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Até os profissionais de vídeo cometem erros

  • 25 de junho de 2012
  • 18h13
  • Por David Pogue

Voltando de uma gravação, na semana passada, para a série PBS que estou hospedando, NOVA ScienceNow, contei a história de um câmera com o qual trabalhei, no início da minha carreira, que, vivia um clássico pesadelo: Ele descobria que não tinha filmado quando achava que tinha, e que tinha filmado quando achava que não tinha. Talvez não estivesse sintonizado com o comando de Gravação. (A nova temporada do programa terá seis episódios, de uma hora de duração cada um, com estreia em outubro.

Contei o fato pensando em animar Jimmy Jay Frieden, nosso operador de câmera na gravação daquele dia. O outro sujeito era um profissional, e cometia o mesmo erro que todos os pais que têm uma vídeo câmera cometem uma vez ou outra.

Para minha surpresa, Frieden balançou a cabeça: “Acho que não existe um câmera que não tenha cometido este erro em algum momento – até eu”, afirmou. “Mas só acontece uma vez; depois disso, nunca mais você volta a errar”.

Fiquei surpreso. Mas ele mencionando ainda dois fatores que contribuem para incorrer neste erro. Em primeiro lugar, as câmeras de vídeo profissionais gravam o código do tempo: horas, minutos, segundos, dados do quadro que estão impressos embora invisíveis em cada quadro para ajudar os editores a sincronizar, anotar e identificar os vários clipes enquanto trabalham.

A câmera pode ser regulada de acordo com um ou outro de dois sistemas de código de tempo, dependendo das preferências do produtor ou editor. Se você a regula para “gravar” (record run), a câmera aciona o código do tempo somente quando você está gravando, conforme foi determinado no início da fita, do disco ou da sessão de gravação. No visor, você vê os números indo para cima quando você grava, e congelando quando você para.

Entretanto, se você regula a câmera para “(free run) gravar livremente” ou marcando a “hora do dia”, o código de tempo corre sem parar, e a sequência rodada aparece com a hora do dia impressa. Desse modo, os editores podem sincronizar o material filmado com várias câmeras que pararam e começaram em momentos diferentes.

O problema da “hora do dia”, entretanto, é que o seu visor mostra as horas que correm: minutos, segundos, mesmo que você não esteja gravando (rolling). Deveria haver um sinal que permitisse distinguir “rolling”; “not rolling”.

Mas a mudança atual para as câmeras totalmente digitais gera um segundo problema. Na época em que se usava fita, ao tocar em Gravar você provocava o som fraco de um mecanismo rodando que produzia em suas mãos a sutil vibração do movimento mecânico. Com as câmeras digitais, segundo Jimmy, estes sinais de que você acionou o mecanismo de gravação desapareceram; a câmera é absolutamente silenciosa, quer você esteja rodando, quer não.

Jimmy falou também que os comandos das câmeras de hoje são muito sensíveis, e às vezes estão localizados em lugares complicados. OK, me convenci: até os profissionais podem ser desculpados por pegarem a síndrome que mencionei há pouco: você acha que está gravando, mas não está.

Mas só uma vez.

* Publicado originalmente em 25/6/2012.

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Mensagens de ódio e a nova guerra religiosa na tecnologia

  • 22 de junho de 2012
  • 20h08
  • Por Murilo Roncolato

O recado de um leitor:

“Seu artigo publicado hoje no New York Times foi uma idiotice. O Galaxy S III é um celular de nerds, um verdadeiro desastre em termos de hardware, sem personalidade nem coração. O aparelho não passa de mais um celular de última geração sem nenhuma novidade digna das novas tecnologias que traz. Mais pixels e nenhuma visão.

Antes você sabia escrever. Agora só produz esse lixo?!

Seria melhor demiti-lo e colocar no seu lugar alguém que tenha ideia
do que está fazendo.”

Receber mensagens deste tipo é algo que faz parte do trabalho de um crítico de tecnologia. Tenho certeza que os críticos de teatro, de música e de arte também recebem sua parcela de mensagens elogiosas. “É impossível agradar a todos”, diz meu filho adolescente.

Francamente, hoje em dia, minha primeira reação é a curiosidade. O que se passa, exatamente, com estes leitores? Como é possível que algo inanimado, produzido em massa e transformado em commodity, como um celular, pode irritá-los tanto?

Tomemos como exemplo o leitor cuja mensagem citei acima. Quando ele escreveu a mensagem, o celular não tinha nem mesmo sido lançado. Não havia como ele ter testado o aparelho. Portanto, seria impossível para ele avaliar se o aparelho seria de fato “um verdadeiro desastre em termos de hardware, sem personalidade nem coração”. Então, o que poderia tê-lo levado a escrever com tanta confiança a respeito do celular?

Nos anos 80 e 90, as guerras religiosas no mercado de eletrônicos eram mais fáceis de compreender. Naquela época havia dois lados: Apple e Microsoft. Os defensores da Apple detestavam a Microsoft porque (de acordo com o raciocínio deles) a empresa tinha se tornado grande e bem sucedida não por causa de seus produtos de qualidade, e sim por roubar ideias e executá-las de maneira desajeitada. Os defensores da Microsoft detestavam a Apple porque (de acordo com o raciocínio deles) seus consumidores e produtos eram metidos, elitistas e caros demais.

Havia também a questão da zebra, do azarão, uma dinâmica Davi-versus-Golias. Era divertido torcer por um lado ou pelo outro. A hostilidade contra Microsoft e Apple não diminuiu. (No lançamento de um produto na semana passada, sentei-me ao lado do colega Walt Mossberg, que escreve sobre tecnologia para o Wall Street Journal.

Rimos ao comentar as mensagens de ódio que recebemos; na verdade, Walt identificou algo que ele chama de Doutrina da Adulação Insuficiente. Trata-se de quando publicamos uma resenha extremamente elogiosa a respeito de um produto da Apple – mas recebemos mesmo assim mensagens furiosas dos fãs da Apple porque, na opinião deles, nossos elogios não teriam sido suficientes.)

Mas, com o passar do tempo, novas religiões ascenderam: Google. Facebook. Nos fóruns de debate a respeito da fotografia, batalhas semelhantes consomem os defensores de Canon e Nikon. Há até guerras religiosas nos e-books: Kindle vs. Nook.

E agora: Samsung.

Samsung? Bem-vinda à primeira divisão.

O que está havendo, afinal? Por que uma pessoa dedicaria o tempo do seu dia para verter uma torrente de veneno contra o responsável pela análise de um celular?

Na política, os cientistas descrevem uma teoria da comunicação chamada de efeito hostil da mídia. Trata-se de quando temos a impressão de a cobertura da mídia a respeito de um tema importante ser enviesada e contrária à nossa opinião, independentemente do quanto a cobertura seja equilibrada e imparcial.

Mas, no universo dos eletrônicos, este efeito é ampliado pela poderosa força motivadora do medo.

Quando compramos um produto, estamos de certa maneira fazendo uma escolha que traz prós e contras. Nós nos vinculamos a uma marca. Muitas vezes, assumimos o compromisso de investir milhares de dólares em software para a plataforma escolhida, ou nas lentes para aquela câmera, ou nos e-books para aquele leitor de livros em formato eletrônico. É grande e profundo o interesse que temos em ter feito a escolha certa. Sempre que aparece alguém e diz, num texto impresso, que pode haver uma opção melhor – bem, trata-se de algo assustador.

Neste caso, tem-se a sensação de que o resenhista não está apenas criticando seu novo aparelho. Ele está criticando o dono do aparelho. Ele está insultando sua inteligência, pois não foi este o produto que você escolheu. Ele está dizendo que você fez a escolha errada, e aqueles milhares de dólares em aplicativos e lentes e e-books não passaram de dinheiro rasgado. Ele está dizendo que o consumidor é um tonto.

No universo dos dispositivos, o efeito é amplificado pelas aparências sociais. Devemos provavelmente agradecer à Apple por transformar os eletrônicos num acessório da moda: você é aquilo que leva consigo.

O Zune, da Microsoft, por exemplo, era um belo reprodutor de MP3, de excelente design. Assim sendo, por que o produto fracassou? Porque ter um dispositivo daqueles era considerado extremamente fora de moda. O iPod estava na moda. As silhuetas dançantes nos anúncios do iPod eram bacanas. Você não gostaria que os outros o considerassem uma pessoa patética, não é?

Mais uma vez, uma resenha que critique o dispositivo que você comprou acaba insultando a pessoa do comprador. Não está dizendo apenas, “você fez a escolha errada”; agora, diz também, “e você tem um péssimo
gosto”.

Está bem. Mas, por que os eletrônicos? Por que não vemos guerras de insultos entre os defensores de diferentes marcas de cereal matinal, de firmas de locação de carros ou de empresas seguradoras?

Sem dúvida, parte da resposta está no fato de estes produtos não terem sido transformados no objeto de resenhas padronizadas, como ocorreu com os livros, peças de teatro, filmes, restaurantes e produtos tecnológicos. Não há no Times uma coluna semanal analisando os cereais matinais. (Ei, editores! Estão prestando atenção?)

Mas, no ramo dos eletrônicos, a internet é sem dúvida um fator importante. Os produtos tecnológicos são o objeto de guerras religiosas porque a própria internet é um fórum de debate técnico. E seu anonimato encoraja as pessoas a manifestarem suas frustrações de uma maneira que jamais seria aceitável nem tolerável numa conversa cara a cara.

Eu adoraria sugerir que fôssemos todos mais civilizados nas nossas interações. Adoraria propor que os leitores escrevessem suas objeções de maneira menos virulenta. Seria ótimo se as pessoas pudessem aprender que são indivíduos dignos independentemente dos modelos de aparelhos eletrônicos que possuam.

Mas isto seria como dizer, “Devemos fazer mais exercício” ou “Os países deveriam manter boas relações entre si”. Há coisas que são da natureza humana, demasiadamente arraigadas para que possam ser mudadas.

Aparentemente, a sensibilidade associada aos dispositivos eletrônicos é uma delas.

* Publicado originalmente em 21/6/2012.

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