O ano de 2010 deveria servir para pensar no estado atual do futebol brasileiro, nas lições que deveriam ter sido aprendidas e não foram, apesar de claríssimas. Muita gente está preocupada se os estádios para a Copa de 2014 estarão prontos, mas isso é o que menos preocupa, afinal a Fifa não vai deixar passar esse fiasco; o que preocupa é a série de outras melhoras que mal foram iniciadas, como em aeroportos, metrôs e segurança, e a qualidade do futebol brasileiro que será apresentado nesses estádios. E esta falta de qualidade tem a ver com o primarismo do debate. Num ano em que o melhor do Brasileirão foi um argentino, o Brasil perdeu feio na Copa e não há nenhum jogador brasileiro entre os dez melhores do mundo, há algo de podre no “país do futebol”. Não adianta disfarçar.
Comecei a escrever sistematicamente sobre futebol em 1997 porque indignado com a maledicência e a incapacidade de admiração em torno de uma geração de craques que me enchia de esperanças. O que a crônica esportiva tinha a dizer sobre esses talentos em ascensão? Que eram produtos do marketing globalizado, milionários sem identidade nacional, sujeitos “europeizados” fora da tradição. Que jogavam um futebol de força, “objetivo demais” (segundo Armando Nogueira), sem a ginga tropical, etc. Sim, acredite: tudo isso foi dito e redito sobre a geração que seria vice em 1998 e campeã em 2002, que tinha jogadores da sofisticação de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Cafu e Marcos. Hoje, claro, é como se ninguém tivesse feito tais afirmações.
Pois essa geração não só arrebatou uma enormidade de prêmios individuais e títulos coletivos, mas também deixou um vazio difícil de preencher. Ainda que um jogador como Robinho tenha sido exaltado como sucessor de Pelé (e jamais ficou na lista dos melhores do mundo) e Kaká tenha ganhado o prêmio em 2007 por seus gols pelo Milan na Copa dos Campeões (no auge de suas condições físicas), não houve substituição à altura. Robinho é ótimo driblador, mas chuta fraco e é disperso; Kaká tem arranque forte, com passadas largas, mas é limitado nos espaços curtos. Com Dunga no comando da seleção em 2010, pregando um futebol “de pegada” e ignorando jovens como Ganso, a dupla não vingaria mesmo.
Entressafras são naturais. Mas ficar numa discussão descabida sobre o que seria a tal essência do futebol brasileiro só piora tudo. Temos de um lado um grupo que acha que o futebol hoje exige muita velocidade e vigor e, portanto, que se deve jogar ao estilo dos clubes ingleses ou italianos, com a planilha na mão. Do outro, um grupo que diz que fazer gol é um detalhe, um “mero avanço numérico” (na expressão de José Miguel Wisnik), e que o jogador brasileiro faz a diferença quando quer. É a velha briga entre estatísticos e esteticistas. Mas a verdadeira escola brasileira, a linhagem de seus maiores jogadores e times, não é a que opõe tática e técnica, drible e deslocamento, inteligência e habilidade. O craque é quem pensa rápido, é quem usa a surpresa para superar um adversário. Pelé, repito, era objetivo e criativo, mestre e inventor, atleta e artista – e por isso sempre será a maior referência, exceto em nossas escolinhas de futebol.
Os oito campeonatos por pontos corridos, fórmula ainda rejeitada pelos românticos, ironicamente confirmaram essa história, apesar do nível técnico sofrível. Os clubes que investiram em grandes elencos e nomes (Alex, Robinho, Tevez, Hernanes, Adriano, Conca) tiveram o título como retorno. Na Copa de 2010, vimos finalmente uma nova seleção como campeã, a Espanha, comandada por Xavi e Iniesta, e o Brasil de Felipe Melo desclassificado de forma melancólica. Outros baixinhos dominam a lista dos melhores do mundo, como Messi e Sneijder. Os talentos, enfim, devem ser induzidos a produzir resultado, e não castrados ou então exaltados por efeitos. Se pararem de estragar os potenciais craques com esses tipos de elogio e crítica, aí sim teremos alguma chance.
(“Boleiros”)
Piza, infelizmente, você está totalmente certo. Não sou olheiro nem especialista, mas como torcedor e (quase) fanático por futebol, minha opinião é que nossa única e isolada esperança para que 2014 não seja um total fiasco chama-se Paulo Henrique Ganso.
Robinho não merece nem comentários. Neymar me parece um novo Robinho, ainda que um pouco melhor. Pato era o menino prodígio, mas estagnou. Ronaldinho não tem mais fôlego e/ou interesse.
Espero que três anos sejam suficientes para o surgimento de pelo menos UM craque. Porque é pouco provável que Ganso repita Maradona, Romário ou Zidane, e leve um time limitado à conquista do Mundo. Até porque, pelo que vemos, para a seleção se tornar um time limitado, precisa melhorar muito.
Quem coloca no mesmo patamar, Maradona, Zidane e romário(?!) ou NUNCA viu o cara jogar, ou nunca assistiu tapes de partidas inteiras, dele, ou só acredita no que o Galvão fala, ou NÃO ENTENDE NADA DE FUTEBOL. O romário SEMPRE foi um “chupim” parado na area esperando rebote, bola espirrada ou bate-rebate e contava com a sorte para chutar em gol. Marcou 386 gols oficiais e diz que marcou 1.000(!) . Não assistam só os melhores momentos mas, sim as partidas inteiras.
responder este comentário denunciar abusoEstragar o craque também é cobrar resultados imediatos.
O Leonardo (texto acima)
diz que o Pato estagnou, que o Neymar é o novo Robinho, que o Ganso não será o Maradona, que não conseguirá ganhar uma Copa sozinho, enfim.
E nesse contexto da seleção espanhola (comum, uma das campeãs mundiais mais medíocres, assim como a vice Holanda, que merecia ter tomado uns 3 do Brasil no 1º tempo), de jogadores nem tão habilidosos ou geniais mas muito práticos e objetivos,
o Hernanes poderia ser considerado um craque?! Ele vem dando as cartas no Italiano, no utilitário time da Lázio.
Oi Piza;
Entendo que para 2014 teremos, no mínimo duas grandes seleções “prontas”e candidatas ao título: Espanha e Alemanha (ambas mais experientes). A Argentina deve apostar tudo em Messi! Acho o Brasil uma incógnita, pois teremos jogadores estreando em Copa do Mundo realizada no país. Será uma pressão absorvível? Moro na Zona Leste de São Paulo e torço pela abertura em Itaquera, embora entenda que é uma região muito carente de infra-estrutura (o transporte público e vias de acesso são um caos). Quem se responsabilizará pela ordem? Para finalizar, os meias armadores são posições praticamente extintas nas escolinhas de futebol e categorias de base, esse é o nosso câncer!! Boas festas a todos!
Acho que seria um tanto prematuro tentar fazer um prognóstico para a Copa de 2014, pois muita coisa pode mudar em três anos e meio. Em 1994, quem poderia imaginar que Ronaldinho, então uma promessa de craque com 17 anos, seria o Fenômeno que foi no Barcelona em 1996? E mesmo com ele, e com jogadores mais talentosos em geral que os da seleção de 1994 (saíram Raí e Zinho, entraram Roberto Carlos e Rivaldo), o Brasil não conseguiu ganhar a Copa de 1998 (nem as Olimpíadas de 96).
Concordo que a Alemanha, sempre uma equipe forte, poderá contar com o amadurecimento da equipe jovem que disputou a Copa de 2010, como Ösil, além de aposentar outros como Ballack e Klose. A Espanha, mesmo com seu bom futebol coletivo, foi quase eliminada na primeira fase na África do Sul (bastava uma vitória simples da Suíça sobre Honduras para que a Espanha ficasse de fora, lembram?). Messi com certeza é uma promessa de craque para a Copa, mas muitas promessas não se cumprem, tais como Ronaldinho Gaúcho em 2006. A Holanda pode recuperar o futebol vistoso que apresentou na Eurocopa de 2008, quando o técnico era Van Basten, e não insistir no jogo catimbeiro beirando a truculência da Copa de 2010.
Espero que Mano Menezes esteja atento à evolução dos jogadores e não se precipite em “fechar” um time com tanta antecedência. Neymar e Ganso, por exemplo, ainda têm muito o que provar. Torço pelos dois, mas arrisco dizer que faz falta um jogador criativo e inteligente no meio campo, de maneira que Ganso em boa forma seria mais imprecindível que Neymar. Parece óbvio dizer que com boas assistências, o caminho para o gol fica mais fácil, mas esse fundamento tem sido aparentemente desprezado no futebol brasileiro.
Acho que a Copa América de 2011 e as Olimpíadas de 2012 poderão nos dar uma idéia melhor para a Copa, mas no momento estamos mais projetando o passado no futuro.
Tor
responder este comentário denunciar abusoCIMINO, acredito que você não interpretou muito bem minhas palavras. Há três anos o Pato chegou ao Milan com status de novo craque. De lá pra cá, caiu bastante de produção, sendo excluído das convocações. Veja bem, são três anos. Tempo nada imediato dentro do futebol. Mesmo tempo que temos até a Copa.
Basta comparar o início de carreira de Romário e dos Ronaldos na mesma idade dos nossos atuais “craques”. Eles estavam explodindo, evoluindo a cada jogo. E não involuindo, como é o caso. Realmente vejo Neymar como novo Robinho, mais preocupado em dar ‘showzinho” do que em vencer. Parece que prefere perder brilhando do que ganhar sem ser o destaque. Aliás, dentro da sua linha de raciocínio, também deveríamos esperar o futebol de Robinho amadurecer…. o que sinceramente creio que nunca irá acontecer. Por fim, não disse que Ganso não será Maradona (mas realmente acho que não), mas apenas que a atual safra do futebol brasileiro consegue ser inferior aos times medianos que colaboraram com os craques do passado. E que Ganso dificilmente fará milagre.
Admiro sua confiança, mais creio que daqui há três anos ainda vamos estar lamentando sobre o quanto o futebol dos mesmos, continua do mesmo jeito. Apagado.
Caro Daniel,
Quem fez um belo trabalho no Atlético Mineiro em 2010, foi o Dorival Jr. Pegou uma” batata quente “ com um time formado pelo prof. Luxemburgo, e com esta base , conseguiu livrar o Galo da degola
Futebol meu caro Piza, sempre foi mesclado, talento, força e pernas de paú.
Se você fizer um time só com os chamados craques, time não vinga, só com os brucutus morre pela boca. No futebol o craque sozinho não faz nada, o brucutu cansa e o perna de pau, da chute pra onde o nariz está virado. Tem que mesclar, foi assim em 58 – 62 – 70 – e nas demais copas, com todas as seleções sem excessões. Em 70 nosso goleiro e o Brito eram os ruins, 94 tivemos Romário o homem que decidia, Dunga o homem que cavucava, Bebeto o velocista e mais alguns brucutus que não lembro.
58 e 62 o ultimo dos ultimos Zagalo, era escalado porque cumpria função tática, mas era o ruim do time, Vavá o brucutu, a maioria era de bom pra ótimo.
Quanto a molecada de hoje é só fogo de palha. Talvez o Ganso no Brasil, o resto é perigoso você elogia-los amanhã estará mordendo a lingua. Quanto aos estrangeiro, Messi, esse outro que você citou, Cristiano Ronaldo já era, Kaka foi alguma coisa, hoje não faz pra janta.
Escreve Pelé só teve um, nunca mais, assim como Elvis, Jhon Lenon, e tantos outros.
Vamos de trombadas e brucutus mesmo, esses as vezes fazem a alegria das torcidas.
Quanto ao brasileiro, faliu, está quebrado esse tipo de torneio, não tem mais credibilidade.
Esse ano, a CBF deu uma segurada, a casa estava arrumada pro Corinthias, viram que a coisa iria ficar muito escandalosa, como 2005, resolveram deixar o Fluminense seguir na luta.
É o jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Faz-se um balanço, coloca o que quer como quer, sem o menor pudor, e solta o peito. “Eu sou mais eu”.
Ah, mas os “potenciais craques” já se estragam sozinhos. Exemplos não faltam: Adriano, Bruno…
Daniel Piza acho que duvido que o Romário, Pelé, Garrincha, Didi se achavam craques. Quando o jogador começa se achar craque começa o problema que já vem a décadas no Brasil. Todo mundo é craque, todo artista virou Fernanda Montenegro, Raul Cortes, Eva Vilma que para mim é a melhor atriz brasileira. Hoje qualquer atriz, ator vira bom.
E a imprensa esportiva é analfabeta seja futebolisticamente, seja culturalmente.
nesses últimos oito anos, fizemos tudo errado. tivemos um pintor brasileiro, já falecido, o ibere camargo, que dizia: ‘o brasil é um gigante com cabeça de galinha’.
a cultura que o brasileiro tem futebol é vasta, formada em muitas décadas e copas; já ganhamos e perdemos de tudo que foi jeito, mas parece que estamos regredindo intelectualmente e tomando decisões absurdas, como apostar em técnico estreante para copa do mundo, etc. parece que nesses últimos anos emburrecemos, perdemos o bom-senso.
Nao, não é possível, eu nao li isso: Cafu é um jogador sofisticado. É isso mesmo?
robinho e kaka (geração Y) + dunga (técnico amador) + ricardo teixeira (dirigente caduco bizantino) = incompetencia e vexame na copa.
bastava somar para saber isso, mas o brasileiro não sabe mais realizar operações básicas, segundo o exame ‘pisa’.
não chegar até a final não é um problema de futebol, é incompetencia de planejamento.
Esta faltando o craque, nao tem duvida. Um meio campo com Cerezo, Falcao, Socrates e Zico, olhando as opcoes de hoje, parece um delirio, foi a excecao.
Mas tem coisa boa por ai. Essa zaga do Brasil me parece talentosa (titulares e reservas). Os cabecas de areas nao sao craques, mas sao os melhores que temos desde 1986. O problema eh o camisa 10. Se o Ganso deslancha, sei nao…mas podemos ter um time de primeira.
Piza, penso que a falta de talento no país está também ligado ao pouco tempo ou nenhum que crianças e pré adolescentes praticam a famosa “pelada de rua”. Em minha infância em Taubaté, talentos aos montes no futebol, surgidos a maioria, dessas “peladas”, que depois iam para os campos de várzea e assim sucessivamente. Na própria capital de S. Paulo, me recordo que nos anos 60 no final da via Dutra, acho que na V. Maria, havia vários estádios para jogos de várzea. Hoje, nada. E praticamente em todo o país, poucas cidades praticam as “peladas” . Vejo as chamadas “escolinhas de futebol”, onde se pratica um jogo burocrático, na maioria delas, e acesso a quem pode pagá-las. Talvez a volta de lugares públicos para todos praticarem o futebol espontâneo, faça que voltem os bons jogadores.
Prefiro pensar que ganhar a Copa depende de um conjunto de fatores.
1- Um time acostumado a ganhar jogos. ( comprometimento )
2- Um treinador acostumado a correr riscos. ( improviso )
3- Uma imprensa mais voltada para promover o espetáculo. ( show ).
A meu ver quanto mais o brasileiro entende de futebol menos ele compreende o futebol.
Claro que a Mídia contribui muito porque alimenta o torcedor com argumentos baseados em comparações.
Por exemplo aquele time espetacular do Santos FC com a Midia de hoje não passaria de 1 temporada.
Jogadores como Pepe, Coutinho, Toninho Guerreiro jogaram no Santos de Pelé e se aproximaram dos 400 gols.
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