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Daniel Piza

19.junho.2011 07:09:30

Desfile de velhas novidades

Na primeira vez em que vi um desfile, me impressionei com a rapidez. Todo aquele circo, todo aquele varal de fotógrafos, todos aqueles textos falando em inspirações e resgates e novidades – para algo que dura dez minutos e mal podemos ver com calma e detalhe? Há uma desproporção entre o que a moda se pretende e o que de fato cria. No caso da São Paulo Fashion Week, por exemplo, me espanta a distância entre os relatos, sempre tão favoráveis, e a moda tímida, repetitiva, singela e tantas vezes plagiária que vemos nas passarelas. Não sou especialista, mas observo claramente como há o que avançar ainda (a temporada de verão, por exemplo, quase só vem na forma de “beachwear”). Os textos na TV e na imprensa, porém, são só elogios.

Fui então ler Moda – Uma Filosofia, de Lars Svendsen, e encontrei as mesmas inquietações. As roupas, ele diz, têm importância crucial e crescente na constituição da individualidade, mas “o interior deve corresponder ao exterior, nosso eu exterior deve ser a expressão de uma espiritualidade genuína”. Olhando essas meninas cada vez mais novas, mais altas e mais magras – erroneamente chamadas de “modelos”, como se seu padrão pudesse ser seguido pela maioria das pessoas, o que gera distúrbios sérios principalmente entre as mulheres – fazendo pose de maduras e blasées, o contraste é gritante. Isso sem falar que, talvez por influência homossexual, mais e mais parecem andróginas.

Isso é geral: raramente o visual corresponde à personalidade, e por isso todas ficam parecidas entre si, com os mesmos óculos gigantes, as mesmas grifes do momento, sobretudo os mesmos “valores” na cabeça. Svendsen nota que a moda não é um guia para a existência, não é uma norma para a formação da identidade, e lembra que um século atrás já se dizia que todos os estilos convivem, que a diversidade domina, etc. “A busca da identidade resultou em seu oposto: a total dissolução da identidade. É para isso talvez que estamos rumando.” Não por acaso, desfiles recorrem a celebridades – identidades emprestadas do cinema, da TV e da música – para turbinar o interesse da mídia.

Svendsen ataca a crítica de moda, que mal existe, corrompida por uma pressão da indústria para que o jornalismo sirva como agente de relações públicas. É feita à base de imperativos: use isto, não use aquilo; siga sob pena de estar “out”. Como notou Gloria Kalil outro dia, nada deveria ser mais fora de moda do que o modismo, do que as pessoas que aderem às tendências. Pego um guia francês, Parisian Chic, de Ines de la Fressange, e lá encontro a velha e saudável mentalidade europeia: cafona é consumir avidamente, sem autocrítica, e não ter estilo próprio. Quantas pessoas conhecem seu corpo? Saia às ruas e veja as baixinhas de bota e legging que tomaram o inverno…

Como em Svendsen, leio em Zygmunt Bauman, nas 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno (embora eu não goste desses pensadores que acham que forjaram um conceito, como “mundo líquido”, e produzem livros em série como se dissessem algo muito original), que o problema da moda é que vive de prometer revoluções e, cada vez mais, só entrega reciclagens – as modas antigas “repaginadas”, como se diz (até a boca de sino voltou agora, segundo leio), num moto-perpétuo para manter a clientela iludida com a falsa modernidade. Afinal, o novo é raro e dá trabalho, e quem ama o novo sabe disso. Mas moda é negócio e se vende como arte; é consumo e se vende como suma.

(“Sinopse”)

comentários (7) | comente

7 Comentários Comente também
  • 19/06/2011 - 07:19
    Enviado por: Joao Andrade

    Talvez Piza, o que se reflete na moda de hoje, seja a falta de senso crítico e criatividade que impera em praticamente todos os setores profissionais. Carros, seguem “tendência”.Observe. Até na tv, um inicia algo, as outras emissoras copiam não importa o que,desde que de certo.

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  • 19/06/2011 - 10:34
    Enviado por: Eduardo Grandinetti

    No caso da vestimenta masculina, paga se muito caro por uma roupa que seja mais discreta e não tão cintada como as que são oferecidas. Da mesma forma ocorre com os sapatos, este sofrem de um dano estético tremendo, na maioria das sapatarias, encontramos calçados com biqueira quadrada e empinada, com copias grosseiras de pele de jacaré.
    O que é discreto,bonito é caro, o espalhafatoso é barato,sem escolha, deformando o senso estético

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  • 19/06/2011 - 10:35
    Enviado por: Kenia Carvalho

    Adorei o comentário sobre Zygmunt Bauman, sempre achei que ele poderia ter ficado somente com o Vida Líquida, porque depois “mais do mesmo” e evidentemente comercial. Quanto à moda, talvez seja do ser humano essa reciclagem de idéias, porque ser inédito nos dias atuais, diante do excesso de informações e da ausência de análise e observação, e eventualmente até experiência (nada como alguns anos de “janela”), realmente é difícil, são para poucos.
    Em minha opinião, o lado ruim da moda é que, mesmo morando em Sampa, ficamos muitas vezes sem opção, porque se estiver na moda botas cano longo, você não irá encontrar um scarpin em nenhuma vitrine. Se você não gosta do bico redondo e estiver na moda bico redondo, o sapato bico fino deixa de existir no comércio ou passa a ser sapato de matar barata no canto da parece.
    Não sou muito ligada à moda, mas gosto dos programas do Discovery Home & Health como Esquadrão da Moda, Você vai sair assim? Mude meu look são mais práticos e ensinam as pessoas a se vestirem de acordo com seu estilo de vida, corpo e não necessariamente de acordo com a moda.

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  • 19/06/2011 - 11:39
    Enviado por: Pedro Meira

    Não é só a crítica de moda que tem sido corrompida pela pressão da indústria. Infelizmente, isso vem acontecendo em todas as áreas. Está difícil ler críticas sérias de cinema, literatura ou música.

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  • 19/06/2011 - 21:42
    Enviado por: Roland

    Eu acho esses desfiles – com esqueletos ambulantes – de péssimo gosto. Parecem robôs esqueléticos caminhando em passarelas. Um verdadeiro absurdo!
    Cadê a lógica? As roupas mostradas por esqueletos são para serem vestidas por mulheres de verdade? Será que é ese mesmo o esquema proposto?

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  • 20/06/2011 - 10:16
    Enviado por: Bruno

    Infelizmente para alguns, Bauman acaba se tornando um livro de auto ajuda para os perdidos na pós-modernindade. Felizmente ele é reconhecido e ele mesmo diz em entrevista que muito de seus livros são pensamentos avulsos jogados em papel — não desmerecendo suas ideias.

    Agora, voltando ao seu texto, acho que foi um dos mellhores que já li sobre moda. Infelizmente não li esse Lars Svendsen (mas já está anotado).

    Não sei se você já viu, mas esse (http://www.youtube.com/watch?v=5cLrpVuNtPI) desfile do Jun Nakao é intressante. É muito bom quando os sensatos aparecem no meio de tanta falta de coerência.

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  • 21/06/2011 - 13:39
    Enviado por: André R.

    A meu ver, o estilo e a moda são o que a França tem de melhor. Sentado numa mesa na calçada da rua Mercière, no centro de Lyon, já me espantei e me deleitei com as maravilhosas combinações criativas de cores e estilos de mulheres que passavam andando. Obras de arte em termos de moda.
    Em relação aos homens, tanto na França como no Québec, os homens vestem gravatas mais criativas e ousadas que aqui. Aqui as gravatas tendem a ser mais conservadoras, e os ternos muitas vezes vestidos como que uniformes, imposições sem nexo com as pessoas, notei. O Quebec, aliás, é onde se veste melhor na América do Norte. Claro que em Nova York, ou Boston, como nos Jardins em São Paulo, se vê pessoas muito bem vestidas, sem alcançar, no entanto, a sublimidade como vi na França. É curioso como em geral em países latinos veste-se melhor, nas Américas e na Europa. A maioria dos americanos se veste com combinações que espantam pelo mau gosto, falta de harmonia, e vulgaridade. Muitas empregadas domésticas em São Paulo se vestem bem melhor, com mais capricho e mais harmonia de tonalidades. Isso sem falar de muitas brasileiras de maior poder aquisitivo. Mas na França, ou no Québec, ou em Nova York, há certamente mais diversidade que aqui, as pessoas tendem a seguir seus próprios estilos. Aqui, como você escreve, há realmente uma tendência bem maior para seguir a mesma “moda”.

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