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Daniel Piza

26.novembro.2011 11:00:55

A dona da caneta

A revelação de que fraudes para superfaturamento de obras da Copa em Cuiabá foram patrocinadas pelo Ministério das Cidades, como se precisássemos de mais uma prova, deveria fazer calar a mídia chapa branca que vê em Dilma Rousseff “perfil técnico”, em oposição ao antecessor, e acredita que ela esteja disposta a fazer uma faxina em sua equipe, como se não tivesse assinado cada uma das nomeações com a caneta do Planalto. Enquanto isso, o PAC não anda, o PIB desacelera, o Custo Brasil aumenta. Como gostam de ser enganados!

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Comento de vez em quando a proposta da “terceira cultura”, demonstrada em sites como Edge  www.edge.org), que é a de reaproximar a ciência e os conhecimentos propiciados pelas chamadas humanidades (filosofia, sociologia, psicologia, antropologia) e pelas artes e seus críticos. O termo vem do lendário debate entre C.P. Snow e F.R. Leavis nos anos 50, As Duas Culturas, em que foram traçadas as fronteiras entre as duas áreas: a ciência seria cumulativa e criaria melhoras concretas na realidade das pessoas (como a anestesia ou mesmo a maior expectativa de vida atual), as humanidades e as artes não teriam a mesma noção de “progresso” (não se pode dizer que Michelangelo foi inferior ou sabia menos sobre a natureza humana do que Brancusi, digamos) e seriam mais especulativas.

A “terceira cultura” vem gerando ou reforçando diversos produtos, sobretudo livros de neurologistas e biólogos que tentam analisar o comportamento humano do ponto de vista evolucionista (com as descobertas feitas desde Darwin até o Projeto Genoma), nomes como Oliver Sacks, Richard Dawkins, Steven Pinker e António Damásio (que dedicou, entre outros, um livro ao pensamento de Spinoza). Até expressões como “instinto de arte” (“art instinct”) foram criadas para tentar explicar fisiologicamente nossa percepção do que é belo e expressivo. Estudos da linguagem também passaram a ser reivindicados cada vez mais por quem tem familiaridade com escaneamentos cerebrais do que com teorias semióticas e congêneres. É como se o empirismo pudesse tudo.

Méritos e deméritos à parte, o fato é que essa “invasão” da ciência em todos os campos pode dar contribuições muito importantes, mas nem sempre tão importantes quanto eles pensam e, atenção, a tendência é bem menos recente do que eles imaginam. Pense em Freud! Ao contrário da grande maioria dos psicanalistas que o seguiram nos últimos cem anos, doutor Sigmund era médico, um homem da clínica e do laboratório, e sonhava com tempos em que a tecnologia pudesse nos dar mais informações consistentes sobre o funcionamento cerebral. No entanto, é visto como alguém que só tratou da “mente” e não do órgão cerebral, como se não imaginasse que os pensamentos deixassem registro fisiológico.

E onde Freud foi buscar as diretrizes para suas teorias, além do que observava experimentalmente nos pacientes com distúrbios psicológicos a que atendia? Em dramaturgos como Sófocles e Shakespeare e em pensadores como Schopenhauer e Nietzsche. Ou seja, nas artes e humanidades. Em tais criações ele via “insights” geniais sobre o comportamento humano, sobre as contradições da psique, sobre os impulsos sexuais e os estados melancólicos. Para Freud, que comparou o surgimento da psicanálise ao heliocentrismo de Copérnico e ao evolucionismo de Darwin como transformadores da noção do que é o homem e seu lugar na natureza, os gênios das artes e da filosofia eram indispensáveis para a nova ciência. Na atual onda da terceira cultura, nem todos pensam assim. Por isso não pensam melhor.

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24.novembro.2011 08:30:16

Que jogo

Que jogo fizeram Milan e Barcelona ontem. O alto nível técnico e o empenho emocional das equipes deram o tom, traduzido nos cinco gols da partida. O Barça mais uma vez teve posse de bola superior a 60% e saiu na frente, depois de uma jogada que começou com passe em curva de Messi. Mas em seguida o Milan mostrou a qualidade de seus atacantes: Seedorf tocou de trivela para Ibrahimovic, que bateu de primeira, de esquerda, raspando a lateral do pé para manter o efeito da bola. O time espanhol voltou à frente no placar com pênalti duvidoso em Xavi, batido por Messi. No começo do segundo tempo veio o gol mais bonito: Boateng saltou com a perna esticada para dominar a bola, deu de letra um passe para si mesmo driblando Abidal e concluiu com chute forte no mesmo canto. Um primor de categoria e surpresa. Só que o time italiano não conseguia parar Messi a não ser com falta, e foi do craque argentino o passe para Xavi entrar na área e sacramentar a vitória. Mesmo sem Iniesta e Daniel Alves, o Barça manteve o Milan quase sempre envolvido, contando sobretudo com a superioridade de seu meio (outra nota baixa do time italiano foi a atuação dos brasileiros, Robinho e Pato). Mais importante, o espectador de qualquer torcida saiu agradecido, com diversos lances de qualidade na memória. É tudo que queremos.

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23.novembro.2011 07:08:57

Teu passado é uma bandeira

Todas as torcidas felizes se parecem; cada torcida infeliz é infeliz à sua maneira. O leitor perdoe a paráfrase de Tolstoi sobre as famílias, mas ela se aplica perfeitamente às torcidas de futebol. Afinal, torcidas são torcidas em qualquer clube e em qualquer cidade: um fã do CSKA (Moscou) é tão apaixonado quanto um do CSA (Maceió) e, como tal, vai ao delírio quando seu time marca um gol e está vencendo uma partida ou acaba de conquistar um campeonato. É besteira achar que uma torcida gosta mais de seu time do que as demais. Mas é quando ele está perdendo um jogo que elas se distinguem. Há aquelas que se calam, apreensivas, nervosas, ou então xingam juiz e vaiam jogadores, quando não viram as costas para o gramado. E há aquelas que são como a do Corinthians: se o time estiver perdendo, esse é um motivo para gritar e incentivar ainda mais.

Sim, Adriano foi o personagem da rodada; o treinador Tite mais uma vez mexeu bem pondo Alex e o “Imperador” no lugar de Danilo e William; Liédson começou a reação com seu gol de cabeça; Emerson foi de novo o menos burocrático do time e não por acaso a vitória começou num arranque seu do meio de campo; o goleiro Júlio César impediu que o Atlético Mineiro ficasse mais à frente no placar, já que até tomar o gol o Corinthians em nada parecia um líder do Brasileirão a apenas três domingos do triunfo. Mas todos esses fatores não teriam o mesmo peso se não fosse o coro da torcida. Em certo momento, quando Alex foi bater uma falta na intermediária, o Pacaembu foi tomado pelo uníssono do hino do clube, interpretado em andamento mais acelerado, como se os torcedores inspirassem a reação seguinte. “Nós gostamos de sofrer”, dizia o subtexto do coro, “para ganhar só nos minutos finais, de virada.”

Uma cultura não se faz de essência, mas de história. Foram as sucessivas e muitas vezes meramente coincidentes vitórias na mesma situação, poucos minutos antes de o árbitro encerrar a partida, que criaram a noção de que o corinthiano gosta assim – e ele de fato passou a gostar, ao menos em momentos especiais. Claro, a torcida não decide um jogo, e o tal “peso da camisa” de nada valeu no rebaixamento de 2007. É preciso ter bons jogadores em campo, continuidade de trabalho, opções na reserva, dinheiro para estruturas e contratações, etc. Mas o que fez Adriano pedir o passe, mover o corpanzil daquele jeito, ainda que precisando corrigir a passada depois de levantar a cabeça para ver a posição do goleiro, e tocar a bola com classe e não com força, de esquerda, em diagonal, para dentro da trave, enlouquecendo assim o estádio e meia cidade? O coordenado clamor do “bando de loucos”.

Há pedantes que dizem que veem uma partida de futebol como se vissem um espetáculo de arte, mas, repito, num teatro ou cinema ninguém se levanta para se dirigir à mãe do juiz, e mesmo num show de rock o roteiro das canções não vai mudar por vontade do público. Torcidas podem, sim, ajudar a dar identidade para um time, a qual segue ativa mesmo quando os jogadores já não são os mesmos. No caso do Corinthians, muitas vezes isso foi desculpa para não montar ou manter elencos com o devido profissionalismo, inclusive dando voz exagerada aos representantes da facção organizada; mas só um mal-humorado acharia melhor não ter uma torcida tão atuante. E os jogadores que marcam época, como Sócrates, Neto ou Marcelinho (ou um Zico no Flamengo, para lembrar outra torcida que não conhece o silêncio), são os que sabem canalizar isso positivamente.

Ainda não dá para dizer se Adriano saberá. Mas, por alguns segundos, ele soube. E transformou infelicidade reprimida em explosão de felicidade.

(“Boleiros”)

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22.novembro.2011 09:46:33

Res particular

O caso Carlos Lupi segue um padrão histórico brasileiro que, a depender da perspectiva, tem desde uma idade superior a 500 anos (logo depois da descoberta portuguesa) até uma superior a 25 anos (com a abertura democrática e o governo Sarney, aquele que nunca termina), mas que nos últimos dez anos se escancarou até o despudor máximo (graças ao “é praxe no Brasil” do presidente Lula no auge do mensalão). Ele é nomeado para um alto cargo público em função do partido a que pertence, o qual ajudou a financiar a campanha vitoriosa da aliança governista em troca do poder de legislar e licitar em causa própria, e age todos os instantes como se não fosse um homem público. Viaja em transporte de amigo empreiteiro, como Sarney, e usa as diárias para compromissos partidários, ou seja, para interesses particulares, não oficiais. E monta uma rede de favorecimentos a familiares e ONGs – as quais, como as esportivas que até um partido chamado “comunista” patrocina, desviam o dinheiro que deveria ir para comunidades carentes. (Comunista não come criancinha, mas criancinhas em geral não comem sob o comunismo.)

Nossa república é cada vez menos governamental, cada vez menos pública: ela é um vasto mundo privado que o dinheiro público sustenta. Enquanto isso, o ano vai terminando e o governo Dilma nem sequer começou.

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21.novembro.2011 09:22:46

Ao script corinthiano

Até tomar o gol do Atlético Mineiro em pleno (cheio mesmo) Pacaembu, o Corinthians jogava mediocremente, sem criatividade, longe de qualquer coisa que sugerisse futuro campeão. Então Tite colocou Alex e Adriano no lugar de Danilo e William e o adversário sentiu cheiro do perigo (e um ataque com Alex, Emerson, Liédson e Adriano, se em forma e entrosado, poria medo em muitas defesas). Mas houve outro fator, talvez com peso maior: a torcida. Alex foi cobrar um falta e o estádio inteiro cantava o hino. Ao velho script corinthiano, os minutos finais teriam de ser eletrizantes e redentores. E foram. Alessandro (que deveria ter sido expulso em falta desleal) cruzou e Liédson cabeceou. Dali a pouco, Emerson arrancou em contra-ataque, Adriano evitou impedimento e pediu na frente, ainda arranjando as passadas pesadas até concluir na diagonal. Os 25 minutos derradeiros não salvam os 65 de mediocridade que os antecederam, mas não é assim que o futebol funciona: a massa explodiu como se já fosse campeã.

O Corinthians tem agora um compromisso duro, o Figueirense, fora de casa, mas o Vasco tem Flamengo e Fluminense. Vi o Vasco no sábado e, apesar de o Avaí ter um a menos, tecnicamente o time é superior ao titular do Corinthians, com um maestro destro, Juninho, e outro canhoto, Felipe, mais Diego Souza e bons jogadores na zaga e nos lados. Não arrisco previsão, mas o Corinthians recebeu ontem todo o estímulo de que um campeão precisa. Cabe apenas a si próprio transformá-lo em triunfo.

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António Damásio é um dos mais respeitados neurocientistas e neuroescritores do mundo. Desde O Erro de Descartes, vem desenvolvendo uma linha de pesquisa e pensamento bastante original, mostrando cientificamente por que corpo e mente não se separam como água e óleo. É um dos expoentes da “terceira cultura”, capaz de recorrer a pensadores das chamadas humanidades, como Spinoza ou, no novo livro, William James, para inspirar suas hipóteses. E, no entanto, ao contrário de tantos intelectuais com status semelhante – ou mesmo, em verdade, com status bem abaixo –, Damásio mudou algumas de suas ideias mais importantes e, atenção, por causa de achados alheios que o obrigaram a tanto. Como dizia Keynes, se os fatos mudam, as ideias também precisam mudar.

Esse é apenas um dos motivos para que não se deixe de dar ao novo livro de Damásio, E o Cérebro Criou o Homem (título original Self Comes to Mind: Constructing the Conscious Brain; editora Companhia das Letras, tradução Laura Teixeira Motta), a importância que merece. Como vivemos em tempos cínicos, e como Damásio é o primeiro a alertar que ainda conhecemos pouco sobre o complexo funcionamento cerebral, o risco é grande. Afinal, o que ele está dizendo agora bate ainda mais de frente com o senso comum, segundo o qual o coração toma decisões mais autênticas e a razão só ajuda quando não o atrapalha. Também nas artes e até em comentários esportivos somos obrigados a ouvir que “o corpo sabe antes”, como se qualquer nota de consciência fosse desafinar o gesto plástico e memorável da expressão pessoal.

Um dos conceitos mais caros de Damásio era o da “consciência central”, ou seja, uma série de atividades cerebrais que regulariam o funcionamento do corpo e das emoções sem participação alguma da “consciência ampliada”, aquela exercida pela linguagem e pelo raciocínio abstrato no córtex frontal. O que ele diz no novo livro é que, embora grande parte das ações e reações seja fisiológica, comandada pela homeostase, autônoma em relação às vontades do nosso eu, da nossa mente consciente (ou “self autobiográfico”, como diz), a interação entre essas duas camadas é muito mais rica e sutil do que ele supunha. Declaradamente, diante de novas pesquisas de imagem neuronal e de pacientes com lesões cerebrais, ele acaba de abandonar esse dualismo. “Hoje em dia vejo mais volatilidade na abrangência da consciência”, escreve. “Os níveis de consciência flutuam durante uma situação.”

As novas pesquisas vêm mostrando o papel muito maior de instâncias intermediárias – entre a recepção das informações do corpo e a elaboração da consciência verbal – do que se acreditava antes. No alto do tronco cerebral, no tálamo e nos córtices posteromediais, especialmente, as medições mostram atividades em frações de segundos que embutem muitas vezes o resultado do aprendizado passado (como jogador que treina bicicletas a semana toda para executá-la de “improviso” no domingo). O corpo não age sozinho; trabalha com predisposições, preconceitos, modulações e juízos aos eventos que o provocam o tempo todo. Moralidade, raciocínio e imaginação também atuam nas reações físicas às diversas situações, ainda que em “segunda natureza”.

A mente, nos termos de Damásio, faz um “documentário multimídia” para o corpo, editando o processo de tomada de decisões. Ela chega depois, evolutivamente, mas faz muita diferença… Somos seres biológicos, sim, mas também deliberamos orientações para nós mesmos, com imagens e mapas que influem até nas instâncias mais sentimentais e intuitivas. Com o tempo, teremos de deliberadamente mudar de ideia, como Damásio. Entre ilusões de livre-arbítrio e fatalismos subdarwinistas, ser humano é ser pensante.

(“Sinopse”)

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19.novembro.2011 08:50:09

Mentiras tropicais

Acho curioso ler que a Tropicália “ensinou” cantores ditos sofisticados a dar atenção para canções ditas bregas. Na Bossa Nova, principalmente como João Gilberto, esse já era um gesto comum, e antes ainda era melhor porque não havia essa distinção entre MPB de um lado e brega do outro – era tudo popular na voz de um Orlando Silva ou Mario Reis. Isso sem contar que o gesto modernista em todas as artes sempre foi o do tal “high & low”, de mesclar registros “eruditos” e “populares”. Toulouse-Lautrec está nos grandes museus de arte com ilustrações feitas para cartazes do Moulin Rouge. Voltando à canção brasileira, é fato que um Caetano Veloso deu outra vida a músicas melosas como as de Peninha, mas ele não inventou essa atitude. Mais importante, suas interpretações quase sempre fazem alterações determinantes no andamento, no arranjo, na dicção.

Tudo isso para dizer que Marisa Monte, a melhor voz surgida nos últimos vinte anos na cena nacional, perdeu o tom, confirmando que o tribalismo amesquinhou sua carreira. Ela sempre oscilou entre esses repertórios, mas no novo CD, O que Você Quer Saber de Verdade, os sinais de apuro e ousadia quase desapareceram, apesar da afinação e do acabamento. Tudo soa adocicado, repetitivo, juvenil. Prefiro uma Paula Fernandes, que faz a canção sertaneja ou rural e romântica com autenticidade e competência, inclusive gravando talentos como Renato Teixeira e Almir Sater, para os quais a classe “culta” da MPB jamais deu bola.

Também Maria Rita, a filha de Elis Regina, caminha para uma precoce estagnação em novo CD, Elo. O conjunto das versões, mesmo de canções como A História de Lily Braun, de Chico Buarque, parece “déjà entendu”, com o mesmo tipo de arranjo de sempre. Mais importante, a voz de Maria Rita, de timbre tão bonito, continua se arrastando, perdendo o pique, o swing, como acontece flagrantemente em Nem um Dia, de Djavan (até porque não há como não ter a original em mente). O que sua mãe parecia elétrica, ela parece entediada.

Ambas, claro, recebem cem vezes mais atenção que o novo Dori Caymmi, Poesia Musicada, com letras de Paulo César Pinheiro. Dori disse que fez o disco respondendo à sugestão do pai, Dorival, para que fizesse canções mais melodiosas. Marinhagem é uma delas; outra, Velho do Mar, que é justamente sobre seu pai, ainda inigualável melodista.

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18.novembro.2011 07:26:25

Poesia de aflita beleza

Com o título de A Branca Voz da Solidão, o tradutor José Lira retoma a espinhosa empreitada de traduzir Emily Dickinson (1830-1886), poeta americana de quem a mesma editora, Iluminuras, publicou o volume Alguns Poemas em 2007. A voz limpa e única de Dickinson parece confirmar o dito de que poesia é o que se perde na tradução, tal a sutileza de seus ritmos, a concisão de suas imagens, a densidade de suas ideias. Sozinha, ela é a maior prova literária de uma mulher de gênio. E essa genialidade fica ainda mais clara quando se considera a complexidade de verter seus versos. Por mais que Lira afine sua lira, ler o original ao lado é obrigatório para escutar a essência da música de Dickinson.

Ela foi de fato uma mulher solitária, que publicou poucos versos em vida, e quando morreu sua irmã descobriu que ela tinha escrito nada menos que 1.800 poemas, todos dignos da combinação de uma sensibilidade delicada com um intelecto agudo. Há em seus poemas os ecos de clássicos como Shakespeare, principalmente o dos sonetos, mas a sua é uma eloqüência muito distinta, feita também de pausas, vazios, assimetrias – e por isso os travessões se tornaram sua marca registrada, um recurso gráfico usado mais para criar intervalos entre palavras do que inserir apostos nas frases. Muito antes do modernismo, e em contraste ao exagero romântico de sua época, Dickinson praticava uma arte em que o não-dizer vale tanto quanto o dizer.

Quando ela escreve, por exemplo, “I felt a Cleaving in my Mind –/ As if my Brain had split –/ I tried to match it – Seam by Seam –/ But could not make it fit” (na tradução: “Senti rachar a minha Mente –/ Meu Cérebro partiu-se –/ Tentei ligar – Ponto por Ponto –/ Mas nada mais se uniu”), temos uma verdadeira descrição de sua própria arte, uma arte de costuras que nunca se ajustam à perfeição. Ao mesmo tempo, essa voz inadaptável nos dá ânimo, como nos famosos versos “That it will never come again/ Is what makes life so sweet” (“Que nunca mais virá de novo/ É que faz tão doce a vida”), que estão em Alguns Poemas; ou quando chama a esperança de “um invento estranho”, “uma patente do coração” (e seus termos tirados da era mecânica dos EUA, como patente e eletricidade, chamam atenção no livro em lançamento), que persiste em eletrizar a vida.

Em outras passagens, Dickinson contraria o formalismo de certas correntes do século posterior ao dizer: “Morre a palavra/ ao ser falada,/ Já se disse./ Mas eu diria/ Que nesse dia/ Ela nasce”, melhor defesa de que um idioma vive pelo uso, não pela recusa ao coloquial. Mas os substantivos que adota em maiúscula, como “Prosperity”, não podem ser traduzidos senão literalmente (em vez de “Boa Sorte”). A Branca Voz da Solidão não tem os mais célebres poemas de Dickinson, mas por isso mesmo serve para reafirmar o refinamento de sua linguagem, a aflita beleza de sua arte.

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17.novembro.2011 13:46:35

Pernas adiante

Mais uma vez o Corinthians tomou sufoco, quase perdeu de um time na base da tabela, mas achou um gol de um jogador que veio da reserva (Ramirez) e saiu vencedor, na mesma noite em que o Vasco cedeu empate ao Palmeiras, arquirrival do Timão. As mudanças de Tite surtiram efeito, e um dos motivos por que o Corinthians é líder é essa organização tática, que tem padrão e variedade no momento adequado. Mas jogar bem é outra coisa… A partida mais emocionante de ontem foi Fluminense 5 x 4 Grêmio, com quatro gols de Fred (o melhor aquele em que dominou com a esquerda e acertou voleio com a mesma perna), belos passes de Deco e uma boa atuação de Sóbis. Se esse ataque tivesse sido titular desde o começo e com frequência, estaria no topo da tabela. Mas os problemas físicos pesaram mais. O líder teve mais pernas.

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