Posso distinguir três fases na minha relação com o mar. A primeira, claro, é a infantil, ou infanto-juvenil, quando íamos muito às praias em férias e feriados. Minha avó tinha apartamento em Santos, bem em frente ao aquário, e meu pai em sucessivas temporadas alugou casas em lugares como Guarujá e Caraguatatuba, que eram então bem mais tranquilas e baratas. Fazíamos campeonato de jacaré e, mais tarde, surf, construíamos castelos com pingos de areia, dávamos caratês nas ondas, usávamos no nariz e ombros aquele creme branco que então se fazia de protetor solar. Mas o mar era até então apenas ondas que quebravam na praia, bonitas.
Foi na juventude, sem os pais, que meus amigos e eu começamos a frequentar as praias de que mais gosto até hoje no litoral paulista, no trecho que vai de Juqueí a Maresias, onde meu irmão tem casa atualmente. Nos divertimos muito na Barra do Sahy e no Camburi, nos anos de faculdade, e vivi alguns romances praianos memoráveis. Não esqueço também uma vez em que estávamos em Ilhabela e tomamos um veleiro para dar a volta até a linda e desabitada praia de Caravelas. Quando ancoramos, subimos ao topo do mastro, apoiando um pé na frente do outro, e de lá, no momento em que o balanço do mar o levava para o lado para o qual estávamos virados, saltamos para a água, cerca de 15 metros abaixo.
A melhor parte sempre foi sair de barco e dar esses mergulhos; não sou dos que gostam de ficar ao sol como lagartos vermelhos. Gosto de praia principalmente no final da tarde, para ver e ouvir o mar, meditar sobre a vida, cantarolar “O pescador tem dois amor/ Um bem da terra, um bem do mar”, do grande Dorival Caymmi, e comer casquinha de siri. Gosto de olhar a beleza das praias a partir do mar, e meus olhos já viram lindos encontros de água, areia e mata em Cuba, na Côte d’Azur, no Nordeste. O céu noturno da Praia do Espelho, ao sul de Trancoso, é tão límpido e próximo que dá a sensação de que podemos esticar o braço e colher uma estrela.
A outra fase é a literária ou cultural, por meio de grandes narrativas e obras de arte. Quando li os livros de Herman Melville (Moby Dick), Daniel Defoe (Robinson Crusoe), Jonathan Swift (Viagens de Gulliver), Edgar Allan Poe (Relato de Arthur Gordon Pym) e Joseph Conrad (Lorde Jim), entre outros, viajei por mares imaginados com um prazer incontrolável. Mais tarde até traduzi um livro de Melville, Benito Cereno, e sempre estranhei como é raro esse tipo de relato no Brasil, com seus milhares de quilômetros de costa; a exceção é Jorge Amado, principalmente A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, e mesmo assim uma exceção parcial.
Como tantos adolescentes, sonhei ser oceanógrafo e me deixei fascinar pela figura de Jacques Cousteau, que tinha um programa de TV na época e de quem montei, fascículo a fascículo, comprado a duras penas com minha mesada, a enciclopédia O Mundo Submarino. E as pinturas? Dos tumultuosos céus de Turner até as ternas marinhas de Pancetti, elas também enriqueceram meu espírito. O mar sempre foi um símbolo do ir embora, do “sentir o vento do mundo na cara”, do romper com a rotina tediosa. Passar pelo meio das geleiras da Antártica ou parar na mesma praia em que Darwin parou na Terra do Fogo, ou avistar a Cidade do Cabo a partir da Ilha de Robben, onde Mandela ficou preso, ou pensar nos descobridores portugueses sentado sobre a rosa dos ventos ao lado da Torre de Belém, em Lisboa – tudo só serviu para reiterar essa sensação, que um dia traduzi num aforismo: “Há em mim um mar que murmura”.
Mas aqui já me refiro a viagens da terceira fase, que começou graças ao meu melhor amigo, o Cacaio, que há oito anos me levou para passear no barco de seu pai, saindo de uma das marinas de Paraty. Paraty sempre esteve em minha vida, por seu charme colonial, e eu já tinha feito passeios de barco por ali, por meio dos hotéis. Mas outra sensação é ser livre para escolher rota e ritmo de um dia de navegação pela Costa Verde, que mereceu texto tão bonito de Rubem Braga sobre sua “intimidade entre serra e mar”. Singrar naquela região, fazer mergulho livre nas águas esmeraldas do Mamanguá, contemplar os paredões de samambaias e bromélias que a Mata Atlântica parece oferecer ao mar, almoçar na ilha do Catimbau, contornar ilhas e baías em ótima companhia – o que pode ser melhor? Nesses momentos, o menino, o leitor e o adulto são um só, e feliz.
(Fonte)
Sensação de liberdade, plena. Tenho sonhos de passar boa parte do ano numa casa da praia, que alimentei depois de assistir o filme “A deriva”. Ah, que sensação da praia esse filme nos dá…
Caro Piza, como paranaense em geral só conhece praias do próprio estado e Camboriu, é fácil imaginar o que tenho de comum com praia. O mar no seu devido lugar, eu aqui em terra firme.
Água e fogo não é pra brincadeiras. Conheci praias depois dos trinta e tantos anos. Caboclo da roça, dificilmente vai a praia. Minha infancia e juventude foi em rios, lagoas, nada mais que isso.
No mar meu amigo, sou como machado sem cabo,caiu ficou, não volta mais.
Vejo na televisão as imagens de praias no Nordeste, fico doido, quero ainda conhece-las, mas a grana curta encurta tudo.
Ano passado, se não me engano, você mostrou várias praias praquelas bandas, fiquei impressionado com a beleza.
Dias desses, estava vendo uma reportagem do Avai. Meu santo Deus! Que coisa linda.
Esse nosso Deus, fez coisas maravilhosas.
Nós é que não sabemos aproveita-las, ficamos só pensando em dinheiro, lula, futebol, eua, isreal, cuba, etc, etc., esquecemos que o mundo é uma bola de Natal muito linda.
Feliz é você, que conhece um monte dessas maravilhas. Dou-lhe meus parabéns, continue assim, estará sempre ganhando.
E a natureza agradece.
Feliz Natal pra vocês e os seus.
As duas alegrias ao andar de barco: quando você entra e quando você sai.
Não posso deixar de mencionar o litoral norte de São Paulo, tenho ótimas lembranças de lá, na infância, adolescência e até hoje em dia. É sem dúvida uma das regiões mais bonitas da costa brasileira, apresentando inclusive algumas semelhanças exatamente com o litoral sul do Rio.
Fora as baladas!
Mas a Mata Atlântica é maravilhosa!
Aliás, sair da praia e cair na cachoeira é uma das melhores coisas do mundo. Muitas praias dessa região tem esse… essa… digamos… eco… eco…
rotina.
O litoral capixaba é a praia dos mineiros, na adolescência fui a Nova Almeida e Guarapari.
Ainda na adolescência fui com meus pais para Cabo Frio, reduto dos mineiros também.De lá guardo boas lembranças como o futebol na praia, as paqueras, do boliche que jogava com meus amigos e primos no final da tarde. Mas conhecer o Nordeste, de em rítmo de aventura que foi sem igual para mim já na juventude .
Na Grécia antiga, eles consideravam três homens: Os vivos, os mortos e o homem do mar
Excelente post
Piza,
Lendo seu texto pude revisitar, também, as minhas 3 fases da relação com o mar. Sempre especial, acho que justamente porque era diretamente relacionada com momentos especiais, fora da rotina, envolvendo sempre gente nova, músicas novas, modismos novos, etc. A primeira fase foi em Santos, tenra infância, no apartamento de meu avô. Depois, Ubatuba, entremeada pelas visitas frequentes a Ilha Bela e Paraty. Finalmente, já na casa dos vinte, Maresias e Camburi.
Creio que por cerca de 20 anos de minha vida, mas especialmente na infância e adolescência, férias, feriados e muitos dos fins de semana significavam ir à praia, surfar, passear no barco de amigos, ir à noite no “centrinho” ou simplesmente sentar na areia, fim de tarde, papeando com a turma, sempre de olho nos movimentos da paquerinha. Tempos em que a natureza parecia eterna e intocável, e o barulho do mar embalava nossa imaginação e sonhos futuros.
Hoje, talvez, a violência e a superpopulação no litoral tenham restringido um tanto este espaço de liberdade que eu e meus amigos “praianos” experimentávamos ainda crianças mirradas. Mas ainda sonho em tentar oferecer uma vivência semelhante aos meus filhos junto ao mar.
Sou um bicho urbano. Gosto de viver em cidades grandes, com movimento, com gente… Justamente por isso, acho, os momentos na praia, além de parte de uma fase saudosa da vida (para qualquer um…), foram para mim repletos de expectativas e prazer, como de rever aqueles amigos de várias partes do estado que se encontravam periodicamente lá, na praia.
Alguns talvez prefiram o campo, pois é de lá que vem tais lembranças. No meu caso, e acho que no seu, a areia e o barulho das ondas são um baú inesgotável de bons momentos. Feliz Natal, Piza.
Marcelo-SP
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Noite Feliz
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- Ô presidente Lula, este presente de Natal é pra mim?
- É sim, Dilma. Não vai abrir?
- Poxa, é uma tornozeleira eletrônica?
- Olha, não rompa o lacre que em 2014 eu volto, hein?
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Feliz Natal, Daniel Piza e a todos os comentaristas do blog!
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Glúon
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Piza, temos fases bem parecidas. Primeira fase: “RHEN” – viví sôbre um rochedo em uma enorme casa com 8 suites, piscina e saunas, cinema, salão de jogos, pier com 2 iates de 56 pés cada um, lanchas e jet-skyes, lá em Cnossos, umas das ilhas Gregas.
Segunda fase: “OLHOS RÁPIDOS” – minha fase hyppie foi em uma “palafita” a 15 mts. do quebra-mar, pé na água. Era de palha de palmeiras local com impermeabilização natural, com seis lindas malasianas a preparar e servir-me tudo o que aquêle mar proporcionava.
Terceira fase: “DO SUSTO” – acordei deste maravilhoso sonho, muito assustado com as paredes do quarto do meu aptº, janelas de alumínio barulhenta, buzinas e sirenes de ambulâncias quase initerruptas. A realidade é ASSUSTADORA!
Você escreveu com uma ternura, parece alguém acalentando um bebê.Mas sobre o mar vem sempre inspiraçao, nao é ? Muito bonitas suas palavras. Menos poeticamente, digo que nós habitantes desse planeta somos tolos em nao sabermos aproveitar as delícias que as águas nos proporcionam.Veja o carioca: ao invés de ser arrogante e se meter na criminalidade (aqueles que se distinguem por isso,claro) devia aproveitar melhor o que a natureza lhes oferece.Mas nao, pelo visto só sabe sentar na areia da praia e pegar sol até torrar a pele. Por outro lado, tem um rapaz de sobrenome lindo, Cielo, que acaba de ganhar duas medalhas de ouro em competiçao internacional, soube com certeza tirar proveito das águas (marinhas ou de piscina,etc), uma demonstraçao de que é possível convivermos com a natureza e dela tirar bom partido sem no entanto estragá-la ou depredá-la. Fez sucesso e é feliz graças a sua capacidade em nadar e nadar bem ! Enquanto tem brasileiro que nem sabe dar umas braçadas na piscina nao olímpica, e isso com a disponibilidade de sol e tempo agradável quase o ano todo. Isso me chateia,porque podíamos ter mais campeoes em várias modalidades de esporte dentro d’água, seja surf,windsurf, nataçao, náutica em geral e até saltos (aproveitando rios e cachoeiras), e muito mais…
O litoral norte de SP e litoral sul do RJ fazem parte do imaginário de tantos jovens dessas regiões… Vontade de liberdade, de descoberta… A tranquilidade e beleza das ilhas perto de Parati e Angra… Penso em Nara Leão cantando “O barquinho vai…”
Fui, desde pequeno, para a Ilhabela. Me pergunto como teria sido não dispor desse segundo lar, ter de ficar, durante longas férias, preso entre os prédios cinzentos de São Paulo… Ter podido ir a Ilhabela desde pequeno considero um enorme privilégio. Eu não seria o mesmo hoje, se não tivesse tido essa oportunidade. Quando morava nos EUA, disse a uma americana como há um ambiente mágico por causa da combinação da mata, da música… Na adolescência, li Anna Karenina em grande parte na praia Feiticeira, embaixo de um coqueiro. De noite, na cama, ouvindo os barulhinhos misteriosos da mata, lia Machado de Assis. Que bom que a TV não pegava bem – para mim, ela nem existia.
Já depois de muitos anos na América do Norte, ao voltar vi a própria Ilhabela com outros olhos – como algo que não dá para comparar, em refinamento e civilização, com digamos a Côte d´Azur ou Punta. A natureza é bela, mas o que há de humano (com a exceção de algumas construções mais antigas, principalmente na vila) é em geral tosco, feio, e pobre. Há falta de tratamento de esgoto, além de outros problemas básicos.
Todos esses adolescentes de classe média alta que passam longas férias no litoral, sem ler, sem estudar, sem trabalhar, só bagunçando, quando na América do Norte os adolescentes, mesmo de famílias ricas, passam as férias de verão distribuindo jornais, ou trabalhando numa fábrica de queijo… Os norte-americanos acreditam que isso cria uma ética de trabalho e de disciplina. Eu mesmo tentei passar um verão lá trabalhando em Yellowstone – mas infelizmente me candidatei um pouco tarde e as vagas já estavam tomadas. Aqui, temos esses riquinhos indisciplinados que pisam nos pobres, se achando o máximo com os carros de seus pais, cultivando a preguiça, a arrogância, e a indisciplina. As escolas brasileiras talvez deveriam instituir, como se faz nos EUA, um “summer reading list,” pelo menos. Aqui as faculdades já são, em geral, medíocres e nada “puxadas,” e ainda por cima a maioria dos jovens passa meses por ano fazendo nada…
Gostei da história, bem legal.
Eu também sofro de fascínio pelo mar, ou sofria, agora que moro na beira dele ele parece mais um irmão que adoro olhar quando vou para o trabalho, mas meus filhos como eu na idade deles se esbaldam.Mas não faço como antes quando ia para a baixada,( até já fui de bicicleta até Ubachuva), e mesmo chovendo ia para a praia. Mas não só o mar, a agua sempre me atraiu, e atrai qualquer um, também sou fanático por piscinas, a primeira coisa que fiz quando virei sócio do CEPE foi pular daquele trampolim fantástico, dar chute na lua com a turma de malucos, e lá embaixo o Rubens Paiva no maior papo,rodeado de uma galera e um monte de top less pelas áreas das piscinas, ô tempo bão hehehe.
Eu sou, ou era, do tipo maluco que ia a nada até aquela ilha la da frente, só pelo desafio, que acabei quase morrendo, não só uma mas duas vezes. Na primeira quando ainda não sabia nadar ainda tinha uns seis anos quando fui com meu irmão mais velho de oito até as pedras da praia do Tenório ubatuba, e cai na agua. Meu irmão foi até a praia e chamou alguém que ainda me achou, totalmente grogue mas vivo.
O engraçado é que não fiquei com medo do mar, na ultima vez que quase fui, estava pegando jacaré na prainha, aqui pertinho de casa, quando um vagalhão jogou me de cabeça num banco de areia, na hora deu um clarão e meu braço direito formigando e paralisado, tive que nadar desesperado com um braço só até a praia. Resultado, uma vértebra quebrada, e alguns meses de molho no hospital onde em compensação pude novamente ler alguns livros. O doutor ortopedista que parafusou e colou no lugar falou me que se não tivesse o pescoço forte, que adquiri nos treinos de natação da ymca , não teria sobrevivido, só se talvez na hora aprendesse a nadar com as orelhas hehehehe.
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