Uma lágrima para Armando Nogueira, morto aos 83 anos. Sua maior contribuição foi ter dado dignidade à crônica esportiva em si mesma, num momento em que os melhores do gênero vinham da literatura, como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego. Influenciado por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, adotou um estilo lírico, embora às vezes deslizasse para o sentimental, banhado em adjetivos e hipérboles. Simplesmente escolheu exaltar os ídolos, como Pelé (“Até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé”), Garrincha (“Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio”) e Zico (“A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”), na linha de Nelson – ainda que este antes o criticasse por se deslumbrar com os húngaros em detrimento dos brasileiros. Hoje a crônica anda fora de moda, mas a capacidade de admiração, de olhar o esporte de modo afetivo, não precisava ter ido junto.
Armando encarnava os encantos de um homem cheios de viços. Inventava (no sentido nobre) para se conhecer. Parecia muito querido entre seus pares. Que Deus o acolha na Quaresma que corre.
Convém não esquecer de outra grande contribuição de Nogueira: para o bem e para o mal, homem forte do telejornalismo global durante muito tempo. Contribuiu para implantar o padrão Globo de jornalismo televisivo, formando profissionais e consolidando procedimentos. Mas, sabe-se lá como e quanto, também serviu à prática de um jornalismo subserviente e conivente com a ditadura. Epitáfios, pessoas: a morte não pode apagar as contradições humanas.
Concordo perfeitamente. Por ser uma coluna de futebol, me limitei a falar do comentarista esportivo. E olhe que apontei problemas nisso também.
responder este comentário denunciar abusoPiza, acho um despropósito a ideia de revisionismo. Armando Nogueira viveu um dado momento histórico. Os homens são filhos dos muitos decursos de prazo, hiato, interstícios. Meu olhar é mais generoso para com o grande jornalista Armando. Concordo com o excesso de pieguices em algumas frases. Agora… sobre ter servido ao regime discricionário acho uma tolice. A vida tem seus contornos. Não gosto dos tacapes ante as pessoas.
Bezerra, entendo, mas acho que o Felipe tem razão até certo ponto: o jornalismo da Globo naquele período não era independente, e houve casos como o da Proconsult que envolveram o nome de Armando. Eu pelo menos gostaria de saber a verdade sobre esses episódios, por precisão histórica.
responder este comentário denunciar abusoArmando Nogueira falou tanta besteira em tantos comentários esportivos, assim como acontece ultimamente. E comentário esportivo é tão banal, o sujeito fala o que quiser: hipóteses erradas, elogios e críticas desvairadas sem problema e responsabilidade nenhuma, só dá problema quando ofende outrem e é processado. Armando fazia firulas com alguns adjetivos o que o diferenciava dos demais medíocres comentaristas. Pelo que vi nas homenagens de vários programas esportivos Armando se tornou o mestre dos jornalistas medíocres. Gozou de prestígio na Globo no período do regime autoritário militar. As citações de Piza (Armando Nogueira) sobre Pelé, Zico e Garrincha não são novidades e não são poéticas, são metáforas piegas?
Daniel, Armando Nogueira pode até ter sido piegas em algumas frases, mas o que tem de leitor despeitado com o sucesso do saudoso cronista, é uma festa.
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