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Daniel Piza

11.dezembro.2011 07:12:11

Melhores do ano (1)

Todo ano repasso os comentários que fiz sobre livros lançados no Brasil e volto a ver a força dos títulos de não ficção (ensaio, biografia, história, etc) e a saudável onda de reedições de clássicos (sobretudo de ficção e poesia), mas insisto em defender o argumento de que isso não significa que vivemos tempos tão pouco criativos e tão parasitários do passado quanto se pode pensar. É claro que eu queria ler mais e melhores romances atuais e, como volta e meia me queixo aqui, uma cultura menos limitada à reciclagem, porque não raro ela apenas se apropria do nome consagrado em vez de buscar caminhos próprios para dizer o que haveria a dizer. Mas o leitor interessado em livros que relatam grandes experiências e provocam pensamentos ricos – e querem dar bons presentes de Natal, bem mais baratos do que brinquedos, cosméticos ou roupas – tem muitas opções. Eu mesmo, relendo o que escrevi sobre literatura em 2011, parei e pensei em como tive o alento de ler muitas páginas de alto nível.

Os livros de ensaio a meio caminho entre o cultural e o pessoal se destacaram. Não consigo esquecer o prazer que A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal, me causou desde as primeiras linhas. Eu diria que é o livro do ano, uma mistura de narrativa e reflexão feita com uma sensibilidade digna de grandes ficcionistas, ainda que não tenha um único fato inventado. De Waal encontrou o que é mais difícil, uma voz autoral, e a acompanhamos em sua peregrinação europeia atrás dos netsuquês de sua família como se ouvíssemos uma sonata de piano. Também viajei no relato de Ronald Watkins sobre a façanha de Vasco da Gama, Por Mares Nunca Dantes Navegados, que fez par com o mais iconoclasta Américo, em que Felipe Fernández-Armesto mostra um Vespuccio ardiloso.

E o que dizer de um ensaio como O Paradoxo Amoroso, de Pascal Bruckner, que lê os desencantos narcisistas contemporâneos com o olhar de um belo contista? Ou de A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, que passeia por Rilke, Tsvetaeva e Wilde para defender o gosto pelas coisas simples? Livros como A História da (in)Felicidade, de Richard Schoch, e mesmo Religião para Ateus, do bom-mocista Alain de Botton, também mostraram que não é exclusividade dos romancistas o acesso a questões do comportamento e da intimidade. Ensaios mais próximos da crítica literária também não foram poucos, e incluíram autores do presente como Coetzee (Mecanismos Internos), James Wood (Como Funciona a Ficção) e outros que sabem que a melhor crítica é uma forma de filosofia. Foi muito bom ver também ensaios de mestres como Thomas Mann (O Escritor e sua Missão), George Orwell (Como Morrem os Pobres) e, agora, esse extraordinário empreendimento da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (Leya e Livraria Cultura).

Por falar em filosofia, igualmente lembrada em novas traduções das cartas de Voltaire e dos ensaios de Hume, a biografia de Schopenhauer por Rüdiger Safranski conseguiu o que poucas conseguem: falar da vida para poder falar melhor da obra. O Dante de Barbara Reynolds não ficou atrás, assim como o Borges de Edwin Williamson; também gostei do Salinger de Kenneth Slawenski. Shakespeare como personagem histórico foi assunto de James Shapiro e, uma vez mais, de Stephen Greenblatt. No Brasil, o que chegou mais perto foi o Vieira de Ronaldo Vainfas. Quanto aos clássicos em si, tivemos novas e ótimas edições do próprio Vieira, de Homero, Galileu, Dickinson, Tolstoi, Machado, Proust, Bernanos. Nada mal.

Os ensaios científicos, que deveriam interessar a qualquer pessoa que preza a filosofia (a amizade à sabedoria), também continuaram em alta, com destaque para o polêmico Miguel Nicolelis, Muito Além do Nosso Eu, e o fundamental Antonio Damásio, E o Cérebro Criou o Homem, em que revê suas ideias sobre a primazia das emoções e analisa as descobertas sobre a participação da edição consciente no fluxo de nossos impulsos e reações. Romances? Claro que curti os novos de Philip Roth, Nêmesis, e DeLillo, Ponto Ômega, o excessivamente bajulado Jonathan Franzen, Liberdade, e também o lírico Um Dia, de David Nicholls, agora em filme. Mas os livros de Damásio, de Waal, Todorov e Bruckner me deram mais satisfação intelectual do que qualquer um de nós espera ter.

(“Sinopse”)

comentários (4) | comente

4 Comentários Comente também
  • 11/12/2011 - 22:49
    Enviado por: Paulo

    Li o livro de Edmund de Waal por causa do texto de seu blog, e na época cheguei a comentar que, pelo que tinha lido, o livro deveria se parecer com as obras de Sebald, e o Bruce Chatwin de Na Patagônia. Chatwin, por sinal, é mencionado em de Waal.

    Creio que exista semelhança em relação aos dois ingleses. Ambos começaram suas viagens para descobrir como objetos de lugares distantes foram parar em suas vitrines, por mãos de seus antepassados. Mas me parece que Chatwin se deixa levar mais pela viagem, narrando histórias e mais histórias paralelas, sem relação direta com o pedaço de pele de milodonte que ele buscava.

    De Waal, por sua vez, jamais se distancia demais dos netsuquês. Talvez por isso ele tenha dado espaço a certas hesitações que seriam inimagináveis a um entalhador como Tomokazu. Há certos momentos em que ele admite estar diante de tantas informações, que não sabe quais comentar; tantas dúvidas, que não sabe quais perseguir. Esta hesitação acaba se mostrando uma qualidade, pois revela, de certa maneira, a humanidade que há por detrás de pilhas de papeis velhos e frios.

    Chatwin provavelmente terá tido problemas semelhantes, mas não os transmite em seu livro. Sua mão é firme. E ele parece mais disposto a conhecer pessoas inesperadamente, enquanto de Waal parece evitar conversas gratuitas. Há um breve momento particularmente divertido, em Viena, em que ele paga a um homem barbudo para ver se ficava em paz.

    No fim das contas, são dois belos livros. O de Bruce Chatwin sobre uma grande viagem, o de Edmund de Waal, sobre uma grande pesquisa.

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    • 12/12/2011 - 08:03
      Enviado por: danielpiza

      Paulo, o paralelo é válido, sim, ainda que a Patagônia nada tenha a ver com a Europa da Belle Époque… De Waal não se distancia dos netsuquês por motivo óbvio: é justamente sobre o apego a objetos que está falando, sobre o ter algo em mão com uma história para contar. E ao mesmo tempo confessa hesitações e dúvidas diante daquela rede de evocações, pois assim é a natureza da memória. Daí a delicadeza única do relato. Obrigado pelo comentário.

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  • 13/12/2011 - 14:15
    Enviado por: Pedro

    Daniel, você já leu sobre o livro “Privataria Tucana”? Será que os documentos apresentados como prova da corrupção tucana são verdadeiros? Gostaria de saber sua opinião.

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  • 13/12/2011 - 18:39
    Enviado por: Laura

    Daniel, você leu o livro “A Privataria Tucana”? Tentei comprar e não consegui; o que você acha a respeito? Não sei em quem acreditar… Gostaria da sua opinião, pois confio em você e na sua imparcialidade.

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