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Daniel Piza

25.julho.2010 07:54:26

Diáspora das palavras

Baptistão

No alto da montanha da bela Cidade do Cabo, quando se caminha para um de seus mirantes, vê-se o Cabo da Boa Esperança ao longe, lá onde o Atlântico faz a curva e se verte no Índico, e não dá para não lembrar os descobridores portugueses e o outro nome do extremo, Cabo das Tormentas, com suas ressonâncias camonianas. Confesso que senti um enlevo lusófono, e me pus a meditar sobre as viagens que um idioma faz com seu povo, ou melhor, com seus povos. Na mesma semana fomos a Durban, na outra ponta do país, e para mim Durban sempre foi, antes de uma cidade sul-africana marcada pela presença de indianos muçulmanos e pelo calor litorâneo, a cidade onde Fernando Pessoa viveu quase dez anos, dos oito aos 17, educado em inglês numa escola irlandesa. Pouco antes, morrera José Saramago, autor dos memoráveis O Ano da Morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa, um ficcionista que também levou o vocabulário e a prosódia do português mundo afora.

Quando volto, encontro alguns livros relacionados ao tema, em especial o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coordenação Fernando Cabral Martins, editora Leya), e fico sabendo que a próxima Bienal do Livro de São Paulo, com início no próximo dia 12, trará o moçambicano Mia Couto e os angolanos Ondjaki e Agualusa para debater justamente a lusofonia. Num dos textos desse ótimo dicionário (no qual senti falta apenas de, entre outros, um verbete sobre Camões, sobre a força e o peso de sua herança em Pessoa e companhia), leio que ele fez em quatro ocasiões a viagem pelo Cabo da Boa Esperança (hoje a 40 minutos de carro da Cidade do Cabo), tanto que num poema menciona a beleza da “Table Mountain”, que chama Montanha da Mesa, e a visão do Cabo “nítido ao sol da madrugada”. Esse poema, assinado por Alvaro de Campos, um de seus heterônimos, é o Passagem das Horas e tem um começo magistral:

“Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei,/ Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.”

(Bichos carpinteiros como eu deveriam andar com esses versos no bolso.)

Como já me acontecera em cima da rosa dos ventos inscrita no chão ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, também os versos do único livro em português publicado em vida por Pessoa, Mensagem, passaram a me seguir durante a Copa. Versos como: “O mar com fim será grego ou romano/ O mar sem fim é português.” Ou: “Jaz aqui, na pequena praia extrema,/ O Capitão do Fim. Dobrado o assombro,/ O mar é o mesmo: já ninguém o tema./ Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.” Este poema, ora, se chama Epitáfio de Bartolomeu Dias, o navegador que dobrou o Cabo em 1487 e ali mesmo morreria mais tarde, em 1500, pouco depois de ter participado da descoberta do Brasil ao lado de Pedro Álvares Cabral. O Brasil, afinal, é o maior filho da diáspora portuguesa por ventos e verbos, e não por acaso Mia Couto e a dupla angolana reconhecem sempre a influência da literatura brasileira moderna, de nomes como Rosa e Amado.

O equívoco de acordos ortográficos é querer ser mais do que são, simples ajustes diplomáticos, e não as motrizes de uma aproximação entre os povos que falam a mesma língua (isso sem entrar no mérito dos critérios, que eliminaram acentos como em “voo” e mantiveram em “já”, como se houvesse outra pronúncia para a vogal senão a aberta). A língua é viva e nômade; está em constante reinvenção pelo uso e, portanto, vai muito além dos dicionários; e é muito bom que seja assim, caso contrário se fixaria e morreria. Os escritores que captam esse idioma móvel e poroso são os melhores. Como o poeta Ezra Pound fez pela língua inglesa em ABC da Leitura, há um estudo a fazer sobre as contribuições e mutações do português desde Camões até Drummond, que em alguns momentos parece influenciado por Pessoa, e desde Vieira, “o imperador da língua portuguesa”, segundo outro verso de Mensagem, até Machado, Euclides, Lima, Graciliano e tantos outros prosadores brasileiros.

A língua inglesa, afinal, mudou muito antes e depois de Pessoa ter criado em Durban o heterônimo Alexander Search (e mais tarde ter encarado Shakespeare ao criar seus 35 Sonnets diretamente no idioma). Na África do Sul, ela é a língua oficial, comum aos meios de comunicação e solenidades públicas, e, como na China, cada habitante tem seu nome em inglês. Como é que um idioma não vai ser afetado por isso? Naturalmente, para o bem e/ou para o mal. O trabalho dos escritores entra aqui, também, na luta contra o empobrecimento, o desgaste da diáspora, mas jamais no sentido purista. Machado, por exemplo, sempre repudiou o hábito brasileiro de abusar de hipérboles (cada vez mais, ninguém diz “o filme é bom”, e sim “o filme é sensacional, ma-ra-vi-lho-so”, etc) e, em contraponto, refinou a ironia e pôs o melodrama em elipse.

Pense ainda nas palavras que passam de um idioma para outro e mudam bastante de sentido, como “todavia” (em espanhol, “ainda”) ou esquisito (em inglês, “exquisite” é “primoroso”). Ou que mudam com o tempo, como o adjetivo “cool”, que um dia significou a atitude de ignorar a opinião alheia e hoje significa ser elegante, informalmente bem vestido; ou “cético”, agora usado para designar qualquer pessimista (como em “eurocéticos”); ou “pragmático”, que no futebol brasileiro virou sinônimo de “burocrático”. Nenhum bom escritor usa essas palavras ingenuamente, sem se dar conta dessas reinterpretações. O aspecto mais importante do gênio de Shakespeare, aliás, é esse: sua consciência de como a mesma palavra é acomodada para diferentes fins práticos e/ou morais. Pessoa, em sua busca pela plenitude perdida, como um Camões pós-imperial, já via na própria palavra essa dissociação, já via no verbo a multiplicação que traduziu em heterônimos.

Escrevi sobre Saramago, de quem admiro mais os romances históricos da primeira fase, que ele era um escritor raro por seu amor à palavra. Sim, o escritor que ama as palavras não é tão comum quanto se pode pensar. Sempre me espanto quando perguntam a profissionais do verbo qual a palavra mais bonita da língua portuguesa e eles respondem apenas uma, como “libélula” (a opção do filólogo Antonio Houaiss). São tantas! Num só livro de Mia Couto há um mar delas a pescar, e uma das características de Pessoa que mais aprecio é não ter medo de usar advérbios em “-mente” ou de repetir termos próximos – recursos que os pedagogos da área dizem ruins para o estilo, como se eles tivessem um.

Todo dia me ocorre ao menos uma bela palavra que ainda não estava na minha hipotética lista de palavras mais bonitas; e hoje, por motivos evidentes, eu poderia escolher a do título acima, “diáspora”. Como diria Pessoa, “o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos” – “diáspora” significa uma coisa e evoca muitas outras, envolvidas pela mesma musicalidade – tudo isso lhe dá beleza. A diáspora das palavras é inevitável como o vento no barco.

(“Sinopse”)

comentários (13) | comente

13 Comentários Comente também
  • 26/07/2010 - 12:51
    Enviado por: marcos

    Prezado Piza,
    Comecei a ler o Memorial do Convento, mas não conseguir ir até o fim. Achei a história muito arrastada. O único grande atrativo era a riqueza da linguagem, mas me desinteressei do livro. Tu colocarias Saramago no mesmo nível de Machado, Eça e Rosa, como um dos grandes da língua portuguesa? Vi recentemente um comentário de Moacyr Scliar comparando Saramago a grandes narradores como Érico Veríssimo e Jorge Amado, mas ainda não vi ninguém colocá-lo entre os grandes. O Nobel poderia tê-lo valorizado exgeradamente?
    Um Abraço.

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  • 26/07/2010 - 17:21
    Enviado por: Marcos Anton Nogelli

    O seu site particular com a íntegra de “Sinopse” não é atualizado há duas semanas…… Moro em Macaé (RJ) e aqui o “Estadão” acaba rapidinho, sobretudo sábado e domingo, por isso leio sua coluna no site.

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  • 26/07/2010 - 18:44
    Enviado por: Sônia

    Ma-ra-vi-lha!

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  • 27/07/2010 - 08:24
    Enviado por: Etelvina

    Piza,

    Que lindo texto! Obrigada!

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  • 27/07/2010 - 10:09
    Enviado por: Marcelo

    o autor de Passagem das Horas não seria o Alvaro de Campos? Mesmo com esta pequena incorreção (ou seria um lapso esquizofrênico, ou um transtorno de múltiplas personalidades?), texto magistral.

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  • 27/07/2010 - 14:54
    Enviado por: patricia henriques

    Olá Daniel,

    Também sou uma apaixonada por essas “danadas feitas de letras” e sempre fico pensando que toda palavra é possibilidade de criação, há uma revoada que passa por nós todos os dias …nos resta escolher qual delas deixaremos pousar e nos fazer de ninho…

    Haja ninho, rs…

    Belo texto!

    Patrícia

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  • 27/07/2010 - 18:02
    Enviado por: lurdes

    daniel

    Que saudades de seus belos textos!! Ultimamente em seu blog só análises de futebol; quase perdia a esperança que voltasse aos seus melhores dias.
    A Bienal do Livro, será uma oportunidade de eleição para encontros com escritores e com o Livro! Penso que também vai lá estar, um escritor que muito aprecio: Gonçalo Tavares. Foi para mim um previlégio conhecê-lo em Moscovo, onde se encontrou com estudantes de Português. É emocionante ver a aplicação e carinho que estudantes russos colocam na aprendizagem de nosso idioma!!! é uma riqueza e previlégio incomparáveis podermos viajar e entendermo-nos em Àfrica, na Europa, Américas e Oceania. Uma comunidade que se entende verbalizando o seu pensamento, só pode ser uma comunidade com grande potencial pacífico.
    A língua é trabalhada pelos falantes, mas com algumas regras, a não ser que se extingam as gramáticas…
    boas prosas!! eu vou para os montes, de férias!!!!!

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  • 28/07/2010 - 15:37
    Enviado por: lurdes

    claro que sim, mas foi muito longa a duração da Copa!

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  • 29/07/2010 - 08:46
    Enviado por: Renato Ladeia

    Caro Daniel,

    Excelente o seu artigo Diáspora das palavras. Apenas a referência ao poema “Passagem das Horas” que aparece como do Alberto Caieiro, está incorreta, pois na verdade é do heterônimo Alvaro de Campos. Às vezes também faço confusão e a melhor saída é atribuir a ele mesmo.

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  • 03/08/2010 - 18:04
    Enviado por: Ramon

    Daniel Piza, este ótimo texto é particularmente significativo para mim por um motivo que não vem ao caso. Mas achei legal compartilhar com vc e com outros que frequentam esse espaço uma entrevista com a poeta Mariana Ianelli:
    http://www.tvcultura.com.br/nossalingua/player.php?id=4446

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