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Cartas de Washington

 

A presidente Dilma Rousseff não será tratada pelo governo dos Estados Unidos da mesma forma que os líderes Hu Jintao, da China, e Manmohan Singh, da Índia. Sua visita a Washington, nesta segunda-feira, não será classificada como “de Estado”. Apenas será “oficial”. Não terá banquete a rigor nem discurso no Congresso americano, em uma clara indicação da dificuldade de Washington em ver no Brasil um real e confiável parceiro estratégico.

         O formato da primeira visita de Dilma à Casa Branca, entretanto, traz uma tentativa do presidente americano, Barack Obama, de criar uma relação de confiança e de franqueza com a líder brasileira. Depois do encontro oficial, Dilma será conduzida por Obama para um almoço na ala residencial da Casa Branca. Enquanto as conversas rolarem, milhares de crianças estarão correndo e gritando pelos jardins da Casa Branca em busca de ovos de chocolate. O Easter Egg Roll é uma tradição no dia seguinte à Páscoa desde 1878.

         Nada garante a construção de real confiança entre Dilma e Obama, a partir dessa visita, nem que as relações entre os dois países possam se tornar mais azeitadas e menos marcadas pelas divergências. Como lembra Paulo Sotero, diretor do Instituto Brasil do Woodrow Wilson Center, FHC e Clinton mantiveram uma boa relação pessoal, útil especialmente quando o Brasil vivenciou a crise cambial de 1999. A alardeada “química” entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, no entanto, não trouxe resultados práticos para nenhum lado.

         “Pode até haver boa relação entre Dilma e Obama. Mas será o interesse dos governos que vai mover a relação bilateral”, afirmou Sotero. “Obama e Dilma não precisam se tornar almas gêmeas”, emendou o presidente honorário do Interamerican Dialogue, Peter Hakim.

         A última visita de Estado de um presidente brasileiro aos EUA foi em 1995, quando Fernando Henrique Cardoso encontrou-se com o então líder americano, Bill Clinton. Obama foi recebido em Brasília em uma visita de Estado menos protocolar, em março do ano passado. Esse tipo de evento pode ser realizada uma única vez a um determinado país durante o mandato presidencial. Nas Repúblicas, envolve a visita à sede dos três Poderes. Embora a Casa Branca tenha formalmente cortado esse tratamento neste ano, por causa da eleição presidencial nos EUA, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi recebido com essas honras em março, mesmo sendo chefe de governo.

         João Augusto de Castro Neves, analista do Eurasia Group, pondera ser o gesto, em diplomacia, pra lá de importante. O Brasil precisa, em seu ponto de vista, do “reconhecimento americano de ter se tornado um novo poder mundial”. Trata-se de algo concedido por Washington à Índia – país detentor de arma atômica, sem compromisso com o Tratado de Não-Proliferacão Nuclear, parceiro dos EUA em um acordo nesse campo e apoiado por Obama para ingressar no Conselho de Segurança como membro permanente.

         Mas, neste momento, o fato de a visita de Dilma não ser de Estado pode até ajudar. “Isso permitirá a ambos tratar mais de negócios “, avaliou Castro Neves. Carl Meachan, especialista em América Latina no Senado americano, vê no tratamento para a visita de Dilma um sinal de “fracasso” do governo Obama em dar o significado e a importância que o Brasil tem hoje para os próprios EUA e para o mundo. “É óbvio que a visita de Dilma deveria ser de Estado”, afirmou.

          Para Hakim, a diferença de tratamento pode ser vista até como um “certo insulto”, embora o Itamaraty insista ter havido comum acordo sobre o formato da visita. No final das contas, para Hakim, será como uma “visita a Ipanema”. “Eles vão conversar, tirar fotos. Mas, no dia seguinte, não haverá nenhum resultado, exatamente como aconteceu na época de Clinton e de Bush.”

PS: O propósito do blog é promover uma discussão construtiva, tendo como base as regras consagradas de polidez. Comentários preconceituosos não serão publicados. Da mesma forma, não permitirei a exposição de respostas ofensivas a outros leitores nem a mim. Este espaço não se prestará à propaganda partidária e tampouco estará aberto à veiculação de vídeos. Peço aos comentaristas se aterem ao conteúdo do debate. Obrigada

 

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Caríssimos,

Passadas 34 primárias republicanas, o presidente dos Estados Unidos e candidato a reeleição, Barack Obama, continua sorrindo. Sua vitória em novembro, neste momento, não chega a ser favas contadas. Mas está bem perto disso, alimentada especialmente pela disputa irascível entre seus quatro – na verdade, dois – potenciais adversários republicanos. A cavaleiro, o presidente está em permanente campanha há quase um ano, colhe doações a partir de US$ 5 e tem seus Super PACs  prontos para receber volumes milionários destinados à propaganda eleitoral. Vencê-lo será um desafio monumental ao republicano consagrado na convenção do GOP no final de agosto.

O ex-governador  de Massachusetts Mitt Romney,  milionário mórmon e ex-presidente de uma companhia de private equity, lidera a disputa republicana. Venceu as primárias em 21 Estados e territórios americanos e acumula neste momento 563 delegados para a convenção. O vencedor será o detentor de, pelo menos, 1.141 delegados. É o favorito do establishment republicano. Mas é moderado demais para o gosto dos eleitores atraídos nos últimos anos pelos ideais absurdos do Tea Party e de agremiações similares. Sua guinada para o conservadorismo extremo não parece convincente. Nos comícios, tem a presença de um boneco Ken, o namorado da Barbie.

Rick Santorum não conseguiu reeleger-se senador pelo Estado da Pensilvânia em 2006. Mas quer ser presidente dos EUA. Católico e vinculado a Opus Dei, ele tem paixão extremada pelos conceitos morais mais conservadores e demonstra sua fidelidade a essas ideias em sua história de vida. O episódio da gestação, nascimento e morte de seu sétimo filho, Gabriel, é um ícone do movimento pró-vida. Os evangélicos radicais o adoram. Os republicanos católicos, nem tanto. Santorum traz na ponta da língua, em seus comícios, a rejeição absoluta ao aborto e ao casamento homossexual. São suas bandeiras antigas. A aversão aos gays custou-lhe um sinônimo irreproduzível por este blog para o seu nome entre os leitores do site do ativista Daniel Savage.

Romney e Santorum se matam para ser o rival de Obama em novembro. Newt Gingrich e Ron Paul, sem chances, alimentam ainda mais o clima de agressividade da disputa republicana. Ícones do partido já apelaram pela calma e pelo debate construtivo. Não adiantou. Os dois candidatos criticam duramente o governo de Obama, prometem acabar com sua reforma dos planos de saúde e com a regulação bancária. Mas falam para um eleitorado que não votou nem vai reeleger o presidente. Parecem competir pelo posto de melhor crítico de Obama. O gasto de recursos financeiros e humanos e de energia nessas primárias dá mais uma vantagem a Obama. Quanto mais longo e penoso for o processo de escolha republicana, melhor a chance de reeleição do presidente.

Nesta quinta-feira, Obama visita Cushing, Oklahoma, e Columbus, Ohio. Trata-se de uma rara viagem sem eventos explícitos de campanha. No último dia 16, ele viajou a Chicago, seu berço político e sede de seu QG de campanha, e também para Atlanta somente para fazer comícios a platéias especiais e, obviamente, para arrecadar dólares. Essa agenda não foi uma exceção ao longo dos últimos 11 meses. Cada vez que o Air Force One levanta vôo, o custo mínimo para o contribuinte é de US$ 200 mil. Mas, se esse dado não parece impressionar a maioria dos meios de comunicação americanos.

Obama terá o desafio de convencer o eleitor democrata e o independente a deixar sua rotina em 3 de novembro para ir à seção eleitoral. Se continuarem a melhorar, os indicadores econômicos o ajudarão nessa tarefa. A retirada em setembro de 23 mil soldados do Afeganistão – o mesmo número enviado adicionalmente por Obama no final de 2009 – dará um sinal positivo aos eleitores cansados de guerras. Sua capacidade de convencer Israel a não iniciar um conflito com o Irã antes da eleição terá peso eleitoral, assim como sua habilidade em lidar com a questão síria. Mas, definitivamente, os US$ 163,2 milhões já arrecadados por sua campanha lhe dão uma vantagem expressiva enquanto Romney e Santorum se atracam. Vamos acompanhar.

PS: O propósito do blog é promover uma discussão construtiva, tendo como base as regras consagradas de polidez. Comentários preconceituosos não serão publicados. Da mesma forma, não permitirei a exposição de respostas ofensivas a outros leitores nem a mim. Este espaço não se prestará à propaganda partidária e tampouco estará aberto à veiculação de vídeos. Peço aos comentaristas se aterem ao conteúdo do debate. Obrigada

 

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A visita da presidente Dilma Rousseff à Casa Branca, no dia 9 de abril, vai assinalar a dificuldade de os Estados Unidos qualificarem o Brasil como parceiro, como faz com a China e a Índia. O aprofundamento das relações não se mostra possível. A líder brasileira não receberá nem sequer o grau de atenção e de honra de uma visitante de Estado. Por falta de tópicos mais encorpados, sua agenda positiva com o presidente americano, Barack Obama, terá como ponto principal o envio de estudantes brasileiros aos EUA. A negativa estará marcada pelas divergências entre Washington e Brasília sobre a Síria e o Irã e por imbróglios comerciais.

         A visita de Estado pode ser realizada uma única vez a cada país durante o mandato presidencial e prevê a presença do líder nas sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Assim foi recebido em Brasília o presidente americano, Barack Obama, em março de 2011. Ao declinar essa atenção especial a Dilma Rousseff, a Casa Branca argumentou não conceder esse tratamento a nenhum visitante neste ano eleitoral no país. A regra terá exceção. No próximo dia 14, Obama receberá o primeiro-ministro britânico, David Cameron, em visita de Estado e lhe oferecerá um banquete de gala.

         A comparação dentre Brasil e Reino Unido, aliado americano na coalizão em guerra no Afeganistão e na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), pode ser indevida. Mas indica não valer a pena, para a Casa Branca, abrir a exceção para o Brasil.  O presidente da China, Hu Jintao, foi recebido em visita de Estado em janeiro de 2011, e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, em novembro de 2009. Mike Hammer, secretário assistente de Estado para Relações Públicas, afirmou no último dia 08 “não haver resistência por parte dos EUA em aprofundar e ampliar as relações com o Brasil”.

Questionado se a resistência estaria no Brasil, ele se esquivou. “Isso você tem de perguntar para os brasileiros”.

Segundo Hammer, Síria e Irã serão temas abordados durante a visita. Há duas semanas, ele afirmara ser de interesse do governo americano ouvir o Brasil sobre a questão nuclear do Irã. Anteontem, indicou ser importante para Washington agregar o País a seu movimento internacional para forçar a renúncia do presidente sírio, Bashar al-Assad, apoiar a oposição e dar assistência humanitária.  “Queríamos ver o Brasil trabalhando conosco e com outros países para nos ajudar a pressionar al-Assad”, insistiu Hammer.

As respostas já são conhecidas pelo governo americano. O diferencial estará no tom da dupla negativa de Dilma Rousseff.

No âmbito bilateral, o recente cancelamento da compra de 20 aviões A-29 Super Tucano pelas Forças Armadas dos EUA, dois meses depois do anúncio da vitória da Embraer, trouxe desconforto para o governo americano apelar ao aumento do comércio e de investimentos bilaterais. A demora dos EUA em autorizar a importação de carne maturada do Brasil criou outra zona potencial de atrito. Esse compromisso tinha sido uma das contrapartidas americanas para evitar a adoção de retaliações do Brasil, com base no resultado da controvérsia sobre os subsídios ao algodão.

         Sem temas de impacto a serem fechados durante a visita, ambos os lados estão afastado termos como o “relançamento das relações bilaterais” ou a “parceria Brasil-EUA” para qualificar a primeira visita da presidente Dilma a Washington. Mesmo a ambição americana de ver no Brasil um futuro fornecedor seguro de petróleo esbarra na correta resistência brasileira em exportar combustível bruto de suas reservas do pré-sal. O etanol, nos EUA, perdeu relevância com o impulso do governo Obama à fabricação de carros elétricos, em vez de veículos movidos a álcool de milho.

         Nesse contexto, a Educação tornou-se única área de possível estreitamento das relações bilaterais. O governo americano vê no Ciência sem Fronteira, programa do Ministério da Educação que permitirá o envio de 12 mil estudantes brasileiros às melhores universidades do exterior, como uma iniciativa tão impactante na sociedade e na economia brasileira, no futuro, quanto a criação da Petrobrás, da Embrapa e do BNDES, no passado. Os EUA querem receber boa parte desse universo.

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02.maio.2011 02:16:48

Troféu de campanha

A morte de Osama Bin Laden deu a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, um troféu sem rival para sua campanha à reeleição. Pouco mais de 24 horas antes de anunciar o sucesso da operação da CIA em Abbottabah, no Paquistão, e a posse do cadáver do terrorista mais procurado pelos EUA nos últimos 13 anos, Obama falara aos jornalistas encarregados da cobertura da Casa Branca sobre a dura semana que enfrentara. Ao estilo dos melhores comediantes do país, ele rira de si próprio. Na semana, tivera de provar seu nascimento em território americano – Honolulu, Havaí, às 19h24 de 4 de agosto de 1961 – e justificar seu costumeiro uso de teleprompters.

         Obama conseguiu na noite de ontem tornar-se imbatível na campanha pela reeleição. Pelo menos, por enquanto. Sua popularidade já se mostrava em recuperação, em sintonia com os passos lentos da reativação da economia do país. Em sondagem eleitoral do USA Today/Gallup realizada entre os dias 20 e 23 de abril, recebeu 58% das intenções de voto. Nenhum dos pré-candidatos republicanos mostrou-se capaz de rivalizar. Esse indicador, claro, está longe de garantir sua reeleição.

          Mas, a cabeça de Bin Laden representará algo mais para sua história, como presidente dos EUA, e como candidato à reeleição, em novembro de 2012. Tudo depende da maneira como será explorado. Seu antecessor, George W. Bush, iniciou a Guerra ao Terror e teria certamente ajudado o candidato republicano em 2008, o senador John McCain, se tivesse mostrado ao público americano o mesmo troféu. A captura de Saddan Hussein não chegou a ter igual apelo.

 Os EUA, como ressaltou Obama ontem, não esqueceram os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e ao Pentágono, em Arlington. A infâmia não se resumiu à surpresa da potência militar com o ataque desferido em seu território pelos terroristas da Al-Qaeda, com quatro aviões comerciais sequestrados. Mas, ao fato de 3.000 pessoas – entre as quais, também muçulmanos – terem perdido suas vidas em solo americano. O culpado máximo por essa ofensa chamava-se Osama Bin Laden. Por enquanto, é só. Boa noite.

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Finalmente, saiu. Aliviado, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou de noitinha, na sexta-feira, ter concordado com “cortes dolorosos” no orçamento de 2011 e advertiu para a realidade dos dias de hoje da América: viver dentro das suas possibilidades. O acordo entre os partidos republicanos e democratas prevê um corte adicional nas despesas federais deste ano de US$ 39 bilhões. Porém, a difícil negociação dessa cifra antecipou o ambiente carregado de ambições eleitorais nos próximos debates no Congresso americano.

Não são nada fáceis os temas da agenda parlamentar relacionados às contas públicas do país. O primeiro é o orçamento de 2012 – ano de eleições presidenciais, para as quais Obama já é  oficialmente candidato. A proposta da Casa Branca prevê um total de gastos públicos de US$ 3,7 bilhões, a ser repudiado aos gritos pela oposição republicana e, principalmente, por sua facção extremista, o Tea Party.

O segundo tema polêmico será a proposta de impor um teto   para a dívida pública do país. O terceiro é o projeto do deputado federal Paul Ryan, republicano, de corte de US$ 4,4 trilhões no déficit público americano ao longo dos próximos dez anos. Sua proposta se mostra implacável com os programas de saúde e de assistência social para os mais pobres.

 Todos esses temas têm como pano de fundo o lamentável quadro fiscal dos EUA. O país registra déficit de US$ 1,3 trilhão e dívida pública de US$ 14,3 trilhões – mais de 100% do Produto Interno Bruto (PIB). Com o crescimento econômico em ritmo ainda lento, 13,5 milhões de desempregados (8,8% da População Economicamente Ativa) e mais 2,4 milhões de trabalhadores desalentados, os EUA estão à beira do default.

O debate sobre as contas públicas, entretanto, estará cada vez mais contaminado pelas ambições eleitorais. Sobretudo, pelos conceitos tortuosos do minoritário do Tea Party, que desconhece equações mais razoáveis para reduzir o déficit fiscal sem comprometer totalmente o necessário crescimento econômico e não tem apreço nenhum por programas sociais.

O corte de US$ 39 bilhões foi definido minutos antes de o prazo de negociação se esgotar, à meia-noite de sexta-feira. Sem um consenso, automaticamente seria proibido o acesso do governo federal americano aos recursos públicos. Em suma, o governo Obama ficaria paralisado até a aprovação definitiva do orçamento de 2011. A peça deveria ser sido sancionada até 31 de setembro passado, para entrar em vigor em 1º de outubro, primeiro dia do ano fiscal americano. Mas, as eleições legislativas de novembro contaminaram as discussões no Congresso.

Desde outubro passado, a Casa Branca vivia de provisões orçamentárias de curto prazo aprovadas pelo Congresso. O risco de essa situação voltar a se reproduzir a partir do próximo 1º de outubro, quando Obama estará imerso na sua campanha de reeleição, é elevado. A agenda interna americana para o próximo ano e meio definirá, por tabela, o país que os EUA querem ser: uma república de bananas ou uma república séria ao tratar de seus desafios. Vamos acompanhar.

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05.abril.2011 12:28:07

Bananas

Um amigo meu costuma dizer que os Estados Unidos são, na verdade,  uma grande república bananeira. A comparação é exagerada, provocadora, maliciosa. Mas, em alguns momentos dá o que pensar. Nesta semana há um caso, senão constrangedor, pelo menos de colorido tropical. O presidente da maior potência do mundo – ainda é, para o bem e para o mal – busca desesperadamente a aprovação do Congresso ao Orçamento para os seis meses restantes do ano fiscal de 2011. Desde o começo de outubro passado, Barack Obama tem administrado com base em autorizações temporárias e de curtíssimo prazo – duas ou três semanas – e  sempre sob a ameaça de ver seu governo travado.

         O Orçamento de 2011 deveria ter sido aprovado até 30 de setembro do ano passado, para entrar em vigor no dia 1º de outubro, o início do ano fiscal. A tramitação não foi concluída. Em dezembro, durante as sessões de votação dos projetos pendentes daquele mandato legislativo, o Orçamento de 2011 estava lá. Mas, o governo pôs mais empenho na aprovação do pacote de medidas tributárias para incentivar a economia, negociado com os republicanos. O Orçamento de 2011 sobrou. Nos seis primeiros meses do ano fiscal, o tema virou refém de interesses eleitoreiros, mal disfarçados nos discursos republicanos em defesa de um compromisso de ajuste fiscal mais vigoroso ao longo do tempo.

Mas, sua discussão mesclou-se à do Orçamento de 2012 – ano de eleição presidencial -, cujo projeto foi apresentado em fevereiro. As despesas previstas para o ano que vem são de US$ 3,699 trilhões, com corte de apenas 1,9% em relação ao projetado inicialmente para 2011. Os republicanos, com maioria na Câmara,  não gostaram nada disso. Nesta semana, Obama pretendia pôr um ponto final nessa história e aprovar um Orçamento deste ano com corte adicional de US$ 31 bilhões. A principal missão da Casa Branca será contornar as pressões do Tea Party, a ala radical republicana, por um corte mais fundo nas despesas, de US$ 61 bilhões. Mas, na final de semana, o presidente do Comitê de Orçamento da Câmara, republicano Paul Ryan, complicou o cenário ao apresentar um projeto de corte de despesas de US$ 4 trilhões em dez anos.  

Se não sair o acordo definitivo até a sexta-feira, 8 de abril, Obama novamente terá de se contentar com um arranjo de curtíssimo – o último, de três semanas, permitiu sua viagem ao Brasil, Chile e El salvador. Ou verá seu governo travado. Não se trata de um cenário inédito. Desde 1977, essa situação se repetiu 16 vezes. Na última delas, durante o governo de Bill Clinton, se estendeu entre o final de 1995 e o início de 1996. Nessas situações, funcionam apenas as áreas consideradas emergenciais para o país – Segurança Nacional, Relações Exteriores, Segurança de Transportes, Patrulha de Fronteira. As operações militares continuarão. Mas, a maior parte do funcionalismo público terá de ficar em casa. Tropical, não?

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Caríssimos,

Gostaria de retomar a primeira visita de Barack Obama à América Latina para tratar de uma séria pendência em sua agenda de governo. Imigração. A discussão de uma “reforma ampla do sistema” tem sido postergada e substituída por outras prioridades nos últimos anos, até mesmo quando Obama podia desfrutar da maioria folgada do partido democrata  nas duas casas do Congresso. Agora, com a composição mais republicana, a aprovação de um projeto imune a componentes xenófobos é impossível. O tema, quem sabe, possa ser  levado adiante se Obama for reeleito e se os democratas recuperarem a maioria na Câmara e maior folga no Senado, no ano que vem.  Sua omissão, entretanto, tem gerado um custo tremendo à sociedade americana. A ausência de um marco legal claro e  generoso (por que não?) tem sido ocupada por iniciativas locais, pelo preconceito crescente, pela intolerância.

 Sobretudo, com os imigrantes latino-americanos.

“Os Estados Unidos odeiam e sempre odiarão os imigrantes”, resumiu o cientista político David Shirk, da Universidade de San Diego, ao falar com jornalistas inscritos em um programa sobre imigração do Foreign Press Center, o braço do Departamento de Estado para a imprensa estrangeira no país.  “Todo grupo de fora enfrentou forte rejeição social. Antes, foram os irlandeses e os alemães. Hoje, são os latinos.”

Obama esteve em El Salvador no dia 22, a última parada de sua primeira visita à América Latina. O país foi escolhido pela Casa Branca como um exemplo de relação bilateral almejada na América Central e por sua enorme população emigrada aos  EUA. Atualmente, dois milhões de salvadorenhos vivem no país em uma espécie de limbo, com residência temporária e apenas a promessa de sua efetivação. A comunidade salvadorenha nos EUA enviou de volta ao país US$ 3,5 bilhões no ano passado – cerca de 30% do PIB. Em sua visita a San Salvador, entretanto, Obama apresentou-se de mãos vazias. Não pôde escapar de perguntas da imprensa nem das cobranças do presidente salvadorenho, Maurício Funes. Porém, não tinha mais do que sua antiga promessa a reiterar.

Cerca de 11 milhões de imigrantes vivem nos EUA sem autorização. A metade deles veio do México. Dos 308,7 milhões de habitantes do país, 50,5 milhões ou 16% são estrangeiros, regularizados ou não, de acordo com dados divulgados na semana passada pelo Census Bureau. Os EUA cada vez mais se “latinizam”. E cada vez mais há resistência a esse avanço.

No ano passado, a Câmara Estadual do Arizona aprovou uma lei para permitir a abordagem de policiais aos suspeitos de imigração ilegal e para encaminhar os indocumentados para a deportação. Essa atribuição não cabe à polícia, mas aos agentes de imigração. A aplicação da lei foi suspensa pela Corte Suprema de Justiça. Entretanto, os Estados de Oklahoma, Georgia, Mississipi, Nebraska, South Carolina e Pennsylvania pretendem seguir o mesmo caminho.

 No início do ano, deputados federais de cinco Estados apresentaram propuseram a eliminação do direito de anistia a imigrantes ilegais cujos filhos, nascidos nos EUA, tenham completado 21 anos. O texto contraria a 14ª Emenda da Constituição americana. Em dezembro passado, o Senado rejeitou o projeto de lei da Casa Branca para permitira a permanência no país de filhos de imigrantes ilegais por cinco anos e o acesso deles às universidades e ao serviço militar.

As três iniciativas nasceram no vácuo deixado por Obama. No seu discurso “O Estado da União”, no último dia 25, Obama mostrou-se disposto a buscar uma solução negociada. Mas,  no Congresso e nas regiões receptoras de imigrantes, o debate é acalorado. O partido republicano, sobretudo seu setor mais à direita (Tea Party), se opõe a qualquer concessão. Este momento pré-eleitoral nos EUA dificulta ainda mais um debate sério sobre o tema. Um ex-assessor de George W. Bush na Casa Branca, Rúben Barrales, hoje presidente da Câmara de Comércio de San Diego, considera seus companheiros republicanos “inábeis” ao tratar a questão. “O partido terá de fazer concessões à comunidade hispânica se quiser ser majoritário”, afirmou. Mas, americanos como Ira Mehlman, presidente da Federação para uma Reforma Americana de Imigração, os estrangeiros sem documentos são uma “ameaça”. “Eles são um sacrifício de investimento.”

Por hoje, é isso.

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Meus caros,

O voto do Brasil em favor da investigação de violações dos direitos humanos no Irã foi muito bem-vindo. A posição omissa do governo  nessa questão não só nos feria, como cidadãos, como também representava um viés abominável da nossa política exterior – ditada conforme os interesses dos principais gabinetes de Brasília, distantes dos interesses da Nação, nos últimos oito anos. A iniciativa brasileira diante do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nesta manhã, confirmou a declaração de Dilma Rousseff ao jornal Washington Post, ainda como presidente eleita, em dezembro passado. Porém, o teste real da mudança de atitude do novo governo brasileiro nessa questão virá apenas quando as violações de direitos humanos em Cuba e na Venezuela forem submetidas a voto no mesmo Conselho.

Tanto nos tempos de Luiz Inácio Lula da Silva quanto na era Fernando Henrique Cardoso, o Brasil se absteve de votar resoluções de condenação a Cuba pela violação dos direitos humanos. A justificativa estava na proposta sempre politicamente enviesada dos Estados Unidos, em contradição com sua política doméstica e em relação a seus aliados. Nos últimos oito anos, a oportunidade de negócios justificou uma maior aproximação e boa vontade do governo para com os regimes dos irmãos Castro, de Hugo Chávez, de Muamar Kadafi, com benefícios visíveis para parte da indústria brasileira e para as empreiteiras.

Porém, o gabinete presidencial acrescentou outras razões, ainda opacas para os contribuintes brasileiros. Não passou incólume e sem profunda vergonha a comparação repetida duas vezes pelo presidente Lula, há um ano, dos presos políticos cubanos a criminosos comuns. Ainda causa espanto sua reiterada defesa ao regime político bolivariano, como na vez em que declarou haver “excesso de democracia na Venezuela”. A desconstrução das instituições venezuelanas, por obra de Chávez, foi sublimada pelo governo brasileiro, quando não aplaudida discretamente.  

         Dilma Rousseff e seu chanceler, Antônio Patriota, ainda não deram uma palavra sobre a democracia e os direitos humanos nesses países. Tampouco houve movimentos populares, como no Oriente Médio e no Norte da África, nem votações no Conselho de Direitos Humanos para pôr em xeque a posição do novo governo sobre direitos humanos. Não sabemos ainda se as mesmas motivações da gestão Lula serão preservadas por sua sucessora. Será preciso algum tempo para, aos poucos, os caminhos da política externa brasileira no governo Dilma serem testados e averiguados. Até lá.

         Recomendo a leitura dos comentários sobre os direitos humanos na Arábia Saudita no blog de Gustavo Chacra, “De Beirute a Nova York”.

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Meus caros,

No ano que vem, quando desembarcar na Colômbia para a reunião de Cúpula das Américas, o presidente Barack Obama terá de enfrentar o estrago de seu discurso de ontem em Santiago. A expectativa gerada por seus principais assessores era de uma “fala emblemática” para a América Latina dentro do complexo do Palácio de La Moneda, assim como havia sido o seu discurso no Cairo, em 2009, para o mundo árabe. O texto lido por ele, entretanto, falhou de cima a baixo.

         Obama não fez o necessário mea-culpa dos EUA pelo seu apoio ostensivo aos golpes de Estado organizados pelas forças militares dos países da região nos anos 60 e 70. Estava no La Moneda, mas não se referiu ao presidente Salvador Allende, morto nesse palácio depois de severo bombardeio das tropas comandadas por Augusto Pinochet. Lembrou-se dos 40 anos da Aliança para o Progresso, iniciativa para a região do então presidente John Kennedy, mas não aproveitou para relançá-la.

A maior potência do planeta, capaz de destinar US$ 1,6 bilhão ao ano em cooperação militar ao Egito, trouxe de Washington um “grande anúncio para a América Latina: um programa de intercâmbio anual para 100 mil estudantes latino-americanos aprenderem inglês e contribuírem para uma região bilíngüe. Só isso? Sim. E o que mais? Nada.

         O texto do discurso mencionou, quase en passant, as violações de direitos humanos em Cuba. Insistiu no fortalecimento da democracia e em uma reafirmação dos compromissos da Carta Democrática Interamericana. Venezuela? Nenhuma menção à sistemática destruição das instituições venezuelanas pelo regime de Hugo Chávez – cuja resposta destemperada a uma fala crítica de Obama poderia ser diluída pelo mea-culpa pela atitude da Casa Branca de apoiar as ditaduras militares da região.

         Um assessor da Casa Branca ainda tentou contornar a constatação de fracasso do discurso feita por jornalistas espanhóis, latino-americanos e esta brasileira. Obama quis voltar-se ao “futuro”, desmotivar o apego aos erros do passado, defendeu. A ausência de aplausos nas frases escritas justamente para motivá-los, foi desculpada pela arquitetura pouco propícia do Centro Cultural do La Moneda e à platéia chilena, mais reservada. 

         A escusa mais importante, entretanto, foi a de que a Casa Branca acredita ser ainda muito cedo para um mea-culpa. “Isso acontecerá dentro de uns 15 anos. Não antes.”

         No Cairo, Obama foi mais ousado.  Suas palavras contribuíram para despertar a sempre necessária luta pela democracia, mesmo quando já instituída oficialmente. Quiçá tenha estimulado a onda de manifestações pró-democracia na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Bahrein, no Iêmen e na Jordânia. Em Santiago do Chile, ao contrário, Obama desperdiçou palavras e tempo. Até mais.

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18.março.2011 03:40:18

No rastro de Obama

Meus caros,

Acompanho nos próximos dias as viagens do presidente dos EUA, Barack Obama, para o Brasil, o Chile e El Salvador. A cobertura será publicada em O Estado de S. Paulo. Convido todos a essa leitura. Na medida do possível, escolho temas especiais para os leitores do blog. Obrigada e até mais.

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