Transporte público surpreende em Londres
31 de julho de 2012 | 5h27
Daniela Milanese
Os moradores de Londres saíram de casa no primeiro dia útil da Olimpíada preparados para o pior no caminho ao trabalho. Já estava na conta a possibilidade de trânsito caótico e multidões nas estações de metrô e trens, que lotariam os vagões para além do aperto tradicional e provocariam atrasos e canseira. O que se viu, na verdade, foi uma calmaria surpreendente.
Em pleno horário do rush, ninguém dizia que os Jogos Olímpicos estavam acontecendo na cidade. Às 8 horas da manhã, era possível fazer todo o percurso entre o sudoeste e a estação de London Bridge, no centro, sentada confortavelmente no vagão do metrô, algo complicado num dia normal. A mesma tranquilidade era vista em direção ao leste, rumo ao centro financeiro de Canary Wharf. Quem precisou dirigir o carro, também não teve do que reclamar, diante das ruas menos carregadas do que o esperado. O movimento dos executivos apressados não colidiu com o grande fluxo de torcedores no trajeto ao Parque de Greenwich, onde ocorrem as provas de equitação, e ao Parque Olímpico.
Eis que surgiu a pergunta: se a expectativa era receber um milhão de pessoas a mais por dia no sistema de transporte, onde foi parar todo mundo? Resposta: uma parte achou melhor trabalhar em casa, outros saíram mais cedo, houve aqueles que optaram por estações alternativas e outros abandonaram a torcida e saíram de férias.
A população, na verdade, foi bombardeada durante meses por alertas sobre o risco de caos no transporte. Criou-se até uma angústia de que as atividades diárias ficariam inviáveis durante os Jogos. Foi por puro medo e precaução que os moradores adotaram planos diferenciados.
Por e-mail, os usuários do sistema de transporte foram informados que a estação de London Bridge teria nesta segunda-feira o seu dia mais lotado, pela conjunção de eventos esportivos. O mesmo temor rondava Canary Wharf, em razão da concentração corporativa e a proximidade do Parque Olímpico.
Todo esse clima fez com que empresas, bancos, fundos de investimento, firmas de advocacia, consultorias e auditorias preparassem planos de contingência. Mais da metade, ou 56%, das companhias pequenas e médias da cidade permitiram que seus funcionários trabalhassem de casa. Órgãos do governo também aderiram ao esquema alternativo. Os planos levantam até preocupações sobre a queda na produtividade durante os Jogos.
O fato é que, na prática, um sentimento de alívio e até surpresa tomou conta de quem usou o transporte público. Muita gente acabou chegando mais rápido ao trabalho do que num dia normal. Se antes havia em parte dos moradores certo mau humor em relação aos Jogos, agora muitos acham ótimo este momento excepcional. Esses eram os comentários generalizados pelas estações nesta segunda-feira.
A boa vontade vai durar, é claro, se as coisas continuarem assim. OK, Londres passou na primeira prova do transporte público. Mas os bons resultados trazem também um grande risco. A população pode simplesmente deixar a precaução de lado. Os organizadores e os administradores do sistema estão mantendo o clima de alerta.
CAMERON NO METRÔ – Entre os usuários que respiraram aliviados com a tranquilidade no sistema de transporte nesta segunda-feira estava o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. Ele foi de metrô até o Parque Olímpico.
FUTEBOL EM WEMBLEY – O alerta de risco de lotação para esta terça-feira recai sobre as linhas de metrô (Jubilee e Metropolitan) que abastecem o Estádio de Wembley, onde a seleção brasileira feminina de futebol enfrentará a anfitriã Grã-Bretanha.
PROCURA-SE INGRESSO – O público está tentando improvisar formas de conseguir ingressos para os Jogos de Londres, enquanto reclama sem parar dos lugares vazios ainda vistos nos locais das competições. Na entrada do Parque de Greenwich, onde acontecem as provas de equitação, diversos torcedores seguravam avisos de “procura-se ingresso”, na esperança de garantir alguma entrada.
BRASILEIROS FRUSTRADOS – O Comitê Organizador tenta consertar o fiasco do esquema e colocou mais três mil ingressos à venda nas últimas horas. Mas apenas os moradores do Reino Unido se beneficiam: a compra deve ser feita pelo site oficial do evento, com cartão exclusivamente da bandeira do patrocinador e endereço no país. Ou seja, há brasileiros frustrados por não conseguir novas entradas.
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