
Revi nesta semana o filme Os Vivos e os Mortos, de John Huston, baseado no conto The Dead, de James Joyce (será que Os Mortos era um título muito simples ou muito mórbido para os tradutores brasileiros?). Depois de 23 anos, finalmente o DVD sai aqui, graças à ótima Coleção Cultclassic. Quando Gabriel (Donal McCann) vê sua mulher, Gretta (Anjelica Huston), se perder na memória ao ouvir uma velha canção irlandesa, e depois ela conta que estava pensando num jovem amor, ele se dá conta de como não conhecemos nem a pessoa mais íntima e, entre ciumento e melancólico, medita sobre si próprio, sobre um tipo de paixão que nunca sentiu, em sua sóbria meia-idade.
John Huston, que sabia o que era adaptar uma grande obra, colocou esses sentimentos no rosto de Gabriel no momento em que vê Gretta no alto da escada. No conto de Joyce, que o escreveu aos 25 anos (maledetto!), ele primeiro se alegra com a emoção dela e só depois sente o baque. Para resolver a mudança, Huston mudou um diálogo da festa para o coche, onde o casal está sozinho. E assim deslizamos com os personagens até o monólogo final, cuja linha mais inesquecível eu traduziria assim: “Sua própria identidade estava se apagando num impalpável mundo cinza: o próprio mundo no qual um dia os mortos haviam trabalhado e vivido estava se dissolvendo e definhando.”
Agora sim esta área está funcionando. Lamento a falha técnica.
Cena grandiosa em todo o seu intimismo. Só lamento que esse blog só vá a Huston, não vá a Babenco, não vá a Walter Salles, não vá ao belo “Dias de Nietzsche em Turim”, não vá a Heitor Dhália, não vá ao “Segredo de Kells” (animação brasileira indicada ao Oscar)…etc, etc, etc… não seria melhor a correspondência de Nova York ou Paris, de uma vez?
Falei de todos eles, e mais de uma vez…
responder este comentário denunciar abuso“O segredo de Kells”, falou dele? Nem uma notinha sequer naquele seu imenso artigo sobre o Oscar… horas no debate sobre avatar, infinitos debates (até dispensáveis), e nem menção da produção co-produzida pelo Brasil…
É tão bom assim, como um John Huston? Puxa, verei correndo.
responder este comentário denunciar abusoPiza, não vi também ainda mas será que não dá pra entender que a questão não é essa? O que é estímulo nesse país, carente de fomento e divulgação? Volta aquela velha discussão da qualidade da obra, mas do jeito que vc fala, parece que menospreza o produto daqui “…melhor que Huston? (…) melhor que o gringo? … ah, então vou ver”. Não é por aí…
Ricardo, você está batendo na porta errada. Falo bastante sobre o cinema nacional, levanto as questões, etc. O que não dá é para ficar num post sobre um baita filme falando de outros…
responder este comentário denunciar abusoAlém do que, essa sua postura enfatiza um preconceito que brasileiro tem com o filme nacional… não existe responsabilidade, quando se é “formador de opinião?”. Há uma responsabilidade, não é ser Acaciano, mas também não precisa ser o Herodes da história…
Tenho responsabilidade, não preconceito. Se você não vê isso, só me resta lamentar.
responder este comentário denunciar abusoEu… batendo em porta? Que porta, Piza, só fiz um comentário. Nem entendi, mas deixa pra lá…
Daniel, minha braveza contigo é de uma outra ordem, muito mais prosaica. Estou me mudando de apartamento e o “Dublinenses” está em alguma caixa! Vc tinha que publicar esse post justo por esses dias? Li esse conto de Joyce há muito tempo; lembro que é um pouco longo e que tem uma passagem até chata em que o autor se estende demais na descrição da festa. Assim que o caos deixar de reinar na minha casa vou reler o conto e assistir ao filme, que não vi; assim, necessariamente nesta ordem. Obrigado pela dica. Por enquanto só consigo visualizar como “Os Mortos” os marceneiros (“maledetti”) que não terminam as estantes… Ab.
Vamos, ilustríssimo, faça um comentário relacionando o exame prévio do “moderador” exigido por este (e outros) blog com a censura prévia que o Estadão vem denunciando religiosamente há mais de 230 dias…
Impossível. Não existe a menor relação.
responder este comentário denunciar abusoNa verdade, meu caro, existe muuuuita relação. Tenho batido nesta tecla aqui para te provocar (no bom sentido, intelectualmente), justamente porque você censurou inexplicavelmente dois posts meus, de uma ou duas semanas atrás, na matéria sobre comemoração dos garotos do Santos. Escrevi esses dois posts muito bem fundamentados, mas como iam contra a tua pregação não foram aprovados pelo “moderador”. Isto se chama censura ao pensamento, obscurantismo, postura autoritária, o que você quiser – exatamente o que o Estadão vem denunciando no caso Zequinha Sarney. Tudo porque eu fui frontalmente contra a tua posição naquele post e lembrei que a corintianada achava lindo dançar a cumbia – a corintianada e a maior parte da imprensa (não se esqueça que trabalhei nela por mais de 30 anos, inclusive 10 deles aí na casa, e sei como funciona…), que publicava fotos de capa nos cadernos esportivos de segunda-feira com a cumbia e o delírio nas arquibancadas do Pacaembu, a “casa” da “nação”. Agora, nem tanto pela coreografia dos meninos do Santos, mas por verdadeiro despeito ao futebol que estão praticando, caiu todo mundo em cima das dancinhas deles. Quando era o Tevez, como era lindo, não é mesmo? Esse era o teor do meu comentário, que não foi aprovado pelo “moderador”. Isto chama-se censura prévia, e tem tudo a ver com o caso Sarney – não deixar publicar o que nos desagrada, o que vai contra nossas convicções e interesses etc. etc. Entendeu a relação agora?Sorry.
Chamar as pessoas de canalhas e achar que é censura filtrar tal comentário, lamento, não tem nada a ver com um órgão de imprensa independente noticiar as falcatruas de uma família política com o dinheiro público. Não confunda direitos e deveres.
responder este comentário denunciar abusoNão chamei as pessoas, mas a atitude, de canalha. Surpreende que você, com toda a literatura e citações que possui, não tenha entendido o sentido. Canalha é fazer a cabeça da massa ignara, alimentar os conceitos de “nação”, “o Paca é nosso”. Quanto à questão da cumbia x dancinhas dos meninos do Santos, você insiste em não abordar. O argumento não tem defesa, meu caro: a mesma imprensa (até como parte da verdadeira lavagem cerebral que se faz a favor do, vá lá, “Timão”) que prestigiava a cumbia hoje cai de pau nos meninos do Santos. Este é o ponto. Você prefere se apegar a um detalhe (do qual não entendeu o sentido, já que não faço ataques pessoais) a tocar no ponto. Por falar no “canalha” que empreguei, vejo nestes blogs aqui coisas infinitamente piores, com torcedores mandando torcedores “chuparem” isso ou aquilo, ofensas de todo tipo – e essas passam. Já o meu “canalha”… Enfim, deixemos para lá. Como eu te disse, conheço a turma a fundo, são 37 anos de jornalismo nas costas.
Jornalista, é? Bons jornalistas não usam o termo canalha, não ofendem, usam argumentos. Isso sem falar na inadequação do local: eu nunca falei mal das danças comemorativas do Santos. Vá dizer que é canalhice – se quer tanto usar o termo – em blogs que tenham afirmado isso. E, sendo jornalista, entenda de uma vez por todas que proibir um jornal de revelar fraudes com dinheiro público é que é censura. Evitar os insultos é educação.
responder este comentário denunciar abusoPois é, bons jornalistas usam ARGUMENTOS. Toda esta nossa “altercação” se refere a um fato inicial – e que você, como já notei no post anterior, insiste em NÃO abordar, justamente pela falta de ARGUMENTOS. Direi pela última vez, que não estou a fim de discutir jornalismo com você: meu primeiro post, censurado pelo “moderador”, trazia forte ARGUMENTAÇÃO em uma comparação entre a tão incensada, prestigiada, venerada, manchetada, fotografada, comentada, aprovada cumbia de 2005 versus a tão criticada, humilhada, rejeitada, condenada dança dos meninos do Santos em 2010. É só esse o ponto. Fim.
Não rejeitada por mim. Errou de guichê, colega.
responder este comentário denunciar abusoE por que bons jornalistas não usam o termo canalha? Acaso você é da turma do politicamente correto, que chama negro de afrodescendente? Lembro, só para citar um, que Nelson Rodrigues não só usava o termo como criou um personagem, Palhares, o canalha da imprensa…
Criar um personagem é uma coisa. Insultar é outra.
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