Os EUA produziram grandes e inventivos escritores, como Herman Melville, Mark Twain, Henry James, Scott Fitzgerald, Philip Roth e muitos mais, mas talvez nenhum tenha explorado tanto os limites da linguagem como William Faulkner (1897-1962). Ainda que pertencente à mesma tradição realista, que busca fazer um panorama da sociedade por um microcosmo – em seu caso, o mundo do Mississippi norte, ali onde o sul dos EUA começa –, e a despeito das influências das tonalidades bíblicas e shakespereanas, Faulkner foi muito marcado pelos conceitos modernistas de Freud, James Joyce e até Einstein. É isso que afirma um de seus maiores estudiosos, Noel Polk, que esteve no Brasil em outubro para dar palestra sobre Faulkner e divulgar as traduções feitas no Brasil a partir deu seu trabalho como editor, como em Sartoris.
Polk é o pesquisador americano que teve o privilégio e a responsabilidade de se deter em todos os originais deixados pelo escritor e os cotejou com os livros publicados. Descobriu tantas alterações, algumas tão descabidas, que decidiu empreender pelo “restauro” da obra de Faulkner. Por sorte, o escritor era organizado e foi possível localizar na íntegra todos os manuscritos e textos datilografados de seus vinte romances, além de antologias de contos e muitos outros trabalhos. Um a um, os textos foram reeditados – ou, para usar a expressão de Polk, “deseditados” – para devolver a Faulkner o que era de Faulkner, eliminando os supostos ajustes dos editores da época, com exceção das correções de grafia e, eventualmente, pontuação. Sim, acredite: os copidesques não perdoaram nem mesmo um escritor como Faulkner, que dominava todos os recursos do idioma e sabia correr riscos sem se tornar obscuro ou ilegível.
Na entrevista a seguir, feita por email logo depois de sua passagem pelo Brasil, Polk elege entre seus livros favoritos de Faulkner dois que são posteriores a 1939: Go Down, Moses, de 1942, que na verdade usa sete contos antes publicados pelo autor, e Requiem for a Nun, uma peça de 1951. Ou seja, há um consenso de que os últimos romances de Faulkner não estão à altura daqueles dos anos 30. Polk diz que naquela década ele trabalhava sem parar, publicando muito, sempre pensando no livro seguinte, e foi então que conseguiu equilibrar sua facilidade natural para criar enredos e personagens com uma linguagem elaborada, muito moderna. Polk também comenta sua admiração por García Márquez, que considera estar no mesmo patamar literário de Faulkner, de quem sofreu influência sempre reconhecida.
Quais eram as alterações mais comuns feitas nos textos de Faulkner pelos editores? Eram na escolha de palavras, na pontuação, eram passagens inteiras? Pode dar algum exemplo?
O que fiz acima de tudo foi restaurar o que Faulkner escreveu e os editores mudaram, por isso gosto de dizer que eu realmente “deseditei” os textos. Na maioria dos romances, os editores fizeram os ajustes normais, acrescentando vírgulas, mudando pontuação ou grafia, corrigindo algumas expressões do Sul que não entendiam. Em Absalão, Absalão!, no entanto, eles fizeram numerosos e deletérios cortes de até dez ou onze linhas de uma vez só, porque não entendiam o que ele estava tentando fazer com sua prosa. Ele queria empurrar a prosa em inglês ao limite, dar a ela uma intensidade e um drama dignos da tragédia que estava tentando narrar naquele romance.
O que a comparação entre os manuscritos e os livros publicados lhe mostrou? O sr. pensou “Faulkner é ainda mais criativo do que eu pensava” e/ou “Faulkner tinha um estilo irregular, como se esperava, pois estava correndo riscos o tempo todo”, por exemplo?
Meus anos de trabalho com os manuscritos e textos datilografados de Faulkner me convenceram de que ele sabia absolutamente o que estava fazendo quando escrevia. Tendemos a chamar de “experimental” algo novo, mas para Faulkner seus romances não eram “experimentais”, eram compostos palavra a palavra, frase a frase, capítulo a capítulo, deliberadamente. Certo, esses romances envolviam riscos, o risco de ser mal compreendido, de não ser apreciado. Ele nunca sofreu o que chamamos de “bloqueio de escritor”; sempre foi capaz de retirar de Yoknapatawpha uma infinidade de histórias e personagens.
Algumas influências ficaram mais evidentes depois do cotejo? James Joyce, por exemplo, no sentido de que Faulkner lidava com muitas vozes e com monólogos interiores?
Qualquer pessoa que observe o fluxo de consciência em Faulkner atribui a influência a Joyce, e isso certamente é verdade: Faulkner aprendeu muito com Joyce. Mas também me parece claro que ele aprendeu com Freud e mesmo com Einstein. Boa parte de seu fluxo de consciência vem dos textos de Freud sobre como os sonhos funcionam, como o inconsciente mantém nossas memórias intactas e só as libera em fragmentos quando encontramos algo que mexe com elas. Seu entendimento de como o tempo funciona nos indivíduos vem de Einstein. Ou melhor, não estou seguro de que aprendi essas coisas diretamente do trabalho com os manuscritos; foi indiretamente, à medida que lia Freud e Einstein.
Quais eram as razões alegadas para mudar seu texto? Medo da reprovação dos leitores? Ou apenas a boa intenção de deixar as frases mais claras?
Sim, como editora comercial, a Random House tinha interesse em vender livros; logo, queria que seus livros fossem legíveis, não queria que seus leitores tivessem o trabalho que os romances de Faulkner exigem. Também havia um senso patronal de que Faulkner, sendo do Mississippi, não tinha tido acesso ao tipo de educação que eles tinham, de que não era esperto o suficiente; enfim, queriam controlar o imenso talento dele. Em Absalão, Absalão!, creio, simplesmente acharam que seu talento já tinha tirado o melhor dele e que lhes cabia transformar num grande romance aquilo que eles claramente pensavam que era uma bagunça.
Faulkner costumava “brigar” contra as alterações? Argumentava com os editores sobre passagens ou palavras específicas? Pode nos contar alguma história de insistência dele numa determinada frase? Ele ficava mais nervoso com alterações na sintaxe ou no vocabulário?
A única vez em que argumentou seriamente foi quando mudaram o título de Forget Thee, Jerusalem (Esqueça-te, Jerusalém) para The Wild Palms (As Palmeiras Selvagens). Ficou furioso, mas esse era o primeiro romance depois de Absalão, que não tinha vendido bem, e eles não queriam publicar logo em seguida outro título bíblico. Faulkner às vezes ficava impaciente quando corrigia as provas finais, mas não frequentemente. Revisava com indiferença e era comum que já estivesse trabalhando no romance seguinte. É importante lembrar que entre 1926 e 1942 ele publicou treze grandes e longos romances e dois livros de contos. Ele estava sempre pensando no seguinte!
Ele achava importante captar a prosódia de sua região, mas não no sentido de mimetizá-la, de registrar a linguagem oral mecanicamente. Por isso acrescentava tantas construções inventivas e sonoridades diferentes?
A linguagem que ele usava fazia parte do “realismo” de sua ficção, e ele encontrou meios de registrar o que as pessoas falavam sem usar muitas formas dialetais. Parte de sua originalidade reside na maneira como retratou o mundo real do norte do Mississippi através das lentes fornecidas pela linguagem e simbologia modernistas, tudo que Freud e Einstein e outros lhe haviam ensinado, como eu disse antes.
Qual a importância de ‘Sartoris’ em sua obra? Além, é claro, de introduzir Yoknapatawpha.
Sartoris é um bom romance para começar a ler Faulkner. Se não tem as dificuldades estilísticas ou estruturais que os romances posteriores têm, é uma introdução muito bem escrita a Yoknapatwapha e seus principais temas: é ali que ele entra nas grandes questões de classe social, economia, política e estruturas raciais, que mais tarde serão a marca registrada de sua ficção; também nos introduz em temas de guerra e história e no processo de transformação que tem tanta importância em sua ficção madura. Há ainda, não por acaso, algumas passagens fabulosas em prosa, que valem muito a pena ler.
Qual era a opinião dele sobre Mark Twain, outro escritor que captou o Mississippi com lirismo e ironia?
Como um jovem arrogante de 20 e poucos anos, chamou Twain de “um escritor limitado que não seria considerado do quarto time na Europa”, mas mais tarde generosamente o chamou de “avô” de sua geração.
Qual é seu romance de Faulkner favorito?
Go Down, Moses, Absalão, Absalão!, O Som e a Fúria, A Aldeia e Requiem for a Nun são meus prediletos, embora essa ordem mude regularmente. Normalmente respondo a essa pergunta dizendo que meu favorito é a Normalmente respondo a essa pergunta dizendo que meu favorito é aquele em que estou trabalhando no momento! Na realidade, todos eles são quase igualmente interessantes para mim, porque aprendo algo maravilhoso toda vez que os leio. Mas aqueles cinco seriam os que eu levaria para uma ilha deserta se fosse condenado a escolher apenas cinco. Eu imploraria aos meus sequestradores que não me obrigassem a escolher apenas um só!
‘Enquanto Agonizo’ e ‘Luz em Agosto’ são os dois mais aclamados romances dele. O sr. acha que ele concordaria com essa escolha?
Não sei se ele alguma vez se importou com isso; acho que teria dito “Obrigado” a qualquer um que dissesse que são dois grandes romances. Ele sempre disse que O Som e a Fúria era seu favorito, não seu melhor romance, porque foi o que mais lhe angustiou escrever, que era seu “mais esplêndido fracasso”, porque foi aquele que ficou mais aquém do que esperava dizer. É uma bela metáfora, acho, para um romancista ambicioso descrever um dos romances realmente revolucionários do século 20.
Os últimos cinco livros de Faulkner não são considerados entre os melhores. Por que você acha que suas obras dos anos 30 são mais poderosas do que as que vieram depois? Seria porque ele levou a linguagem a tais extremos que se tornou difícil extrair mais força de si mesmo?
Bem, a maioria dos críticos que não gostam da ficção dele depois de ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura (1949) a compara com a dos anos 30, mas precisa recorrer a essa comparação para encontrar defeitos nos livros finais. Querem impor o tom do discurso de recebimento do Nobel a seus últimos romances e, por isso, não percebem seus tons extremamente sombrios, trágicos. Sou um admirador desses livros e passei boa parte da minha carreira – sem sucesso, me apresso a dizer – argumentando que deveríamos levá-los mais a sério. Acredito que, para um romancista menor, esses romances escritos depois de 1950 formariam um cânone fabuloso.
Embora fosse um modernista, influenciado por Freud, Joyce e Einstein, sua prosa sempre ecoou duas referências centrais: a Bíblia e Shakespeare. O sr. concorda?
Sim, concordo. Ele andava quase sempre com um volume de Shakespeare à mão e o lia regularmente. Dizia ler a Bíblia regularmente também, mas preferia as histórias de conflito humano no Velho Testamento ao conteúdo filosófico do Novo Testamento.
Esse também não seria um traço modernista, no sentido que muitos dos escritores modernos (como Joyce com Homero e Pound com Dante) criaram um diálogo com a tradição?
Não estou certo se diria que Faulkner conscientemente criou um “diálogo com a tradição” no mesmo sentido que Joyce e Pound e Eliot criaram. Mas obviamente um escritor que usa a linguagem da Bíblia e Shakespeare de acordo com sua sensibilidade modernista está ao mesmo tempo afirmando a tradição e reescrevendo-a para o século 20.
O sr. certamente sabe que Faulkner teve influência em muitos escritos latino-americanos, de Juan Carlos Onetti a Gabriel García Márquez, e até num brasileiro contemporâneo, Milton Hatoum. Dos que conhece, qual diria que está perto de sua densidade e poder?
García Márquez é o escritor latino-americano que conheço melhor, mas acredito realmente que sua ficção pode ser comparada com a “densidade e poder” de Faulkner, uma expressão da qual gostei muito.
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Daniel, “Enquanto Agonizo’ e ‘Luz em Agosto” são também os seus favoritos? E “O Som e a Fúria”, gosta? Lembro que quando este foi escolhido como um dos cem melhores romances do século XX pelo caderno Mais da Folha, houve quem dissesse que só no Brasil é que se faria uma escolha como essa.
Sim, Lausamar, são meus dois favoritos. Gosto também de ‘O Som e a Fúria’, mas tem alguns excessos, não?
responder este comentário denunciar abuso“O Som e a Furia”, e’ meu favorito principalmente pelos “excessos”. Na minha opiniao e’ melhor que “Huckleberry Finn” de Twain. Li tambem “The Reivers” que no Brasil saiu como “Os Desgarrados” da fase final do autor, deste eu nao gostei. Acho que Faulkner nao foi um autor de “folego” como foi Mann.
Enquanto agonizo é o romance do Faulkner – parece que o conversa de bois do guimarães tangencia esse romance!
Realmente vale a pena conhecer a obra vasta de Faulkner – o problema são os preços de seus livros aqui – exceto enquanto agonizo que saiu numa versão de bolso – os outros, como o som e a fúria são caríssimos.
será que há alguma previsão para a versão de bolso desses outros romances? E requiem for a nun foi traduzido?
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