Escrevi na Copa de 2002, a primeira do milênio, um texto chamado “Seis propostas para o novo milênio”, inspirado no excelente livro de Italo Calvino. Traduzi para o mundo do futebol as seis propostas – leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência – e apontei em quase todas um craque daquele evento que correspondia à descrição. A exceção foi “consistência”, por sinal o ensaio que Calvino deixou inacabado. Infelizmente, as duas Copas seguintes tiveram perdas nas propostas: leveza e exatidão, por exemplo, se ausentaram bastante em ambas. O futebol é cada vez mais jogado por atletas que trombam muito e pensam pouco e, pelo mesmo motivo, erram lançamentos e chutes, preferindo muito mais o passe lateral e o cruzamento para cabeceio. Em 2010, felizmente, a Espanha destoou e foi campeã.
Já o futebol praticado no Brasil nos últimos anos peca mesmo é no quesito da consistência. É importante não confundir consistência e regularidade. Sim, a regularidade é premiada num campeonato de pontos corridos como o Brasileirão, mas ela significa que um time tem um patamar técnico e um padrão tático e, portanto, não oscila demais, não se desanima nem se empolga além da conta. A consistência é mais: é ter essa regularidade sem abrir mão da beleza, da ousadia, da variação. De certo modo, é a combinação de clareza e complexidade que Calvino tanto desejava e também praticava na literatura. Por extensão, um time é consistente quando une constância coletiva e liberdades individuais.
O que vemos nos jogos do Brasileirão, como vimos nas duas rodadas desde o reinício pós-Copa? Ufanistas dizem que o futebol nacional se caracteriza por ser técnico e cadenciado, por ter jogadores habilidosos, etc. Mas o que se vê são o excesso de faltas (quase não há partida com menos de 30 faltas, o que também é culpa da arbitragem), a falta de dribles (não me refiro a passar o pé por cima da bola e continuar preso à marcação), a carência de inteligência (um Ganso não faz verão). O que se vê é um futebol que não tem nem a organização tática que até as seleções pequenas mostraram na Copa, nem as jogadas individuais que criam atalhos e surpreendem.
Todo ano os comentaristas exaltam a “competitividade” do Brasileirão, iludidos com números que não sabem ler direito. Não há mais bobos no futebol? Repito, há mais bobos do que nunca; são bobos fortes e aplicados muitas vezes, mas bobos mesmo assim. O Corinthians, por exemplo, é líder do campeonato com justiça, mas daí a dizer que está jogando bem é demais. Não está nem mesmo no nível do ano passado, e sem Ronaldo (a 50% do que já foi) é um time comum. Se não fosse pela chegada de Bruno César, que sabe se movimentar e arriscar, talvez nem estivesse no topo da tabela. Se o líder não joga bem, quem joga?
Fluminense e Santos fizeram partida de melhor qualidade, mas o Fluminense venceu porque Muricy Ramalho sabe montar um time que tem dois laterais ótimos no apoio, usando três zagueiros para lhes dar liberdade, como fazia no São Paulo, e lá na frente tem Conca e Fred. O Santos tem bons jogadores, mas tem problemas táticos, como a defesa mal protegida, e psicológicos, como as declarações mascaradas de Neymar e as brigas internas de Robinho deixam claro. O São Paulo sofreu duas derrotas seguidas; o competente elenco já não se traduz num time combativo. E, para fechar os paulistas, o Palmeiras nem sequer tem um elenco; Felipão vai ter muito trabalho, só que sem bons jogadores não vai longe.
O próprio campeonato é inconsistente: apenas nove rodadas se passaram e já está começando o vaivém da janela internacional, que segue até o final de agosto. Fica difícil avaliar o potencial de cada um, porque muitas variáveis vão mudar. Desconfio, porém, que algo vai continuar igual: a dificuldade de encontrar mais que um ou dois times que unam coletividade e individualidade, lucidez e invenção. Fica para outro milênio?
(“Boleiros”)
Dessa vez concordo com tudo que vc escreveu,hehehehe. Eu acho que o futebol brasileiro ficou traumatisado com aquela copa de 82 onde o futebol lindo, pq foi lindo mesmo, não chegou na final e obviamente não ganhou o título. Aquele time perdeu para o futebol força de muita marcação que é o estilo do jogo europeu. A Espanha nesse ano mudou esse estilo e chegou ao título jogando um futebol solto mais como vc disse, há anos quem vem ganhando é o futebol força e o trauma de 82 pelo visto não vai ter cura.
a mais engraçado é ver que noz somos o berço do futebol mundial e que daqui saem os maiores craques junto com argentina e uruguai. exportamos muito em qualidade e quantidade mas temos um vazio em nossas campeonatos nacionais tendo em vista a libertadores que sem boca e river, está sendo uma catástrofe é um tédio assistir os jogas. o brasileiro ta em um nivel fraquissimo mas ainda sim é melhor que a libertadores. esse é o efeito do euro no mundo os paises ricos compram até a nossa diversão de domingo a tarde. e isso acontecerá por muito tempo. Infelizmente, mas não temos oque fazer enquanto as proposto e vatagens de conhecer um pais estrangeiro com uma cultura diferente e oportunidades de ter uma vida melhor, para na maioria dos nossos garotos pobres vindo da favela.
Você tem toda razão.
Com raras e honrosas exceções, que não dão uma convocação para seleção nacional de futebol, os jogadores hoje se comparam a:
a) uma ponta de estoque: jogadores que pretendem um contrato melhor, nem que seja no Uzbequistão;
b) um brechó: jogadores que foram ponta de estoque, não resolveram ou não se firmaram lá fora, e voltam para completar os onze que entram em campo.
Fora isso, é uma lástima, que não lecva muita gente a assistir partidas nos estádios.
Como reforço, treinadores que não treinam fundamentos, que dirá variações táticas.
Bater escanteio e lateral é uma tristeza.
Aí eu faço uma pergunta … será que o Dunga transformou o Ronbinho eu um guerreiro ? Já no começo da temporada já arrumou uma briga ?
E se não temos nenhum time bom, como escolher um novo técnico pra seleção ?
Caro Daniel;
Concordo com você mas, ao comparar as Copas de 2006 e 2010, assisti a jogos mais agradáveis nesta última, com seleções como Argentina, Alemanha, Uruguai e a campeã Espanha. As equipes da Alemanha e Espanha, jovens, prometem para 2014. Uma luz no fim do túnel?
Quanto ao Brasil, campeã com méritos em 2002, foi um time, raro exceções, descompromissado em 2006 e desqualificado em 2010. Minha preocupação hoje é a seguinte: será que a bola, que não é a Jabulani, continua atrapalhando os jogadores no campeonato brasileiro?
Att.
O Brasil esta’ muito mal. Qualquer jogo que se assiste da’ sono.
craques? Nem pensar.
Piza, estao falando do Mano para a selecao.
O que voce acha.
Eu acho qu etambem de tecnicos estamos sem craques.
o futuro ta’ feio, muito feio.
Qualquer pessoa que acompanha futebol desde dos tempos do Luciano do Valle no Show de esporte (acho que era esse o nome) lembra que esse futebol feio de correr muito,pegar forte e de pouca criatividade tem origem no futebol europeu,especialmente italiano.
Infelizmente como eles tem o dinheiro para comprar os melhores jogadores do mundo,acabam indiretamente criando uma nova maneira de se jogar futebol.Eu imagino como seria o campeonato europeu se por uma temporada so jogasse jogadores locais.Seria um jogo pior que varzea de quinta divisao.
Olá Piza,
Esperar pelo próximo milênio me parece a melhor opção.
Uma pena para nós, que perderemos esse futuro brilhante, afinal, o Brasil É o país do futuro. Isso já há 40 anos, então quem sabe estejamos chegando “lá” no próximo milênio?
Sei que o objeto deste texto é o “futebol”, aguardo sua posição em relação à “cartolagem” do futebol, porque essa precisa urgentemente melhorar, e muito, antes que haja um reflexo dessa melhora dentro dos campos.
Daniel, o técnico e maior vencedor do NBA Phil Jackson escreveu em seu livro uma coisa que derruba um mito nos esportes coletivos, ele diz: Eu não pago para vocês pensarem, mas sim para reagirem às demandas do jogo. Os atletas profissionais não podem pensar, mas sim reagir estarem sempre no piloto automático, é por este motivo que os atletas treinam feito louco. O que ocorre é outro fenômeno os técnicos de futebol não sabem ensinar fundamentos do jogo e sem eles o que vemos é o mesmo de sempre. Quando temos um jogador com talentos naturais não temos ninguém para ensinar os fundamentos, voltando ao Phil ele ensina exaustivamente os fundamentos do basquetebol a seus jogadores o resultado esta ai para todos verem. Pau Gasol só virou craque do NBA nas mãos do Phil Jackson ele ensinou ao espanhol o que faltava para ele ser uma estrela, FUNDAMENTOS DO JOGO.
No Brasil se tem a idéia que futebol não se ensina a pessoa nasce com o don, por que temos a cada dia que passa menos craques e mais atletas, simples estamos hoje escolhendo os jogadores de porte físico avantajados pois eles são mais fáceis de ser vendidos para o exterior é uma questão de mercado estamos dando o que o mercado quer. Ninguém esta muito preocupado se existe alguém que possa ensinar nossos futuros craques os fundamentos, o velho chavão que em time que esta ganhando não se mexe é como o mercado e negócios familiares funcionam e quase todos vão a bancarrota por não acreditar que sem avanços na qualidade da formação e reposição para o mercado interno ou externo não vai demorar muito perderemos nossa capacidade de exportar jogadores atletas, pois os europeus já estão conseguindo nos superar nesta área. Fui consultor de empresas e iniciei nos EUA a idéia de ser consultor para jogadores de qualquer nível que queiram aprender os fundamentos do futebol e consegui fazer muito jogador razoável virar craque. Você pode aprender em qualquer idade eu fui aprender a bater falta com 40 anos, e fazer um monte de outras coisas, para ensinar é necessário primeiro você saber como funciona, aprender a mecânica de todos os movimentos, saber todas as artimanhas para poder ensinar.
Piza, deixamos produzir talentos, está a verdade. Não só atletas, coloco no mesmo saco técnicos, dirigentes e árbitros. O Brasil se transformou num exportador de jogadores habilidosos, apenas habilidosos, só isso. Os intermediários agradecem.
Tivemos sorte de termos revelado o Ronaldo nos anos 90 e mais dois ou três grandes jogadores.
O Robinho nunca foi aquilo que se esperava e duvido muito que o Neymar seja. Quantos jogadores brasileiros atuando fora do Brasil são realmente fora de série?
Cinco? Acho que menos. Sem contar os técnicos, a maioria deles é ultrapassada e só possui mercado nas periferias do mundo da bola.
Talvez, quando a ficha cair e CBF deixar de lucrar tanto com a Seleção, esse pessoal volte a pensar no futebol, até lá… Haja coração!
Quanta ladainha…
O futebol está em alta. As TVs a cabo passando tudo, o público nos estádios aumentando, as quadras de society bombando, a cerveja geladinha, enfim.
Só acho que, pelo grau atlético atual, poderiam ficar apenas 10 em campo.
Não entedi o recado ” você está escrevedo rápido demais”.
Vamos lá novamente meu caro Daniel.
Escrevi que o Brasil faz já algum tempo carece de craques. Há no máximo alguns bons jogadores mas, craques não há nenhum. Infelizmente.
Há quem julgava que Kaká seria nosso Herói. Lêdo engano. Foi tão ruim e sem futebol como os outros.
Outra coisa que não entendi em Dunga fo, levar o Grafite, sopostamenete para o lugar de Luiz Felipe e, na hora da substituição colocar o Nilmar.?
Então para que o Grafite foi para a África?
Nós precisamos urgentemente é de alguém para o lugar do seu Ricardo Teixeira.
Simples assim.
Acabo de escrever um texto falando das dificuldades dos times Brasileiros e o Daniel fala uma coisa que completa: As seleções pequenas funcionavam na copa e os times aqui não funcionam. Minha tese é que não há bons treinadores no futebol brasileiro, aliás, tivemos poucos treinadores que podemos dizer que foram ótimos. Qual treinador brasileiro fez sucesso no exterior nos últimos 40 anos? Se seu time fosse trocar de treinador, encontraria algum para repor? O meu quer trocar e não encontra…e olha que é o maior clube de futebol do Brasil. O mais vitorioso da história. Tem a maior estrutura…e não tem um técnico que presta !!!
O verdadeiro problema que justifica o excesso de faltas em campo e um futebol pragmático é a obsessão pela vitória e, com ela, a obtenção de títulos. A torcida não cobra tanto um futebol bem jogado como um título conquistado (principalmente a obsessão Libertadores), e sabemos que no futebol a força motriz é a torcida. É dela que vem a maior parte da renda de um clube, e é com cada vez mais títulos que haverá cada vez mais “posteridade”: não à toa os olhares ora se voltam com mais frequência para gráficos mensurando o crescimento das torcidas.
A torcida não quer saber de um futebol bem jogado sem títulos, e é essa a leitura que faço da status quo do futebol.
Enquanto escrevo, certamente alguém está criando jogadas de futebol em programa de computador. Outras tecnologias estão a ponto de surgir, automatizando o jogo e ¨”instrumentando” treinadores e técnicos para que TAMBÉM o automatizem. A criatividade aos poucos está saindo do campo para enfiar-se em apenas imagináveis e corruptos “tapetões” que não são feitos de interesses sadios. Veja-se o exemplo nosso, com cartolas vitalícios,patrocinios interesseiros, mídia/publicidade esvoaçando em todos os jogos, em todos os estádios. A figura do técnico, nisso tudo, é mais decorativa do que se pensa. E os árbitros apitam … mas pouco arbitram. Não podemos fingir que não sabemos disso!
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