
Machado de Assis dizia que a opinião pública se divide entre graves e frívolos, e cem anos depois de sua morte a divisão continua a dominar a visão de sua obra e importância. Os graves vêem nele ou o escritor oficial que a Academia Brasileira de Letras propaga ou o crítico social que ele nunca se bastou em ser. Os frívolos esquecem que seu humor era integrado ao seu ceticismo e que suas paixões eram mesmo Shakespeare, Beethoven e Schopenhauer, não aquilo que o Brasil transformaria em estigmas de identidade no século 20. Como resultado, há muitos mitos, meias-verdades e especulações sobre ele:
Machado era um homem recluso e melancólico – É assim o “Machadinho” de sua primeira biógrafa, Lúcia Miguel Pereira, mas o fato é que em sua juventude Machado foi extremamente ativo e espirituoso, como relataram amigos como Arthur de Azevedo e Salvador de Mendonça. Machado passou por todas as classes sociais de seu tempo e testemunhou a transição acelerada do Rio para a modernidade. Participou de sociedades literárias e musicais e foi um bajulador de dom Pedro II. Estava mais para integrado do que apocalíptico. Só no final da vida é que se fechou cada vez mais na casa do Cosme Velho, doente e, depois da morte de sua amada Carolina em 1904, muito deprimido.
Machado foi um crítico da sociedade burguesa – Críticos e sociólogos marxistas quiseram fazer de Machado um analista engajado da “elite” de seu tempo, em cujo ócio e vaidade teria mostrado como as idéias vindas da Europa serviam apenas de verniz para os privilégios. Machado, segundo Roberto Schwarz, seria um crítico do “formalismo” e do “universalismo” da civilização burguesa, de suas idéias liberais e iluministas. Na realidade, Machado, que era fã da Inglaterra (onde o capitalismo deslanchou), viu muito mais longe: viu que a sociedade brasileira era pré-capitalista e os privilegiados tinham mentalidade feudal, nada burguesa, em sua defesa dos interesses próprios e não de valores universais. Além disso, não poupou a emergente classe média, as Capitus e os Escobares: não tinha parti-pris de classe.
Machado não teve filhos porque não quis transmitir a miséria humana – Aqui o erro muito comum é o de confundir o que seus personagens falam e o que ele pensava. Machado em pelo menos duas ocasiões lamentou não ter filhos. Provavelmente não os podia ter por causa de suas doenças, como a epilepsia, para a qual tomava um remédio chamado tribomureto que tinha sérios efeitos colaterais. É o mesmo motivo por que nunca pôde viajar para o exterior, embora sonhasse conhecer lugares como a Itália. A frase final de Brás Cubas é um gesto de orgulho de um homem que queria salvar a humanidade e não salvou, logo seu filho não estaria a salvo. Quanto à hipótese de que Mario de Alencar, filho de José de Alencar, seria filho de Machado, não passa de especulação.
Machado tinha como alvo central a ciência e o positivismo – O alvo central de Machado eram as religiões, sobretudo a católica, mas também outras como o espiritismo. Machado era tão voltairiano, tão anticlerical, que recusou o padre em seu leito de morte – uma informação que na biografia de Raimundo Magalhães Jr. parece um detalhe qualquer. Sua obra é toda marcada por sátira à credulidade cristã dos brasileiros, a começar pelos da classe alta. Quando criticou o positivismo, foi ciente de que se tratava de uma ideologia que pretendia uma conciliação plena entre religião e ciência, tal como os xaropes que prometiam curar as dores do corpo e as da alma. Machado viu que a ciência, como em O Alienista, estava se comportando da mesma maneira dogmática que a religião. No entanto, compreendeu a Teoria da Evolução de Darwin, criticando justamente sua apropriação para uma sociologia dos “mais fortes”.
Sabemos muito sobre a vida modesta de Machado – Sobre sua infância e adolescência sabemos muito pouco. Biógrafos tomaram como fatos o que não passava de especulações, como a de que ele foi coroinha ou a de que ele aprendeu francês com a mulher de um padeiro na esquina. Não existe nada documentado sobre isso, nem em papéis nem em testemunhos. Nada. O que sabemos é que Machado teve uma criação rara em sua época, de pais alfabetizados e acesso aos clássicos da literatura, tanto que aos 15 anos já o vemos poeta. Machado nunca foi rico, mas viveu bem, especialmente a partir dos 30 anos, quando se casou com Carolina, e galgou firme nas duas carreiras que teve, a de funcionário público e a de homem de letras.
Machado sabia que a República viria com a Abolição – Machado tinha muitas idéias liberais, inclusive a defesa do voto feminino, mas era um monarquista convicto, tal como seu amigo Joaquim Nabuco. E sonhava com o Terceiro Reinado: a princesa Isabel assinaria a Abolição e sucederia o pai, preservando o regime. Quando veio a República, no ano seguinte, ele ficou dois anos sem escrever crônicas, assim como Nabuco interrompeu seus diários. Embora abolicionista e desiludido com dom Pedro II, Machado não via com bons olhos a nova geração, materialista e carreirista. Suas crônicas sobre o sistema financeiro no fim do século mostram um nostálgico, sem instrumental suficiente para entender a economia moderna. Ele era conservador em muitos aspectos, liberal em outros; essas duas naturezas eram simultâneas.
Não existem duas fases na obra de ficção do autor – É óbvio que existem; basta um cotejo rápido entre Iaiá Garcia (1878) e Brás Cubas (1881). Sim, como ele mesmo disse, há “brotos” nos primeiros quatro romances de seu “estilo maduro”. Mas há, portanto, um estilo maduro, e ele começa com Brás Cubas, livro de estilo tão pouco convencional, tão aberto ao humor e ao pessimismo no mesmo lance, que ninguém poderia imaginar lendo sua obra anterior. Se os temas que o obcecam – como o adultério – o acompanham desde cedo, sua genialidade só se expressa mesmo a partir da década de 1880, depois que o Segundo Reinado vive crise e Machado precisa fazer retiro em Friburgo para cuidar da saúde.
Capitu é vítima da narração de Casmurro – Essa é uma leitura tão pobre de Dom Casmurro quanto a que pressupõe que o livro seja apenas sobre a traição de um homem por sua mulher com seu melhor amigo. Se a intenção de Casmurro fosse apenas manipular o leitor para enxovalhar a reputação de Capitu, bastaria a ele acumular muito mais pistas de que houve a traição. Afinal, o que há é muito pouco: alguns encontros mal explicados entre ela e Escobar e, acima de tudo, o olhar que ela dirige a seu cadáver. Casmurro escreve com “escrúpulos de exatidão”, mas é o primeiro a confessar que seu livro é omisso, cheio de lacunas, a maior delas sendo ele mesmo. Não há nada de errado em supor que Capitu o traiu, a não ser que você, leitor, seja moralista; como disse Lygia Fagundes Telles, bem que Bentinho mereceu. Mas o assunto maior do livro é o efeito que essa hipótese causa na vaidade romântica de Bentinho, que, como quase todos os protagonistas machadianos, tem delírios de grandeza e termina a vida sem nada. Outra besteira é equipará-lo a Otelo – ele mesmo diz que não tem “a fúria do mouro” – ou a Hamlet, afinal um homem de ação. Bento é passivo e covarde e acha que o mundo gira em torno de seu umbigo.
Machado é um pós-moderno, não um criador de personagens – Nesse equívoco até críticos como Antonio Candido caíram. Como dizer que Brás, Quincas, Rubião, Bentinho e Capitu não são grandes personagens, não compõem a galeria mais rica de figuras da ficção brasileira? Afirmam que é por culpa de Machado que a literatura urbana brasileira não tem essa força, ao passo que a literatura não-urbana tem nomes como Jorge Amado, mas esquecem que Capitu é uma personagem muito mais viva do que Gabriela para o leitor atual. Machado não é Borges, não é um autor que é mais leitor do que contador de histórias. Ele une a ficção realista, descritiva, com a metalinguagem e a meditação. Seus leitores se transportam para sua época e lugar, ao mesmo tempo que se perguntam sobre o que é real ou imaginário.
Machado não foi um gênio, porque precisou trabalhar muito – Essa frase trai a vontade de anunciar “novidades” nos estudos sobre Machado (muitos jornais e revistas tentaram ir nessa linha em torno do centenário, sem sucesso nenhum), mas não passa de besteira: qual gênio não precisou trabalhar muito? Machado foi um gênio porque deixou uma obra rica, complexa, atual, cuja marca é o fato de ser sempre relida e interpretada sem que se esgote com isso. Não é o “milagre” latino-americano que críticos como Harold Bloom viram, porque surgiu num contexto histórico – que incluía uma das mais brilhantes gerações de intelectuais brasileiros, senão a mais – e com ele se relacionou profundamente. Gênios não nascem por combustão espontânea. Machado soube ser nacional e internacional ao mesmo tempo. Seus leitores, nem sempre.
Prezado Piza,
ADRIANO SCHWARTZ, em “O Abismo Invertido”, Editora Globo, 2004, pág. 21, menciona que a arte de narrar estaria em vias de extinção, e que a causa seria a “AS AÇÕES DA EXPERIÊNCIA” (sic) estariam “EM BAIXA” (sic), e mais à frente se refere à REALIDADE, que seria muito mais complexa, hoje em dia, e o Romance, estaria com dificuldades de descrever ao leitor comum essa complexidade.
Concordo com ADRIANO SCHWARTZ e, nesse contexto, também com HAROLD BLOOM, eis que, já em sua época, MACHADO ERA COMPLEXO E MAIS PROFUNDO DO QUE ENTENDIAM SEUS COMTEMPORÂNEOS.
GÊNIOS, sim, nascem ESPONTANEMANTE. Não por “COMBUSTÃO”, (sic, Daniel Piza), mas a inteligência genial de MACHADO nasceu espontaneamente…
Harry Bloom pode não ter tido conhecimento do meio-ambiente aristocrático e intelectual de MACHADO, mas, E DAÍ ?, POR QUÊ NÃO APARECERAM MAIS “MACHADOS” ? ( nesse meio-ambiente intelectual e aristocrático ?…)
MAIS MACHADOS NÃO SURGIRAM.
MACHADO é, sim, como FERNANDO PESSOA, ou GUIMARÃES ROSA, um MILAGRE. A prova é que é atual até hoje. “O ALIENÍSTA” é, ACHO, o mais direto e realista conto dele. ATUALÍSSIMO, descrevendo a loucura ATUAL do mundo. Seus Romances Oblíquos não são tão fáceis como parecem. Por isso uma IDOLATRIA MERECIDA, mas de quem idolatra por idolatrar, SEM CONHECER MACHADO…
BY OTHER HAND, é IMPOSSÍVEL acusar MACHADO como culpado pela TOTAL INEXISTÊNCIA DO ROMANCE URBANO, DE QUALIDADE, NO BRASIL, EM TODAS AS ÉPOCAS. Tem a ver com a IGNORÂNCIA DO BRASILEIRO, SUA INDOLÊNCIA LUSITANA, E SIM, SIM, com a MEDIOCRIDADE da vida de EMPREGADO OU SUBEMPREGADO dos brasileiros.
No Brasil, “AS AÇÕES DA EXPERIÊNCIA ESTÃO EM BAIXA” (sic). Sempre, SEMPRE, estiveram. Somos um país de semi-analfabetos, sem proteção estatal etc, etc…( SÓ FUNCIONÁRIO PÚBLICO PODE SER ESCRITOR…).
MACHADO É SIM UM MILAGRE.
Quanta vontade de discordar, não, Roswell? Mas Machado não acreditava em milagres e eu também não. Acredito que existam pessoas geniais, capazes de fazer uma obra de gênio, obviamente também por dons naturais, mas não apenas. Vou usar seu jeito: MAS NÃO APENAS. Machado conviveu com gente que escreveu ‘O Ateneu’, ‘Minha Formação’ e ‘Os Sertões’, por exemplo, livros que tenho certeza de que Harold Bloom desconhece profundamente… Uma das lições machadianas é usar as palavras na justa medida. Milagre é coisa de crédulo, de religioso. Não está no dicionário machadiano.
Prezado Piza,
Discordar ?
Acho que tenho direito à minha HUMILDE ( é o meu “jeito” ) OPINIÃO…
Mas, que estranho !!
EU não achei estar discordando !
Exalto um raro momento de grandeza nacional, na pessoa de MACHADO…
NINGUÉM ME ENTENDE !!!!!!!!
Agora, VOCÊ, YOU, discorda de ANTONIO CÂNDIDO, HAROLD BLOOM, ROBERTO SCHWARTZ…
E EU é que tenho “QUANTA VONTADE DE DISCORDAR” ?
Ah, sim…
Também não acredito em Milagres.
Mas, que eles EXISTEM, EXISTEM…
Logo, que você DISCORDA, DISCORDA…
Piza e Roswell,
Continuem “discordando” por favor. Principalmente sobre temas tão instigantes e ricos como esse.
Roswell:
“On the other hand” , nao ” By other hand”
Prezado Piza,
Prezado Paulo,
Obrigado !! O Idioma Alemão não é mesmo o meu forte…
Piza, fantástico “Post” !!
E quem sou EU para falar algo de MACHADO perto de você ? ( a MODÉSTIA é minha melhor qualidade…). Sério, EU estou só palpitando. Com muito interesse e atenção. Obrigado por vossa condescendência !
Daniel Piza é um dos maiores INTELECTUAIS brasileiros, SEM ASPAS. E acertou em cheio em gostar de MACHADO. Uma coincidência rara e feliz.
Agora, sorte sua, Daniel Piza, EU não estar. à época, em condições clínicas de “comentar” sobre o livro de meu amado SARAMAGO ( “hipervalorizado” segundo alguns, UMA ÓVA !! ) e o FILMEQUINHO do filho de BANQUEIRO QUE LEVA DINHEIRO PÚBLICO — IMPOSTOS — PARA FAZER SEUS AHNN…”FILMES”.
A dualidade entre o REAL e o IMAGINÁRIO é maravilhosa em MACHADO, embora um tanto sutíl e refinada demais para meu gosto. Mas é isso que EU sempre falo: “UMA ROSA VERMELHA É TUDO…MENOS VERMELHA”.
E que idéia de comparar MACHADO com BORGES… É como Pelé e Maradona.
Pelé é MUITO melhor !!!
E ACREDITO EM DEUS SIM SENHOR !!
Se MACHADO não acreditava, AGORA acredita…
P.S. Outro dia, acho que foi ontem, escrevi o nome do filme do Paul Newman errado. É “GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE”.
São os “remédios”…
Obrigado por tão importantes informações biográficas sobre Machado de Assis! Jornalista quando envereda por narrações históricas fascina. Porque Machado, ao que parece, criticou seu tempo pela ficção literária. É como expor idéias por parábolas. O que acharia Machado do mundo, do Brasil e do seu Rio de Janeiro hoje? Sobre os privilégios da elite não haveria o que mudar. Mas sobre a religião, o fato é que no seu tempo ele devia se sentir sufocado pelo oficialismo de uma religião que todos tinham de aceitar com submissão de servos espirituais e vassalos reais. Era uma época de busca de milagres para suportar as doenças invencíveis e a as fragilidades sanitárias. A religião entrava nos espaços do pronto socorro e isso, para um enfermo inteligente, poderia revoltar. Até hoje o sertanejo abandonado pelos recursos da cilivização não sabe falar meia dúzia de palavras sem mencionar o nome de Deus como única explicação e esperança para as suas dificuldades. Que diria Machado se visse que a religião perdeu espaços vitais e o homem constrói e entulha seus caminhos com soluções pretensiosas, mas que geram novos problemas!
O que mais aprecio em Machado de Assis nem
são os romances, mas as crônicas. Apesar
de serem escritas há tanto tempo tem
um frescor invejável.
Recomendo a leitura de todas e particularmente
de uma que escreveu logo depois da
abolicão da escravatura.
Pura ironia.
A capacidade de trancender o seu tempo, isto
é genealidade. O resto são egos.
Caso Roswel, me divirto assaz com seus posts, você é muito bom, informado, culto, e ácido, como Francis. Agora, Diego, Dom Diego, não foi só apenar melhor, mas INFINITAMENTE melhor que o Pelé. E Machado INFINITAMENTE melhor que Borges.
Caro,carissimo,Dani Piza,
O que sera que Machado escreveria
sobre os atuais governantes???
Sobre a queda da Bovespa??
E como seria a Capitu nos dias de hoje??
Abs,Pat
Gostei muito do “post” ao vivo em palestra em clube paulistano numa noite fria de setembro. Conseguiu agradar até mesmo filho adolescente pré casmurro, parabéns !
Pegando carona de viés no post, já que Machado era um mestre da língua: por favor, Daniel, fale mal dessa droga de reforma que o Lula assinou…
A Literatura anda em baixa, de um modo geral,
baixa de maré, entendem?!
De 30 anos pra cá, a sociedade tem se preocupado mais com as questões físicas do que com as mentais,
no que ela está corretíssima!
Durante séculos, supervalorizou-se o conhecimento científico e a intelectualidade em detrimento do físico. O ser humano “engordou” até os últimos limites.
Agora, assistimos a um processo de revalorização do corpo como base de uma vida saudável.
É ótimo!
Resolvidas estas questões menores, poderemos nos aprofundar nos aspectos espirituais!
Piza,
De fato, Machado fez parte de uma geração memorável, com nomes como Euclides, Raul Pompéia e Joaquim Nabuco, mas ele é o mais velho entre esses escritores e sua obra, sob vários aspectos, já era muito anterior e superior aos esforços de seus contemporâneos (o que foi que Euclides escreveu de verdadeiramente admirável antes de “Os Sertões”, publicado muito depois de “Brás Cubas”?). De certa forma, Machado inaugura uma tradição quase do nada, como por exemplos em seus contos. Qual foi o grande contista brasileiro antes de Machado? Alencar, Macedo e outros românticos não cultivavam o contos. Ele foi o primeiro (e maior) cultor por excelência desse gênero.
Descobri Machado tardiamente. Quero dizer, depois de alguns anos de adulta. Achei você também tardiamente, por meio do futebol (sugestão do outro excelente Tostão). No final das contas, tenho agora uma leitura certa de um grande analista de esporte e literatura. Parabéns, Piza.
Conheço agora o BLOG de Piza e descubro Sérgio Roswell.
MÁta-me de rÍr!
Por favor, comente em meu BLOG também para alavancarmos sua audiência!
Roswell: Não é alemão. É inglês.
Nossa, você é comparável aos gringos que acham ser Buenos Aires a capital do Brasil. E o pior é que acha que CapsLock é bonito.
Tadinho.
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