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Daniel Piza

24.maio.2009 09:53:24

Vida de jornalista

Baptistão

O jornalismo escrito não vai morrer, nem mesmo o bom. Ele é tão antigo que já sobreviveu a inúmeras mudanças de suportes e concorrências de meios. E ele é tão duradouro que hoje se expandiu para os mais diversos momentos do nosso cotidiano, como quando você, leitor, clica na internet para ler este texto. Desafio qualquer pessoa a dizer em qual outra era da humanidade houve tantas páginas preenchidas com palavras e frases sobre os fatos e as questões da hora – incluindo inúmeras sobre a morte dos jornais.

Grandes diários em papel passam por dificuldade em muitos países, certamente. Mas, como diz o colunista de um deles, Frank Rich, do New York Times, é irrelevante que os frutos do trabalho jornalístico apareçam no papel, no computador, no celular ou no Kindle – o livro digital da Amazon, cuja nova versão foi lançada agora com tela maior justamente para exibir… jornais como o New York Times. “Se não tivermos grandes operações de coleta de notícias”, continua Rich, “não haverá notícias no Google News.”

Há uma transição em curso, como relatou a Economist da semana retrasada; um antigo negócio perde terreno para um novo que ainda não se sustenta. Jornais diários em papel – assim como as grandes emissoras de TV – precisam se acostumar à pulverização das fontes de informação, o que não significa que os mesmos grupos de mídia não se aproveitem delas – como já fazem, tanto que os sites de notícia mais visitados dos EUA são Wall Street Journal e New York Times. E revistas semanais de análise e opinião, como a própria Economist ou a New Yorker (1 milhão de exemplares), hoje vendem mais que nunca. Em papel.

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Não por outra há em países como o Brasil uma pequena redescoberta do jornalismo de textos mais longos ou elaborados, que muitas vezes é chamado de “jornalismo literário” (ou seja, com mais tempo e espaço para apurar e escrever). Lendo Vida de Escritor, de Gay Talese, autobiografia recém-publicada aqui (Companhia das Letras), vemos como um dos maiores repórteres da história – que virá ao Brasil em julho – fez os livros que fez graças à possibilidade de conviver mais com seus personagens, sem a lâmina do “deadline” (prazo de fechamento) gelando sua nuca. Mas que defende as redações como agrupamentos que devem viver de buscar a verdade.

Talese pertence a uma tradição que mal existe no Brasil, a das grandes revistas e suplementos de reportagem, em que o autor é livre para usar a primeira pessoa, sem tornar seu texto um exercício memorialístico, e sim um retrato mais agudo de uma realidade objetiva, a exemplo do que fazia George Orwell. “Desde meus tempos de repórter juvenil, me diziam que nós, jornalistas, não fazíamos parte da reportagem. Onde estávamos, quem éramos e o que pensávamos não era relevante para o que escrevíamos. Na crônica de Orwell, era ele o personagem principal, (…) que dava coerência a tudo.” Vozes autorais, em primeira ou terceira pessoa, sempre farão diferença.

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Nenhuma voz era mais inconfundível no jornalismo americano do que a de H.L. Mencken. Seu Livro dos Insultos, que, apesar de suas posições antidemocratas à la Nietzsche, me marcou quando publicado em 1988 por seu estilo ao mesmo tempo rigoroso e charmoso, de uma clareza total, foi reeditado agora na coleção “Jornalismo Literário”. E não é que na hora de anunciar os “melhores momentos” do mestre, na capa, tascaram um “(e os piores)”? Os piores momentos de Mencken são mais bem escritos do que quase toda a obra do jornalismo brasileiro.

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Outra coleção que mostra o crescente reinteresse pelos grandes escritores da imprensa, na tendência moderna de ler mais não-ficção do que ficção, é “Jornalismo de Guerra” (Objetiva). E por ela saiu há pouco A Face da Guerra, de Martha Gellhorn, que, com toda razão, odiava ser descrita como uma das mulheres de Ernest Hemingway. Ela viveu de 1908 a 1998 e seu casamento com o célebre escritor durou apenas seis anos. Foi uma das maiores correspondentes de guerra do século. Além da Espanha, onde conheceu Hemingway e ficou contra o fascismo desde a primeira matéria, cobriu conflitos na China, Segunda Guerra, Vietnã ou Nicarágua (também escreveu sobre a morte de meninos de rua no Brasil nos anos 80). Suas narrativas, mesmo que escritas na pressa diária, ficam naquele ponto em que a reportagem – pela descrição detalhada, pelos comentários pontuais e pelo ritmo envolvente – se confunde com a literatura, sem tirar prioridade da informação isenta. Eis o ponto.

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Uma ausência nas edições e traduções locais é o jornalismo esportivo. É outra tradição que admiro no jornalismo de língua inglesa: o enorme respeito pelo “sportswriting”. Talese, por sinal, começa seu livro pelo relato de uma reportagem que, sem gostar nem entender muito de futebol, escreveu sobre a jogadora da seleção chinesa que perdeu pênalti contra a americana no Mundial de 1999. E ele está em destaque, com seu famoso perfil de Joe Di Maggio, na antologia The Greatest Sportswriting of the Century, editada por David Halberstam. De Halberstam, por sinal, acabo de ler Everything They Had, reunião póstuma de seus melhores artigos sobre basquete e beisebol. Não entendo patavinas de basquete e beisebol, mas leio Halberstam – ou Roger Angell – absorto, pelo modo como vê sua sociedade por meio dos ídolos esportivos.

Halberstam era jornalista político também, mas metade de seus livros trata de esportes. “Gosto de usar os dois chapéus”, dizia; “e o do jornalismo esportivo uso com mais leveza, porque escrevo mais rápido e relaxado.”

Jornalismo político quem fez com grandeza ainda maior foi I.F. Stone, que, leio na mesma Economist, acaba de ser biografado por D.D. Guttenplan (American Radical). No Brasil já foi editado o livro de Stone sobre O Julgamento de Sócrates, mas nunca sua produção jornalística. Sozinho, escrevia um semanário que tinha assinantes como Russell e Sartre e chegou a vender 70 mil exemplares revelando mentiras sobre a Guerra do Vietnã apenas com a leitura de documentos oficiais. Um jornalista pode até sair pouco do gabinete, mas a cabeça tem de estar fora.

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Ivan Lessa, uma das poucas vozes equivalentes em nosso jornalismo, está nas livrarias com Eles Foram para Petrópolis, que reúne as cartas trocadas com Mario Sergio Conti na internet. Seu interlocutor tenta achar o mesmo tom de humor e coloquialidade, mas não consegue. O que se salva é Ivan Lessa falando mal das letras da bossa nova, elogiando cantores como Dick Haymes, relembrando o Rio dos anos 50. É irônico ver tanta cordialidade à brasileira num autor que critica tanto o “Bananão”, sim, mas quem vai dizer que ele não tem razão?

Outro grande jornalista brasileiro que merece ter seus melhores textos reunidos, José Onofre, morreu na terça passada, aos 66 anos. Escrevia como poucos sobre cinema americano, especialmente western. Agora, como no filme de seu diretor preferido, John Ford, imprima-se a lenda. Bons textos não morrem jamais.

(“Sinopse”)

comentários (16) | comente

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16 Comentários Comente também
  • 24/05/2009 - 13:46
    Enviado por: André Felipe

    Caro Daniel,

    bons apontamentos, como de costume. Dias atrás, também li, na coluna da Lúcia Guimarães, argumentos consistentes contra os arautos do fim da Imprensa escrita e investigativa. Segundo ela, esta não acaba porque a “imprensa” digital, blogs independentes e portais, de forma geral, apenas rebatem ou refletem aquilo que foi tradicionalmente trabalhado pelas agências de notícias.

    Porém, acredito que o problema é, como se diz, mais embaixo. Não é o jornalismo impresso ou o grande texto que estão agonizando. Quem na verdade está morrendo é o Leitor. Aquele que não é apenas capaz, mas que também tem prazer em ler idéias mais elaboradas e bem escritas.

    Talvez, aqui no Brasil, os próprios jornais tenham uma parcela de culpa nessa estória. Quando tentaram se popularizar, há algum tempo, acrescentando cores, “lay-outs dinâmicos” e, principalmente, abordagens e temáticas jovens, os veículos baixaram a qualidade do conteúdo(Só sobrou o Estadão). E se lembrarmos o quanto os jornais são fundamentais na formação, então, podemos dizer que, de certa maneira, atiraram no próprio pé.

    Infelizmente, o novo kindle ainda é um tijolo. Mas já dá pra vislumbrar, em um futuro breve, que não será mais necessário derrubar florestas mundo afora toda vez que surgir um best-seller de autoajuda. Outra coisa, hoje é Washington na cabeça. Abs.

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  • 24/05/2009 - 15:13
    Enviado por: Lerdo em Surtar

    A notícia no jornal de papel terá sempre um lugar no inconsciente geral, e jamais se apagará a “impressão” que foi deixada pelo modo como a notícia corria e se disseminava semelhantemente ao ofício do estafeta. Sim, porque nunca deixou de ser uma espécie de carta que o escrutinador da realidade eleita pela consciência (com inspiração original no espírito da honestidade sobre o fato) entregaria com a pontualidade de quem madrugava – e até de quem não deixaria o ocaso do sol significar a ocultação da última notícia urgente.
    Até mesmo na ficção temos o caso de Clark Kent, que, quando quis dar credibilidade àquela que seria a outra identidade do Superman, escolheu a profissão e o melhor amigo (Jimmy Olsen) que combinarão sempre com a ideia do artesão da notícia – aquele que molda o conteúdo para em seguida vê-lo reproduzido com tinta e papel (o velho e bom papel-jornal, esse que brevemente será convidado a se aposentar). A imagem do colarinho desarrumado será sempre uma grande combinação com aquela outra de um leitor correndo debaixo da chuva e carregando um exemplar de jornal seguro por uma mão sobre a própria cabeça.
    Parabéns a todos os jornalistas, e vida longa aos jornaleiros!

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  • 24/05/2009 - 19:12
    Enviado por: Eduardo Grandinetti de Barros

    Um dos prazeres do domingo ,sobretudo agora que irá esfriar é ir até a banca de jornal e trazer para casa um exemplar de uma edição dominical e ficar com as pontas dos dedos suja. O cheiro do jornal é muito bom
    Agora eles são coloridos, e mesmo que estando na web , o prazer da palavra impressa em papel, como no livro- é sem igual E claro, sem esquecer do conteudo

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  • 25/05/2009 - 03:36
    Enviado por: Nei Duclós

    José Onofre escrevia sobre literatura, autores clássicos e contemporâneos. Escrevia também sobre cinema, e não apenas western. Tinha vários diretores preferidos, e não apenas um. Deve-se, como escrevi ontem nos comentários do blog do Merten, reunir seus textos em livro. Imprima-se a verdade: a diversidade do talento e da erudição de José Onofre. E não a lenda: a de que sua especialidade era western ou John Ford. O trabalho de José Onofre serve de parâmetro.

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  • 25/05/2009 - 07:16
    Enviado por: danielpiza

    Nei, publiquei José Onofre por cinco anos. Ele mesmo achava que seus melhores textos eram sobre John Ford, Sam Peckinpah, “Shane” etc. Mas certamente uma coletânea dele – como defendi no outro post – tem de incluir cinema em geral, literatura e outros temas.

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  • 25/05/2009 - 10:26
    Enviado por: Paraná

    Piza quem leu uma vez, vai ler trocentas meu amigo.
    Jornal escrito nunca vai acabar e não deve acabar, é uma burrice louca colocar isso, é igual você dizer que o livro vai acabar. Não pode e não deve acabar. Agora o que deve acabar som essas noticiazinhas de fundo de quintal, tem jornal por ai que você só vê sexo, putaria, esposição de bunda, peito e tiroteio, dependendo do lado que você o pega sai tiro, jorra sangue e pula uma mulher pelada um travesti.
    Jornal tem que trazer cultura, informações, comentários bem formulados, sem puxaquismo ou bairrismo exarcebado, sem querer manipular o leitor, esse sim é o jornal escrito corretamente e que da gosto de ler.
    Mesmo o seu jornal “Estadão” tem dia que está uma m… logo na primeira páxima a foto do Ronaldo bem grande, dias desses escrevi para a redação perguntando se eles não tinham criatividade para colocar algo diferente.
    Esse puxaquismo é insuportável e desgatante pra gente que gosta de ler jornais.
    Esses tipo de foto, t em que estar na ultima páxima e tamanho infimo.
    Se tem uma coisa que irrita o leito de jornais é a falta de criatividade dos redatores, onde a imagem é superior ao conteudo. E muitas vezes jornais de nome expressivo tem feito isso.
    Tem outros jornais que traz quatro cinco comentários ou reportagem e anexo trocentas páginas de classificados, é horrivel isso.
    Olha o Santos acha que tudo agora está no mais perfeito caminho, que nada precisa mudar, pode ter certeza quando pegar o seu Corinthias e se esse perder para o Vasco, vai levar cacete denovo, e olha que sou Santista, mas não acredito nesse time, depois daquela jogada co Kleber, só meu santo Deus sabe onde esse time vai parar.

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  • 25/05/2009 - 11:59
    Enviado por: João Cisudo

    Os jornais escritos estão em fase terminal, não morreram ainda porque há um publico fiel que ainda acompanha as notícias impressas, para agravar a situação os donos de jornais principalmente no Brasil forçam os seus periódicos a serem muito mais opinativos do que informativos e o mais grave são ideologicamnete incorretos pois teimam em não levar em consideração a esmagadora maioria da opinião pública preferindo apostar numa classe média alta falida.

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  • 25/05/2009 - 12:08
    Enviado por: danielpiza

    Os jornais brasileiros estão entre os menos opinativos do mundo. A esmagadora maioria da opinião pública não os lê porque não teve formação escolar, porque foi obrigada a abandonar a escola antes de chegar aos 15 anos de idade. E ainda é assim.

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  • 25/05/2009 - 14:21
    Enviado por: RATU ESCAROLLA-MEMBRO ONORÁRIU

    PRESADU PITTISSA
    PRESDU DEMAIS PRESADUS

    U JORNLISMU ISCRITO TÁ MORRENDO SIM, JORNAL TÁ PERTU DU FIM PROVA DISSU KI RECEBI OJI UM TELEFONEMA DUM JORNAL ISCRITO DAQUI PIDINDO SI EU NUM KIRIA TER ASSESSU A ELE ATRAVEIZ DA NET !!!

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  • 25/05/2009 - 14:22
    Enviado por: Antonio Neves

    Prezado Piza: por favor faca um desenho para eu entender: quem e’ opinativo ? O jornal, como se deveria depreender em seu texto, ou o leitor ?
    Em outras palavras: “opinativo” e’ quem tem ou quem gera opiniao ?
    Outro ponto: comenta’rios saudosistas, sobre o cheiro da tinta e a sujeira no dedo desfocam a questao; o papel evidentemente vai desaparecer, porque o meio eletronico traz e trara’ o conteu’do que o papel trazia. Falei.

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  • 25/05/2009 - 14:22
    Enviado por: danielpiza

    Jornalismo na internet também é escrito. Não é em papel, mas é escrito. Desenhei direitinho agora?

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  • 26/05/2009 - 12:11
    Enviado por: Claudio Adas

    As cassandras são figuras realmente patéticas, sempre a prever a morte disto e daquilo. Segundo elas já estão mortos ou em fase terminal o rádio, o teatro, o cinema, o romance, o livro, a televisão, os “reality shows”, os jornais IMPRESSOS (e não os jornais ESCRITOS). Entretanto estão todos aí convivendo com as demais manifestações. Sugiro um exercício de fantasia: elimine da noite para o dia todos os grandes veículos de comunicação e vamos ver como sobreviveria a tal blogosfera. Grande parte dela, medíocre e apenas reativa, sucumbiria e desapareceria em sua insignificância.

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  • 26/05/2009 - 19:27
    Enviado por: João Cisudo

    Não concordo que grande parte do povo brasileiro não leia jornal porque não vai a escola, isto é simplista demais para justificar a crescente queda na venda de jornais. O jornal é um produto como outro qualquer e sua demanda mesmo num tempo de grandes mudanças como o advento da internet pode prosperar, no entanto, não vejo aqui no Brasil grandes mudanças que possam retardar ou pelo menos minimizar esta situação. Problemas como ideologia política dos editoriais, materias sem interesse, corportivismo dos jornalistas e um política de marketing do tempo das onças dirigidos para um público elitista são com certeza os principais fatores que estão levando os jornais aqui no Brasil para o buraco, é só verificar a tiragem ano a ano. Há muitas idéias que poderiam ser implantada para reverter o atual quadro, porém, duvido que o orgulho dos donos dos jornais as enxergue.

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  • 26/05/2009 - 23:25
    Enviado por: danielpiza

    A falta de instrução não afasta dos jornais escritos?

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  • 27/05/2009 - 10:48
    Enviado por: João Cisudo

    Não acho que a falta de instrução afaste alguém de ler algo, isso é um preconceito. Isso fica evidente quando hoje é publicado que no Brasil há um computador para cada 3 pessoas e a tendência é de cada vez mais aumentar. O jornal não facilita as coisas, a sua logística e seus custos de impressão são muito caros além da sua distribuição ser precária à nivel Brasil. O jornal chega a um número pequeníssimo da população, com o aumento estratosférico da banda larga móvel e a gora com a massificação dos Ipods e dos netbooks os parques gráficos dos jornais se tornarão em breve totalmente abandonados e os jornais impressos terão o mesmo destino do discos de vinil

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  • 27/05/2009 - 10:54
    Enviado por: danielpiza

    João, os jornais adorariam chegar a muito mais gente, ter custos mais baixos, etc. E têm chegado via internet. Mas não resta dúvida de que o índice de leitura de jornais no Brasil – ou em qualquer país – reflete seu nível educacional. Quanto mais instruída uma população, mais ela lê a imprensa.

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