
“Os escritores brasileiros não sabem bater escanteio”, teria dito um que sabia, Nelson Rodrigues. O que o dramaturgo e cronista de futebol quis dizer é que uma literatura precisa de autores que saibam desempenhar as funções práticas, que saibam dar continuidade aos lances narrativos, em vez de apenas empilhar confissões ou fantasias. William Kennedy, com os livros dessa que ficou conhecida como “a série Albany”, é tão eficiente no escanteio quanto um Zico. Põe a bola onde quer, na cabeça do leitor, com o gol à frente.
Talvez por causa da adaptação feita por Hector Babenco em seu período hollywoodiano, com Jack Nicholson, Ironweed se tornou o livro mais conhecido de Kennedy, especialmente no Brasil. Mas este O Grande Jogo de Billy Phelan – que compõe com Legs e Ironweed uma trilogia que se passa em sua cidade natal, Albany, capital do estado de Nova York – é considerado o melhor romance do escritor americano nascido em 1928, roteirista de filmes como Cotton Club, de Francis Ford Coppola.
Publicado em 1978, o livro flui como um jogo tenso, num encadeamento vigoroso de cenas, sem tempos mortos nem firulas. Billy é um jogador, viciado em pôquer, boliche, turfe e tudo que envolva sorte e emoção forte, e atravessa os anos da Depressão americana com uma mistura de energia e resignação, entre vitórias e derrotas, como se quisesse um resgate da criança em si e ao mesmo tempo não visse salvação. Cenas de violência se sucedem, nunca como apelo superficial, mas para se opor aos que querem, como na gravura de Maxfield Parrish, “impingir a idéia de que a vida era organizada”.
Já a abertura, com a sequência do boliche, é um retrato do caos. Billy Phelan, como o “motorcycle boy” de Coppola, poderia ser tudo, mas não quer ser nada. Kennedy, ex-jornalista esportivo, conseguiu ser o que quis. Escreve como digno herdeiro de grandes nomes como Ernest Hemingway e Dashiel Hammett. Tudo é direto, seco, construído com descrições breves e ótimo ouvido para diálogos. O leitor segue Billy Phelan como ao craque em ação.
(Texto de quarta capa para “O Grande Jogo de Billy Phelan”, editora Cosac Naify)
Alô Daniel Piza, Sou São Paulino, gosto do esporte veja meu blog http://www.smsbrasilva.blogspot.com/ uma criatividade de minha autoria sobre a seleção de penas x seleção de pelos, tudo em defesa da fauna e da flora, faça seu comentario sobre a proposta.
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Papo de leitores
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- Como funcionam as coisas por aqui?
- Bem, o blogueiro bate o escanteio e os comentaristas defendem.
- Não seria o inverso?
- Acho que ficaria no mínimo suspeito ser goleiro e juiz, né?
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Nunca li nada de Willam Kennedy, mas se ele for mesmo do naipe de um Hammett ou Hemingway, com certeza valerá a pena.
Mauro, do mesmo naipe não, mas um herdeiro digno!
Meu caro Piza, aproveitando o gancho. Li mês passado a biografia de Scott Fitzgerald, de Jeffrey Meyers (José Olympio, 1996). Às páginas 228/229 cita ele Fitzgerald aliando-se a Flaubert e Hemingway em oposição a Zola e Thomas Wolfe, expressando um importante princípio estético: “Quanto mais se definem as tendências internas mais fortes do homem, mais ele confia na aparência delas e maior a necessidade de refiná-las e usá-las com cuidado. Ao romancear situações corriqueiras, é preciso dizer que: o grande esceritor, como Flaubert, omite conscientemente as coisas que fulano ou sicrano (no caso, Zola) apresentarão e dirão em seguida. Ele relatará somente as coisas subjetivas que apenas ele vê. Por isso Madame Bovary é eterna, enquanto Zola é datado.”
Aqui fica minha sugestão: um artigo teu sobre este pensamento que veio acordar-me para a razão pela qual nunca consigui acabar de ler Zola. Não consegui com Germinal nem com O Paraíso das Damas. Zola realmente é um escritor datado. Não prende mais a atenção hoje. Já Flaubert prende. Acho que é um assunto bom para trazeres à baila. Seja na lliteratura brasileira quanto na universal. É minha sugestão. Não precisas dar a lume o que aqui escrevi. Um grande abraço.
Daniel, eu sou por natureza desconfiado, mas prometo que vou procurar lê-lo sem um pé atrás… até porque os herdeiros costumam torrar a fortuna dos pais, haha… brincadeira, já está anotado assim que der vou conferir.
amigos, joão ubaldo tá pelejando lá na Bahia contra uma ponte megalômana de 13km do governador sobre a baía. obra bilionária. crime ambiental em marcha contra itaparica, o cenário de “o albatroz azul”. corre um manifesto em defesa de ubaldo e favorável a um debate público. verissimo apoiou:
http://www.gopetition.com/online/33669.html
Do filme Ironweed me lembro perfeitamente… Um dos mais penosos filmes que vi nos cinemas. Os personagens Francis Phelean e Helen Archer substanciam a tragédia do álcool. Um momento feliz do Babenco. Piza, você tem aventado bons temas. Siga!
Vi todos os filmes de Babenco, todos bons, alguns ótimos (Pixote, Lúcio Flávio, Ironweed, Brincando nos Campos do Senhor). De Willian Kennedy li apenas Ossos Antigos (Cia. das Letras) que, infelizmente, não me disse muita coisa (ou eu não soube ver). Espero ler O Grande Jogo de Billy Phelan para confirmar tudo o que você escreveu a respeito.
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