De vez em quando leio que essa história de dizer que o cancioneiro brasileiro moderno (ou MPB, rótulo às vezes usado de forma muito restritiva, “esquecendo” glórias como Pixinguinha ou Nelson Cavaquinho) é dos melhores do mundo, ao lado do americano, do inglês e do cubano, seria um exagero nacionalista ou algo parecido – já que há também a “chanson” dos franceses, a “canzone” dos italianos, o tango de Gardel a Piazzolla, o fado, etc. Mas o repertório criado na terra de Tom Jobim continua sendo admirado pelos músicos mais talentosos do planeta. E gravado por cantoras como Stacey Kent, que em seu novo CD, Dreamer in Concert, além de quatro clássicos americanos e dois franceses, interpreta Corcovado, Águas de Março e Samba Saravá e até arrisca o português em O Comboio. Ou por Amy Winehouse, cujo disco póstumo, Lioness: Hidden Treasures, faz versão cheia de “scats” de Garota de Ipanema. Sim, ela fará mais falta como compositora, naquele seu motown apocalíptico.
São duas áreas em que a contribuição brasileira ao mundo é inegável, o futebol e a canção, embora com todos os problemas o futebol ainda produza um Neymar. Não que não haja diversos talentos jovens na música brasileira, mas os tempos já foram melhores. Não à toa ainda se fala demais de veteranos como Chico e Caetano, que deram inteligência às letras honrando a tradição da melodia. O novo CD de Chico, com seu nome, trouxe coisas bonitas como Sinhá e Essa Pequena, mas é engraçado como seus defensores foram obrigados a argumentar que na primeira audição o prazer não é dos maiores… Caetano encerra o ano com uma belíssima canção, Recanto Escuro (“É fácil: nem ter que pensar/ nem ver o fundo”), no CD novo de Gal Costa, canção que justifica as demais. A versão ao violão, que ambos apresentaram no Programa do Jô, é melhor que a do disco, com arranjo feito de um pulso eletrônico e algumas inserções instrumentais que pouco somam. Mas que melodia!
Num campo menos acessível, tivemos CDs de Dori Caymmi e André Mehmari, com sofisticação harmônica hoje rara. Da nova geração, intérpretes como Marisa Monte e Maria Rita diluíram ainda mais seus estilos, e compositores como Tiê e Marcelo Camelo também só pareceram se repetir num registro mais aguado. Não temos no atual momento nada que se possa comparar com nomes como Tom Waits e Elvis Costello, mesmo que estes tenham lançado CDs sem nada muito especial (respectivamente, Bad as Me e National Ransom), o que também se pode dizer de Radiohead ou Madeleine Peyroux. E muito menos temos uma novidade do porte da inglesa Adele, cujo segundo CD, 21, a fez de longe o destaque do ano. Suas canções e sua voz têm qualidade e impacto, daí seu sucesso com os mais diferentes públicos e críticos.
No mais, foi um ano dominado mais por eventos (de todos os gêneros, com o calendário brasileiro cada vez mais cheio) do que por criações. Vi poucas e boas apresentações, como as de Paul McCartney, Ute Lemper e a mais antológica de todas, de Keith Jarrett, agora entesourada em CD. Na chamada “erudita”, vive-se ainda basicamente do passado, mesmo que reinventado como as Suítes para Violoncelo de Bach por Dimos Goudarolis. De brasileiros, claro, Nelson Freire não faltou de novo, e seu Liszt tem belezas como as Consolações. Estamos consolados.
CADERNOS DO CINEMA
Meia Noite em Paris, de Woody Allen, é o filme mais satisfatório do ano. Muita gente não percebeu que ele é muito mais que um exercício de nostalgia com a capital francesa como cartão postal, mas uma ironia ao mundo americanizado de hoje em que aparência e consumo são os únicos assuntos. Outro filme que não menospreza a inteligência do espectador, mesmo que ele não o mereça, é A Pele que Habito, de Almodóvar, um Hitchcock à latina, de grande apuro visual. Não troco esses dois filmes pela falsa profundidade de Melancolia, de Lars Von Trier, e Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami. No Brasil, não tivemos nada que combinasse talento e sucesso, a começar por tentativas de “blockbuster” como Bruna Surfistinha. Não foi um grande ano.
Depois da safra do Oscar, vencido por O Discurso do Rei (e na categoria de filme estrangeiro pelo forte dinamarquês Em Um Mundo Melhor), e de relativas injustiças cometidas contra A Origem e Bravura Indômita, o cinemão hollywoodiano pouco nos deu também. A Árvore da Vida foi muito comentado, mas é um videoclipe criacionista, de roteiro confuso, limitado à beleza das imagens. Prefiro Planeta dos Macacos, não apenas por seu entendimento de Darwin, mas pela vitalidade narrativa. Crianças e adolescentes se divertiram mais, ainda que com sequências de sucessos (Harry Potter, Piratas do Caribe, Carros, Kung Fu Panda), e o destaque não foi uma sequência: foi Rio, do brasileiro Carlos Saldanha.
De resto, vimos filmes bonitinhos e só, como Inquietos, de Gus Van Sant, e agora Um Dia, dirigido mais flacidamente por Lone Scherfig, baseado no romance de sucesso de David Nicholls, com Anne Hathaway. O filme poderia se chamar “A perdida e o pavão”, pois os personagens no livro são mais interessantes. Para variar.
A ARTE DE VER
Nas demais artes, não fui tão assíduo, mas desconfio que as opções são menos numerosas mesmo. As exposições de Saul Steinberg e M.C. Escher, por exemplo, foram muito bem-vindas, ainda que a segunda bem mais completa. Ambos levaram as artes gráficas – os jogos de espelho, a força das linhas – a outro patamar, lá onde as classificações caem por terra. Já a mostra na Bienal com nomes antes pouco vistos no Brasil, como Damien Hirst, e os trabalhos de Olafur Eliasson para a Pinacoteca cumpriram antes uma função informativa do que um deleite estético. Eliasson tem coisas muito melhores. Para mim, que estou saudoso de escrever sobre grandes exposições, o ano foi sobretudo marcado pela perda de pintores como Lucian Freud e Cy Twombly.
Também nas artes cênicas estive um tanto ausente, mas gostei da peça Pterodáctilos, dirigida por Felipe Hirsch, e de mais um trabalho caprichado do grupo Corpo, Sem Mim, em cima das cantigas de Martin Codax. Por incrível que pareça, a TV teve performances memoráveis em séries históricas como Game of Thrones e Os Bórgias, ainda que esta tenha desaparecido do canal TCM. Continuei acompanhando O Império do Contrabando, com o ótimo Steve Buscemi, e também Fringe, esta também maltratada pela Warner local, que vive reprisando episódios fora da ordem. Já a TV brasileira teve um ano de mesmice.
(“Sinopse”)
O Santos joga agora de manhã com o Kashiwa e pode ser que o leitor esteja lendo este texto depois da partida, mas é bem provável que essas comparações entre Messi e Neymar que já estão sendo feitas o serão ainda mais daqui para a frente, à medida que nos aproximamos da Copa de 2014. Messi, afinal, tem apenas 24 anos, não conseguiu brilhar muito na África do Sul e poderá estar em seu apogeu no Mundial a ser disputado no Brasil. Para Neymar, que terá 22, será seu primeiro, mas nem por isso cercado de menos expectativa, até porque ele próprio, seu pai e o Santos situaram o evento como referência cronológica. Além disso, ambos estão entre os finalistas do gol mais bonito do ano a ser eleito pela Fifa. Logo, um eventual confronto entre ambos no domingo, no Japão, não encerrará o assunto. E a sorte é nossa, espectadores.
Tenho visto um curioso sinal invertido na velha querela entre brasileiros e argentinos: para alguns, Messi seria mais parecido com Pelé, com sua rapidez e artilharia, a maneira como enfileira adversários com a bola grudada ao pé, e Neymar com Maradona, pelos dribles e efeitos, pela capacidade de surpreender no espaço de um tufo de grama. Os números apontam para isso, já que Messi tem ganhado título atrás de título num clube cheio de craques e mantido uma média de quase um gol por partida, coisa rara no futebol atual. Neymar não tem a mesma eficiência, até porque cai mais pelos lados do campo, embora tenha feito gols decisivos para os troféus que acumula tão precocemente, como o da Libertadores. Mas essa analogia com os dois maiores jogadores de todos os tempos para por aí. Pelé é inigualável – com 17 anos dava chapéu em final de Copa – e Maradona era um fantasista que Neymar não chegará a ser.
Vejo mais semelhanças do que diferenças. Os dois são leves, lisos, gostam de conduzir a bola em ziguezague até a área, dar um corte curto no zagueiro e bater seco, colocado, nos cantos inferiores da trave. Não são muito de chutar de longe nem de cabecear. Messi é mais ereto e cai muito menos; apesar de pequeno, é encorpado e mantém o equilíbrio na corrida sem perder a capacidade de sair para os dois lados. Também é mais altruísta, um campeão de assistências. Neymar joga com a espinha mais inclinada, no limite do desequilíbrio, e por isso pode ser deslocado com uma trombada; ao mesmo tempo, essa mesma elasticidade permite que emita sugestões contrárias ao que vai de fato fazer. Seu gol listado pela Fifa, para mim o merecedor do prêmio, é uma maravilha de velocidade e improviso. A meia lua que dá no último zagueiro com o pé esquerdo foi uma solução encontrada na pressão do instante, um prodígio de pensamento rápido. E está mais e mais maduro, dando menos importância para firulas ou simulação de faltas. Só não pode se achar pronto.
Se fossem pintores, Messi seria Matisse, com suas curvas concisas, e Neymar seria Miró, de formas livres e lúdicas. Que a galeria aumente.
(“Boleiros”)
O crescimento do terceiro trimestre veio nulo, com alguns sinais especialmente alarmantes na queda do consumo e dos serviços, antes os esteios da economia brasileira. A indústria recuou muito e o índice só não foi negativo por causa das exportações de commodities, algo que também já começa a perder fôlego. E de nada adianta botar a culpa na conjuntura internacional, porque os outros emergentes cresceram muito mais; o Brasil ficou em trigésimo lugar no período, atrás até mesmo da letárgica Europa. Para piorar, a inflação teve repique em novembro, o que significa que as expectativas oficiais para ela e para o PIB no ano que vem são conversa fiada. Enquanto isso, o PAC mal avança, como este jornal mostrou no caso da transposição do rio São Francisco.
Queda de juros e estímulos ao crédito podem atenuar a paralisia, mas está cada vez mais claro que um ciclo relativamente positivo da economia brasileira – motivado por uma série de medidas desde o Plano Real até o crédito consignado, digamos – está chegando ao final. Se não se combater o declínio da indústria, o aumento dos tributos, a carência de tecnologia e o déficit de educação e infraestrutura, em pouco tempo se verão efeitos sobre o emprego e a renda. Ou Dilma Rousseff para de acreditar nos elogios à sua capacidade gerencial (como já escrevi, trocar uma sujeira por outra não é faxina) e começa a agir (mesmo que caiam todos os ministros, pois já existem outros dois na berlinda, Pimentel e Negromonte), ou terá muito mais obstáculos políticos e econômicos adiante.
Todo ano repasso os comentários que fiz sobre livros lançados no Brasil e volto a ver a força dos títulos de não ficção (ensaio, biografia, história, etc) e a saudável onda de reedições de clássicos (sobretudo de ficção e poesia), mas insisto em defender o argumento de que isso não significa que vivemos tempos tão pouco criativos e tão parasitários do passado quanto se pode pensar. É claro que eu queria ler mais e melhores romances atuais e, como volta e meia me queixo aqui, uma cultura menos limitada à reciclagem, porque não raro ela apenas se apropria do nome consagrado em vez de buscar caminhos próprios para dizer o que haveria a dizer. Mas o leitor interessado em livros que relatam grandes experiências e provocam pensamentos ricos – e querem dar bons presentes de Natal, bem mais baratos do que brinquedos, cosméticos ou roupas – tem muitas opções. Eu mesmo, relendo o que escrevi sobre literatura em 2011, parei e pensei em como tive o alento de ler muitas páginas de alto nível.
Os livros de ensaio a meio caminho entre o cultural e o pessoal se destacaram. Não consigo esquecer o prazer que A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal, me causou desde as primeiras linhas. Eu diria que é o livro do ano, uma mistura de narrativa e reflexão feita com uma sensibilidade digna de grandes ficcionistas, ainda que não tenha um único fato inventado. De Waal encontrou o que é mais difícil, uma voz autoral, e a acompanhamos em sua peregrinação europeia atrás dos netsuquês de sua família como se ouvíssemos uma sonata de piano. Também viajei no relato de Ronald Watkins sobre a façanha de Vasco da Gama, Por Mares Nunca Dantes Navegados, que fez par com o mais iconoclasta Américo, em que Felipe Fernández-Armesto mostra um Vespuccio ardiloso.
E o que dizer de um ensaio como O Paradoxo Amoroso, de Pascal Bruckner, que lê os desencantos narcisistas contemporâneos com o olhar de um belo contista? Ou de A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, que passeia por Rilke, Tsvetaeva e Wilde para defender o gosto pelas coisas simples? Livros como A História da (in)Felicidade, de Richard Schoch, e mesmo Religião para Ateus, do bom-mocista Alain de Botton, também mostraram que não é exclusividade dos romancistas o acesso a questões do comportamento e da intimidade. Ensaios mais próximos da crítica literária também não foram poucos, e incluíram autores do presente como Coetzee (Mecanismos Internos), James Wood (Como Funciona a Ficção) e outros que sabem que a melhor crítica é uma forma de filosofia. Foi muito bom ver também ensaios de mestres como Thomas Mann (O Escritor e sua Missão), George Orwell (Como Morrem os Pobres) e, agora, esse extraordinário empreendimento da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (Leya e Livraria Cultura).
Por falar em filosofia, igualmente lembrada em novas traduções das cartas de Voltaire e dos ensaios de Hume, a biografia de Schopenhauer por Rüdiger Safranski conseguiu o que poucas conseguem: falar da vida para poder falar melhor da obra. O Dante de Barbara Reynolds não ficou atrás, assim como o Borges de Edwin Williamson; também gostei do Salinger de Kenneth Slawenski. Shakespeare como personagem histórico foi assunto de James Shapiro e, uma vez mais, de Stephen Greenblatt. No Brasil, o que chegou mais perto foi o Vieira de Ronaldo Vainfas. Quanto aos clássicos em si, tivemos novas e ótimas edições do próprio Vieira, de Homero, Galileu, Dickinson, Tolstoi, Machado, Proust, Bernanos. Nada mal.
Os ensaios científicos, que deveriam interessar a qualquer pessoa que preza a filosofia (a amizade à sabedoria), também continuaram em alta, com destaque para o polêmico Miguel Nicolelis, Muito Além do Nosso Eu, e o fundamental Antonio Damásio, E o Cérebro Criou o Homem, em que revê suas ideias sobre a primazia das emoções e analisa as descobertas sobre a participação da edição consciente no fluxo de nossos impulsos e reações. Romances? Claro que curti os novos de Philip Roth, Nêmesis, e DeLillo, Ponto Ômega, o excessivamente bajulado Jonathan Franzen, Liberdade, e também o lírico Um Dia, de David Nicholls, agora em filme. Mas os livros de Damásio, de Waal, Todorov e Bruckner me deram mais satisfação intelectual do que qualquer um de nós espera ter.
(“Sinopse”)
Permanece ainda um fato a estudar que os dois maiores poetas e intelectuais modernistas dos EUA, T.S. Eliot e Ezra Pound, de incalculável contribuição para a renovação da arte poética, da crítica ocidental e do idioma inglês, por meio de uma inventividade e profundidade até hoje não superadas, tenham sido conservadores políticos e elitistas culturais. Pound, que na verdade simpatizava com o fascismo e chegou a ser preso por defender Mussolini em programas de rádio, sonhava com o que aconteceria com a América caso os clássicos literários tivessem ampla circulação – como se ler Dante pudesse fazer rimar riqueza e sabedoria. E Eliot, que se dizia classicista, anglicano e monarquista, afirma neste Notas para a Definição de Cultura que uma civilização não pode “produzir simultaneamente grande poesia popular em um nível cultural e o Paraíso Perdido em outro”, referindo-se à obra prima de John Milton.
Delírios e esnobismos à parte, ambos, que viveram muitos anos na Europa (Eliot em Londres, Pound em Paris e Veneza), fizeram o máximo para tirar os EUA da ignorância pujante de cem anos atrás. E não só como poetas (em textos carregados de citações poliglotas), mas também como editores (em revistas e editoras) e como ensaístas, críticos culturais no sentido mais amplo. Para variar, o mercado editorial brasileiro tem dado pouca atenção ao último gênero, essencial para a modernidade. Pound, por influência do grupo concretista, foi mais bem tratado, com títulos como ABC da Literatura. De Eliot, graças a Ivan Junqueira, houve uma seleta de ensaios, hoje esgotada, com textos essenciais como Tradição e Talento Individual e A Função da Crítica e aqueles em que resgata John Dryden e Andrew Marvell, e agora temos a elogiável reedição de Notas para a Definição de Cultura. Mas a produção ensaística dos dois é muito maior.
Eliot foge da definição de cultura de um Matthew Arnold, por exemplo, que a via como a aquisição do que melhor se pensou e se criou ao longo dos séculos, e se aproxima da definição antropológica: cultura é o “modo de vida” de uma sociedade, o conjunto de valores e signos que diferentes classes e regiões produzem com atritos saudáveis e faz parte do cotidiano comum. Para Eliot, a cultura também transcende fronteiras nacionais – mas tudo isso só acontece graças à religião, com a qual ele identifica o conceito de cultura. De nada valem, diz ele, a sensibilidade artística e a educação científica se não houver o contraponto humanista da religião, em especial dos “2 mil anos de cristianismo”. Da mesma forma, uma elite só é digna do nome – a parcela que representa o melhor da sociedade, como uma aristocracia do espírito – se os diversos segmentos dialogam entre si, não fechados em especialidades. Em outras palavras, Eliot, em 1948, via no esquecimento do legado europeu o fim da civilização como ele a entendia. Se vivo hoje, acharia que no poema The Waste Land foi otimista demais.
Toda vez que sai CD de Tom Waits uma pequena multidão internacional fica ansiosa por ouvir novas canções daquele que o historiador Simon Schama chamou de Kurt Weill da América. Bad As Me, lançado agora, tem altos e baixos, estes principalmente quando Tom prefere latir em vez de cantar e trocar balada por batida. Mas quando vem uma de suas melodias simples com letras inesquecíveis, como em Talking at the Same Time (“Todo mundo está falando ao mesmo tempo”), Back in the Crowd (“Se você não me ama, me devolva à multidão”) e New Year’s Eve (“Parecia que eram quatro da madrugada”) não tem para quase ninguém.
André Mehmari está soltando a voz, no sentido literal e figurado. Em Canteiro, CD quase todo de canções suas em parcerias diversas (como Luiz Tatit e Carlos Fernando), interpreta algumas ele mesmo, passa por diversos gêneros, distribui citações e se afirma como melodista, sobretudo em faixas como Cruce, Meia Lágrima (cantada pelo talentoso português Antonio Zambujo) e Pra Amada Imortal. Dificilmente são canções que vão chegar às rádios e telenovelas, mas azar das rádios e telenovelas. Como se não bastasse, o CD Afetuoso o traz em trio com Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho, que interpretam canções suas e de outros autores, como Schumann, Caymmi e Milton Nascimento.
Já está nas livrarias Guerra e Paz, de Tolstoi, na tradução direta do russo feita por Rubens Figueiredo (editora Cosac Naify). E também o quinto volume, A Prisioneira, do ciclo Em Busca do Tempo Perdido, de Proust (editora Globo), esperado por muitos leitores. Releio a parte final, repleta de comentários e analogias sobre literatura, pintura e música, que Proust usa para comentar a relação do narrador com Albertine. Muito se fala sobre o ciúme que ele sente, mas pouco se nota que nada tem a ver com amor: não é o ciúme de quem não quer perder a amada, mas de quem está mais preocupado consigo mesmo. “Minha vida com Albertine não era, de minha parte, quando eu não tinha ciúmes, senão aborrecimento. Admitindo que houvesse felicidade, esta não poderia durar.” Ele não a ama, enfim. Proust anteviu muito do narcisismo dos relacionamentos contemporâneos, em que o outro ou é commodity ou é incômodo.
Certo, a conquista do título foi emocionante e merecida, mas para mim a imagem que vai ficar do domingo é a que antecede o apito inicial do clássico paulista: todos os jogadores e torcedores do Corinthians com o braço direito erguido, punho fechado, imitando a maneira de Sócrates comemorar o gol, para homenageá-lo poucas horas depois de sua morte. Foi a última vez que o “Doutor”, o “Magrão”, comandou a plateia. Pois era esse ídolo improvável, um jogador de gestos estudados e concisos que se tornou o maior ídolo de uma torcida imensa e passional. O que mais me chamava a atenção em Sócrates não eram as suas declarações políticas tantas vezes ingênuas fora de campo, por mais que tenha tido um papel fundamental – como lembrou o cantor Toquinho no bar Melograno no mesmo dia – para a abertura democrática do Brasil, e sim o fato de cativar o mais fanático cidadão com sua linguagem incomum dentro de campo, feita de passes inteligentes, gols providenciais e liderança mental.
O toque de calcanhar ficou como sua marca visual da mesma maneira que as bandeirinhas se tornaram sinônimo da pintura de Volpi. Como em Volpi, seu repertório técnico era muito maior que isso, mas há um motivo para que tenha se tornado uma marca. O calcanhar de Sócrates emitia um recado cerebral, mais ou menos como se dissesse “Posso não ser um atleta, mas não preciso ser”: aquele toque eliminava o problema de ter de girar o corpo, erguer a cabeça e encontrar um colega; não apenas o eliminava, como acrescentava o valor da surpresa eficiente, do curto e culto circuito, do olhar conceitual. Os passes de Sócrates raramente eram previsíveis e, quando eram, ainda assim não havia como evitar o desfecho. “Não sou rápido, mas penso rápido” – eis outra maneira de traduzir o gesto.
Não que Sócrates fosse incapaz de agilidade, fôlego e outros atributos fisiológicos que um atleta requer. Mas não era essa sua ênfase, daí a improbabilidade de sua condição de ídolo. Em muitos aspectos não parecia um jogador, um profissional do esporte de Pelé. Usava barba; era quase desengonçado em sua magreza; fumava e bebia abertamente; tinha opiniões próprias em vários assuntos e via os futebolistas como categoria trabalhadora; não corria muito, não era de entrar em divididas, não fazia musculação; não beijava o escudo ou dava carrinho para ganhar aplausos pelo suposto esforço; muito menos posava para a câmera na hora da bola parada. Erguia o braço, andando, como se transferisse a vibração para a massa ou, como escrevi, feito “um para-raio” ou “caniço pensante”, “um clínico em meio à temperatura febril da arena”. Talvez pudesse ter sido ainda melhor com mais condições atléticas ou prolongado o auge da sua carreira? Mas aí não seria ele, e seu recado se diluiria na normalidade.
Num campeonato decidido num 0 x 0 sem uma jogada sequer digna de nota, tal recado não poderia ter melhor endereço. O Campeonato Brasileiro de 2011 teve emoção, disputa, alguns belos gols, a volta de nomes como Ronaldinho, Deco, Juninho e Liedson, a confirmação de jovens como Damião e Dedé, vários lances primorosos de Neymar, a prova de que continuidade, padrão e banco fazem diferença para o vencedor, como fizeram para o Corinthians. Mas não teve o que Sócrates tinha.
É evidente que no futebol de hoje é mais difícil não ser “atleta”; não se trata de achar que Sócrates possa ser modelo. Mas a inteligência e a habilidade com a bola continuam a ser determinantes – ou são ainda mais determinantes num futebol tão corrido e burocrático – como Messi, com apenas 1m69, e Neymar, com seus 66 quilos, seguem demonstrando. O tipo de inteligência e habilidade de Sócrates, no entanto, anda escasso. Ganso é o único remanescente do estilo, mas ainda não parece à vontade com ele. O Brasileirão também não foi pródigo em artilheiros, outra característica da tradição nacional, e essas duas carências indicam o nível técnico do campeonato.
Mais técnica não traria menos emoção. Ao contrário. E poucos como Sócrates souberam e demonstraram essa realidade.
(“Boleiros”)
Saio para uma caminhada no bairro numa quinta de manhã. Na rua transversal, vejo um “noia” assaltando uma mulher no carro com janela aberta. Um quarteirão mais abaixo, gesticulo para um carro parar antes que atropele um carrinho de criança que a mãe começou a empurrar com o sinal ainda verde para ela. Depois da praça, vou cruzar a rua e me deparo com um carrão dirigido por uma senhora bem em cima da faixa de pedestres. Em menos de 500 metros, tenho motivos de sobra para lembrar o grande Millôr Fernandes: o ser humano é inviável.
Mais uma vez jogando mal, incapaz de bater o Palmeiras mesmo enquanto esteve com um jogador a mais, o Corinthians se sagrou campeão brasileiro de 2011. Defesa firme, dois volantes que sabem sair para o jogo, atacantes e meias que se revezaram no correr dos meses (Danilo teve seus momentos, Alex idem, Emerson foi o melhor, Willian ajudou no começo, Liédson é sempre perigoso na área, até Adriano fez um gol providencial), um bom técnico – ao menos coerente – e uma torcida que apoia muito deram regularidade ao longo de toda a temporada, coisa que outros times não tiveram (o Vasco, segundo colocado, não teve bom começo). Foram poucos os jogos em que o Corinthians brilhou, como na goleada sobre o São Paulo e numa vitória sobre o Flamengo, mas ter um padrão de jogo e saber cumpri-lo sempre é importante, ainda que sem craques. O campeonato pode ser igualmente emocionante com um nível técnico maior. Mas os melhores elencos sempre terminam no topo da tabela, salvo (como o Santos) se desinteressados.
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