
Em vários pontos de Johannesburgo há demonstrações da televisão em 3D, inclusive uma sala de cinema improvisada no meio da Praça Mandela, no bairro de Sandton, com apresentador e tudo. Obviamente a aposta é concentrada na sugestão de que assistir aos jogos de futebol será muito mais vibrante, mas também são mostrados programas sobre natureza, videoclipe da Shakira e outras coisas bonitas. Acima de tudo, o discurso promete “ultimate experiences”. Esse é o adjetivo da moda, “ultimate”, e quer dizer que são experiências definitivas, insuperáveis, supremas. É claro que sabemos que daqui a dois ou quatro anos o mesmo anunciante – como nos comerciais de sabão em pó, carros ou silicones – dirá que se superou. Mas tudo isso dá o que pensar sobre nossos tempos.
Uma característica que percebo é justamente essa procura por experiências de alta intensidade emocional, ou melhor, sensorial. Vemos isso na onda de “esportes radicais”, de desafios cheios de adrenalina e serotonina como triatlos e escaladas. Vemos também em iniciativas culturais como uma “maratona de eventos” ao longo do fim de semana, ou longos shows ou baladas esticadas até o amanhecer com a ajuda de tônicos e outras substâncias. A própria indústria musical passou a se dedicar a levar espetáculos para todos os cantos do mundo, como o Brasil, já que elas e os astros não vivem mais dos CDs e não se pagam na internet. Contrariando os apocalípticos, as salas de cinema voltaram, apoiadas em novas tecnologias, porque afinal oferecem uma experiência que a sala de casa não oferece (nenhum “home theater” tem uma tela daquele tamanho e um áudio daquela qualidade). Já os games estão cada vez mais sofisticados, com a interação virtual; você pode realmente suar jogando tênis no Wii. E nos estádios de futebol, ou “arenas”, como se diz agora, há apelos a todos os sentidos: telões, restaurantes, lojas, diversões, “cheer leaders”, vuvuzelas… É como se ninguém pudesse se aquietar em nenhum momento.
Não sou contra nada disso, e tenho curtido muito dessas coisas. Ao contrário do que diz a mentalidade classe média tradicional, tão forte em tantos dos ditos “intelectuais” desta era pós-utópica, a natureza humana não quer apenas estabilidade, rotina, segurança, conforto. Mesmo o mais careta ou reacionário dos cidadãos sofre por aquilo que não viveu – os lugares aonde não foi, as posições que seu (sua) companheiro (a) não quer, os assuntos que ignora, os jogos que não joga. Tolera-se razoavelmente que outros sejam mais ricos, bonitos ou inteligentes; o que dá inveja mesmo é que se divirtam mais, que façam mais coisas diferentes, que não tenham a mesma vidinha de emprego repetitivo e casamento castrador.
Mas aí é que entra o reverso da tendência. Essas experiências de limite, tão artificialmente intensificadas, criam a ilusão de que só elas valem. Há algo de infanto-juvenil nessa carência de excitação contínua, assim como a contracultura parecia às vezes apenas o medo de assumir responsabilidades. Fala-se em “definitivo” como se fosse transcendente ou sublime. Acontece que muitas das vivências mais transformadoras do indivíduo não são assim, não precisam de tanto ruído e sentimentalismo. E o mais importante: uma experiência mediada, por mais cara ou refinada que seja a mediação, não substitui a experiência real. Sim, a arte faz uma simulação do real e permite que tenhamos a percepção de outras épocas, lugares e valores, mas todo grande artista sempre soube que nenhuma linguagem é neutra. E sim, o que as linguagens audiovisuais (cinema, TV) nos deram em conhecimento e liberdade (o muro de Berlim não teria caído sem a força das imagens) é subestimado, assunto ao qual voltarei, mas não chegam lá.
Volto ao 3D: uma das imagens mostrava alguns ursos sob a neve no Japão, e a definição era tal que víamos as texturas da pele e as formas do movimento (como nos replays em HD da atual Copa); mas parte da neve parecia cair num primeiro plano, muito próximo da vista, enquanto o urso e a outra parte da neve pareciam estar num segundo plano, o da tela. Talvez essa sensação de camadas visuais ainda seja superada, mas por enquanto ela funciona pelo detalhismo e nas ações de profundidade (mergulho da câmera ou algum objeto vindo na nossa direção). Ou então volto à mais tradicional tecnologia de imagem, a fotografia. Nenhuma lente consegue fazer o que o olho consegue: captar com nitidez simultânea as diversas distâncias, sem desfocar um plano em benefício do outro. O olho emoldura e qualifica, mas tem vantagens técnicas impressionantes.
Todas essas mediações, enfim, nos condicionam, criando a ideia de que são o máximo e tirando o tempo dos contatos diretos e dos momentos silenciosos. Não à toa há cada vez mais déficit de concentração. A realidade pode ser tediosa e frustrante muitas vezes, mas essas fugas mediadas – programadamente desmedidas – são também um sintoma disso ou, ainda, o reforçam por contraste. Descobrir que a realidade é e pode ser bem mais interessante, independentemente de nossas vontades, é esse o evento que pode ser definidor. Definitiva, só a morte.
(“Sinopse”)
No fundo nada mudou, a fuga da realidade, ou a incessante busca de novas experiências sempre nos acompanha. Vem da nossa natureza animal, pelo passado nômade e explorador impresso no DNA. Não conseguimos ficar muito tempo no redoma, apesar de desejá-lo sempre, a segurança entedia o irriquieto animal que precisa explorar lugares não antes pisados, como o Everest ou a Polo Norte. As novas tecnologias apenas satisfazem esse desejo, e torna acessível às massas, assim como o futebol é a guerra, os videogames e filmes são a aventura, a selva.
A única diferença é o fruto de nosso engenho e da acumulação de conhecimento, a tecnologia, mas o animal ainda permanece inquieto em sua jaula, com os olhos abertos e curiosos.
Piza, só um detalhe. Realmente a camera não consegue captar o que vemos, mas o olho, assim como na camâra, também desfoca o fundo quando fixamos o olho em algo bem próximo. Apesar disso o olho,tem grande vantagem, pois binocular, conseguimos captar a profundidade, o 3D da realidade, sem precisar de óculo.
Belo texto. P/ se pensar bem sobre isso. Por que tenho a sensacao que quase todo domingo voce condensa muita coisa que dizem bem por ai, so quem 200 paginas?
Assustador…….com a sua idade ja consegue bolar coisas que demoraram um bom tempo para tantos filosofos dos bons.
Realmente cada geracao tem que superar a anterior. P. Francis estaria orgulhoso de voce hoje.
Descartes no século 21:
“Consumo, ergo sum.”
Sensorial. É isso. A natureza nos deu de graça, mas Bill Gates no oitavo dia da criação percebeu a mina de ouro desse sentimento e o reinventou no Ipad, no Ipod e no Iphone e se deu bem. O original agora é um anjo caído.
Daniel Piza é sempre um prazer ler sua coluna.
Realmente qualquer livro de George Orwell é melhor que a tecnologia 3D,mas já pensou no que John Ford faria com Monument Valley em três dimensões?
Excelente texto, bom para ler e refletir.
Fica a dúvida: quando a tecnologia será utilizada para nos aproximar do real e não simulá-lo? A boa proposta é facilitar as atividades mais burocráticas para dedicarmos mais tempos às pessoas e aos “momentos”.
Partindo do seu texto, Piza, é possível refletir, o que é estar fora da tecnologia? É como se estivéssemos “perdendo” algo, ou fazendo da forma errada. Talvez as pessoas e os relacionamentos interpessoais sem “mediação tecnológica” estejam sendo inclusos aí.
Sempre fui muito resistente a essas novidades tecnológicas exatamente porque podem nos afastar da realidade, da beleza de contemplar e viver a própria natureza. Nada é nem será capaz de superar a beleza natural. Vale muito mais um pequeno passeio pelo fundo do “próprio quintal”, à luz do sol e ao canto dos passáros do que toda a técnologia em 3D!
Não discuto sua qualidade, eficiência, beleza ou mesmo utilidade. Mas sua capacidade potencial de nos afastar da realidade é o que mais impressiona. Antigamente, havia tempo para se “papear” com os vizinhos, para jogar bola na rua, para se caçar passarinhos. Hoje, um simples aparelho de TV (nem precisa ter tela plana, de pasma, etc), o modelo mais obsoleto de viodeogame ou o próprio computador, nos afastam das pessoas. Depois, buscamos auxílio psicológico porque nossos filhos não se sentem bem na presença das pessoas, são “desligados”, mal cumprimentam os outros.
E, acabo pensando que a sociedade está carente desse regresso a alguns costumes do quais a tecnologia nos afastou. O exemplos poderiam ser muitos. Fico, apenas, no seguinte: por que um simples álbum de figurinhas tornou-se um dos mais disputados passatempos em nossos dias?!? Não creio que apenas por envolver a copa do mundo.
Eu também penso assim.
E sempre me perguntei o porquê de as pessoas
serem tão fascinadas por TV’s com imagens de alta definição,
e vibrarem com essas imagens…
Ora, não é mais fácil olhar pela janela?
É puro 3D e você não precisa desembolsar nada por isso.
Vou mostrar esse texto para o meu pai,
pra veê se ele para um pouco com toda essa excitação tecnológica.
Obrigada!
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