O dilema dos eletrônicos baratos
- 13 de fevereiro de 2012|
- 15h36|
- Por David Pogue
Na semana passada, um importante artigo do New York Times enviou ondas de choque ao setor de tecnologia de consumo ao focar nas tragédias e condições de trabalho na Foxconn, a fábrica chinesa de produtos eletrônicos que produz os iPhones da Apple. O artigo descreve a jornada de trabalho exaustiva, dormitórios abarrotados de trabalhadores, a eliminação imprópria de lixo perigoso e a falta de segurança no trabalho.
Essas revelações chocaram muitos fãs da Apple – e animaram muitos inimigos da Apple. Há petições e seções de comentários inundadas. Na manhã de ontem, manifestantes entregaram petições em seis grandes lojas da Apple, incluindo a nova no Grand Central Terminal.
O artigo e a reação são saudáveis. Ninguém que ver trabalhadores sendo explorados, e se Apple pode pressionar a Foxconn para esta limpar suas operações, ela deve fazê-lo.
A Apple é o exemplo clássico para as condições na fábrica da Foxconn, e não por acaso é a companhia mais lucrativa de produtos eletrônicos. Ela é um alvo grande e espetacular. Há, porém, um fator importante que parece estar completamente ausente da conversa, embora tenha sido comentado no artigo: a Apple não é a única companhia que monta eletrônicos em fábricas chinesas. A verdade é que quase todas fazem isso.
Os outros clientes da Foxconn são um Quem é Quem da eletrônica de consumo: eles montam celulares, TVs, computadores, leitores de e-books, roteadores, circuitos impressos, consoles de jogos, e assim por diante. Seus clientes incluem Amazon, Barnes & Noble, Asus, Hewlett-Packard, Dell, Intel, IBM, Lenovo, Microsoft, Motorola, Netgear, Nintendo, Nokia, Panasonic, Samsung, Sharp, Sony e Vizio.
E isso apenas a Foxconn. Há outras grandes fabricantes eletrônicas chinesas.
Como diz o artigo do jornal, “Condições de trabalho soturnas foram documentadas em fábricas de produtos manufaturados para Dell, Hewlett-Packard, IBM, Lenovo, Motorola, Nokia, Sony, Toshiba e outras”.
É seguro dizer que a maioria dos produtos eletrônicos vendidos nos Estados Unidos é fabricada nessas fábricas chinesas.
Portanto, sim, devemos pressionar a Apple a continuar exercendo pressão sobre a Foxconn. Mas, ao mesmo tempo, parece que estamos ignorando uma questão muito maior e mais importante: que importância damos a isso?
Que os trabalhadores chineses recebem menos que os americanos não é novidade. Sempre soubemos disso. É por isso, aliás, que todos terceirizam operações na China. Há uma longa lista de custos de fabricação chineses que são mais baixos que os custos de fabricação americanos: salários de empregados horistas, benefícios trabalhistas, impostos, o custo de energia, construções e equipamentos, etc.
Elevar as condições no local de trabalho e os salários em fábricas chinesas a níveis americanos certamente provocaria um aumento no preço de nossos eletrônicos. Quanto, é difícil dizer, mas um analista financeiro de uma companhia que terceirizada operações calcula que um iPhone de US$ 200 poderia custar US$ 350 se fosse produzido aqui.
Será que nos importamos o suficiente com as condições nas fabricas chinesas para pagar quase o dobro por nossos celulares, tablets, câmeras, TVs, computadores, unidades de GPS, camcorders, tocadores de música, aparelhos de DVD, DVRs, equipamento de rede e equipamento estéreo?
Nem todos dirão sim.
Mas imaginemos que dissessem. Como chegaríamos lá? Quais marcas de eletrônicos saltariam primeiro?
Em outras palavras, que garantia teriam as Apples, Dells e Panasonics de que, se obrigarem seus fornecedores chineses a adotarem salários e condições de nível americano, seus competidores fariam o mesmo simultaneamente?
Essa é a parte ausente nos protestos. A Apple deveria ser a única companhia a assumir os custos de melhorar as condições de produção? Os manifestantes estarão buscando um mundo em que um iPhone custa US$ 350
e um telefone Android concorrente custa US$ 200?
Ou nós realmente queremos que todas as companhias adotem essa medida simultaneamente?
A questão é complexa. Ela é problemática. Nós, consumidores, queremos nosso eletrônicos reluzentes. Nós os queremos baratos, mas também desejamos que eles sejam produzidos por trabalhadores saudáveis e bem remunerados.
Mas, aparentemente, não podemos ter as duas coisas. Cedo ou tarde, teremos de fazer uma escolha. A falha, caro Brutus, não é apenas da Apple, ou da China – é nossa também.
/ Tradução de Celso Paciornik
* Publicado originalmente em 9/2/2012.
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