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Dener Giovanini

23.junho.2012 13:33:06

AS VERDADES INCONVENIENTES DA RIO+20

Se os resultados da Rio+20 não foram satisfatórios, não foi por culpa da reunião em si e muito menos por causa da atuação do governo brasileiro. A culpa é da expectativa daqueles que esperavam mais do que um encontro como esse pode produzir. O documento final da conferência contém algumas medidas e avanços importantes, porém, se ele ficará para a história apenas como mais um amontoado de boas intenções, só o tempo irá mostrar. Assim como na Eco92, os delegados das comitivas estrangeiras estão retornando aos seus países cabisbaixos e com a sensação de que não foram eficientes como gostariam. Esse sentimento também marcou o fim da conferência de 20 anos atrás.

A vilã da história, mais uma vez, foi a economia global. E ao contrário do que alguns ambientalistas querem fazer crer, o momento econômico na Europa, foi sim, uma barreira importante para que algumas propostas mais ousadas fossem colocadas de lado. Os investimentos necessários à implementação da tal “economia verde” são grandes, e a maior parte dos países não consegue vislumbrar uma fonte de financiamento estável, que promova a erradicação da pobreza e a criação de mecanismos de produção mais limpos e eficientes. Economia e meio ambiente são indissociáveis. Políticas econômicas irresponsáveis podem arrasar o meio ambiente. Políticas ambientais equivocadas podem destruir a economia. Portanto, se engana quem afirma que as crises econômicas são meras desculpas para se adiar um compromisso mais forte com a saúde do planeta. Realmente não são.

Se a cúpula governamental, reunida no Riocentro, não conseguiu chegar afinada a uma solução de consenso, a Cúpula dos Povos – ou encontro das ONGs no Aterro do Flamengo – também não conseguiu apresentar propostas convincentes e viáveis para resolver os desafios mundiais. Fora as manifestações teatrais de sempre – e o palco para os oportunistas ambientais de plantão – as ONGs só conseguiram produzir um documento lamurioso, inócuo e sem importância. Mais uma vez falou-se muito e se fez pouco. Se o tempo passa para os governos, também passa para os movimentos sociais. De 1992 até hoje, foram vinte anos de manifestações coloridas, com muita tinta na cara, coletes ministeriais e cartazes apocalípticos nas mãos. E o resultado todos conhecem: o mundo não melhorou.

A ministra do Meio Ambiente do Brasil, Izabella Teixeira, fez duras críticas ao movimento ambientalista durante um dos eventos paralelos da Rio+20. Na sede do BNDES, onde participava de um debate junto com autoridades estrangeiras, a ministra foi interrompida grosseiramente por uma manifestante, que aos gritos de que o “Brasil não era um país democrático”, tentou acusar o governo brasileiro pelo fracasso das negociações. Recebeu (e muito bem recebido) o troco da ministra, que numa demonstração de extrema confiança e certeza do que falava, expôs claramente o vazio e a irracionalidade desse tipo de discurso.

Ao contrário de alguns jornalistas, que só publicaram um pequeno trecho (o que lhe interessava, é óbvio) do vídeo do embate da ministra, posto na íntegra o registro da discussão:

Para o cidadão comum, que assiste estarrecido a infantilidade de parte do movimento ambiental brasileiro fica, cada vez mais, a certeza do quanto esse segmento ainda precisa amadurecer. Movimento que, representado por algumas ONGs ambientais que participaram ativamente dos oito anos do governo do ex-presidente Lula, ajudaram, e muito, a construir uma história de retrocessos ambientais. Muitas das vozes que hoje se levantam para bradar o mantra do desenvolvimento sustentável, se calaram ao lado da ex-ministra Marina Silva, quando ocupavam cargos na Esplanada dos Ministérios.

Definitivamente a Rio+20 não pode e nem deve ser classificada rasamente como boa ou ruim. O encontro das Nações Unidas cumpriu o seu principal objetivo: foi um espaço livre e democrático para que as nações pudessem apresentar as suas visões de presente e de futuro. Daqui pra frente, devemos continuar seguindo uma máxima que nasceu na Eco92: pensar globalmente e agir localmente. Os pensamentos globais já foram postos à mesa. Agora, é a hora da ação.

comentários (8) | comente

8 Comentários Comente também
  • 23/06/2012 - 17:00
    Enviado por: joão Donizeti da Silva

    Parece que há uma ação organizada de governo ,inprensa,contra o movimento ambientalista,Quem faz e desfaz é o governo e parlamentares que acabaram com o melhor código florestal do planeta.O governo e sua marionete(Izabella ),são os responsáveis.por retrocessos nunca tidos antes na história deste país,portanto quem critica um movimento justo em defesa de nossas florestas ,por um modêlo de agricultura diferente do atual onde quem manda são as multinacionais,deveria se reciclar antes de tomar partido de quem comanda um país que está ficando totalmente insustentável sob todos os aspectos.ACORDABRASIL

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    • 24/06/2012 - 13:23
      Enviado por: Mário Ferreira Neto

      Esperar discurso crítico de um dos grandes atores de desmatamentos (via INCRA – 2008, 44% do desmatamento da amazônia legal) e de um grupo político do executivo financiado por construtoras e mineradoras (somados deram 30% de toda a doação para a campanha de Dilma) seria muita maturidade por parte dos agentes públicos eletivos.

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  • 23/06/2012 - 18:24
    Enviado por: Alexandre de Queiroz

    Ando de saco cheio de todo cidadão “engajado”, um bando de chato que fica usando das suas “causas” como pretexto para fazer baderna. O Dener é um bom exemplo de empreendedor social que não precisa dar chilique para expor suas ideias, ele tem um trabalho REALIZADO e que é seu maior e melhor cartão de visitas. A conferência certamente terá resultados visualizados a longo prazo, só espero que não seja apenas uma forma de as nações ricas imporem mais uma vez aos países emergentes as suas próprias regras. A ministra foi brilhante em sua posição e deu um lindíssimo tapa de luva na mocinha alterada. Precisamos de mais participação efetiva e de menos chilique de patricinha metida a “alternativa”.

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    • 24/06/2012 - 13:19
      Enviado por: Mário Ferreira Neto

      A ministra só não explicou muito bem sobre a liberação da obra de Belo Monte jogando a bomba para o ex-ministro Carlos Minc.

      Outro ponto questionável é o fato de usar como bandeira do MMA uma diminuição do desmatamento para 6 MIL KM quadrados/ano, o que continua sendo um número imenso e vergonhoso para um ministério.

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  • 23/06/2012 - 22:43
    Enviado por: Flávio Mello

    Denner, a surpresa aparentemente foi do governo, que veio trabalhando duramente para que na Rio+20 não a causa social e econômica fosse mais importante que a ambiental, como se não houvesse relação entre elas. A preocupação em gerar um documento qualquer que fosse foi mais importante do que assumir a liderança no processo. Afinal que liderança haveria de um pais que desmonta o código florestal, anuncia subsidios ao uso da gasolina e investe em hidreletricas em massa na Amazonia, em detrimento de fontes alternativas mais próximas dos eixos consumidores? A surpresa pela grita das ONGs e comunidade cientifica é só da imprensa alienada e dos governos…Depois aquela volta atrás do Ban Ki Mun não diz nada para você hehehehehe

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  • 24/06/2012 - 03:21
    Enviado por: Eduardo

    As críticas feitas aos ambientalistas me parece um pouco exagerada. Se for pra colocar a história toda para entender o que realmente motivou essa discussão vergonhosa, deveria se fazer um retrospecto desde o início dos projetos e como foram aos poucos sendo empurrado e atropelado e desrespeitados muitas das normas e acordos para ser implantado o novo código florestal e as hidrelétricas na amazônia. Esse momento não é para ser visto como um debate onde um lado os ambientalistas e do outro o governo. Esse momento foi um momento de protesto, legítimo e democrático. Imaginamos que não houvesse esse protesto, o que seria exposto para o mundo todo, seria uma visão inteiramente governista, ditado pela criteriosa norma interna do governo para que sempre, haja o que houver, dizer que o Brasil é o melhor país em todos os aspectos, e que tudo que está errado é obra de governos antes do governo atual. Isso é norma ditada até mesmo para os funcionário públicos federais, sob pena de ser demitido ou afastado ou mesmo sofrer alguma perseguição. Portanto eu parabenizo a manifestante que se expôs desta forma e provocou uma reação contrária do que o governo do nosso país esperava vender.

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    • 24/06/2012 - 13:28
      Enviado por: Mário Ferreira Neto

      Democráticas foram as discussões da Cúpula dos Povos, lá se debateu, lá se discutiu. A conferência no Rio Centro não debateu as demandas sociais e ainda se valeu de dispersar em temas de economia e direitos reprodutivos da mulher. Óbvio que ambos os temas possuem relação com a área ambiental, mas não foram analisados dentro dessa ótica.

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  • 25/07/2012 - 12:52
    Enviado por: Evânia Silva

    Boa tarde Dener, é um prazer enorme em conhecê-lo. Li seu artigo sobre os defensores de animais e fiquei extremamente emocionada com a clareza de seus pensamentos e a sensibilidade que voce tem, só pessoas sensíveis assim são capazes de vislumbrar o que uma pessoa sente quando se fala de maltratos a animais. Parabéns, voce conquistou mais uma fã. Obrigado pelo artigo, pela sinceridade, pela sensibilidade e por fazer de nossos sentimentos suas palavras. Parabéns pelo profissional que és.

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    Quem Faz

    Dener Giovanini

    É ambientalista e documentarista cinematográfico. É membro do Conselho Global contra o Comércio Ilegal Mundial, mantido pelo G20 e ONU. Produz séries e documentários para cinema e TV. www.denergiovanini.com.br

    O blog tem a colaboração de Erika Suzuki.

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