Ele se abraçou ao bonecão, chorando, aos prantos, pedindo que não fizesse aquilo com a boneca…
Em CIDADE AZUL houve uma professora que, ao terminar o espetáculo que era apresentado no pátio de uma escola, pediu aos alunos que ficassem sentados, pois queria falar algumas palavras. Foi então que, igualmente aos prantos, começou a dizer aos alunos que todos eles precisavam começar a agir, e que o problema das crianças de rua precisava acabar e que a guerra havia começado por aquela escola, após assistir ao espetáculo. Aquilo foi muito tocante.
Com Vovô fico sempre tocado quando netos de japoneses, árabes, italianos, espanhóis, alemães, vêm me falar que contei as histórias de seus avós imigrantes. Eu achava que estava contando uma história só minha, mas percebi que ela é uma história de todos nós que temos imigrantes na família. No dia da estréia de Vovô veio um japonês muito emocionado me abraçar, pois eu havia contado a história do seu avô. Fiquei surpreso e tocado.
Das crianças são igualmente muitas as histórias. Houve o caso de um casal que trazia o seu menininho que, viemos saber depois, tinha mal completados 2 aninhos, TODOS os dias, para assistir ao espetáculo O SENHOR DOS SONHOS! Todos os sábados e domingos durante dois meses inteiros de temporada! Na terceira ou quarta semana fomos perguntar a eles o que os fazia voltar sempre. “Nosso menino pede”, nos respondem os pais. “Aliás, ele poderia bater um papinho com o Lucas? – me pediram. Ele sempre sai daqui pedindo isso e não sabemos se pode”. O menino então foi conversar com o Lucas e começa a contar tuuuuuuuudo, frenética e ansiosamente. Daqui um tempinho os pais se olham, atônitos, e um diz ao outro: “Meu bem, você sabia disso que ele está contando?”. A esposa responde: “Não, não… isso ele não me contou!” Enfim, o garotinho vinha ao teatro conversar com o Lucas e contava a ele segredos proibidos até mesmo para os seus pais…
Têm dezenas de crianças que vêm dar beijos nos bonecos após as apresentações. Em OS VIZINHOS, recente trabalho da Cia., houve o caso de um menino que veio brigar com o reizinho, após o espetáculo, dizendo que não era para fazer guerra, pois senão ele (o menino) ia ficar muuuuuito bravo!. Em E SE AS HISTÓRIAS FOSSEM DIFERENTES peço às crianças que me digam como é o personagem que imaginam e então eu o desenho, seguindo as instruções dadas, em uma cartolina, e este desenho é projetado em um telão. O menino na plateia diz assim: “A cabeça dele é ao contrário, e os cabelos são de fogo. Quero ver agora o que você vai fazer, tio!” (risos). Bom, desenhei cabelos bem arrepiados, bem bem laranjas, e disse: “Estão pegando fogo!” O menino rebate, de pronto: “Sai de perto! Você vai se queimar!”
E tem uma historinha maravilhosa, bem recente, que relaciono ao meu trabalho, por falar de bonecos. Meu filho Caíque, outro dia, com dois aninhos de vida, me pede para brincar com um fantoche de pano que temos aqui em casa. É o jacaré. O jacaré conversa com o Caíque e, conversa vai conversa vem, lá pelas tantas diz assim: “Caíque, vou te mordeeeeeeeeeeeeer”. O caíque, invocado, arranca o fantoche da minha mão. Olha para o boneco de pano que tirou da minha mão e o joga de lado. Aí então olha fixamente para a minha mão e dispara: “Jacarééééé! Você ficou pelado!!!”.
Os pais na plateia…
No domingo passado, fui ao Shopping Higienópolis ver A Bruxinha Que Era Boa, na montagem do diretor Rodrigo Palmieri. Como Maria Clara Machado, nossa saudosa autora, uma das pioneiras do teatro infantil no Brasil, era um talento para escrever para crianças! Sempre que revejo uma peça dela tiro o chapéu.
Mas aqui quero comentar a reação dos pais da plateia. Como se trata de um espetáculo sobre bruxas, muitas crianças pequenas já se assustam na primeira cena, pedem para ir embora, começam a chorar. Os pais invariavelmente tentam fazer de tudo para segurar a criança na plateia. Será mesmo a melhor atitude?
A reação de uma criança a um espetáculo, seja de alegria, de euforia, de medo e até de pavor e pânico, é muito saudável. É a reação dela. Se chora, se ri, se quer ir embora, por que interferir nisso?
O que vi na plateia do Teatro Folha naquele domingo foi patético até. Querendo antecipar, antever, adivinhar a reação dos filhos aos gritos histéricos das bruxas, muitos pais soltavam gargalhadas forçadas, falsas demais, na tentativa tola de que seus rebentos se acalmassem, não sentissem medo. Não é constrangedor? São pais querendo conduzir a emoção, a reação, dos filhos. Querendo minimizar o susto, proteger as crianças do medo. Na minha modesta opinião, eu, que também sou pai, isso é um graaaaaande equívoco.
Na minha fileira, uma menina, de tanto medo da estridência das bruxas, tapou os ouvidos com as mãos e assim ficou por 15 minutos, até pedir ao pai para sair. Esse pai não hesitou: tomou a menina pelas mãos e se retirou com ela da sala. Quase aplaudi a atitude dele em cena aberta. Um dia, a filha vai ficar até o fim numa peça de Maria Clara Machado. Mas um dia. O dia que for dela, do ritmo dela, da maturidade dela.

100 Mais Nem Menos/Divulgação
100 + Nem Menos
Outra boa peça que voltou ao cartaz este ano, depois das temporadas de 2009, foi esta 100 + Nem Menos, da Cia. Noz de Teatro. É muito curioso ir com toda a família, porque cada um vai ‘viajar’ num aspecto do espetáculo.
Não há texto. Só dança e animação. “Só” não é bem o jeito de dizer, pois já é muito. Entreter as crianças sem texto é missão hercúlea no teatro, mas muito louvável. As coreografias são pensadas muito criativamente para atrair até bebês, com um jogo de cores e repetições de gestos que faz todo sentido.
A trilha sonora é uma atração à parte. Ela dialoga com tudo, ela constrói as cenas, ela comenta os gestos, ela conduz o espetáculo. Também tem elementos repetitivos musicais, para ficar na memória das crianças. Os autores são dois craquíssimos das trilhas sonoras de teatro, Daniel Maia e Dr. Morris. Juntos, assinam um trabalho realmente “biscoito fino”, com todo cuidado e atenção que o público merece.
Teatro Alfa. Sala B. 200 lugares. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, perto da Ponte Transamérica, tel. 5693-4000. Sábados e domingos, 16 horas. Ingressos a R$ 24. Até 18/4

melancia e coco verde/divulgação
Melancia e Coco Verde
Este espetáculo do Núcleo Girândola voltou ao cartaz em São Paulo. Estreou no ano passado. Agora cumpre temporada até 18 de abril no recém-reformado Teatro Cacilda Becker, na Lapa.
É uma produção bem modesta, mas a diretora e autora, Natália Grisi, demonstra grande potencial para crescer e dominar seu ofício. Vale a pena dar um crédito a ela e prestigiar o espetáculo, que retrata – com sinceridade, garra e graça - um pouco do universo adolescente, ou seja, temas como o primeiro amor, vergonha, medo, ansiedade, as diferenças entre meninos e meninas, a vida escolar, a hora do recreio, o dia do brinquedo e assim por diante.
Teatro Cacilda Becker. 195 lugares. Rua Tito, 295, Lapa, tel. 3864-4513. Sábados e domingos às 16 horas. Ingressos a R$ 10. Até 18/4
2011
2010