Recebo um email convidando para uma “festa anos 80″ e tenho uma sensação esquisita até lembrar que, nos anos 80, quando eu era adolescente, fazíamos “festa anos 50″ e/ou “60″. Assisto a Tron – O Legado com meu filho, que no outro dia ganhou um pijama com estampa do Pac Man e tive de lhe explicar o que é aquilo, encontrei o jogo na internet e ele curtiu muito. “Curtir”, aliás, é a palavra usada nas redes sociais que foi a geração dos anos 80 que popularizou como sinônimo de “gostar”, “aproveitar”. Minhas filhas veem clipes na TV de cantoras que descendem todas de Madonna em seu estilo dançante, sexy, camaleônico e polêmico – de Lady Gaga a Beyoncé, de Britney Spears a Kate Perry – e adoram Michael Jackson, que praticamente descobriram por causa de sua morte. Novelas boas como Vale Tudo dão proporcionalmente mais audiência no canal Viva do que as atuais. Filmes e livros não param de falar na geração do tal “rock brasileiro” com nomes como Cazuza, Lobão e Renato Russo, sem equivalentes no pop atual e cada vez mais integrados à tradição da canção brasileira ou MPB, mais do que ao rock no sentido estrito.
Por falar em pop-rock, meus sobrinhos mais velhos pedem LPs (sim, vinis) de Metallica e Sepultura, sonham ir ao Rock in Rio, ouvem a 89 FM e adoram U2. Conto a eles todos o que era Atari, Walkman e computador TK 3000 e jogamos Detetive, Banco Imobiliário e War. Eles veem, além de Tron, filmes como Blade Runner e Star Wars, assim como Indiana Jones, ET e filmes de super-heróis como os que víamos também na TV, tipo Batman e Hulk – e ainda vem aí um novo Robocop. (Por sinal, notei, revendo títulos como Rocky, Flashdance ou o grande Selvagem da Motocicleta, como eram comuns as histórias de suburbanos tristes da América.) E, para completar, me vejo usando tênis Vans, sem cadarço (o velho e bom “Iate” que a Rainha fabricava), e voltarem à moda as tais cores cítricas…
Claro, como já reparei em outra ocasião, isso se deve antes de mais nada ao simples fato de que a geração que nasceu em torno de 1970 tem agora em torno de 40 anos e, portanto, assume cargos de decisão e fumos de nostalgia. Se alguém um dia decide produzir novo Agente 86, pode ter certeza de que foi porque o viu muito na TV nos anos 80, como todos nós. E, em geral, uma década gosta de fazer contraste com a última e resgate da penúltima. (Sim, aguarde para breve o “revival” dos anos 90.) Mas acho que há outras duas explicações para essa tendência. A primeira é que de fato os anos 80 foram o início de muitas coisas que hoje dominam nosso cotidiano, como computadores pessoais, games, certos gêneros de “blockbusters” e do pop, entre outras. Em Tron – O Legado, por exemplo, vemos um fliperama, lugar hoje raro porque tudo se dá na internet, mas vemos também o sonho do personagem de Jeff Bridges de criar um mundo cibernético paralelo, uma “second life” na qual tudo seria perfeito e, no entanto, os programas se revoltam contra os usuários…
A outra explicação é que em muitas áreas não surgiram talentos equivalentes desde então, a começar pelas bandas de pop e rock. Não se trata, no meu caso, de ter saudades daquela época, tanto que, ao folhear o Almanaque Anos 80 de Luiz André Alzer e Mariana Claudino, vemos a quantidade de bobagens e infantilidades que se consagraram ali. (Aliás, faltam os bons exemplos: filmes como Platoon, Crimes e Pecados e Ligações Perigosas, séries como O Tempo e o Vento e livros como os de Martin Amis e João Ubaldo, para ficar em poucas áreas.) Mas se trata de entender que nenhuma época deixa de ser desdobramento das que a precederam.
Estou no supermercado perto de casa e a moça do caixa está passando os produtos no código de barra. Lembro a senha do cartão de pontos, mas ela diz que já é tarde, que teria de passar todas as mercadorias de novo. Pergunto: “Mas não existe a opção de lançar o valor total no cartão, depois da soma?” Ela diz que não, que ela pode cancelar a compra, mas não pode fazer nada mais. E completa: “O sistema não deixa. Ou é no começo ou não tem mais jeito.”
Falo com a gerente do banco sobre um aumento repentino da taxa de juros incidente sobre o saldo negativo da conta corrente. Era 6%, passou para 8%. Digo que é um absurdo, que no mínimo os clientes deveriam ser informados. “Vou ver o que posso fazer”, ela diz. Eu: “Como assim?” Resposta: “Pode ser que eu consiga baixar. Vou entrar no sistema e ver se dá.” Obviamente, fico sabendo mais tarde que ela não conseguiu. “O sistema não deixou.”
Quando eu era adolescente, amigos mais velhos e engajados usavam e abusavam da frase “A culpa é do sistema”, querendo dizer, por exemplo, que um ladrão rouba porque o sistema capitalista o leva a isso, com sua exploração do trabalho, etc. Hoje, com a mesma frase, na variante “O sistema não deixou”, somos explorados de forma diferente. Ninguém tem mais autonomia nenhuma; as hierarquias ficaram mais rígidas e os consumidores são tratados como números, sem nuances entre si. Quem define as regras são os programadores dos sistemas, que tornam as ordens da cúpula tecnologicamente incontornáveis.
À maioria dos empregados, em suma, cabe apenas clicar os botões certos, sem poder duvidar ou contestar. Num país onde o raciocínio metódico, sistemático, é raro, nem lhes ocorre pensar em alternativas. Tudo vem de cima para baixo.
Ontem à noite fui ao shopping Pátio Higienópolis com as crianças. Há uma ala nova, com diversas lojas em inauguração, e tudo decorado para o Natal. Não temo em dizer que havia um frisson no ar, uma excitação geral com as novidades e os caprichos, uma curiosidade – ora – quase infantil com as ofertas já existentes ou por abrir. Me lembrei de quando estava no Recife no ano passado, num feriado de sol forte, e vi ao meio-dia uma fila de carros para entrar num shopping. No mundo todo não é diferente. Em São Paulo, já são mais de 50, com muitos mais a caminho, para desespero de alguns articulistas políticos que, no entanto, volta e meia encontro passeando nesses “templos da pequeno-burguesia”…
Pensadores de verdade como Walter Benjamin e Roland Barthes viram nesse frenesi consumista a vitória do homem urbano com dinheiro e tempo para comprar mercadorias que não de primeira necessidade (como alimentos e remédios) e que simbolizam sua ideologia. Benjamin os chamou de “flâneurs”, observadores do mercado que perambulavam pelas galerias de Paris em meio à multidão e sentiam “empatia com o valor de troca”. Barthes mostrou que esses bens de consumo têm teor alegórico, ou melhor, mitológico, impregnados de valores como a crença numa natureza domada e servil ou numa família estável e perfeita. Quase todas as publicidades confirmam. Consumir é o refúgio do ser.
Há, sim, muitos aspectos desagradáveis em shopping centers, começando pela escolha do nome em inglês. Por que não “centros comerciais”? Pode-se pensar que é influência da cultura americana, mas lá é mais comum usar “mall” (“shopping mall’ ou “pall mall”). Outro aspecto é o cenário todo de pedras frias e brilhantes, em que até os jardins parecem impolutos e inodoros, e a noção vigente de que ali se tem segurança máxima e ninguém virá pedir esmola ou sujar a calçada. É a cidade sem cidade; não mais a interação da rua com os interiores, mas a rejeição da rua, tanto que os carros ficam em gigantescos andares de estacionamento privado, de onde nos levarão dentro de insufilm de volta para o lar.
E o principal aspecto: nesse mundo paralelo e fabular, toda relação humana é mediada pelo valor material, pelos preços e pelo status que eles conferem, pelas grifes que montam um discurso do que você quer aparentar ser e raramente será (belo, magro, antenado, maduro e, sobretudo, feliz por ter o que deseja mesmo que em seis parcelas no cartão de crédito). As pessoas pouco conversam entre si, a não ser sobre si mesmas e seus sonhos de consumo, e até a paquera pertence à mesma ordem de hábitos, pois significa ver e ser visto em cenas fugazes, para nos sentir desejados sem que precisemos lidar com esses desejos. Ah, se todas essas mulheres fossem ousadas e autoconfiantes como suas roupas e cabelos dizem que são…
Mas o que fazer? Não adianta nada se fingir imune a isso. Eu, por exemplo, me animei ao ver um tapume com a inscrição “em breve, aqui, a livraria mais charmosa da cidade” (perguntei e fui informado de que será mais uma filial da Livraria da Vila); vou bastante ao cinema, que tem assento marcado e compro pela internet; há bons lugares para comer com os filhos sem gastar muito (sem ser fast-food); há uma pequena Laserland, para CDs e DVDs; há, claro, lojas boas para tudo e confesso que admiro, por exemplo, os produtos da Hugo Boss, também inaugurada agora. No caso do Higienópolis, que já provocou tanta polêmica por seu impacto no trânsito e na tranquilidade do bairro, trata-se de um shopping menos frio por suas praças a céu aberto e casarões antigos.
O consumo é parte importante da vida, e mesmo na Idade da Pedra o dinheiro e o tempo não eram gastos apenas para caçar e reproduzir; basta ver as joias e os adornos que homens e mulheres se faziam e pensar em como esse artesanato contribuiu com nossa história evolutiva, mais que comercial. Não dá também para negar o caráter voyeurístico de nossa natureza: gostamos de ver as beldades passando, os tipos diversos, os objetos sofisticados (de sapatos a relógios, de iPods a vinhos). Nossa relação com a coletividade é necessariamente superficial na maioria dos casos. Somos também coisas, corpos, dos quais não podemos nos dissociar e pelos quais somos interpretados pelos outros, ainda que quase sempre mal. E temos todos um instinto do que é belo, ou ao menos do que é harmônico, engenhoso ou bem acabado, e um instinto de posse, de vontade de conviver com artigos bonitos e de preço coerente com sua matéria-prima e utilidade. O ser também envolve o ter.
Diante da animação pré-natalina dos shoppings, em suma, fica difícil querer que as pessoas consumam e se endividem menos e passem a dar valor a outras qualidades humanas. A compulsão é forte e, sim, compreensível até certo ponto. Não adianta imaginar que os “chópins” fechem ou sonhar com a volta às galerias de rua, tal a hostilidade e o desgaste impostos pelas metrópoles modernas. Não podemos culpá-los nem por nossos desejos nem por nossas frustrações. Mas podemos humanizá-los e, sobretudo, humanizar a nós mesmos, lembrando o valor das lojas e cinemas de rua; o valor dos pontos de encontro com outras classes sociais, como as praças e praias; o valor da natureza e da individualidade; o valor da cultura como inquietude e não como exibicionismo. Ou terminaremos todos como formigas bem vestidas.

Nos últimos dez ou quinze anos a fotografia ganhou um status impressionante. Desde grandes retrospectivas até feiras para venda de arte, ela passou a ser cada vez mais objeto de estudo e consumo. Em São Paulo, no momento, há várias exposições em cartaz: fotógrafos como Cristiano Mascaro, Otto Stupakoff e Ed Viggiani; acervo da Pinacoteca, com destaque para Thomas Farkas e German Lorca; horizontes de Carol Armstrong no Masp; coletiva da Magnum, que inclui brasileiros como Pedro Martinelli. E, acima de tudo, a de Cartier-Bresson no Sesc Pinheiros, com trabalhos de brasileiros influenciados por ele como Mascaro e Juan Esteves. Mas não é apenas fotojornalismo, a pintura de flagrantes e retratos, não: fotógrafos que se aproximam da pintura, como Miguel Rio Branco, também têm ganhado cada vez mais admiradores e compradores. Livros também se tornaram mais frequentes nas livrarias, resgatando nomes como Marc Ferrez, Marcel Gautherot, Carlos Moskovicz e Geraldo de Barros; ou mais analíticos, como O Instante Contínuo, de Geoff Dyer, que faz ótimas observações sobre Walker Evans (nota: em breve o livro de James Agee ilustrado por ele, Let us Now Praise Famous Men, sai completo no Brasil; e o Masp prepara exposição de sua carreira), Paul Strand (ainda em cartaz no Museu Lasar Segall), Stieglitz, Kertész e outros mestres. Um cínico diria que a explicação é a facilidade de apreciar e adqurir fotografias, em tempos de crise cultural e econômica, mas eu acho que nessa tendência há uma baita saudade da figura bidimensional, da fixação de uma cena – no vácuo de outra crise, a da pintura, já que as exposições de arte contemporânea preferem se concentrar nas instalações. Como me disse em entrevista Iberê Camargo, “só a imagem toca o olho do sujeito”.

Além dos livros que “todo mundo” (antes fosse) lê na infância, como os de Monteiro Lobato, eu gostava muito de outros dois tipos: livros de arte – como os fascículos que juntei de Grandes Pintores e Arte no Brasil – e o Atlas da enciclopédia Mirador. Este era um volume imenso, em número e tamanho, capa dura, fotos e ilustrações coloridas e mapas, muitos mapas. Eu ficava horas vendo país a país, decorando nomes de capitais, examinando os relevos e ecossistemas, calculando distâncias, imaginando paisagens e costumes de lugares remotos ou próximos. Mais tarde, pedi um globo de presente a meus pais; ele veio com um catálogo de todas as cidades, todas em suas coordenadas, e eu ficava fazendo o exercício de localizar cada uma. Até hoje eu, geógrafo frustrado, curto mapas; até comprei e pendurei um que os italianos fizeram no Brasil do século 18, destacando nações indígenas como a tupinambá. Que fascínio é esse que os mapas (me) causam?
Fiquei pensando nisso ontem, enquanto sobrevoava o Rio, na volta da ponte aérea, e observava mais uma vez que a beleza da cidade vem sobretudo das montanhas em cadeia sinuosa e suas grandes faces de pedra, como Darwin admirou. No domingo eu estava em cenário bem diferente, nadando no rio Tietê (um oxímoro no dicionário dos paulistas!), na altura de Araçatuba, aonde fui visitar um amigo. Estive também na exposição agropecuária, em que me espantei com o avanço – sim, avanço – da genética, um dos fatores que explicam que o Brasil teve o maior salto de produtividade do setor nos últimos anos. Araçatuba é um ponto de contato com o cerrado de Minas Gerais e do Centro-Oeste, região onde o Brasil mais tem mudado de fato. E o Tietê, ali, não é poluído e se converte numa das principais hidrovias nacionais, não só para o setor, mas também para álcool ou areia, cujas usinas vemos às margens. Eu já tinha me “batizado” no Tietê, em Barra Bonita, mas, depois do Velho Chico (naquele cânion perto de Xingó), do Negro, Purus, Paraguai etc., eu não poderia deixar de cumprir o rito.
No avião, li a edição atual da revista National Geographic brasileira, ótima, com matérias sobre temas atraentes como os novos telescópios, as ruínas de Angkor (não apenas um templo belíssimo, mas um sistema hidráulico de alta engenhosidade do século 12 que, segundo estudos recentes, terminou fracassando na gestão das águas depois de períodos de seca), a identidade sérvia e os botos da Amazônia (com fotos formidáveis). Quando eu era criança, meu pai, médico, recebia todo mês a revista, por cortesia de um laboratório (tradução da americana, não a edição local que só veio surgir há alguns anos), e me lembro de muitas informações e imagens, como as do Atlas da Mirador. Também recordo sempre outra enciclopédia que fiz fascículo a fascículo, que eu comprava com minha mesada toda semana e lia na mesma hora, o Mundo Submarino de Cousteau, que também admirou os cetáceos amazônicos, como os que vi, em março, pescando na confluência dos igarapés.
Acho que mapas e atlas – e ferramentas como o Google Maps, claro – fascinam por isso, por nos lembrar de que em pouco tempo podemos estar em geografias díspares e viver experiências singulares. São ao mesmo tempo um exemplo do prodígio da abstração intelectual e da irredutibilidade da realidade externa. Ver mapas do passado, ao menos para mim, é rever a luta da humanidade em conhecer com precisão a natureza em que se sente estranha e entranhada, não um sinal de sua arrogância de registrar e catalogar. E todo mapa, por mais neutro e geométrico, é uma promessa de deslocamento, descentramento, de renovação do nosso olhar bitolado em nossa rotina; é um convite à aventura produtiva, não uma reafirmação do saber específico; é a soma de razão e sensibilidade. Um homem que desenha um mapa num gabinete tem a mente para fora da janela; não quer carregar o mundo nos ombros, como Atlas, mas mostrá-lo alto, como no poema de Fernando Pessoa (“Atlas, mostra alto o mundo no teu ombro”). Ele sabe que viajar é insubstituível. Com um mapa na mão ou na mente, fica melhor ainda.
A neurose por emagrecimento no mundo atual é diretamente proporcional à falta de tempo no dia-a-dia. Como tem poucas horas livres, exceto para a TV, a maioria das pessoas come mal e é sedentária; logo, está mais e mais vulnerável à propaganda de regimes e exercícios milagrosos – que as fazem emagrecer por alguns meses e depois voltar ao que eram ou a situação pior. Há fenômenos que ressurgem periodicamente, como agora o da corrida (“cooper”, no passado), mas que são subprodutos das mesmas questões. O que menos se encontra é a tão alardeada moderação. O tom dominante é o exagero para cima ou para baixo.
O ponto é o seguinte: se você quiser emagrecer, precisa comer menos e melhor; reduzir doces, massas e gorduras, principalmente à noite. O resto é redundância midiática. Praticar esportes é para manter o peso (depois de emagrecer) e o condicionamento, afinal 30 minutos na esteira consomem menos que 400 calorias ou dois sucos de laranja. Esse papo de que caminhar uma hora por dia emagrece é bobagem, assim como essas dietas que suprimem um grupo de alimentos (a carne vermelha é sempre o diabo da lista, embora tenha proteínas dificilmente substituíveis), para não falar de regimes “da lua” e outros semi-esoterismos. Capas e capas de revistas anunciam “segredos” numa área em que eles não existem. Mas, tal como o silicone e a fast-food, seu apelo está em iludir o público com efeitos fáceis.
Já virar maratonista amador depois de certa idade, lamento, não vai lhe garantir vida mais longeva. Muito menos pele bonita. Se esse for o estilo de vida que deseja, parabéns e boa sorte. Mas não venha dizer que é uma espécie de existência ideal, como se passar duas ou três horas do dia se exercitando fosse uma prerrogativa de perfeição moral ou visual, não um vício narcisista em muitos casos (que poderiam ser batizados de “serotoninômanos”). Não dá para querer que todo mundo seja atleta. Três dias de atividade física por semana são mais que suficientes para um cidadão empregado que tenha filhos, vida social e cultural, etc. E ajudam a emagrecer, mas bem menos que a redução calórica.
A mania do emagrecimento é sintoma de uma sociedade que cada vez mais convive com a obesidade por mistura de fatores alimentares e genéticos. Olhar feio para pessoas que estão 5 kg acima do peso, como se fosse motivo de discriminação, é, para dizer o mínimo, irrealista. Não é preciso ter, sei lá, 10% de taxa de gordura para ter saúde, auto-estima ou beleza, itens que dependem de muitos fatores além da vontade e do dinheiro. Mas a boa forma física pode ter alguma chance quando não é exaltada como fonte de juventude eterna.

Leio que a revista inglesa Classic & Sports fez uma lista dos dez carros mais bonitos da história, escolhidos por designers. Ganhou um Citroën, mas, para minha satisfação, Ferrari e Jaguar dominam. E por quê? Porque representam uma combinação de esportividade com classe (Ferrari com maior dosagem daquela, Jaguar desta) e expressam a inveja humana de animais velozes que passeiam livres pelas savanas. O maior exemplo disso é a Ferrari de 1957 da foto acima, uma Testa Rossa que será leiloada na Itália em maio. É um primor de design: a cor preta, a posição recuada do cockpit, a frente com radiador exposto emoldurado em vermelho, os faróis se projetando de volumes laterais curvos como se fossem um par de patas dianteiras, os detalhes charmosos como a tipologia das letras, o pára-brisa e o porta-mala – tudo soma elementos orgânicos com formas limpas e modernas.
Quando eu era criança, adorava desenhar carros, observá-los na rua, e fazia o Match-5 de Speed Racer de memória (ainda faço). Meu filho Bernardo, de 2 anos, é ainda mais louco por carros do que eu era. Mas é preciso fazer uma distinção. Sou um admirador de design e partilho a sedução da velocidade; mas não tenho simpatia nenhuma por esses sujeitos que amam mais o carro do que a mulher, que o confundem com sinal de status, que acham que a função do fim-de-semana é permitir tempo para cuidar do “carango”… E como não posso nem quero ter uma Ferrari ou Jaguar (para quê? para andar nas ruas estragadas de São Paulo ou ser assaltado?), me contento com qualquer carro que funcione razoavelmente e não custe o preço de um apartamento. Viveria, por sinal, muito bem sem carro. Mas em nosso mundo consumista ele se tornou um símbolo de poder, e os “automachos” – incluindo algumas madames – andam pela cidade avançando sobre os pedestres, xingando e fechando os outros motoristas, posando como se a lata fosse uma armadura. Tanto talento para tanta estupidez.
Se houve uma tendência forte nas últimas duas décadas, foi a do hábito de cozinhar em casa pratos requintados, com ampla adesão masculina. Costumo dizer que os dois melhores restaurantes de São Paulo são o Chez Cacaio e o Polonio’s, ou seja, as residências de dois dos meus melhores amigos, Cacaio Bentivegna e Fábio Polonio, gourmets de mão cheia e boa. Uma vez, irritado com o preço cobrado nos restaurantes por pratos que alguns de nós éramos capazes de fazer melhor com custo menor, cheguei a escrever que só iria comer fora para provar o que poucos sabem. Não cumpri a promessa, mas continuo a achar que ainda tem muito lugar que não vale o que cobra, principalmente porque a coisa mais importante numa receita – a qualidade e o frescor dos ingredientes – deixa a desejar. Há também os pseudo-sofisticados, os que acham que colocar purê de mandioquinha em receita consagrada significa torná-la mais brasileira ou original…
Mas o assunto aqui é o porquê dessa tendência da culinária autodidática. Sim, um aspecto é desagradável, o da pose, e até inventaram a palavra “gastrossexual” para descrever o sujeito que tenta conquistar as mulheres impressionando com seus dotes ao fogão. Tenho baixa tolerância ao papo afetado sobre comida que tem contaminado tantos encontros, papo que antes era mais restrito aos vinhos. No entanto, há alguns aspectos bem positivos. A tendência indica, por exemplo, que o velho machismo de que homem não cozinha está moribundo; que a obsessão por magreza ditada pela mídia não conseguiu tirar o prazer gastronômico; e que, ao contrário do que dizem os apocalípticos sobre a era virtual, as pessoas ainda querem se encontrar ao vivo, em casa, em torno do fogo, para se alimentar e conversar. É uma das mais antigas e melhores formas de convívio. E ainda dá consciência às pessoas sobre o que compram, comem e sentem.
Rompe-se, assim, a monotonia da comida diária e se descobrem pratos e preparos. Nada contra a comidinha da vovó ou da mamãe, aquele bife à milanesa ou filé a cavalo ou bife à parmegiana com feijão de caldo grosso, arroz e batata ou ovo frito – tudo a favor! Mas há tempo, e o tempo para passar duas ou três horas cozinhando para íntimos é muito bem empregado. Eu, por exemplo, cozinho pouco, já que tenho amigos e mulher que cozinham melhor, mas me divirto e até já inventei um prato – medalhão ao molho de mostarda e porcini – juntando tudo que adoro e obtendo um resultado interessante… Saber realizar as receitas centenárias, no entanto, acho a melhor parte desse hábito, até para que não se pense que os chefs badalados inventam tanto quanto eles dizem que inventam. Você pode achar que isso não passa de luxo, de coisa de burguês ou sei lá o que mais; eu acho que é uma parte muito relevante da vida. Nem tudo se encaixa no consumismo e no narcisismo de nossa era. Pode, para os homens de boa vontade, simbolizar muito mais.
É curioso que não haja crítica de propaganda, embora haja premiações – como a de Cannes em curso – e todo mundo tenha suas preferências. Lembro uma iniciativa que não durou muito na “Folha” com os poetas e críticos Régis Bonvicino e Nelson Ascher. Talvez haja o problema de que a referência, mesmo que negativa, acaba sendo mais uma propaganda e gratuita. Mas acho que o problema é mais embaixo. Propagandas quase sempre nos tratam como imbecis. Quer coisa mais tola do que dizer que algo custa R$ 1,99, só para sugerir que se está na casa do um real e não dois reais? E aquelas propagandas que dizem é impossível lavar melhor do que aquele sabão e menos de seis meses depois a marca vem com um sabão este sim perfeito? E o que dizer da enorme semelhança entre propagandas de produtos semelhantes? Toda propaganda de margarina mostra a família feliz sob cuidados da mamãe assexuada, assim como toda propaganda de cerveja mostra a mulherada disponível até para baixinhos feiosos – com a diferença de que aquelas propagandas recebem bem menos protestos do que estas. E toda propaganda de magazines populares tem um casal gritando como se estivesse na rua ao ar livre. Que falta de criatividade!
Fiquei prestando atenção em comerciais de TV e rádio nas últimas semanas para escrever este texto. É difícil citar peças realmente boas. Sei que hoje há muita reclamação porque aumentou o número de propagandas “globalizadas” – que são feitas num único lugar e passam iguaizinhas em todos os países – e elas tiraram espaço de criações locais. Mas o fato é que as propagandas da Nike ou da Coca-Cola são muito boas em geral. Até há pouco havia uma de carro, acho que da Nissan, que precisava apenas de uma boa fotografia (granulada, mostrando o carro sob a chuva e um homem louco por ele) e uma boa canção (Crazy, de Gnarls Barkley) para produzir efeito. A série da Bombril também continua boa, porque sempre reagindo aos temas atuais e usando figuras em alta. Na rádio, há uma divertida da Tigre, que parodia música de dupla sertaneja sobre um homem cuja mulher foi tomar banho no vizinho. E há outra, do Bradesco, que faz uma colagem de vozes que dão a impressão de ser de um mesmo sujeito em idades diferentes.
Mas é pouco. O Brasil, que já teve uma das melhores publicidades do mundo, pode ser tomado como exemplo dessa queda de criatividade. Sem nostalgia, até porque não dou tanta importância para a existência ou não de boas propagandas, lembro especialmente alguns jingles – “Roda Baleiro“, de Renato Teixeira, o da DDDrin e os da Varig – e slogans, como o da Tostines, que raramente têm iguais hoje em dia, para não falar da própria pretensão narrativa.
Os publicitários, no entanto, muitas vezes se comportam como se fossem artistas ou então se acham poetas porque fizeram um trocadilho divertido. E a publicidade me parece contaminar cada vez mais as mentalidades. Tudo é rotulado e descartável; as pessoas estão consumistas demais; e há propagandas em toda parte, das roupas aos prédios, dos táxis aos pen drives. Hoje ouvi na CBN uma entrevista com um sujeito que defendia a veiculação de propagandas sonoras nos ônibus de São Paulo. Heródoto Barbeiro perguntou se aquilo não será incômodo, como será se alguém quiser ler ou mesmo conversar, etc. Resposta: “Nossas pesquisas mostram 80% de aceitação por parte dos usuários.” É assim que se pensa agora: se a maioria “aceita”, danem-se os princípios… O que levanta outra questão: as propagandas são idiotas porque vendem mais ou vendem mais porque são idiotas?
O trânsito em São Paulo já não é há muito tempo uma coisa folclórica (“São Paulo não pode parar porque não tem onde estacionar”) nem um dos muitos problemas da cidade (que continua a multiplicá-los) nem tampouco exclusivo de abonados que têm carro. Ele se tornou um definidor cultural, um denominador comum, um sinal do cada vez pior estado de espírito da cidade. São Paulo pode ser capital de muitas coisas – da cultura, da gastronomia, das oportunidades profissionais, etc. -, mas é acima de tudo a capital do trânsito. Cada vez mais é feliz nesta cidade quem sofre menos com os congestionamentos: quem leva menos de meia hora para ir e voltar do trabalho, quem não precisa circular durante o rush – o qual nos anos 80 era das 8h às 8h30 e das 18h às 18h30 e agora se expandiu para das 7h às 10h e das 17h às 20h, se não estou sendo otimista.
Não espanta que, nos cálculos do urbanista Cândido Malta, seria necessário construir oito avenidas Faria Lima por ano para que a coisa não piorasse. “São Paulo vai parar”, diz ele. Já parou! O que não pára é o aumento do estresse do cidadão, que todo dia vê nas ruas ou lê nos jornais sobre brigas e desastres no trânsito. Quase todo mundo está igual a Michael Douglas naquele filme Um Dia de Fúria. Um gesto de gentileza motorizada é raro como flor no asfalto. Especialistas vêm com uma série de soluções, na maioria sabidas (quadruplicar o metrô, em destaque), outras controversas (pedágio urbano para dar mais dinheiro para uma Prefeitura que não faz sua parte?). Seja como for, o “pedágio urbano” já é alto e cobrado todos os dias.
Não vou entrar no mérito das sugestões, mas não posso deixar de notar a ironia de algumas já exercidas. O rodízio, por exemplo. É certo que sem ele as coisas estariam piores, mas com ele continuam piorando. Isso porque não se tem transporte coletivo de qualidade, a engenharia de tráfego é burra e os nobres e preocupados cidadãos preferem comprar mais um carro (nunca antes neste país se venderam tantos carros) para driblar o rodízio. O que quero dizer é que o trânsito é um problema que transcende o pacote de soluções viárias. Envolve questões de mentalidade, como apontei, e envolve questões como habitação, emprego e economia.
Enquanto no centro da cidade, onde está a grande maioria dos entroncamentos, dos nós no fluxo de pessoas, há um déficit de moradores, em regiões como a zona leste e a zona sul a cidade cresce sem parar, numa periferização aflitiva. As pessoas moram no extremo leste e trabalham no centro e na região oeste; viajam até quatro horas de casa para o trabalho e de volta, em ônibus e metrôs cada vez mais lotados. Como o Estado não constrói metrô no ritmo necessário e a Prefeitura não fornece ônibus em número suficiente (basta passar num ponto de corredor e ver quantas pessoas esperam e o quanto), cada ano há piora para lá de sensível. A marginal Tietê em direção à zona leste, por exemplo, é quase um estacionamento a céu aberto… Até nos fins de semana há trânsito, também porque serviços e lazer estão centralizados.
O mesmo vale para a região metropolitana. Cada vez mais pessoas moram nos arredores de São Paulo, em busca de paz, verde, etc. E cada vez mais elas enfrentam trânsito: todas as rodovias têm congestionamento nos últimos 20 ou 30 km até as marginais. Fiquei sabendo que uma construtora pretende dobrar a população de Caeiras, na via Anhangüera, que é, como se sabe, uma cidade dormitório. Essas pessoas não moram em São Paulo, mas transitam (ou tentam) por aqui. Isso também remete ao problema dos caminhões: boa parte da frota não tem São Paulo nem como origem nem como destino. Caminhão que sai do interior para o porto usa as marginais e algumas avenidas, incluindo acessos estreitos. Não conheço cidade no mundo que tenha tantos desses veículos grandes e poluidores em suas ruas.
Não dá para querer que as pessoas fiquem satisfeitas, ainda que nada justifique troca de agressões. O problema maior é que a perda da qualidade de vida, além de dar uma péssima idéia de progresso para o resto da nação, corrói as relações humanas de modos difíceis de mensurar, mas que são evidentes. Desde atrasos e cancelamentos cada vez mais freqüentes até os estragos à saúde causados pela irritação contínua, os danos vão muito além do desperdício de tempo. O que há é um desgaste de humanidade.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006