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Daniel Piza

14.março.2010 07:09:37

O segredo do seu Oscar

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Por que o Brasil não consegue? A pergunta inevitável depois da vitória no Oscar do argentino O Segredo dos Seus Olhos exige ressalvas. O cinema brasileiro ou mesmo um filme brasileiro não deve ter como objetivo conquistar o prêmio, pois não há fórmula para isso – James Cameron que o diga – e, quando a criação se guia por critérios alheios, termina com sabor de artificialidade. Mais importante, ganhar um Oscar não é um atestado absoluto de excelência, e nada é mais colonizado do que ficar esperando que o estrangeiro carimbe uma obra nacional para que aí ela passe a ser elogiada. Pois o segredo do filme de Juan José Campanella foi justamente esse, o de não ter segredo: foi pretender, antes e depois de tudo, fazer um filme muito bom. O Oscar foi uma das consequências, e vantajosa; não sua razão de ser.

O que importa é entender como ele conseguiu fazer esse filme muito bom, ainda que meu preferido na categoria seja A Fita Branca. E isto pode ter duas ou três lições para o cinema brasileiro. Em primeiro lugar, acho que há ali a consciência de que um filme é um trabalho de equipe, no qual o diretor é um autor e não um faz-tudo que trata os outros como simples escadas para sua autodeclarada genialidade. Como se sabe, o cinema brasileiro não tem essa tradição e só tem melhorado nos últimos 15 anos, com o surgimento de alguns roteiristas, fotógrafos e técnicos com uma assinatura mais pessoal. O filme de Campanella tem ótimo roteiro, ótimos atores, boa fotografia e uma notável trilha sonora, composta por um músico argentino de 36 anos radicado na Espanha, Federico Jusid. No resultado final, tudo se soma, organicamente, a tal ponto que não se pode isolar uma qualidade da outra.

Em segundo lugar, Campanella, que dirigiu antes O Filho da Noiva e alguns seriados na TV americana, sabe o que é uma boa história e sabe que contá-la não é meramente encadear fatos de modo convencional, mecanicista, e sim compreender e sugerir sua riqueza de implicações. Pode ser que isso tenha a ver com a forte linhagem de teatro e literatura numa cidade como Buenos Aires, mas por este caminho não se vai longe; afinal, o Brasil tem bons escritores. O fato é que o filme é bem escrito, o enredo é bem tecido: há conflitos, desenvolvimento, surpresas. A levada parece policial, só que com momentos de humor o tempo todo, romance, a combinação de expectativas e evocações. Há um admirável senso de ritmo: as cenas correm onde devem correr e pausam onde devem pausar. Acima de tudo, o filme tem ideias, algo raro aqui.

O maior trunfo da narrativa é não se condicionar à revelação do criminoso. O perito Benjamin Espósito (ao qual Ricardo Darín, ator de muitos recursos, dá ao mesmo tempo um ar determinado e triste) quer descobrir quem estuprou e matou a bela moça e descobre. O que é legal é o como. A cena do estádio de futebol, em que a câmera mergulha lá do alto até seu rosto na multidão, seguindo rapidamente para um plano-sequência de perseguição, em que varia do quadro médio para a câmera subjetiva (em que vemos pelos olhos do ator), já foi devidamente exaltada em todo o mundo da crítica. Mas a cena seguinte, em que a promotora (Soledad Villamil) mexe com o complexo de inferioridade do acusado, digamos assim, é excelente também. Pega a abordagem binária das tramas de detetive e a recheia com conotações morais. Quantos homens violentos não são como aquele, um frustrado sexual que confunde desejo e poder?

Naquele momento, Benjamin estava prestes a usar um procedimento escuso para chegar à verdade. Com isso, vemos que não é um personagem unidimensional, que não é necessariamente um primor de ética 24 horas por dia. Por sinal, sentimos o tempo todo que aquele caso o motiva intimamente, que o leva a pensar em muito mais coisas além de sua solução, inclusive a admirar e de certo modo invejar o amor do estranho viúvo. Tanto é que, em paralelo, corre sua paixão não declarada, que pontua os silêncios do filme com um lirismo bem dosado. Então vem a segunda parte da história, nos 40 minutos finais, um desdobramento do caso que se relaciona com o momento político, a ditadura, e dá outra dimensão ao filme. Roteiro e direção são tão bons que essa segunda parte não deixa cair a atenção do espectador. E saímos do filme pensando no perigo que existe nessa vontade de fazer a justiça que a Justiça não faz.

Personagens ambivalentes, contextualização histórica, ideias sem ideologia – eis os itens principais de que sinto falta na grande maioria dos filmes brasileiros. Outro, relacionado a eles, é a própria escolha dos temas: Campanella filma a classe média urbana, o que alguns de nossos formadores de opinião chamam de “burguesia” (à qual pertencem, como se sabe), e não do ponto de vista da culpa social. Pense no cinema brasileiro desde a retomada de 1994. A grande maioria é sobre mazelas e favelas – Central do Brasil tratou disso como “road movie” e Cidade de Deus como filme de ação, gerando filhos como Tropa de Elite – ou então comédias, rurais como Auto da Compadecida ou televisuais como Se Eu Fosse Você. Quando aparece um dono de negócio, um profissional liberal ou um funcionário público, é por seu medo da violência ou por sua alienação. Denúncia e escapismo dão os tons.

Observe que estou dando exemplos de trabalhos bem realizados, com um padrão mínimo de qualidade. Outros, como Salve Geral, indicação do Brasil para concorrer a esse último Oscar, desperdiçam a ótima história com uma opção pelas facilidades (a protagonista se apaixona subitamente pelo presidiário e na cena seguinte diz que ficaria ali com ele para sempre) e um desdém ao ritmo (o filme só cresce no final, quando a tensão aparece). Isso para não falar de Ches e Lulas filmados como se fossem lendas vivas, ou melhor, santos predestinados… Alguns cineastas estão acima disso, como Hector Babenco, mesmo quando retrata o Carandiru, e alguns filmes que se encaixariam na tola expressão “cinema de arte”, como Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, e os de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz. Não posso deixar de citar filmes empáticos como O Quatrilho, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias e Estômago. Mas nenhum me parece ter a qualidade consistente de O Segredo dos Seus Olhos. Queiramos grandes filmes, não Oscar.

(“Sinopse“)

comentários (51) | comente

51 Comentários Comente também
  • 14/03/2010 - 11:21
    Enviado por: ricardo

    Não concordo com o artigo pois ao querer propor uma fuga à regras esquemáticas para se chegar ao Oscar, acaba caindo também num esquematismo um tanto redundante do que seria o “filme ideal”. Veja Piza, O Brasil não quer o prêmio pra que lhe seja creditada alguma “excelência” inexistente (ela existe, e em vários projetos), mas sim para fortalecer ou ajudar a estruturar a nova retomada da indústria cinematográfica por estas bandas desde o desarranjo da era Collor. Por outro lado, não acho a questão temática tão vital assim; ela está ligada (a temática) ao próprio repertório e estilo do artista, não é regra, não é imposta e até mesmo nem é tão pouco diversificada como se costuma pensar (“O Cheiro do ralo” fala sobre violência urbana?). Acho que cinema como qualquer outra forma artística tem que ser experimentada (MUITO), e nesse ponto emperramos com os custos de produção (é ser astronauta no Chipre, conforme o Jorge Furtado diz).

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  • 15/03/2010 - 05:36
    Enviado por: Anna H.

    Piza, por que você diz que cinema de arte é uma ‘tola expressao’ ?Para mim esse termo é usado quando se quer diferenciar um filme puramente comercial,como é a maioria dos blockbusters, com um filme ‘de autor’ e, obviamente, realizado com preocupação unicamente artística e nao com finalidade de vender mais tickets na sala de cinema. É claro que cinema é arte, a sétima arte, entao um filme dito ‘de arte’ vai além da definição contida no dicionário.

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    • 15/03/2010 - 08:34
      Enviado por: danielpiza

      Por isso mesmo, Anna: ou parece que cinema não é arte ou que só aquele cinema é artístico. Fica uma categoria à parte, numa prateleira que o público em geral tende a rechaçar como a dos filmes chatos… E com isso perdem grandes experiências.

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  • 15/03/2010 - 05:56
    Enviado por: ricardo

    Vou ver esse “O segredo de seus olhos” e confesso que muito contrariado após a premiação de que não gostei; ou melhor, detestei…ou melho, ODIEI MESMO! (rsrs). È difícil engolir essa premiação e qualquer brasileiro sabe bem o porquê. Mas acaso o Road movie “Central do Brasil” (conforme sua qualificação) não tinha lirismo, beleza, roteiro e interpretações ímpares? Perdeu pro chatíssimo italianinho de quem nem lembro o nome. Sei lá… vou ver esse argentino. Espero odiar. Abçs!

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  • 15/03/2010 - 09:31
    Enviado por: Rafa

    O próprio Babenco andou desprezando esse constante retrato da classe média, no cinema argentino.Vai entender.

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  • 15/03/2010 - 12:11
    Enviado por: Álvaro

    Caro Daniel, obrigado por ter dito exatamente o que os cineastas brasileiros deveriam ouvir.

    Ninguém tá mais interessado em expiar a “culpa burguesa”. Isso já encheu o saco, deu o que tinha que dar. “Linha de Passe” e “Expresso 154″ parecem feitos décadas atrás. Releituras anacrônicas de um “Pixote”, por exemplo.

    Minha esperança (independente do Oscar) é que vemos por aí bons filmes, realizados com o justo interesse de contar histórias de maneira agradável, mesmo sob o risco de carregarem o rótulo (infelizmente) pejorativo de “comerciais”. Casos de “Meu Tio Matou um Cara” ou “O Passageiro”.

    Há espaço para a crítica à alienação social? Sim. Mas podemos procurar outros paradigmas, outro foco, não apenas retratar a miséria dos excluídos. Um exemplo que me vem à cabeça sobre isso que eu quero dizer é “A Concepção”.

    Enfim, os dilemas humanos não se restringem à desigualdade econômica. É bom vermos um “Durval Discos” ou um “Falsa Loura” expondo outro tipo de angústia.

    Parabéns pelo texto.

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    • 15/03/2010 - 16:02
      Enviado por: ricardo

      Àlvaro,
      filmes “agradáveis” rimam com Beletrismo, que rima com esgotamento e clichês.

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    • 16/03/2010 - 14:34
      Enviado por: Álvaro

      Caro Ricardo,
      Não sei o que você entende por “agradável”, mas eu considero “O Homem que Copiava” ou “Nome Próprio” filmes agradáveis (leves, descontraídos, instigantes, um belo passatempo) e, nem por isso, são um emaranhado de lugares-comuns.

      Quem sou eu pra dizer o que nossos cineastas têm que fazer ou deixar de fazer, mas acho que filmes como esses supracitados mostram um caminho interessante de se realizar filmes populares sem ser tão raso quanto um “Se Eu Fosse Você”, por exemplo.

      Abraços.

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    • 17/03/2010 - 01:26
      Enviado por: ricardo

      Álvaro, concordo com vc. O que quis dizer é que as pessoas precisam abrir a cabeça pra outras coisas além desse “Se eu fosse você”, que aliás, acho que também tem que ser feito por aqui esse tipo de filme. Tem que ter diversidade, para as pérolas começarem a surgir.

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  • 15/03/2010 - 13:42
    Enviado por: Alex

    Fico querendo saber de onde vem essa birra com argentinos. Tirando o futebol, que por si só não é justificativa, isso me parece o resultado de um profundo complexo de inferioridade. Nunca fomos atacados, invadidos ou ameaçados pelo nosso vizinho. Não há conflito religioso ou étnico. Enfim…
    Quanto aos filmes concordo com o Piza, falta algo aos filmes brasileiros. Maturidade narrativa. Muitos filmes brasileiros recentes parecem tentar ser o que não podem.
    Acho que nossa cultura excessivamente influenciada pela TV é a grande culpada.

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    • 15/03/2010 - 16:42
      Enviado por: ricardo

      “Maturidade narrativa” seria contar belas histórias…(sic). Tem um filme bom dos Cohen “Adaptação” que fala sobre a angústia de se escrever um roteiro fugindo da tal “maturidade narrativa”. O personagem é um roteirista que faz um filme sobre…orquídeas. Aqui no Brasil, certamente orquídeas não resultariam em “maturidade narrativa”.

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    • 15/03/2010 - 20:20
      Enviado por: joao

      Concordo com vc, mas o diretor do filme e Spike Jonze, com roteiro de Charlie Kaufman…

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    • 16/03/2010 - 00:54
      Enviado por: ricardo

      João, obrigado pela correção. O filme realmente não é dos Cohen.

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  • 15/03/2010 - 15:51
    Enviado por: Ramon

    Daniel, sou assinante do Estadão e sempre leio teus textos no jornal. Mas este me chamou atenção em especial por ter tocado num ponto chave da conversa que tive com a minha esposa após sairmos do cinema. Falávamos justamente do quê falta ao cinema brasileiro, em comparação com o argentino.
    O que me motivou a enviar esta mensagem foi seu raciocínio, com relação a “saber o que é uma boa história e saber contá-la”: “Pode ser que isso tenha a ver com a forte linhagem de teatro e literatura numa cidade como Buenos Aires, mas por este caminho não se vai longe; afinal, o Brasil tem bons escritores”.
    E é aqui que me permito comentar sobre a conclusão que chegamos: sim, temos bons escritores mas, são poucos os bons leitores. A Literatura não tem seu fim com o livro publicado, mas lido; e bem lido. Temos bons leitores? Sim, mas nem todos estão fazendo filmes, escrevendo roteiros…
    Não tenho a pretensão de “descobrir o mal” do cinema brasileiro (até porque não acredito que haja um único) mas, acho que lhe falta sutileza, e uma sutileza que só um leitor experiente e sensível (sobretudo sensível!) seja capaz de atingir.
    Em tempo: “O Segredo…” ganhando o Oscar (não assisti a “O Profeta”) e “A Fita Branca” ganhando Cannes ficou coerente, vai…

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  • 15/03/2010 - 16:00
    Enviado por: Maria

    O filme é um espetáculo e a vontade que fica é de aperfeiçoar o castelhano e não perder os detalhes da linguagem local.

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    • 15/03/2010 - 17:58
      Enviado por: Ramon

      Tem razão, Maria! Por conhecimento do idioma entendo o que falam mas, mesmo assim, não deixo de ler as legendas; e o que posso dizer é que o “O Segredo…” é ainda mais rico em sutilezas. Fico pensando no quê perdi em “A Fita Branca” ! Abs.

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  • 15/03/2010 - 16:24
    Enviado por: ricardo

    O que noto de vários comentários é um grande preconceito com o cinema brasileiro (o que a meu ver é uma atitude colonizada pacas), como se os filmes daqui sofressem de algum “mal”, apenas curável com um Oscar. Os argentinos talvez tenham um mérito que nós nunca tivemos: respeito e apoio pra com seus artistas. Faltam leitores no Brasil? Sim, bem como público de teatro e etc. Quem conhece Antunes Filho (o cara mais representativo no teatro da américa latina)? E ainda querem que o artista tematize a classe média… como? Pra falar da sua decadência em meio à multidão dos shooping centers? De fato até que daria uma boa cena.

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    • 15/03/2010 - 16:31
      Enviado por: danielpiza

      Ricardo, deixo claro no texto que não existe um único mal, muito menos que seja “curável” pelo Oscar. Nosso teatro também tem sérios problemas. E a questão não é “tematizar a classe média”, mas sair desse domínio dos filmes sociológicos ou comedinhas… E qual o problema de ir a shopping center? Você soou como esses articulistas que falam de burguesia e depois eu encontro no shopping… Eis o tipo de afirmação que não leva a nada, muito menos à arte.

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    • 15/03/2010 - 16:53
      Enviado por: ricardo

      Piza, o “curável” não foi referente ao seu texto, e sim a um post acima; os filmes sociológicos e comedinhas também são necessários quando se fala em indústria fílmica; a citação ao shooping foi uma metáfora, mas ilustra bem uma sociedade que se abastece de produtos pura e simplesmente por ostentação e claro, foi uma generalização, mas que expressa muito uma decadência premente. Vou também ao shooping quando estritamente necessário, mas acho aquilo tudo tão Kitsch quanto a festa do Oscar.

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    • 15/03/2010 - 17:53
      Enviado por: Ramon

      Ricardo, um dos problemas está simplesmente em crer que não há vida inteligente fora da luta de classes. Neste “O Segredo…” não se deixa de falar do período da ditadura na Argentina, mas ele é um pano de fundo e o principal é o emaranhado de sentimentos, a que todos os seres humanos estão sujeitos, além do encadeamento preciso de situações que, bem filmado (e com ótimos diálogos!), emocionam e, sobretudo, convencem. Ou seja, tudo resultado de uma sensibilidade incomum que, a meu ver, falta nos roteiros brasileiros. Não concordo com o tal preconceito contra o cinema nacional; há filmes muito bons produzidos aqui, claro. Mas, com o perdão do clichê, são as exceções que confirmam a regra. Além dos bons filmes nacionais, citados pelo Daniel Piza, eu acrescentaria “Casa de Areia” e “Abril Despedaçado”. Mas, reconheçamos, no geral o nível é baixo e ficamos aquém dos hermanos… penso que colocar essa crítica na vala do “preconceito contra o filme brasileiro” é uma armadilha muito perigosa; isto, no sentido inverso, pode nos levar a ser mais condescendentes com os filmes realizados por aqui, unicamente, porque são nacionais. Pense nisso! Certa vez, na Mostra de SP, saí no meio de um filme francês. Na porta do cinema recebi o olhar indignado da diretora, retribuí com um sorriso amarelo que, espero, ela tenha entendido: “Desculpe, minha senhora, mas seu filme é uma droga…”. Um forte abraço, amigo.

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    • 15/03/2010 - 18:20
      Enviado por: Ramon

      À propósito, Ricardo, concordo plenamente contigo com o fato de que no Brasil não há apoio e respeito ao artista. Mas daí a acharmos que, por isso, pode-se fazer um filme e contar de antemão com a simpatia do público vai uma distância muuuuito grande. Em contrapartida há tanto artista brasileiro que levanta um dedo e chovem elogios… infelizmente vivemos numa época (e num país) onde ter amigos (principalmente na crítica) é, às vezes, muito mais importante do que ter talento.

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    • 16/03/2010 - 00:48
      Enviado por: ricardo

      Ramon, você tem razão. Fui infeliz em algumas partes do meu comentário. E também quando falei de frequentadores de shopping de forma extremamente preconceituosa, até porque não tenho a menor simpatia pelo pensamento vulgarizado da esquerda (e aqui vai mais uma generalização). Seu exemplo do episódio com a diretora na mostra de SP é perfeito; é o que eu faria também. Abração!

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  • 15/03/2010 - 17:36
    Enviado por: Lucia

    Olá Daniel,

    Gostei tanto do seu artigo que tive que ir ao cinema ontem a noite ver o filme. Amei, lição de roteiro do começo ao fim. Escrevi sobre seu artigo no meu blog http://www.roteirosemrumo.com

    Mudando de assunto, o que aconteceu que vc sumiu do final do jornal Eldorado?
    e se vc souber por favor me fale se o João Ubaldo saiu mesmo do Estadão.
    Obrigada
    Lucia

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    • 15/03/2010 - 18:04
      Enviado por: danielpiza

      Lucia, deixei a Eldorado na sexta passada, em busca de melhor qualidade de vida. O Ubaldo continua aos domingos, sim, na pág. 4 do Caderno2. Eu fui para a contracapa abaixo do Verissimo. Obrigado!

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  • 15/03/2010 - 18:08
    Enviado por: jair

    O país não está preocupado em ganhar um Oscar; preocupa-se em ganhar a Copa do Mundo de futebol, a Fórmula Um e outros quejandos. Nem sabe direito que um americano escreveu um livro importante sobre Clarice Lispector. Mas ficou sabendo que a novela “O Clone” agora tem uma versão televisiva mexicana ou colombiana, algo assim. A televisão parece nos bastar; não queremos ir ao teatro, a uma exposição, ao cinema mesmo, ver um bom filme. Mas é engraçado que um mau filme, como o do Lula, pouca gente também quer ver. Somos complicados, não sofisticados, daí que temos, com poucas exceções, tantos filmes mal-feitos sobre nossas mazelas e tantas novelas e programas idiotas (BBB, Sílvio Santos, etc.). Não que os argentinos sejam muito diferentes de nós, acho. Mas os filmes argentinos que tenho visto ultimamente, sem que percam a nacionalidade, parecem ter sido feitos pelos melhores diretores, atores e técnicos europeus. Para finalizar: alguns dos melhores filmes brasileiros foram feitos por um argentino, o grande Hector Babenco.

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    • 15/03/2010 - 18:29
      Enviado por: Ramon

      Pô, Jair, ganhar Copa do Mundo também é bem legal! O problema está em que esta conquista venha em detrimento de outras… À propósito, o livro do tal americano sobre a Clarice é bem fraquinho, mais do mesmo e, pior, pretensioso. A meu ver ele só ganhou espaço na mídia por conta da ação que as editoras exercem, infelizmente, pautando muitos espaços críticos.

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  • 15/03/2010 - 19:31
    Enviado por: césar

    Alex tem razão ao tocar na existência do complexo de inferioridade do brasileiro com relação ao argentino. Falam até o portunhol para prestar vassalagem a turista vindo da Argentina. E sobre filme brasileiro, desde O Príncipe, de Ugo Giorgetti, nada de melhor nos foi apresentado.

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    • 15/03/2010 - 23:15
      Enviado por: danielpiza

      Tem certeza? Melhor que O Segredo dos Seus Olhos? Viu este?

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    • 16/03/2010 - 01:16
      Enviado por: ricardo

      Inacreditável Piza… Parece que é o melhor filme do mundo, meu Deus! Puxa vida… parece até que você ficou feliz de ver o argentino vencendo, caramba…Vou vê-lo assim que puder pra não perder a “MAIOR OBRA PRIMA DA HISTÓRIA DO CINEMA”. (espero não quebrar a cara e… gostar também).

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  • 15/03/2010 - 19:51
    Enviado por: Mariana

    Concordo plenamente. Na verdade eu até torço para que o Brasil não ganhe um oscar usando filmes que retratem apenas o Brasil “feio”. Ainda que as pessoas digam que é o retrato do Brasil.
    Muita gente considera injustiça Central do Brasil não ter vencido o Oscar. Mas não tinha como competir com A Vida É Bela, onde foi feita uma história bonita e leve tendo como pano de fundo um campo de concentração. Creio que nesse ano a injustiça tenha sido com Fernanda Montenegro, não com Central do Brasil.
    Mas ainda aguardo ansiosa que o Brasil faça um filme bom, que realmente mereça o Oscar. E que o consiga, é claro.

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    • 16/03/2010 - 01:31
      Enviado por: ricardo

      Mariana,
      Brasil “feio”? Você acha “Central do Brasil”, um filme que fala sobre a alma e angústia do Brasileiro, que arrancou lágrimas da primeira à última fileira (lembro-me que era até constrangedor quando acendiam as luzes ao final da sessão), que é uma pérola do cinema nacional. Você acha que mostrou “feiúra”? Fico até chateado de ler um troço desses…

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  • 16/03/2010 - 04:06
    Enviado por: Tamires

    Normalmente não gosto de filmes brasileiros, com raras exceções. Acho que o que mais falta é a sutileza, é tudo sempre ou querendo ser engraçado demais ou querendo ser violento demais, muitas vezes com roteiros que beiram ao infantil. Gosto de Central do Brasil por ser um dos poucos que consegue ir ligeiramente por esse caminho, onde não é necessário explicar tudo.

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  • 16/03/2010 - 09:58
    Enviado por: ricardo

    Vi o “segredo de seus olhos” e achei um belo filme, sem dúvida. Roteiro excelente mas só. Que fiquem com o bonequinho de lata. Estamos encontrando um caminho também. Vejo problemas aqui em se elaborar um roteiro com tanta sofisticação, mas nossos plots são geniais. A trajetória do cinema brasileiro é constituída por crises e retomadas hercúleas e isso tem que ser visto; claro que sem a condescendência ingênua do “se é brasileiro, é bom” pois isso não nos tiraria do chão. Mas insisto que comparações com o cinema argentino não acrescentam em nada. Nossos filmes, por imperfeitos que sejam, ao menos não se repetem eternamente com olhos voltados ao passado (isso revela, aliás, como é difícil tematizar algo que nos é estranho como realidade). Que fiquem como bonequinho de lata.

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    • 16/03/2010 - 11:40
      Enviado por: danielpiza

      Plots geniais onde? Só por aí você vê a utilidade da comparação… Também é mentira que seja um cinema voltado para o passado. Bem que o cinema brasileiro poderia abordar o período autoritário com essa mesma qualidade. Bonequinho de latão, então?

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  • 16/03/2010 - 13:55
    Enviado por: ricardo

    Caro Hermano Piza, só alguns plots geniais: Central do Brasil, Cidade de Deus (que tb tem roteiro ótimo), Estômago, cheiro do ralo; Agora os òtimos: tropa de elite, cleópatra, e outros que agora de memória não vêm; quanto aos excepcionais, vai demorar mais um pouquinho, porque ainda estou estudando as técnicas de roteiro.(rs). Quanto à eterna temática argentina, não é mentira, não. Os caras vêm falando de si mesmos de forma melancólica já faz um tempão, paradões nos anos 50, em que eram vistos como a europa na américa latina. Vivem ainda do passado e se recusam a olhar o presente, que é quase catastrófico(e olha que não estou nem falando de futebol). Por outro lado, vc quer dizer que Gláuber e outros não tematizaram o período ditatorial com qualidade artística, e não vou nem falar do experimentalismo do cinema posterior marginal, porque aí, o placar pros nossos primos ficaria vergonhoso.

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    • 16/03/2010 - 15:26
      Enviado por: danielpiza

      Cleópatra! Ali nem plot tem! Precisa estudar melhor o que é plot, Ricardo! E chamar de geniais esses outros é, convenhamos, empáfia para argentino nenhum botar defeito…

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    • 17/03/2010 - 00:57
      Enviado por: ricardo

      Caro Hermano Piza, ok, preciso estudar mais tanto o plot, quanto todo o resto, o que não é mole. Mas só quero te fazer uma pergunta: vc viu “Romance”, de sérgio Bianchi? Se viu, achou que não tinha plot também? Acha tudo que a gente faz no Brasil empáfia perto do cinema argentino? Vc nunca fez um roteiro, Piza, não sei, mas se fez, está sendo muito severo com os caras daqui. Você coloca tudo lá embaixo. Isso não é legal. E aproveitando, achei infeliz sua comparação com o cinema argentino desde que li esse artigo pela primeira vez. Isso só mostra o quanto estou certo quando digo que Brasileiro não apóia seus artistas.

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    • 17/03/2010 - 01:47
      Enviado por: ricardo

      e plot, segundo minha ignorância, é o fio básico dramático, aquele a partir do qual os personagens se movem e cujo fluxo dramático converge pra uma resolução. Dentro desse ponto de vista, os filmes que eu citei, têm excelentes plots, sim, meu caro Hermano.

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  • 16/03/2010 - 14:25
    Enviado por: ricardo

    Agora, quanto ao “segredo dos seus olhos”, aquilo é de uma sofisticação tremenda, tocante e de uma sutileza…vai construindo uma narrativa filosófica em torno do olhar, mas não fosse por isso já seria um ótimo policial. Mas também não é obra-prima. Obra-prima é “Paris-Texas”, obra-prima é Tarkovsky. A imprensa está superestimando o “segredo”.

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  • 16/03/2010 - 15:59
    Enviado por: Alex

    Ricardo, reconheço que reduzi demais ao chamar o problema de “maturidade narrativa”. Acho que o problema é de “maturidade”. Recentemente vi vários bons filmes brasileiros, na verdade faço um esforço para vê-los nos cinemas. E como disse, acho que ví vários bons filmes. Mas ainda não me comovi ou fui “assaltado” por sentimentos e sensações como em outros filmes estrangeiros. Não vou dar nomes para não estender a discussão de gostos, mas o que eu a acho falta não é relacionado a gêneros ou valor da produção. Mas meu ponto no comentário é essa inexplicável birra com a Argentina. Na minha opinião, já que não havia filma brasileiro em competição, fiquei feliz pelo prêmio (o segundo) ter ido para os hermanos.

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    • 17/03/2010 - 01:04
      Enviado por: ricardo

      Alex, é questão de gosto, concordo. Mas por exemplo, vc não achou Central do Brasil, um ótimo filme? Um filmaço? Aposto que se vc puxar pela memória vai achar uns trezentos. Viu o excelente O cheiro do ralo? Se viu, fala, não foi um filmaço? Concordo contigo em relação a gêneros pois a questão não é essa. Quanto aos hermanos, isso tudo é lenda, ninguém têm bronca de argentino por aqui não…é tudo amiguinho…abç

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  • 17/03/2010 - 21:22
    Enviado por: André Felipe

    Caro Daniel,

    fora o israelense Ajami, assisti a todos os nominados a melhor filme estrangeiro. E concordo com os “velhinhos da Academia”: Segredo seus olhos mereceu a estatueta.

    Como você bem disse, “o filme tem ideias”. Muitas delas. São inúmeras as possibilidades de discussão no filme de Campanella. Desde aspectos pontuais e mais evidentes como as motivações do crime ou sobre as resoluções da pena de morte até a compreensão da película como uma Argentina alegórica, que presta contas com seu passado de ditadura vinte cinco anos depois. Afinal, estamos tratando do aniquilamento da “sra. Morales”, ou não?

    A personagem Irene é propositalmente a “mulher perfeita”. Competente, inteligente, amiga, bem humorada, bonita, gostosa( não necessariamente nesta ordem). Ela simboliza uma Justiça ideal – inatingível a Esposito, ou ao povo argentino, como queira. Em uma passagem de autocrítica, o personagem Esposito separa bem a vida que é da que poderia ser ou ter sido. É preciso ser realista e pragmático. Uma reflexão interessante se posta à luz do revisionismo histórico que acontece atualmente.

    Ótimo também é A fita branca, mas que, no meu entender, perde em frescor e originalidade para Segredo de seus olhos. Li seu comentário e tive a mesma impressão a respeito da “inconclusividade” no filme. Porém, A fita branca me pareceu uma releitura menor do cinema de Carl Dreyer e de seu seguidor mais direto, Ingmar Bergman. Além disso, há um certo sensacionalismo quanto a violência no filme, aos moldes do chantagismo emocional do Dogma, que acaba sendo contraproducente à própria reflexão sobre ela.

    O Profeta é mais do mesmo, não perca seu tempo. A Teta assustada poderia ser um filme brasileiro. Precisa dizer mais? Pelo menos, a atriz faz a “diferença”.

    Só lembrando que no anos oitenta tivemos uma enxurrada de filmes, ditos existenciais, de diretores como Walter Hugo Khouri e Arnaldo Jabor, recheados de dramas retratando a tal da burguesia. É até normal que nos noventa as coisas tenham ido pra outra direção. Abs

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  • 21/03/2010 - 21:32
    Enviado por: ANGELA

    O Segredo dos Seus Olhos
    Francamente eu vi poucos comentários a respeito da vitória deste filme no Oscar. Suponho que houve por parte da mídia brasileira um certo silêncio por este filme não ser brasileiro, porém argentino. O filme é genial. O amadurecimento do diretor Juan José Campanella , destacando-se da mesma forma as atuações dos atores Ricardo Dárin e Soledad Vilamil, o enredo que prende a atenção e a sofisticação e sensibilidade em tocar as cenas. Merecido, embora eu não tenha visto a Fita Branca, acho este ” O Segredo… um filme muito bem
    realizado.

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