Enquanto tantos choramingam pelo fim do jornalismo em papel e do livro de papel, a narrativa de não ficção nunca foi tão lida. Muitos best-sellers são escritos por jornalistas e historiadores. Os leitores, talvez em parte porque a ficção já não lhes dê os grandes personagens do passado, ficam mais e mais curiosos por grandes histórias reais. Isso inclui coletâneas, coisa que os adoradores da cultura virtual consideram despropositada. Nas redações, a gente diz que uma boa história não é um cachorro morder um homem, e sim o contrário. Mas boas histórias não são apenas as inusitadas; podem ser também as triviais, desde que olhadas por um ângulo inusitado. O jornalismo literário nada mais é que uma narrativa factual com menor compromisso em relação a regras como o lide (o primeiro parágrafo que traz informações primordiais), com maior liberdade para dar “clima” em detalhes e diálogos e usar mais recursos de linguagem. Esses elementos são pródigos nos títulos a seguir.
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The Only Game in Town, org. David Remnick – Ainda há de chegar o dia em que a cultura brasileira vai dar o devido valor aos escritores que escrevem sobre esporte a ponto de reuni-los em um livro deste porte (tenho algumas antologias, mas pouco abrangentes e caprichadas). São os melhores textos sobre esporte publicados na revista The New Yorker. Não entendo bolinhas de beisebol, por exemplo, mas Roger Angell escreve tão bem, é tão capaz de usá-lo para refletir sobre coisas maiores, que não tiro os olhos de cada palavra. E o texto de John Updike sobre a despedida de Ted Williams, Hub fans bid Kid adieu, talvez seja o melhor jamais escrito sobre qualquer esporte. Lillian Ross sobre um toureiro americano, Martin Amis sobre o tenista Pete Sampras, John Cheever sobre sua infância de esportista frustrado, John McPhee mostrando de novo por que é o repórter dos repórteres sobre o craque do basquete Bill Bradley. Enquanto isso, no Brasil, a ABL convida Ronaldinho para homenagem a José Lins do Rego, mas ninguém dali tira o fardão para falar do ludopédio.
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At the Fights, org. George Kimball e John Schulian – Sei que gostar de tourada e boxe é démodé, mas eu acho interessante. Quando se lê um volume destes, no entanto, a questão se torna secundária: entre os autores americanos que escreveram sobre boxe estão Jack London, A.J. Liebling (também incluído na coletânea acima), James Baldwin, Murray Kempton, Norman Mailer, Joyce Carol Oates (sim, uma dama) e ele, David Remnick, biógrafo de Muhammad Ali. Fiquei particularmente feliz de ver o texto de H.L. Mencken, Dempsey vs. Carpentier, que é mais do que o relato da luta: é uma demonstração de como as pessoas, sobretudo numa situação emocional e patriótica como a que os esportes propiciam, veem apenas o que querem ver. Fiquei a sonhar com uma antologia de escritores dos mais diversos países, o que incluiria Cortázar e Camus…
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A Beleza e o Inferno, de Roberto Saviano – A coletânea do autor de Gomorra, livro sobre gangues italianas que vendeu milhões, gerou um filme e obrigou o jornalista viver sob escolta para sempre, também fala um pouco de boxe e, mais importante, de futebol. Trata-se de um perfil de Lionel Messi, o genial “Pulga”, e nele Saviano diz: “Ver Messi significa observar alguma coisa que vai além do futebol e coincide com a beleza em si”. Baixinho por deficiência hormonal, ele desliza por entre os grandalhões e não cai, em sua dança solitária até o gol. Saviano também homenageia a grande Miriam Makeba, cantora sul-africana, morta quando se apresentava em solidariedade a Saviano. O livro tem várias outras histórias de pessoas que enfrentam a injustiça e o crime.
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Honra teu Pai, de Gay Talese – Este é um livro de 1971, um clássico, já publicado antes no Brasil (como Honrados Mafiosos), mas é impossível falar de livro-reportagem e não falar de Talese. Por sinal, é seu um dos textos de At the Fights, um perfil de Floyd Patterson. Meus livros preferidos são Fama e Anonimato – com os perfis também modelares de Frank Sinatra e Joe DiMaggio – e A Mulher do Próximo, sobre a liberação sexual da contracultura. Mas Honra teu Pai é fascinante não só para quem se interessa pela máfia, mas também por falar de laços familiares. Talese conta a história do clã Bonanno como uma saga, sem o sentimentalismo das sagas ficcionais do século 20.
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Realidade Revista, de José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão – Inspirada no jornalismo literário americano que Lillian Ross, Norman Mailer, Gay Talese, Truman Capote, Tom Wolfe e outros tornaram célebre nos anos 50 e 60, como “new journalism”, a revista Realidade foi lançada em 1966 e se tornou quase uma lenda no jornalismo brasileiro. Parte dessa lenda, que muitas vezes deixa de lado empreitadas anteriores como a Senhor (ainda por merecer lembrança no nosso mesquinho mercado editorial), foi motivada pela ausência de coletâneas como a agora lançada. O melhor é a agilidade dos textos, com muitas falas e atenção a personagens antes ignorados na grande imprensa, embora os textos não tenham frases como “Sinatra resfriado é Picasso sem pintura, Ferrari sem combustível”, de Talese, ou passagens mais densas, mais reflexivas.
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O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm – Esse é o primeiro título da coleção de jornalismo literário da Companhia das Letras a sair em livro de bolso. Quem ainda não leu, eis a chance. Malcolm é conhecida por suas reportagens culturais sobre Chekhov, Freud ou Sylvia Plath, mas este livro entrou no currículo de todos os cursos de jornalismo porque trata do processo que um médico condenado por assassinato moveu contra um jornalista que escreveu um livro com suas entrevistas e depoimentos. Malcolm aponta o erro fundamental do repórter: não ser cético, não pôr em dúvida a versão que ouve, não enxergar que o personagem pode não ser tão interessante quanto se queria que fosse. Toda narrativa edita fatos, mas as boas não param de procurá-los.
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A Vida Imortal de Henrietta Lacks, de Rebecca Skloot – O livro já vendeu milhões de exemplares em dezenas de países e esteve entre os destaques de 2010 nas principais publicações do mundo. Skloot é uma jornalista de ciência que um dia ouviu de um professor de biologia a referência às células “HeLa” que vinham sendo mantidas vivas em cultura desde a morte da doadora. Investigou a história e descobriu que Henrietta Lacks, negra, jamais consentiu com a doação. O livro conta em detalhes sua vida, a reação de sua família ao saber como os laboratórios estavam lucrando com aquelas células, em especial da filha religiosa, e descreve as preciosas pesquisas sobre câncer feitas em centros como o Johns Hopkins. Skloot parece achar que houve um desrespeito enorme e que as pessoas cujos tecidos são usados pela ciência devem ser pagas por isso, mas não aprofunda a solução. O que vale em seu livro é a história em si, muito mais atraente do que um homem mordendo um cachorro.
(“Sinopse”)
Vou desde logo dizendo que achei que houve pênalti em Ronaldo. Gil saltou para dar trombada em suas costas, não para tentar alcançar de cabeça a bola, tanto que Ronaldo a dominou no peito antes. Mas fiquei em dúvida no primeiro lance de Thiago Ribeiro, quando toca a bola antes de Júlio César e eles se chocam. No segundo, não houve pênalti com certeza, pois nitidamente o goleiro vai na bola. Polêmicas à parte, o Cruzeiro jogou melhor no primeiro tempo, marcando forte no meio-campo e saindo para o jogo com Gilberto e Montillo. A falha esteve no último passe, que em geral vinha na forma de cruzamento para Thiago e Wellington Paulista, dois atacantes sem muito recurso. No segundo tempo, o Corinthians prendeu mais a bola e as entradas de Danilo e Jorge Henrique – pois Dentinho e Bruno César estavam apagados – surtiu efeito. Foi de Jorge o passe para Ronaldo no lance do pênalti, que o camisa 9 converteu com frieza impressionante.
Já o Fluminense mostrou mais uma vez a fraqueza defensiva, que o ataque desta vez não soube compensar. O Goiás marcou bem Conca e Mariano, Deco não estava pronto para voltar e Fred perdeu as poucas chances que chegaram. No segundo tempo, Diguinho deu mais pegada ao meio e Washington preocupação para a defesa, mas o gol de empate só veio num lance de pênalti semelhante ao do Corinthians. Conca fez, mas foi o Goiás que teve a melhor oportunidade depois disso, com Felipe. O Flu não é o mesmo faz tempo. Como dito, neste campeonato pontos importantes têm sido desperdiçados diante de adversários mais fracos. Previsões merecem cuidado.
Mais cedo, vi a derrota da seleção de vôlei feminina para a Rússia. No quarto set, o Brasil desmoronou animicamente. No quinto, Gamowa encaixou diagonais brilhantes e fez quase todos os 15 pontos. Em seguida, vi a F-1, mas que circuito chato! Sem pontos de ultrapassagem, Alonso ficou preso atrás de Petrov. Vettel mereceu o campeonato, pois foi quem mais venceu GPs, mas a categoria continua dominada demais pelos engenheiros e de menos pelos pilotos. A mudança de pontuação e a entrada da Red Bull esquentaram a competição, mas sem ultrapassagem a graça não grassa.
Depois do caso de Neymar, que causou a demissão do técnico que insultou em público, os episódios com a seleção de vôlei e com Zico no Flamengo mostram que no esporte os valores morais também estão em jogo. Não como prova de superioridade racial, como queriam os nazistas, nem de superioridade da mistura racial, como querem os seguidores de Gilberto Freyre. Mas como um campo simbólico em que as relações humanas são encenadas e refletidas, com doses grandes de ambiguidade e ironia. Como diria o escritor francês Albert Camus, pode-se aprender muito mais sobre moralidade numa partida de futebol do que lendo uma biblioteca inteira.
Bernardinho tem ótima imagem, conquistada com seus excelentes dotes como técnico e “motivador”, que sabe exigir sem humilhar, animar sem iludir. Mas a decisão de jogar com time reserva e perder para a Bulgária, para evitar chave difícil no Mundial de vôlei, causou protestos justíssimos em todas as partes. A equipe foi vaiada por ter faltado com o “fair play”. Quem participa de um campeonato quer ser campeão e deve estar pronto para qualquer adversário, jogando sempre da melhor forma que puder. Essa é a ética do esporte, não uma regra escrita. Nesse aspecto, um sujeito com carreira marcada por vitórias limpas acabou por sujar seu currículo – e ainda lembrou alguns recentes envolvidos em escândalos políticos, que têm a cara de pau de dizer que “pode ser imoral, mas não é ilegal”.
Com Zico a situação é diferente. Ele, que também tem um impecável patrimônio nacional como jogador e ídolo, foi acusado por um dirigente de relações inadequadas na contratação de jogadores, por meio de sua empresa CFZ. Alega que não teve o direito de explicar essas relações ao clube presidido por Patrícia Amorim, se sentiu desonrado pelas acusações e deixou o cargo de diretor executivo, reconhecendo apenas que errou na escolha de alguns nomes contratados. (Para piorar a situação, o Flamengo acaba de contratar o decadente Vanderlei Luxemburgo para tentar evitar o rebaixamento, um ano depois de ter sido campeão brasileiro.) Ninguém tem o direito de acusar Zico sem provas, e todos nós que o admiramos esperamos que nada disso seja verdade. Mas a história dá, de novo, ideia do vale-tudo moral que domina o futebol – e, cada vez mais, a sociedade toda.
BRASILEIRÃO
Como diria aquele personagem de Jô Soares, não se pode elogiar… Por causa de meia-dúzia de bons jogos entre os times no topo da tabela, escrevi na semana passada que “finalmente o nível subiu”. Bem, a rodada do sábado pré-eleitoral foi mais chocha que debate político. Uma série de empates tecnicamente medíocres deu o tom. Jogos como São Paulo 0 x 0 Avaí foram de chorar de tédio, não de emoção. Como os técnicos foram todos trocados, exceção feita a Muricy, e há muita venda e lesão de jogadores, não se tem a continuidade e, pois, a melhora do trabalho.
O Corinthians é exemplo dessa oscilação. Em nenhum momento, como os demais times, jogou em grande nível por muitos jogos seguidos. (Em outras palavras: ninguém ainda tem pinta de campeão.) Atravessou mal a sequência de compromissos difíceis que tinha: perdeu do Internacional, empatou com Botafogo e Ceará. A defesa reserva, com Paulo André e Thiago Heleno, não tem o entrosamento, a sincronia de Chicão e William e deles com os dois laterais, que por sua vez estão com problemas físicos. Como se não bastasse, Iarley parou de fazer gols e Jorge Henrique está contundido até o fim da temporada; Dentinho só deve voltar agora e Ronaldo, sabe-se lá quando e como.
O que impede que a má fase vire declínio é que os outros times enfrentam problemas semelhantes, como o líder Fluminense, que já não joga com a mesma desenvoltura de seus melhores momentos. Mesmo o Cruzeiro, sensação do returno, principalmente com a ascensão do futebol do argentino Montillo, andou falhando; e o Inter, que tinha batido o Corinthians, perdeu para o Palmeiras. Seja como for, esses quatro estão mais “descolados” do restante agora, e um deles ficará com o título. A lógica – o predomínio de bons elencos contínuos – tarda às vezes, mas não falha. Que os bons jogos voltem a acontecer.
(“Boleiros”)
Vi a derrota do São Paulo para o Botafogo ontem. O Botafogo tem um elenco apenas mediano, no qual se destaca Loco Abreu pelo trabalho que dá, e a defesa do São Paulo já não é a mesma. Tecnicamente, foi mais um jogo chato, de baixa criatividade e poucas finalizações. O mesmo se poderia dizer do jogo de sábado entre Corinthians e Grêmio, exceto pelo golaço feito por Douglas, que conduziu a bola diante de toda a linha de marcação, driblou Paulo André no meio das canetas e saiu sozinho na área. Sem Alessandro, Roberto e, sim, Ronaldo (Iarley não tem inteligência e não sabe jogar entre os zagueiros), o time caiu muito. Por sorte, o Fluminense também perdeu, e na quarta o clássico será ainda mais quente pelo fato de que Botafogo e Cruzeiro começam a pressionar os líderes. O Palmeiras continua sua rota vazia, mostrando que o poder de Felipão (e dos técnicos em geral) foi (e é) superestimado. E o Santos perdeu mais uma, provando também que a permanência de Neymar não foi nenhum marco histórico. Triste futebol brasileiro.
Vi também o GP de Monza. Disseram que a F1 ia voltar a ser competitiva com as novas regras e a presença de talentos como Alonso, Hamilton, Button, Webber ou Massa. O campeonato está de fato mais embolado, mas as corridas são mais decididas pelos erros e pelas estratégias do que pelas ultrapassagens. Sim, foi bom ver Alonso negando afirmações da TV brasileira e abrindo distância para Massa e depois ganhando a posição de Button ao voltar do box e segurá-lo na curva. Mas me incluo entre os saudosos da velha F1, em que o papel dos pilotos era tão importante quanto o dos carros. Como no Brasileirão, o embolamento vem da falta de técnica (ou do valor dado a ela por todos), não do excesso…
Não entendo essa histeria puritana contra Tiger Woods. O inferno do golfista começou com uma briga entre ele e sua mulher que terminou num acidente de carro. A isso se seguiram revelações sobre sua vida sexual, com numerosas amantes, prostitutas, etc. Então algumas empresas cancelaram seus patrocínios e a mídia caiu em cima do assunto como sete abutres; muitas feministas foram à TV “exigir” que ele se retratasse; ativistas que sempre se indignaram com o fato de Tiger Woods se dizer “cablinasian” (mistura de negro, caucasiano, índio e asiático, pois sua mãe é tailandesa) o criticaram por preferir mulheres loiras (sua mulher é sueca). Mesmo pessoas que não são em geral moralistas acharam que ele paga o preço de ter vendido sua imagem de bom moço – e agora, portanto, sofre o prejuízo da reversão dessa imagem. Mas vem cá: nas inúmeras propagandas que ele fez, de marcas de roupas, carros, artigos esportivos e alimentos, em algum momento estava explícita ou implícita a mensagem “seja fiel à esposa como eu”?
Alegam que ele sempre aparecia em fotos e ocasiões públicas com a família sorridente e que isso lhe rendia dividendos. Mas por acaso ele deveria ter posado com suas amantes? Por acaso ele implorava à mídia que fizesse imagens suas? E, como há um histórico de escaramuças no casal, será mesmo que a mulher não sabia de nada? Li bons artigos no New York Times e na New Yorker, que observam que as patrocinadoras – com exceção da Nike, que teve o bom senso de lembrar que ela patrocina “o maior jogador de golfe de todos os tempos” – ficaram com medo de perder dinheiro, antes de mais nada, e que o escândalo fere a imagem de autocontrole que ele construiu dentro de campo. Mas só os ingênuos supõem que a admiração esportiva deva se converter em atestado de pureza, honra ou sei lá o que mais – quando não faltam exemplos de ídolos que se valem da fama e da grana para se deitar nas camas…
É claro que a experiência é fundamental e explica o destaque obtido por jogadores trintões como Petkovic, Paulo Baier e Ramón nas últimas rodadas. Mas ela precisa vir aliada à técnica. Afinal, só assim ela se traduz em menos ansiedade, em melhor uso dos recursos, em capacidade de levantar a cabeça e encontrar padrões sob o caos. Ter habilidade e rodagem ensina a economizar energia para os momentos determinantes. O primeiro gol de Pet contra o Palmeiras, em que tirou a bola para o lado duas vezes e completou sem precisar recuar muito a perna – quando um jogador comum apenas puxaria para a direita e enfiaria o pé –, foi um exemplo perfeito. E, ironicamente, o futebol-fliperama que tem sido jogado hoje, em que a bola parece queimar nas chuteiras dos mais jovens, favorece ainda mais essa frieza que organiza e surpreende.
Daí a chamá-los de gênios ou mesmo de craques – ou já sacramentar Pet como o melhor do campeonato, depois de apenas algumas partidas – é um exagero. Não por acaso, eles são jogadores muito competentes na bola parada, o que os distingue desse “estilo” estabanado e afobado da grande maioria dos times. Outro fator que permite que façam tanta diferença é a atual escassez de armadores, ou melhor ainda, de camisas 10 que saibam assistir e definir. Não sei bem o motivo. Será que é culpa das escolinhas de base, mais interessadas em lançar atletas em escala, que cumpram as funções táticas com grande saúde e pouca variação, em vez de estimular a união disso com a criatividade, com o improviso que, como se sabe, dá tanto trabalho? O fato é que muitos andam lembrando o dito do velho e folclórico Mirandinha: “Não dá para correr e pensar ao mesmo tempo.” Dá, sim – não necessariamente nessa ordem.
VERDE QUE TE QUEREM VER
O Palmeiras fez apenas um ponto dos últimos nove que disputou. Só continua quatro à frente pela incompetência dos adversários diretos, principalmente o São Paulo, que já não tem a mesma defesa e sofre com um ataque irregular (e pensar que tanto se queixavam de Souza, hoje no Grêmio). Essa sorte não vai continuar, e o jogo de hoje contra o Santo André é uma chave nesse sentido: o time precisa ganhar com autoridade, carimbando o favoritismo. Perder desfalcado para o Náutico lá nos Aflitos e, até, perder do Flamengo em casa – já que o time de Pet & Adriano é o que mais enche os olhos no momento e soube anular os dois meias do Palmeiras – não é hecatombe nenhuma. Mas os efeitos radioativos se farão sentir se não se levantar logo mais.
RRRRRUBINHO!
Perde-se o sono só em pensar no que diriam se Rubens Barrichello tivesse feito o que Jenson Button fez no GP de Interlagos, ultrapassando tantos com um arrojo que lembrou os bons tempos da F-1. A julgar pelo tratamento que vem sendo dispensado pela opinião “especializada”, como se fosse necessário compensar todas as piadas de mau gosto das quais Rubinho era vítima não inocente, sua primeira conquista em 17 anos teria sido mais uma catarse nacional. Era até capaz de Lula vir chorar em público ao seu lado.
OLIMPÍADA DE TIROS
Desde o anúncio da Olimpíada 2016 o Rio tem vivido dramas de transporte e violência que têm feito muita gente desconfiar de suas condições. Como se a gente não soubesse de todos esses problemas! Mas, quando se trata de muito dinheiro na mão de políticos, desconfiar é sempre, no mínimo, salutar.
CHAMPIONS LEAGUE
Terra, interrompa por 90 minutos sua rotação: hoje tem Real Madrid e Milan na televisão.
(“Boleiros”)
O GP de Interlagos começou cheio de acidentes e ultrapassagens, lembrando emoções de outros tempos, mas estou entre os que acham que hoje a tecnologia é determinante demais e a pilotagem, de menos (Senna dizia que era 50-50%; quanto seria hoje?), tanto é que a questão do difusor foi central para o sucesso da Brawn. Pelo menos quem mostrou o velho e bom arrojo foi justamente Jenson Button, o campeão da temporada. Barrichello largou na frente e, como estava mais leve, logo fez as voltas mais rápidas, sob gritos de “Rubinho está voando baixo!” da locução ufanista. Button, por sua vez, ia ganhando posição atrás de posição, com belos mergulhos e manobras, sob os alertas de “o inglês está se arriscando demais”. Foi preciso Felipe Massa entrar ao vivo e comentar que as batidas favoreceram Button e que Rubinho ia voltar muito pesado num momento em que os outros estariam no apogeu… No final, claro, os elogios a Button vieram. Rubinho teve um grande ano, mas pode ser que não consiga terminar nem como vice e, no ano que vem, vai para a Williams, que talvez não seja tão competitiva.
No futebol, o Palmeiras mais uma vez teve sorte. Jogou mal em casa e perdeu do melhor time do segundo turno, o Flamengo, que já tinha melhorado com Adriano e melhorou mais ainda com o experiente Petkovic, um raro camisa 10, capaz de armar e finalizar, fazendo a bola correr em seu lugar. No futebol fliperama deste Brasileirão, um jogador que levanta a cabeça e escolhe o momento de decidir a partida faz muita diferença. No primeiro gol, a última tirada de Pet antes de bater na bola, em que outros imediatamente encheriam o pé, é a melhor tradução da técnica. A sorte do Palmeiras foram a derrota do São Paulo e o empate do Internacional. Ainda tem quatro pontos de vantagem sobre o segundo, o Atlético-MG, que voltou à boa fase. Mas não pode mais desperdiçar tanto ponto, sobretudo agora com Santo André e Goiás. Também os grupos precisam saber eleger o momento do arrojo inteligente.
Alguns comentários em alta me levam a voltar ao tema da Olimpíada de 2016 no Rio. Sou a favor dela, como da Copa de 2014. Gosto de eventos esportivos e eles atraem investimento e atenção e, ainda, confirmam a presença crescente do Brasil na arena mundial. Mas vejo gente séria baixando a guarda. Primeiro, os excessos ufanistas são deploráveis, antes de mais nada porque levados a sério por boa parte da população. Essa história de que sediar uma Olimpíada faz do Brasil um país “de primeira classe”, como disse chorando o presidente Lula, é de chorar mesmo.
Repito: o Rio não foi escolhido primordialmente por sua infra-estrutura, nem mesmo por sua indiscutível beleza; o fator número 1 foi o ineditismo do continente. O bom momento do Brasil e a boa imagem de Lula colaboraram, mas daí a supor que “estamos quase lá” requer uma alienação incrível. Mesmo que tudo seja feito corretamente – promovendo o esporte brasileiro e reorganizando o urbanismo carioca, ao contrário do que houve no Pan –, ainda assim os problemas centrais da nação não terão sido atacados. Na mesma semana da festa, divulgou-se o IDH do Brasil, ranking no qual estamos longe de ser potência…
Segundo, alegar que “se for por causa da corrupção, não fazemos nada”, como escreveu o ótimo Xico Sá, não me parece sensato. Respeito ao dinheiro público não é princípio negociável, salvo por aqueles que, como a ministra Dilma Rousseff, atiram dardos no TCU quando ele sugere paralisar uma obra com suspeitas de graves irregularidades. Querer uma Olimpíada sem superfaturamentos e incompetências é o oposto de torcer contra o Brasil. No Fla-Flu dos debates, quem mais sai comemorando são os poderosos.
BRASILEIRINHO
Venho dizendo que o Palmeiras é favorito, que tem o craque do campeonato, Diego Souza, e que Muricy Ramalho já está colaborando para o caminho do título, queimando a língua de muita gente – e o jogo contra o Santos foi só mais uma prova da qualidade do elenco e da participação (não autoria) do técnico. Muitas vezes a resposta a isso é um “Sim, mas o nível técnico do campeonato está muito baixo”. Bem, bateram na porta errada: aqui nunca entrou a tese de que o Brasileirão é competitivo porque teria muitos times capazes de vencer, com as melhores revelações do futebol mundial.
Só não dá para fingir que, na comparação, o Palmeiras é quem tem mostrado equilíbrio tático (Edmílson deu outra personalidade ao sistema defensivo, e Souza tem substituído bem Pierre) e alguns requintes técnicos (como no lance do gol em que Diego Souza começou o ataque com “cavadinha” para Cleiton Xavier, que conduziu a bola entre vários adversários até o passe para Robert). Como os comentaristas tinham certeza de que a arrancada do São Paulo com Ricardo Gomes o levaria ao tetra, agora precisam desmerecer o Palmeiras?
TIMINHO
É plausível que o Corinthians esteja indo tão mal nos últimos meses porque já não disputa nada, porque vendeu jogadores como André Santos e Douglas e porque faltou banco para que Mano Menezes substituísse contundidos como Ronaldo, William e Chicão. Mas não é preciso abusar da paciência dos torcedores, insistindo em jogadores que não serviriam nem para a série B e deixando de apostar em promessas como Defederico. A festa já acabou.
(“Boleiros”)
Imagino que os fatores que tenham levado à escolha do Rio como sede da Olimpíada de 2016 sejam, pela ordem, o ineditismo, o bom momento da imagem do Brasil e a beleza da cidade. Será a primeira Olimpíada na América do Sul. Depois de Pequim e Londres, voltar a um país emergente soa politicamente correto em tempos de globalização econômica. O carisma do presidente Lula, como símbolo do papel crescente do Brasil no palco internacional, não pode ser desprezado. E o Rio é, de longe, a cidade brasileira com mais belo cenário natural. Por critérios puramente técnicos, as outras candidatas tinham muitas vantagens, principalmente em infra-estrutura urbana, turística e esportiva. Os problemas de segurança, transporte e organização do Rio são evidentes, e não à toa era o orçamento mais caro entre os quatro finalistas. Mas nem eles nem o fato de que já haverá uma Copa no país em 2014 – nem muito menos o nome de Obama – impediram que se premiasse um polo geopolítico.
Para que serve uma Olimpíada? Não simpatizo com os discursos sobre a importância de ser “potência olímpica”, com as arrogâncias nacionalistas que vemos em países como EUA, China e os ex-comunistas. Vejo a importância de ter uma política esportiva decente, com continuidade, inclusive por seu papel social, o que estamos longe de ter no Brasil (vide as confederações de quase todos os esportes, tomadas por dirigentes corruptos que se perpetuam ali com suas famílias e máfias). Quanto à cidade em si, há aquelas como Atenas que mais perderam do que ganharam com os jogos e aquelas como Barcelona que mais ganharam do que perderam. E para isso é necessária uma consciência urbanística que o projeto do Rio não me parece conter. Eis o ponto: como se viu no Pan, o evento esportivo pode ser uma baita desculpa para gastar dinheiro demais com um retorno questionável, pois até mesmo os equipamentos tendem a ficar esquecidos ou sub-utilizados.
Sinceramente, é difícil acreditar que tudo vá ser feito corretamente, com fiscalização rigorosa e espírito público. Mas a decisão está tomada e os políticos vão fazer seu oba-oba monumental daqui para frente. Resta lutar para que a vigília não esmoreça.
Fiquei “de molho” no fim de semana por causa de pequena cirurgia e aproveitei a TV cheia de eventos esportivos. O jogo entre Brasil e Uruguai foi muito interessante. O Brasil tem uma cara, nada bonita, a de atuar no contra-ataque, mas pelo menos é uma cara. Dunga também evoluiu ao abandonar dupla de volantes marcadores, como Josué e Gilberto Silva, e usar Felipe Melo e Elano para ganhar melhor saída. Num time de forte marcação no meio, laterais que apoiam muito como Daniel Alves são mais úteis; na esquerda, porém, Kleber está longe de ser o nome. Ramires também merece outra chance. O time é eficiente, mas não brilha – com exceção do goleiro Júlio César, o que é significativo – e contou com ampla ajuda das falhas uruguaias. Para a vaga de Luís Fabiano, que mais uma vez mostrou cabeça fraca, prefiro Nilmar, que está em melhor momento e é mais veloz e hábil que Pato; logo, melhor contra uma defesa que deverá se fechar como a do Paraguai.
Na rodada do Brasileirão, vi os três paulistanos: o Corinthians bateu o Coritiba sem Ronaldo, com grande noite de Douglas; o Palmeiras quase ficou sem vitória de novo, com Keirrison vaiado mais uma vez; e o São Paulo quase perdeu do Avaí, que desperdiçou gols demais. Já Inter e Cruzeiro, 1 a 1, foi prejudicado pela violência dos próprios jogadores. O Brasileirão ainda não está no nível técnico que se esperava.
Se o futebol não vive eras de ouro como outrora, o tênis vive. Roger Federer conquistou seu 14º Grand Slam em Roland Garros, igualando Pete Sampras. Tem 27 anos e realizou a façanha em apenas seis; pode, portanto, se tornar o mais vitorioso da história. É completo e muito inteligente. E ninguém pode dizer – como se dizia de Schumacher – que não tenha grandes adversários, pois Rafael Nadal é o nº 1 da atualidade.
Por falar em F-1, há muitos talentos e deveria haver muita competição, mas as regras estão complicadas e a tecnologia é que dá o tom. Veja, por exemplo, o desempenho de Fernando Alonso e Lewis Hamilton nesta temporada. Jenson Button está impecável, o que não se pode dizer – para variar – de Barrichello, mas não vivemos tempos vivos nesse esporte.
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