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Daniel Piza

07.janeiro.2007 13:04:59

O ser e o nadar

Vejo que a revista “Piauí” deste mês dedica artigos de capa à natação. Além de um conto de Calvino, o melhor texto – ainda que curto demais – é de Oliver Sacks (as traduções, de novo, são o melhor de uma publicação brasileira): “Nunca achei monótono ou entediante nadar. A natação me dava uma espécie de alegria, uma sensação de bem-estar tão grande que às vezes se tornava uma espécie de êxtase. Havia uma entrega total no ato de nadar, em cada braçada, e ao mesmo tempo a mente podia flutuar livremente”.

O clichê dominante é o da solidão do nadador. Fala-se pouco sobre a mecânica do nadar, como se fosse irrelevante. Sim, natação talvez seja o único esporte em que os movimentos ganham autonomia e não sofrem interferência visual a todo instante. E em que é possível ter prazer sem o instinto de competição. O olhar se espalha pelo azul da piscina, pela maneira como a luz se refrata em fiapos nos azulejos, pela sensação de deslizar em compassos. Mas a cabeça precisa se concentrar de tempos em tempos nas exigências: respirar direito, manter o horizonte, alternar a virada do pescoço, zelar pela mão fechada em ponta com o braço num arco quase esticado, bater mais as pernas. Por isso mesmo a mente é estimulada, e não narcotizada pela repetição e simetria. Frases podem ser pensadas, atos revisados, lembranças cultivadas; a combinação entre solidão e bem-estar dá coragem para não mentir para si mesmo. Não se nada necessariamente para emagrecer, para vencer, para se superar. Não se nada “necessariamente”. Tampouco se nada por fuga, por terapia que só busca quem nela se oculta. Nada-se para viver melhor.

comentários (31) | comente

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31 Comentários Comente também
  • 07/01/2007 - 13:48
    Enviado por: Eliane

    Daniel, desculpe-me a indiscrição mas você sabe nadar ?
    Eu nado nadinha, hihihi!

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  • 07/01/2007 - 14:35
    Enviado por: Amigo de Montaigne

    Caro Daniel, para não deixá-lo tão frustrado com o texto bom “ainda que curto demais” reproduzo aqui uma das mais deliciosas pasagens do livro autobiográfico “Tio Tunsgtênio”,de O.Sacks: “Suas braçadas lentas e medidas para cobrir quilômetros nào eram muito apropriadas para um garotinho. Mas eu percebia como meu velho pai, grandalhão e desajeitado em terra, se transformava (sic) na água, tornado-se gracioso como um boto; e eu, inseguro, nervoso e também extremamente desajeitado, descobria em mim aquela deliciosa transformação, encontrando na água um novo ser, um novo modo de existir.Tenho uma vívida lembrança de um verão em que passamos férias no litoral, no mês seguinte ao meu quinto aniversário, quando entrei correndo no quarto de meus pais e puxei com força o corpanzil de baleia de meu pai. ‘Venha, papai! Vamos nadar!’, pedi. Ele se virou devagar e abriu um olho:’Que história é essa, acordar um velho de quarenta e três anos deste jeito, às seis da manhã?’.Agora que meu pai está morto e eu na casa dos sessenta, a recordação desses meus puxões matinais de tanto tempo atrás me fazem (sic) querer rir e chorar”.
    Aproveite!
    Abraço.

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  • 07/01/2007 - 14:51
    Enviado por: Luisa

    Daniel, não dá para nadar só por nadar, sem essa ‘piração’ q vc escreveu aí??

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  • 07/01/2007 - 15:16
    Enviado por: Eduardo Grandinetti de Barros

    Caríssimo,

    Nadar, deve ser igual a quem toca sax, só quem os faz sabe o que é . Parabéns

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  • 07/01/2007 - 15:18
    Enviado por: Eduardo Grandinetti de Barros

    Rescrevendo : Nadar, deve ser igual a tocar sax, só quem os faz- sabe o que significa

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  • 07/01/2007 - 15:59
    Enviado por: danielpiza

    Amigo: fiz uma entrevista com Sacks por ocasião do lançamento desse livro: http://www.danielpiza.com.br/interna.asp?texto=1422. Aproveite!

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  • 07/01/2007 - 17:32
    Enviado por: Primavera Negra

    O Amyr Klink escreveu uma vez que uma das coisas que mais o ajudou a desenvolver uma ‘vida íntima’ foi o fato de que acordava sempre de madrugada para remar sozinho.
    O isolamento e o silêncio combinados àquela atividade tão absorvente.
    Acho que tem a ver, né?
    Mas música é covardia, né Eduardo?
    Não à toa é chamada de inveja de todas artes.
    Eu acho que é de todas as atividades!

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  • 07/01/2007 - 19:31
    Enviado por: Edivelton

    Daniel, desculpe, mas gostaria de destacar o artigo de hoje – 07/01/07 no Estadão, que versa sobre o capítalismo.Vou entregá-lo a professõres da E.E.Maria de Lourdes Vieira ( onde leciono Matemática )da área de filosofia, no retôrno às aulas.Parabéns!

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  • 07/01/2007 - 22:27
    Enviado por: Josué

    Aprendi a nadar, depois de adulto, ainda não existiam os CEUs na periferia. Realmente, antes de tudo, nada-se para viver melhor. Mesmo que o nadador não seja tão bom, como no meu caso.

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  • 07/01/2007 - 22:42
    Enviado por: Amigo de Montaigne

    Caro Daniel,
    obrigado pela dica. A entrevista foi realmente muito boa. Ao contrário de Damásio, que é extremamente inacessível e arrogante, Sacks é uma pessoa bastante afável e acolhedora. Só gostaria de fazer uma pequena correção: Sacks é inglês e não americano como consta na primeira linha da introdução de sua entrevista. Caso o erro fosse ao contrário, acho que Sacks não se importaria, mas inglês é inglês, com tudo que isso possa significar.
    Abraço!

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  • 07/01/2007 - 23:23
    Enviado por: Regina

    De O.Sacks eu só li Um antropólogo em Marte.
    Mas de natação entendo muito e já nadei muito e continuo a nadar muito
    Foi a melhor descrição da sensasão de nadar em piscina ( que é o que gosto)
    Eu fico tentando explicar e muita gente não me entende, achando monotono, repetitivo, chato.
    È a melhor maneira de ficar consigo mesmo e usufruir da solidão que nos é necessária, sendo que ao mesmo tempo exercitamos nosso corpo por inteiro, sem a terrível praga do suor, do calor dos gritos de professores histéricos de hidroinferno, aquelas musicas infelizes ás 8 hs da manhã em sua cabeça ,a impressão de estar sendo atropelada por um trio eletrico, que são suas colegas de exercicio, chutando umas as outras em movimentos descoordenados e ainda usando armas de isopor , as quais precisamos ficar alertas para não sair desse inferno com o nariz quebrado.
    Fiquei sem fôlego com essa descrição do exercicio alternativo á natação.
    Ioga- è a melhor maneira de sentir-se como um pé de alface numa horta. E aquela musiquinha enlouquecedora, supostamente relaxante, depois de 10 minutos eu já estou fazendo listas mentais de contas a pagar,supermercado e qual a mellhor maneira de sair sem ser notada.
    Todo tipo de ginastica é cansativa, fazer força sem necessidade, nunca pode ser uma boa terapia.
    Andar numa esteira para lugar nenhum, pedalar sem sair do lugar, correr pela pista até seus peitos chegarem no joelho sua cara ficar devastada pelo esforço e emagrecer nem pensar ,porque dá uma sede e uma fome que ninguem resiste. Daí, da-lhe carboidratos.Para qualquer atividade fisica com bola eu sou incompatível, eu para um lado a bola para o outro, além de não ter o menor interesse em ficar com a bola, prá mim isso é coisa de adestramento de cães. E nem são todos que vão atrás , só se houver recompensa.
    Bem encerrando PORQUE AMO NADAR, posso garantir-lhes que alem de fumar, beber, comer e sentar ainda nado uns 2000ms por dia.
    Principalmente quando estou de mau humor, e usufruo de todas as maravilhosas sensações descritas por O. Sacks.
    Estou fisicamente ótima para minha idade,( que não vou dizer),e encaro um biquini sem medo dos elogios.
    Nadem e passem bem.

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  • 07/01/2007 - 23:43
    Enviado por: Regina

    Tem muitos erros de portugues , mas é que nadei, viajei e troquei uma sensação por outra sensação.
    Sorry, patrulha ortográfica me perdoem.
    Afinal sou nadadora não escritora.
    escrevi muito rápido e só reli agora depois de enviado, azar, fazer o que?
    Daniel Piza , não quero enfeiar seu blog. Ele e todas suas colunas são muito instrutivas.
    Não sei como tem tempo para tanta coisa. Tempo e cabeça.
    Parabéns

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  • 08/01/2007 - 09:20
    Enviado por: Eliane

    Daniel,
    Quando saio pra nadar é apenas pretexto pra ir ver o maître-nageur (profissão: salva-vidas) da piscina q frequento. Ele é mimoso !

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  • 08/01/2007 - 09:31
    Enviado por: Eliane

    Daniel, tem mais!
    Qdo o meu maître-nageur suíço entra na psicina e dá umas braçadas é mais q um show…é pura poesia!
    Ele é um sonho mesmo, para satisfazer as fantasias de qquer mulher.
    Agradeço a Deus que existem piscinas.

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  • 08/01/2007 - 09:33
    Enviado por: Eliane

    Por que será q quem nada fica mais bonito(a) quando está nadando, já reparou ?

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  • 08/01/2007 - 09:53
    Enviado por: lindi jhones

    Caro Daniel…..
    Acompanho sempre suas colunas
    Acho vc um fofo e tudo que vc escreve mais lindo ainda…. tudo com tanta delicadeza!!!!
    Um garnde beijo
    Muito sucesoo e pazzzzzz

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  • 08/01/2007 - 10:19
    Enviado por: lindi jhones

    Daniel, eu acho que vc iria ficar mais lindo sem barba!

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  • 08/01/2007 - 10:20
    Enviado por: Francisco

    Parabéns pela matéria. Realmente, nadar é ótimo para a saúde física e psicológica.
    No meu caso, quando criança, aprendi a nadar, sem nenhuma técnica, em rios do interior de Goiás. Isso há mais de 40 anos.
    Agora, com mais de cinquenta anos entrei em uma escola de natação no ano passado. Foi uma experiência ótima. Após as aulas saía relaxado e feliz. Sentida as emoções da infância, quando nadava nos rios do interior.
    Enfim, recomendo natação para todos, de todas as idades.

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  • 08/01/2007 - 11:29
    Enviado por: Tatiana de Bruyn

    Nadar é quase como filosofar.É a entrega total do corpo a um meio estranho.É buscar a perfeição dos peixes e cetáceos fazendo com que cada braçada se torne ainda mais perfeita, que rolem os ombros conforme o movimento das ondas.Que pernas, braços, nariz, boca e pulmões façam uma coreografia com o objetivo de deslizar cada vez mais rápido…esforço compensado pelas medalhinhas ganhas em competições Master, onde nadadores de até 85 anos de idade provam que a água é o meio mais democrático para se realizar uma atividade física.Já experimentei de tudo em termos esportivos, mas nada se compara à sensação de torpor gerada por 3 mil metros percorridos na água…quando se sai da piscina, aguçamos o sentimento de renovação física e psicológica.Solidão? que solidão? No tênis é muito pior…

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  • 08/01/2007 - 11:34
    Enviado por: Fábio de Castro

    Nado bem desde criança, mas morro de tédio. Aquele azul monótono passando na minha frente enquanto meu corpo faz um movimento absolutamente repetitivo… é pra matar…

    Sou uma pessoa muito contemplativa, mas, enquanto nado, não consigo pensar, ou meditar, ou mesmo viver um momento de solidão tranquila. Fico bolando musiquinhas idiotas.

    Na piscina, meu único intuito é nadar rápido para acabar o mais cedo possível com aquela chatura molhada e voltar logo a ser um cidadão civilizado, seco, vestido e divertido.

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  • 08/01/2007 - 11:36
    Enviado por: danielpiza

    O, Fábio, quem sabe você não é um compositor popular frustrado? Invista nas musiquinhas!

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  • 08/01/2007 - 11:46
    Enviado por: Tatiana de Bruyn

    Caramba, Fábio… você descreve uma sessão de tortura, não um treino de natação!
    Obs:Cara Eliane: não acho que ficamos mais bonitos nadando… aquelas toucas coladas à cabeça e os óculos são de matar!!!

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  • 08/01/2007 - 15:08
    Enviado por: marcus

    “A natação me dava uma espécie de alegria, uma sensação de bem-estar tão grande que às vezes se tornava uma espécie de êxtase.”

    bem, hj cedo eu tive exatamente este sentimento qd cheguei ao clube e as piscinas estavam interditadas. mas amanha estarao livres e o tedio absoluto voltara a agenda. nadar eh, provavelmente, a atividade mais chata q exerço voluntariamente.

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  • 08/01/2007 - 15:10
    Enviado por: danielpiza

    Cada louco com sua mania… (rs)

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  • 09/01/2007 - 09:39
    Enviado por: Thiago Lira

    Li o texto do Sacks e fiquei bastante emocionado, não que eu seja um entusiasta do esporte mas ao descrever a sensação de estar na água ele conseguiu fazer com que eu me sentisse nela, e isso meu caro, é fantastico. Só me senti tão ‘dentro’ de uma leitura qdo o gato volta do “Cemiterio Maldito” do Stephen King, juro que senti o cheiro odre do bichano.

    Ah… o texto sobre o inventor das caixinhas de CD que vai pro inferno também é muito engenhoso, só não me lembro de quem é…
    Um abraço Daniel.

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  • 09/01/2007 - 12:11
    Enviado por: Eduardo Gonzaga

    Quando eu nadava, extraía prazer semelhante ao que você comentou. Agora, que deixei de nadar e passei a caminhar no belo parque da região em que vivo, consigo usufruir de prazer igual. Tudo que fazia nadando — pensar, por exemplo, em algum problema até encontrar uma solução — faço hoje, caminhando.

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  • 09/01/2007 - 16:15
    Enviado por: Miriam

    Para os que conseguem extrair e sentir as sensações descritas, seja nadando, tocando sax, piano, lendo e, para mim, correndo no Ibira às 6:30, ou seja, da forma que melhor permita esse isolamento consigo mesmo, parabéns!

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  • 10/01/2007 - 09:01
    Enviado por: daniela

    Achei ótimo o texto e também concordo com o prazer extremo dado pela natação, pelo sentir o corpo deslisar na
    água e a mente flutuando ainda mais que o corpo, ao mesmo tempo em busca do movimento e da harmonia perfeitas.
    Mas não desprezemos o correr. Passo a passo, indo longe, solitário sim, por que não? Solitário com o mundo ao seu redor, e o pensamento maior que tudo. Mente narcotizada, mas trazendo pensamentos que só dessa forma fluem… Tem um texto do Lauter Nogueira numa revista de nome contra-relógio (para corredores), sobre a meia maratona do Rio. A descrição dele é perfeita! A solidão de cada um, em meio aqueles milhares de corredores, com o mesmo objetivo, mas cada cabeça tão longe dalí!
    Corrida e natação são muito complementares, em todos os aspectos. O que dificulta, eu acho, a entrega à corrida é o bloqueio inicial, mas depois da entrega, a satisfação é semelhante!

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  • 12/01/2007 - 19:47
    Enviado por: Mika

    Incrivel o teu texto, adorei!Comecei a praticar natação em novembro e nado 2000 metros diariamente.Já sabia nadar mas nunca tinha de fato praticado.
    Descobri o esporte da minha vida. É o unico que dá para ter prazer, se exercitar e pensar ao mesmo tempo.
    Mika

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  • 12/01/2007 - 20:03
    Enviado por: danielpiza

    Obrigado, Mika. Sorte sua poder nadar todo dia. Eu nado duas vezes por semana, 1.000 metros por vez…

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  • 22/09/2007 - 08:50
    Enviado por: Luis Fraga

    Gostaria em primeiro lugar de lhe dar os meus parabéns por este artigo.
    Sou nadador amador, pratico natação desde tenra idade, e sempre me senti bem por entrar numa piscina para nadar.
    No meu ainda curto percurso (35anos) pela vida experimentei outros desportos como o Remo, o Basket e por fim o body board (regressei ao meu meio).
    Depois de ter deixado de praticar desporto, por motivos profissionais, regressei à natação e de facto o esforço fisico aplicado no acto de nadar parece-me fácil, porque a minha mente está liberta. O esforço dispendido em cada braçada é minimo, dado que a execução do movimento quando é feita para nos defendermos das agressões aos músculos, estas acabam por não existir não deixando de os exercitar na mesma.
    Agora debato-me com um pequeno problema no grupo em que estou integrado (pessoal na mesma faixa etária que a minha) as pessoas parecem não aguentar o ritmo.
    Em primeiro lugar porque não se movimentam correctamente e depois nadam demasiado devagar (o que cansa mais) e antes de entrarem dentro de água já estão a pensar no sacrificio que é para eles 45m de treino.
    Enfim o importante é que cada um encontre o desporto que mais gosta de praticar e que lhe transmita tranquilidade.

    Desculpem o meu português, mas eu sou Portuga e como o acordo ortogràfico aqui ainda não saiu da gaveta vou continuando a escrever desta forma esquisita. Ninguem merece!!!

    cumprimentos,

    Luis Fraga

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