É curioso, mas não surpreendente, que tenha sido necessário o Barcelona confirmar sua óbvia superioridade técnica e tática sobre o Santos para que muitas pessoas lamentem o nível medíocre do futebol brasileiro. No resto do tempo, é a mesma ladainha: temos o melhor campeonato do mundo, com vários clubes candidatos ao título; a ginga nacional é imbatível desde que não haja complexo de vira-lata; Neymar nada teria a aprender jogando num grande clube europeu, pois a mestiçagem nos fez o povo eleito na arte do futebol; etc., etc. Como acham que nos bastam “auto-estima” e dinheiro, pois a habilidade é um dom que Deus ou o DNA já nos deu, são incapazes de reconhecer uma entressafra de talentos – da qual um Neymar sozinho não nos redime – e a melhor fase de outras escolas do ludopédio.
Daí essa desculpa de que o problema do Santos foi justamente não jogar à brasileira. Sim, é verdade, a escola de Pelé sempre foi a da realização de todos os fundamentos (passes, dribles, chutes) associada ao improviso, à criatividade, à ousadia; foi combinar aproximações e simulações para atingir o objetivo da vitória. E é isso que, simplesmente, como disse Pep Guardiola, faz o Barça. O time mantém a bola rolando de pé em pé, sem chutões nem chuveirinhos, fica no campo do adversário a maior parte do tempo e busca frequentemente o gol, busca entrar na área para nocauteá-lo com classe. Mas, opa, quem disse que é assim que os brasileiros interpretam seu próprio futebol? O que se ouve é que organização nunca foi nosso forte, que nossa “essência” é o efeito sem esforço, a poesia sem prosa, que a vantagem no placar é menos relevante que um drible da foca – e que faltou ao Santos “se divertir” para fazer frente ao Barcelona…
Ao mesmo tempo – e este hiato é o problema central – não vemos nada disso aqui. É um futebol cheio de faltas, trombadas, correrias desordenadas, bolas rifadas, de escassos gols e brilhos – como o futebol do campeão nacional deste ano, o Corinthians. Os treinadores ficam à beira do gramado gritando “Tira daí!”, “Mata a jogada!”, “Pega, pega!”, “Cruza na área!”. E depois têm a cara de pau de dizer que o Barcelona joga “sem atacantes” – como se Messi não ficasse sempre a menos de 20 metros da área e não fizesse um gol por partida, como se Villa ou Pedro não entrassem em diagonal às costas da zaga o tempo todo, como se os meias Xavi, Iniesta e Fábregas não apoiassem muito e não marcassem decisivos gols. Veja Daniel Alves: ele é um lateral e joga na linha dos zagueiros… adversários! Nada de “volantes de contenção”, nada de atacantes paradões e toscos.
Fico à vontade para criticar o futebol brasileiro dos últimos cinco ou seis anos porque, enquanto todos chamavam a geração de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu de “estrangeiros” e “mercenários”, eu os defendia como herdeiros honrosos de um estilo que combina refinamento e eficiência. Agora é preciso pensar diferente para jogar diferente. Ou melhor, para voltar aos bons tempos do “jogo bonito”.
(“Boleiros”)
Conclui a leitura de “A lebre com olhos de âmbar”, agradeço a indicação. Boas festas
Opa, comentarios aberto para nao Facebook users ? BLZ!
Só não concordo com R. Carlos. Limitado a chutes apenas. Mau marcador. Mas corroboro em tudo o que escreveu sobre nosso futebol,pois desde a “europenização”de nosso futebol no início dos anos 90(lembram?),onde prevalecia a marcação e o gol “detalhe”,estamos nesse marasmo. Na seleção de 70 tínhamos Pelé,Rivellino,Tostão,Gérson como os camisas 10. Hoje, quem em nosso futebol pratica isso? O limitado Paulo H. Ganso. Não há revelação de talentos no meio campo, apenas os de contenção. Agora, o Santos merecia perder, mas assistir passivamente como fez, fere a qualquer bom senso no futebol e para quem jogou futebol. O Santos se acovardou, pois não pode uma derrota ser tão desmotivadora , pois perder é fato mas sem garra,determinação, respeito excessivo ao adversário, isso não dá. O Santos pecou em não “apertar” a marcação na saída de bola. O time do Barcelona é talentoso, mas daí a estratosfera como estão fazendo não dá. Antes da partida a quase totalidade de comentários e artigos traziam uma vitoria do Barcelona ou até uma derrota, mas não com a superioridade vista;superioridade essa flagrante mas não com a apatia do Santos. Foi vergonhoso. Pior, é ver o time armado para perder de pouco e Murici estático, passivo.
Precisamos buscar nossa origem,pois talentos temos e muitos, mas técnicos voltados para o talento e não a defesa a razão de ser.
A falta de talento no meio campo é tanta que disputam Montijo a preço de ouro e nosso futebol limitado a Ralfs,Paulinhos, Aroucas,Assunção, e outros volantes.
Feliz Natal, Daniel. Tudo de bom pra você e sua família. Abraço.
Prezado Piza, se há alguém que merece todos os créditos por não se entregar ao “oba oba” na política (sobre a faxina da Dilma), sobre a economia (aos que dizem que o Brasil “agora vai”) e sobre o futebol (somos os melhores e o brasileirão seria a prova disso…), é você.
Até 2012.
Boas festas.
Obrigado, Marcelo!
responder este comentário denunciar abuso
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006
Para continuar lendo o Estadão, faça já o seu cadastro. É rápido e fácil.
Seus dados serão guardados de forma segura e não serão compartilhados.
Quero me cadastrar Sou assinante Já sou cadastradoEm instantes, você receberá uma mensagem no e-mail .
Clique no link fornecido e crie sua senha.
Importante!
Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail está ativado.
Deixe um comentário: