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Daniel Piza

15.março.2009 08:08:59

Um paraíso ainda ignorado, mas não perdido

Foram mais de mil km navegando pelo rio Purus, desde Sena Madureira até o encontro com o rio Curanja no território peruano. Foram seis dias de baleeira, dormindo em redes e tomando banho com água do rio, e mais dois dias de voadeira, dormindo nas pousadas sem conforto de Santa Rosa do Purus e Esperanza. Em sete desses dias choveu, e quase sempre torrencialmente. Telefone fixo só era encontrado nas prefeituras das três cidades do trajeto brasileiro (Sena, Manoel Urbano e Santa Rosa), celular não pegava nunca e o satelital só algumas vezes. Mas nada disso se compara aos mais de dois meses que Euclides da Cunha levou para percorrer o mesmo trecho, sem contar que partira desde Manaus, em sua odisséia de 1905.

Euclides era o chefe brasileiro da comissão feita em parceria com o Peru para realizar as demarcações do Alto Purus, o trecho do rio que começa onde hoje se situa Manoel Urbano. O objetivo era verificar os primeiros mapas, feitos pelo explorador inglês William Chandless 40 anos antes, e definir a relação hidrográfica com outros rios do Brasil e do Peru. Euclides teve percepções inéditas sobre o rio – como sua característica de leito variável – e confirmou quase todas as medições de Chandless. Mas a viagem foi cheia de percalços: encalhes, conflitos, malária, beribéri e outros males acometeram Euclides e os demais. Mais importante ainda do que seu trabalho como enviado do chanceler Barão do Rio Branco, foi o impacto da floresta em sua mente.

Muitas das impressões que o abalaram continuam presentes. Ele chamou a Amazônia de “um deserto” e descreveu sua combinação de grandiosidade com tristeza. O Alto Purus continua com o mesmo clima de abandono, como se fosse quase inabitado, com longos trechos de rio sem manifestação humana ao redor. Por isso mesmo, a natureza continua muito semelhante; a mata permanece quase toda intocada, com suas imbaúbas e canaranas, seus botos e jabutis, suas garças e andorinhas, seus tambaquis e pirarucus. As riquezas da floresta continuam pouco exploradas, quando não indescobertas, e a ameaça de doenças – agora mais a anemia e dengue do que a malária e beribéri – é uma constante por aqui.

As diferenças, porém, também são significativas. Euclides se revoltou com a condição de trabalho dos seringueiros (“Ele trabalha para escravizar-se”) e quis escrever sobre ele o “segundo livro vingador”, ou seja, fazer por ele o que fizera pelos habitantes do semi-árido em Os Sertões (1902). Mas Euclides apostou na exploração da seringa; defendeu a criação de ferrovias e hidrovias para escoamento da borracha para mercados externos; quis que a terra fosse desbravada, elogiando o modo como os bandeirantes haviam expulsado os índios. Se chamou a Amazônia de “um paraíso perdido”, foi porque se dizia “pessimista incurável”, mas, engenheiro militar e positivista, tinha sua receita para levar progresso ao paraíso.

Hoje o Alto Purus não tem mais seringueiros (nem caucheiros, seus equivalentes – e rivais – peruanos). De Manoel Urbano até a Boca do Chandless o que mais encontramos foram ex-seringueiros que hoje estão aposentados e vivem, como seus filhos e netos, de plantar, caçar e pescar. Desse mesmo modo vivem os índios da região, que Euclides não encontrou porque haviam sido corridos para longe dos seringais. Kaxinawás e Kulinas são predominantes no rio, principalmente a partir da Boca do Chandless e até o lado peruano. Também as três cidades, claro, são novidades no cenário – e, com o asfaltamento da estrada (BR 364) que vai de Sena Madureira a Manoel Urbano, esta última, de apenas 6 mil habitantes, tende a crescer bastante. Isso não vale para Santa Rosa, aonde só se chega de barco ou avião.

Esta região da Amazônia continua muito pobre, como Euclides a encontrou, e a única vantagem parece ser o acesso à educação: os netos dos seringueiros já não são analfabetos como seus avôs, ainda que tenham muitos anos de atraso escolar. A noção de progresso mudou nestes cem anos desde a morte do escritor, e agora a floresta pode começar a ser explorada sem ser destruída, desde que seja estudada em seu potencial agrícola, de cosméticos, remédios, madeiras certificadas e outros produtos, inclusive derivados do látex. Resta saber se daqui a cem anos, na Amazônia, o homem e a natureza continuarão a ser inimigos, como disse Euclides, ou se o paraíso perdido pode passar a ser o paraíso desenvolvido.

comentários (4) | comente

4 Comentários Comente também
  • 15/03/2009 - 19:03
    Enviado por: Ronald

    Sr.Piza,

    Euclides da Cunha merece uma nota de respeito por sua coragem e determinação em suas andanças nesse buraquinho de mundo…Ou buracão, pelo seu tamanho, eu acho…

    O nobre blogueiro também merece um destaque pela bravura em repetir a odisséia de Euclides da Cunha.

    Minha dúvida é se daqui a cem anos a Amazônia ainda estará lá. São tantas as “doenças” criadas pelo homem contra a natureza que me dou o direito de duvidar se um dia o paraíso será mesmo desenvolvido.

    Se fosse para botar uma graninha, eu apostaria que o paraíso não chegará lá.

    Uma última nota. Lendo todos seu posts a respeito desta epopéia que o blogueiro está vivendo só confirma o meu total desinteresse em colocar meus pés nestas bandas. Ao contrário, seus posts só reforçam a absoluta inutilidade de uma visita dessas. Ao menos pra mim.
    Sem falar nos riscos de doenças que podem ser contraídas.

    É bom que o blogueiro tenha uma boa cobertura médica e se submeta a exames assim que voltar ao mundo civilizado.

    Seguro deve sempre morrer “de velho”.

    Sds

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  • 25/03/2009 - 22:51
    Enviado por: Raylson Farias

    Sr. Daniel Piza
    Parabéns pelo brilhantismo e riqueza de detalhes na descrição nestes caminhos tortuosos e sinuosos dessas “estradas amazônicas”.

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  • 04/04/2009 - 22:24
    Enviado por: Anabelle Loivos

    Caro Daniel Piza, boa noite! Parabéns pelo empenho em divulgar a obra deste genial brasileiro, o cantagalense Euclides da Cunha. Acabo de dar um curso de pós-graduação sobre os ensaios amazônicos de Euclides, e é muito gratificante ver o encantamento com o texto viril e utópico do escritor, partilhado pelos alunos. Convido-o a acessar o site http://www.iltc.br para conhecer um pouco mais sobre o nosso projeto de extensão universitária, aqui na UFRJ: “100 Anos Sem Euclides”. Atenciosamente, Prof.a Dr.a Anabelle Loivos (Faculdade de Educação da UFRJ).

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  • 24/08/2011 - 13:18
    Enviado por: Hiram Reis e Silva

    - O encontro dos ícones

    Em outubro de 1905, embarcam no vapor ‘rio Branco’, que estava ancorado na ‘Boca do Acre’, confluência do rio Acre com o Purus, dois ícones da nacionalidade brasileira, Plácido de Castro e Euclides da Cunha. Plácido de Castro tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que resultou na incorporação das terras bolivianas ao Brasil. Euclides chefiara a ‘Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus’, cuja missão era mapear o rio Purus, desde a foz, no Solimões, até suas cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru.

    A viagem da Boca do Acre a Manaus durou uma semana e, neste período, aconteceu o encontro histórico. Euclides da Cunha solicitou a Plácido de Castro que redigisse um histórico da campanha, desde 1902 que culminou com a conquista do Acre. Plácido escreveu os apontamentos a lápis, e manteve longas conversas com o escritor, inclusive sobre a dinâmica da extração da borracha, seu ciclo produtivo e a vida nos seringais.

    Ao chegar ao rio de Janeiro, Euclides da Cunha publicou na revista Kosmos (em janeiro de 1906), o artigo ‘Entre os Seringais’ sem, contudo, referir-se à conversa que mantivera com Plácido de Castro. Em 27 de março de 1907, Plácido de Castro, prefeito de rio Branco, se queixou, indignado, ao Ministro da Justiça, do artigo de Euclides da Cunha.

    “Em outubro de 1905, a bordo do vapor rio Branco, da Companhia Amazônica, teve o Dr. Euclides da Cunha a franqueza de nos confessar a sua alheação dos nossos costumes e pediu-nos algumas informações, ao que nos prontificamos, escrevendo em sua própria carteira de notas uma ligeira monografia sobre a extração da borracha (…) Mais tarde vimos as nossas despretensiosas notas publicadas na Kosmos, profundamente truncadas, para vir despertar a piedade do público com vivas cores com que pretende descrever o proletariado. Só o nosso croquis das estradas de seringa escapou ileso (…)”

    - Entre os seringais

    “Abertura de um seringal, no Purus, é tarefa inacessível ao mais solerte agrimensor, tão caprichosa e vária é a diabólica geometria requerida pela divisão dos diferentes lotes. De feito relegado a um minimum extraordinário o valor próprio da terra, ante a valia exclusiva da árvore, ali se engenhou uma original medida agrária, a ‘estrada’, que por si só resume os mais variados aspectos da sociedade nova, à ventura abarracada à margem daqueles grandes rios. A unidade não é o metro – é a seringueira; e como em geral 100 árvores, desigualmente intervaladas, constituem uma ‘estrada’, compreendem-se para logo todas as disparidades de forma e dimensões do singularíssimo padrão que é, não obstante, único afeiçoado à natureza dos trabalhos.

    Não há gizar-se um outro. Perdido na mata exuberante e farta, com o intento exclusivo de explorar a hevea apetecida, o seringueiro compreende, de pronto, que a sua atividade se debaterá inútil na inextricável trama das folhagens, se não vingar norteá-la em roteiros seguros, normalizando- lhe o esforço e ritmando-lhe o trabalho tão aparentemente desordenado e rude. É-lhe, ademais, indispensável que os seus numerosos camaradas, fregueses ou aviados, destinados a agirem isoladamente, não se embaralhem, às tontas, iludidos pelos desvios da floresta. As ‘estradas’ resolvem a questão. Mas o seu traçado é, de si mesmo, o primeiro problema imposto a quem quer que intente abrir um sítio de borracha.

    Assim é que, erguida rapidamente a primeira vivenda do barracão, sempre à beira do rio principal, na barranca de uma terra firme a cavaleiro das águas – e feito um reconhecimento preliminar do latifúndio que o rodeia, o sitiante procura um sertanista experimentado a quem confia o encargo de dividir-lhe e avaliar-lhe a fazenda. E o mateiro lança-se sem bússola no dédalo das galhadas, com a segurança de um instinto topográfico surpreendente e raro. Percorre em todos os sentidos o trecho de selva a explorar; nota-lhe os acidentes; apreende-lhe a fisiografia complexa, que vai dos igapós alagados aos firmes sobranceiros às enchentes; traça-lhe os varadores futuros; avalia-lhe, rigorosamente, as ‘estradas’; e vai no mesmo lance, sem que lhe seja mister traduzir complicadas cadernetas, escolhendo à beira dos igarapés todos os pontos em que deverão erigir-se as pequenas barracas dos trabalhadores.

    Feito este exame geral, apela para dois auxiliares indispensáveis – o toqueiro e o piqueiro; e erguendo num daqueles pontos predeterminados, com as longas palmas da jarina, um papiri, onde se abriguem trânsitoriamente, metem mãos à empreitada. O processo é invariável. Segue o mateiro e assinala o primeiro pé de seringa, que se lhe antolha ao sair do papiri. É a boca da estrada. Aí se lhe reúnem o toqueiro e o piqueiro – prosseguindo depois, isolado, o mateiro, até encontrar a segunda árvore, de ordinário pouco distante, a uns cinquenta metros. Avisa então com um grito particular, ao toqueiro, que parte a alcançá-lo junto da nova madeira, enquanto o piqueiro, acompanhando-o mais de passo, vai tirando a facão a picada, que prefigura a ‘estrada’. O toqueiro auxilia-o por algum tempo, abrindo por sua vez um pique para o seu lado, enquanto um outro grito do mateiro não o chame a reconhecer a terceira árvore; e assim em seguida até ao ponto mais distante, a volta da estrada. Daí, agindo do mesmo modo, retrogradando por outros desvios, vão de seringueira em seringueira, fechando a curva irregularíssima que termina no ponto de partida. Ultima-se o serviço que dura ordinariamente três dias, ficando a ‘estrada’ em pique.

    Partindo do mesmo lugar, e adstritos ao mesmo sistema, abrem noutro rumo uma segunda estrada; e tantas, ao cabo, quantas comporte a natureza da floresta circundante, centralizadas todas pela mesma boca, junto do tepujar que localiza uma barraca. Busca então o mateiro um outro lugar, inteligentemente escolhido, e reproduz a mesma operação, até que, estudado todo o terreno, fique completamente repartido o seringal como o revela este esboço, onde, presas pelos varadores do barracão erguido à beira do rio, se veem as barracas e as estradas que as envolvem, contorcidas à maneira de tentáculos de um polvo desmesurado. É a imagem monstruosa e expressiva da sociedade torturada que moureja naquelas paragens. O cearense aventuroso ali chega numa desapoderada ansiedade de fortuna; e depois de uma breve aprendizagem em que passa de brabo a manso, consoante a gíria dos seringais (o que significa o passar das miragens que o estonteavam para a apatia de um vencido ante a realidade inexorável) – ergue a cabana de paxiúba à ourela mal destocada de um Igarapé pinturesco, ou mais para o centro numa clareira que a mata ameaçadora constringe, e longe do barracão senhoril, onde o seringueiro opulento estadeia o parasitismo farto, pressente que nunca mais se livrará da estrada que o enlaça, e que vai pisar durante a vida inteira, indo e vindo, a girar estonteadamente no monstruoso círculo vicioso de sua faina fatigante e estéril. A pieuvre assombradora tem, como a sua miniatura pelágica, uma boca insaciável servida de numerosas voltas constritoras; e só o larga quando, extintas todas as ilusões, esfolhadas uma a uma todas as esperanças, queda-se-lhe um dia, inerte, num daqueles tentáculos, o corpo repugnante de um esmaleitado, caindo no absoluto abandono. Considerai a disposição das ‘estradas’. É o diagrama da sociedade nos seringais, caracterizando-lhe um dos mais funestos atributos, o da dispersão obrigatória. O homem é um solitário.

    Mesmo no Acre, onde a densidade maior das seringueiras permite a abertura de 16 estradas numa légua quadrada, toda esta vastíssima área é folgadamente explorada por oito pessoas apenas. Daí os desmarcados latifúndios, onde se nota, malgrado a permanência de uma exploração agitada, grandes desolamentos de deserto… Um seringal médio de 300 estradas, corresponde a cerca de vinte léguas quadradas; e toda essa província anônima comportará, no máximo, o esforço de 150 trabalhadores. Ora, esta circunstância, este afrouxamento das atividades distendidas numa faina dispersiva, a par de outras anomalias, que mais para adiante revelaremos, contribui sobremaneira para o estacionamento da sociedade que ali se agita no afogado das espessuras, esterilmente – sem destino, sem tradições e sem esperanças – num avançar ilusório em que volve monotonamente ao ponto de partida, como as ‘estradas’ tristonhas dos seringais”.

    - Apontamentos

    Somente em 1930, os ‘apontamentos’ do herói do Acre foram publicados, na íntegra, como parte do livro ‘O Estado Independente do Acre’, de autoria de Genesco de Castro, irmão de Plácido. O livro enfrentou dificuldades na sua distribuição, tendo em vista que os assassinos de Plácido permaneciam no poder.

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