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Daniel Piza

14.agosto.2009 10:32:14

Revista chinesa

Há um ano eu estava na China, cobrindo a Olimpíada por um mês. Lá, enquanto fazia o diário de Pequim, a coluna “Vista Chinesa” e matérias especiais, eu sempre me perguntava o que seria de tudo aquilo depois que o evento acabasse. Eu nunca havia estado lá, não podia comparar com o passado, talvez por isso tenha ficado curioso em saber sobre o futuro breve, sobre as transformações da cidade e do país, sobre o desejo oficial de vender uma “nova economia” sem abrir mão de sua história milenar e política comunista. Fiz então por email duas perguntas a duas jovens amigas que seguem morando na capital chinesa, nossa tradutora Grace Li e a jornalista brasileira Janaína Silveira (sem ambas, não teríamos conseguido quase nada). Eis as respostas:

1 – Em que Pequim mudou desde a Olimpíada? As obras terminaram, como a restauração da rua Qianmen? Como estão sendo usados os estádios? Os mendigos – que a imprensa internacional dizia terem sido expulsos – voltaram?

Grace – O problema dos mendigos mudou muito, com certeza. Ainda há alguns, mas não tantos. Mas o que notei em setembro do ano passado foi a volta das pessoas que vendem mapas no metrô, que haviam desaparecido antes e durante os jogos. Fiquei surpresa. Sobre Qianmen, não sei, porque raramente vou lá. Os estádios não são usados com frequência, até onde sei. O que sei é que tem havido mais concertos e peças no “Ninho dos Pássaros” e no “Cubo d’Água”.

Janaína – A Pequim pós-olímpica segue vibrante. Se a cidade fez direitinho a lição de casa se preparando durante sete anos para receber a Olimpíada, manteve o ritmo depois dela. A comemoração de 2009 tem um significado bem mais importante para o Partido Comunista da China: são os 60 anos da Fundação da República Popular, celebrados em 1º de outubro. Dá para dizer que a Olimpíada cumpriu seu papel, botou Pequim na agenda mundial. Uma propaganda positiva, coroada pelo bom desempenho do país no quadro de medalhas – foram 51 de ouro ante 36 dos Estados Unidos. Quem veio para cá viu uma cidade moderna, com sistema de transporte eficiente, segura e cosmopolita.

Hoje tanto o “Ninho” quanto o “Cubo” são pontos turísticos tão obrigatórios quanto a própria Cidade Proibida e a Muralha da China – para visitantes locais e estrangeiros. Em um ano, o turismo rendeu US$ 30,7 milhões para o “Ninho” e US$ 11,7 milhões para o “Cubo”, segundo cifras oficiais. Wukesong, o ginásio de basquete, já deu lugar a shows, como o de Avril Lavigne, e em outubro se prepara para receber uma partida da pré-temporada da NBA entre o Denver Nuggets e o Indiana Pacers.
O “Ninho”, no dia 8 passado, recebeu Inter e Lazio para a decisão da Supercopa Italiana. Em outubro o Estádio Nacional vai ter uma versão da ópera Turandot, de Puccini, pelo diretor Zhang Yimou, com entradas acima de R$ 230. Sobre o metrô, em setembro a linha 4 entra em operação, cortando a cidade em ziguezague, saindo do eixo noroeste em direção ao sul. Trabalhadores de outras regiões e pedintes, que haviam sido retirados de circulação, estão de volta à realidade. O que se percebe é uma variedade maior de caras. No entanto, mendigo aqui é caso bem mais raro do que no Brasil.

2 – Você acha que a imagem da China mudou desde então? Em que sentido? As promessas feitas na época sobre abertura em direitos humanos foram esquecidas? Quais as principais lembranças que os chineses têm do evento?

Grace – Sim, a imagem da China definitivamente mudou, não importa o quanto. O melhor lado dela é a imagem de uma cidade e de um país em construção. Muitas pessoas pensavam que Pequim era provinciana, mas o mundo viu que é uma cidade grande e moderna. Temos variedade de regiões e religiões, mas certamente somos um país que cresce rápido. Quanto aos direitos humanos, lamento dizer que não sei informar; além disso, não gosto de ver que os estrangeiros consideram “direitos humanos” um eterno tópico para julgar a China. Como medir isso?

Janaina – Pouco depois da Olimpíada, os chineses cunharam o termo “geração Ninho de Pássaro”, a de jovens que queriam espaço no cenário mundial, no mercado de trabalho, falando inglês, espanhol, até português. O evento foi o laboratório para o que, imagino, será usado para legitimar o modelo de partido único no poder (apesar de oficialmente a China dizer que há outras siglas com participação política – mas sem representatividade nenhuma, vamos combinar). A crise econômica só veio para ajudar, parece. No primeiro semestre, a China comemorou crescimento do PIB de 7,1%, graças também ao pacote de estímulo que injetou US$ 586 bilhões na economia. É certo que ainda pesam problemas graves em relação ao meio ambiente, às minorias étnicas e, mais grave, à liberdade de expressão. E que a corrupção endêmica existe e, somada a um judiciário nada independente, são responsáveis por injustiças atrozes, prisões arbitrárias e, sim, desrespeito aos direitos humanos. Sem contar pirataria, condições de trabalho precárias e outros quetais.

Este foi um ano difícil no campo político. Março marcou os 50 anos da tomada do Tibete; os 20 anos do massacre da Praça Tiananmen; e em julho explodiu a violência étnica em Xinjiang, deslocando os holofotes para os muçulmanos uigures. O governo fez questão de se mostrar aberto e recebeu jornalistas estrangeiros em Urumqi, capital de Xinjiang, mas esqueceu de dizer que não havia nenhum subterfúgio legal para barrar a entrada deles lá, ao contrário do que ocorre no Tibete. Culpou a internet por acender o estopim dos distúrbios, cortando o acesso à rede em toda a província, incluindo Facebook e Twitter. E até hoje, mais de um mês depois, não se sabe o numero de presos em Kashgar, aonde os jornalistas chegam e são convidados a pegar o primeiro avião de volta.

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Quando estou aqui sonhando com você
Você está aí, 11 horas antes de mim,
Em tarde de trabalho, sem saber
Que ocupa a minha noite em Pequim.

Talvez esteja ao telefone, talvez
Sorrindo, e de mim tão esquecida
Que me faz sentir um outro chinês.
Você é o fim da noite da minha vida.

Se então é você quem dorme, sonhando
Quiçá, no Oriente eu navego tonto;
Olho tudo, porém sempre pensando
Na ocidental estrela que já não conto.

Jornadas inversas, amor com jet lag,
Rotina em negativo, tempo-açoite:
Até de dia meu sonho a persegue.
Você é a minha vida ao fim da noite.

Se você se deita, já estou em pé,
Quando estou cansado, você desperta;
Se toma chá, eu tomo mau café,
Quando se veste, meu coração aperta.

Compro pérolas, lacas, sedas, jades,
Tento cobrir fuso horário a nanquim,
Mas não há pechincha para as saudades.
Você é a minha noite com a vida ao fim.

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31.agosto.2008 08:02:37

Planetário

Baptistão

Sempre estranho em boa parte das discussões entre economistas a ausência de uma perspectiva cultural e histórica. Em alguns clássicos isso é muito forte, como em Adam Smith, que na verdade fez em A Riqueza das Nações uma comparação entre a colonização da América do Norte e a da América do Sul, mostrando que naquela a mentalidade gerou uma economia de mercado e não apenas uma exploração de bens e tributos. Mesmo Marx, apesar de suas teses sobre a “queda geral da taxa de lucros”, a cartelização auto-implosiva a que o capitalismo estaria condenado, gastou muito mais páginas de O Capital tentando entender a sociedade industrial de seu tempo, na qual a burguesia era composta pelos proprietários dos meios de produção, não pela classe média com que o termo foi identificado no século 20. Mas, principalmente depois dessa cisão entre defensores do capitalismo e do socialismo, economia passou a ser assunto teórico demais, como se a disciplina se confundisse com uma ciência exata e em parte desligada dos contextos sociais e comportamentais.

Hoje, derrubado o muro de Berlim e terminada a Guerra Fria, o debate deixou de ser entre capitalistas e socialistas, mas ainda são poucos os que vêem o sistema econômico mais permeável aos valores imateriais. No início do século 21, ainda continuamos sob o tom de um debate que opõe como seus maiores representantes as idéias de Keynes e as de Hayek. Para os social-democratas, Keynes justifica sua defesa do Estado do Bem-estar Social, do governo como condutor da economia e acima de tudo como protetor daqueles que são postos de canto pelo mercado competitivo. Para os liberais ou neoliberais, Hayek é o pregador do livre-mercado, da sociedade aberta capaz de se auto-regular pela simples conversão do cidadão em consumidor. Quando lemos esses autores, no entanto, vemos que não é bem assim. Keynes participou da formação de diversas instituições que os estatistas detestam, como o FMI, e sempre foi o primeiro a lembrar que sua tese de que o Estado pode ter um papel anti-recessivo foi pensada para o contexto da depressão pós-1929. Hayek também não era um conservador como os privatistas que acham que o mundo se divide em perdedores e vencedores, numa espécie de “lei natural” da economia humana, e que dizem que o Estado deve no máximo ser um guarda de trânsito, um gerente de crises.

A redução desse debate a um confronto quase diametral de “modelos” causa prejuízos até hoje. É verdade que alguns autores tentaram pensar numa “terceira via”, que não é – como parecem pensar alguns autores brasileiros – um meio-termo entre socialismo e capitalismo, mas entre social-democracia e livre-mercado. Países europeus, sobretudo, se viram obrigados nos anos 90 a diminuir a carga estatal para que suas economias reagissem à “nova economia” com seu surpreendente dinamismo tecnológico e financeiro, à internacionalização e seus custos e oportunidades. Essa tarefa, mesmo depois do euro, está longe de ter sido cumprida satisfatoriamente. Mercados emergentes no sudeste asiático e, agora, China e Índia crescem em ritmo muito maior, lançando ao mundo tanto o temor como a atração de um potencial de bilhões de novos consumidores. Por outro lado, mesmo nesses países é clara a importância do agente estatal como indutor e coordenador da economia; o tal “Estado mínimo” é igualmente utópico, já que não existe na prática em lugar nenhum do planeta. Para relembrar termos do debate da década passada, o fim da História não veio, mas, apesar de cenas como a dos atentados de 2001, as civilizações não estão apenas em choque.

Essa complexidade da globalização, essa irredutibilidade da economia a modelos matemáticos e fórmulas universais (como o tal consenso de Washington), pode ser vista muito bem no caso da China. Preocupada em não se dissolver territorialmente como a ex-União Soviética e em competir com os “tigres” em ascensão como Tailândia, Coréia do Sul e os demais, o dragão de Pequim acelerou o processo iniciado por Deng Xiaoping há exatos 30 anos e agora chegou a um crescimento tão robusto quanto peculiar. Imediatamente as opiniões se dividiram: para uns, seria um triunfo do dirigismo, da economia planificada, determinada de cima para baixo por um bando de visionários; para outros, seria uma adesão incondicional ao capitalismo, à economia de consumo, inclusive com desdobramentos democráticos supostamente inexoráveis. Os primeiros, porém, alertam para o risco da ampliação da desigualdade social, como se fosse possível toda a população enriquecer proporcionalmente ao mesmo tempo; e os segundos acham que o controle estatal tem seus dias contados, devido aos custos inerentes à ilusão de que se pode prever tudo. Ao final, tem-se a velha dicotomia entre desenvolvimentistas e monetaristas, para citar o repertório latino-americano desse debate.

Talvez os instrumentos já não se apliquem ao paciente. Quem vê na China a virtude dirigista não pode ignorar que mais de 60% do crescimento do PIB atual vem das atividades privadas, que o país tem impostos baixos e que cada dia aumenta mais sua abertura comercial. Quem vê nela apenas os efeitos da liberalização desdenha do trabalho feito em lugares que vi como o Business District em Pequim e o “Vale do Silício” em Chengdu, onde o governo é extremamente atuante, em especial na infra-estrutura; e esquece que bancos, exploração do subsolo, meios de comunicação e outros serviços são estatais. Mas também me parece um equívoco equivalente pensar que isso significa que o modelo híbrido chinês – essa “economia dirigida de mercado”, como já li – possa ou deva ser copiado. E aqui entra a importância do dado cultural, perspectivista. Numa sociedade confuciana, que aceita em tese as medidas como o partido único e o filho único, além do controle de migração, pois teme a anarquia de um ex-império de 1,3 bilhão de habitantes, essa dosagem de público e privado funciona – ou está funcionando –, mas em outros países obviamente não funcionaria. Cada cultura tem de achar essa dosagem e revê-la constantemente.

Afinal, a própria “fórmula” chinesa tem sua acidez. Não há garantia de que as novas gerações – mais consumistas, americanizadas e críticas do que a de seus pais e avós – não queiram um dia que as mudanças políticas sigam as econômicas. Jovens em Pequim admiram os de Tóquio, Seul, Hong Kong e Taipei, em relação aos quais se sentem defasados em termos de modernidade e liberdade. Os problemas sociais também são grandes, como a carência de aposentadoria e seguro-saúde, e a indústria ainda vive sua fase de maquiagem, com muita pirataria e poluição. A compra de parte da IBM pela Lenovo e o investimento em centros de pesquisa são exemplos de que a China sabe que ainda tem muito a andar no mundo competitivo; que não pode viver apenas do “diferencial” do tamanho da população. Mas nesse aspecto é que pode servir não de modelo, e sim de inspiração para outros países em desenvolvimento: a China já sabe que educação e tecnologia são as transformações mais preciosas. Até que ponto saberá monitorar as aberturas comerciais e culturais, claro, é questão em aberto. Mas que seu progresso tem muito a ensinar para o ansioso e dicotômico Ocidente, a começar por seus economistas, não resta dúvida.

(“Sinopse”)

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26.agosto.2008 07:14:27

Diário de Pequim (10)

Finda a festa, Pequim logo se esvaziou de turistas. As nuvens, antes bombardeadas para dar uma chance ao eventual azul do céu, voltaram. As férias de verão chinesas terminam na próxima semana, então muitos moradores estão na cidade de novo; já é comum ver mães e filhos comprando livros escolares. Rodízio e as calçadas livres de vendedores ainda duram até o final de setembro, depois da Paraolimpíada. Aproveitamos estes dias a mais para voltar a alguns lugares agradáveis, conhecer restaurantes como 1949 (especializado em pato) e comprar as últimas coisas. Partimos amanhã à noite. Minha sensação, depois de escrever mais de 50 textos e visitar seis cidades, é a de deixar uma imersão num mundo no mínimo mais interessante do que eu já imaginava com alta expectativa. Os chineses fizeram bem seu trabalho, inclusive pensando no uso posterior de cada equipamento construído; mas só observadores ingênuos acharam que a “nova China” é totalmente nova. Rótulos e propagandas à parte, a complexidade se evidenciou. É a melhor herança de qualquer evento. Zai jien!

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25.agosto.2008 06:44:38

Ouro que vale ouro

Para a China, a Olimpíada foi um sucesso. Apesar das críticas do Ocidente à polícia e à poluição, os jogos transcorreram de forma organizada e contagiante. Os chineses ganharam 100 medalhas, 15 a menos do que os EUA, mas 15 ouros a mais, fazendo jus à condição de anfitriões. Não houve incidentes graves e o país cumpriu sua promessa de fazer uma Olimpíada com boa estrutura e “fair play”. Note como o corredor Liu Xiang, que se contundiu antes da final dos 110 m com barreiras, não foi acusado de falhar na hora H e trair sua pátria, apesar da comoção nacional.

Os EUA levaram surra no ouro, mas em compensação tiveram uma das duas sensações do torneio, Michael Phelps (ao lado do jamaicano Usain Bolt). E a quantidade de recordes mundiais e olímpicos batidos na natação e no atletismo são outros marcos históricos consagrados em Pequim. Quem dizia que a poluição afetaria o desempenho agora tem de se retratar. No campo esportivo, fora uma polêmica ou outra, Pequim foi impecável.

Para o Brasil, a participação foi um anticlímax em relação ao oba-oba gerado pelo Pan do Rio. O país conseguiu as mesmas 15 medalhas de 1996 e não superou os cinco ouros de 2004. Foram apenas três ouros para uma delegação que reuniu 277 atletas. Não sou desse tipo de pessoa que gostaria que o Brasil fosse uma “potência olímpica”, até porque China e EUA sempre usaram e usam os esportes como propaganda ideológica, mas não posso deixar de lamentar esse desempenho.

As três medalhas foram emocionantes como histórias pessoais. César Cielo bateu recorde. Maurren Maggi venceu suspensão por acusação de dopping. E as meninas do vôlei derrubaram o estigma de que não aguentavam pressão na hora H, de que teriam “amarelado” em outras finais. Mari e companhia jogaram muito na final contra os EUA. Ironicamente, o vôlei masculino, que os comentaristas diziam imbatível, foi quem perdeu para os mesmos EUA. O bloqueio americano foi muito melhor que o brasileiro, e os levantadores deixaram a desejar; Giba desperdiçou boas cortadas no quarto set.

Atletismo, natação, ginástica e modalidades como levantamento de peso são a essência da Olimpíada desde os gregos: força, resistência, velocidade. Esportes como ping pong e badminton têm seus fãs, não a mesma importância. O Brasil ainda depende demais dos esportes coletivos, que incham sua delegação e, no caso do futebol, só decepcionam. Mas o vôlei, feminino e masculino, continua a ser o melhor exemplo brasileiro na Olimpíada, por sua dedicação. Já a seleção de futebol parece sempre fatigada, como se pudesse resolver qualquer jogo a qualquer momento.

Os chineses decidiram que ir bem na Olimpíada era fundamental ainda em 2000, antes de saber que Pequim seria a sede. Centros de formação e mudanças escolares foram feitos. Os chineses não queriam um evento meia-boca e não o entregaram. Mas isso não significa que você não deva ver os inúmeros problemas do pais. Apenas não pode, como diante dos espetáculos de Zhang Yimou, dizer que a China não caprichou. E que nem tudo que reluz é medalha de ouro.

(“Vista Chinesa”)

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Lago dos Bambus (Daniel Piza)

Quem viu Herói, o primeiro filme da trilogia de Zhang Yimou, diretor também da abertura e do encerramento da Olimpíada de Pequim, provavelmente se lembra da cena da luta em um lago (ou acima dele) em que se passam as quatro estações do ano. O belo cenário fica aqui, no parque que leva o nome da pequena cidade de Jiuzhai Gou, no norte da província de Sichuan, a 480 km da capital, Chengdu. Ele faz jus à reputação de um dos cinco lugares mais belos da China.

Jiuzhai Gou (“diô-djai-gou”) tem 620 km² de vales e montanhas de tirar o fôlego, e os lagos chegam a quase cem, quase todos caracterizados por uma cor que varia entre o azul turquesa e o verde esmeralda por causa dos minérios como magnésio e cálcio. O rio que corre por toda a reserva, forma os lagos e desce em cascatas é tão célebre que gerou um dito comum entre os chineses: “Depois que você vê a Montanha Amarela (em Huangshan, na região central do país), não quer mais ver montanha nenhuma. Depois que vê o rio Jiuzhai Gou, não quer mais ver rio nenhum.”

O exagero é evidente, mas ninguém fica indiferente a esta paisagem. Parece saída de uma antiga estampa chinesa. As montanhas são cobertas de florestas de coníferas, que no outono ganham tons cobres e bordôs. A estrada que corta os vales, com 14 km de extensão ao todo, leva os turistas a 19 paradas nos pontos principais. Em forma de Y, ela concentra suas maiores atrações no braço direito da bifurcação. É nesse trecho que está o Lago dos Bambus, onde Yimou filmou a cena citada.

Cada ônibus tem sua guia, e elas não deixam de citar em nenhum momento a infinidade de filmes como Herói e séries de TV, especialmente de histórias de Kung Fu, que tiveram locações no parque. O de Yimou é um lago que se destaca pelas dimensões e pela água tão cristalina que deixa ver com nitidez plantas e algas ao fundo; e também, claro, pela moldura de montanhas e bambuzais que o circunda. Em tempo, o pequeno pavilhão que aparece no meio do lago do filme não existe. (Foi preciso ocorrer a cerimônia inicial da Olimpíada para que a maioria descobrisse o que os espectadores de Yimou já sabiam: que ele gosta de simulações virtuais.)

Lago do Panda (Daniel Piza)

Mas logo ali ao lado há lagos que competem em beleza. O Lago do Panda, por exemplo, não tem panda nenhum (o norte de Sichuan é famoso por suas florestas de pandas gigantes), mas a superfície é de um azul intenso e em suas margens se vêem muitos peixes. Abaixo dele está o Lago das Cinco Cores, que, como o nome diz, surpreende pelas faixas diferenciadas que vão do amarelo ao marrom, passando pelo azul, pelo verde claro e pelo verde escuro, onde as algas se concentram. Descendo dele está a Cachoeira de Pérolas, uma corrente de água rasa que ao passar por cima das rochas lhe dá um rebrilhar que inspirou o nome.

No outro braço do Y há mais florestas e menos lagos. Ao final, porém, vem a recompensa: o Lago Comprido, a 3.100 metros de altitude, justifica o nome ao permitir uma visão do rio correndo pelo meio das altas montanhas com suas cores únicas. Um pouco abaixo, o Lago Colorido se parece com uma piscina em que acrescentaram tintas diversas. No retorno, já na estrada unificada, paramos para ver as cascatas Nuorilang, deslizando num mesmo paredão de pedra, e o complexo Shuzheng, como que uma planície pontuada por córregos e lagoas.

O parque não é apenas endereço de cenas bucólicas da natureza temperada. É também o local onde ficam nove aldeias da etnia zhai (daí o nome Jiuzhai Gou, onde “jiu” é nove e “Gou” é garganta, no sentido orográfico do termo), de origem tibetana, que vendem aos turistas um artesanato muito parecido com o andino sul-americano. Para eles, os lagos são cacos do espelho de uma deusa. Para Zhang Yimou, foram símbolos da relação entre a China e a natureza. Seja como for, depois de Jiuzhai Gou você nunca mais verá um lago e uma montanha como antes.

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24.agosto.2008 13:01:27

Sichuan, 100 dias depois

(Nilton Fukuda/AE)

Cerca de cem dias depois do terremoto que abalou a província de Sichuan, na região central da China, e motivou um sentimento de nacionalismo às vésperas da Olimpíada de Pequim, os locais atingidos continuam à espera da reconstrução de prédios e estradas. O Estado visitou dois desses locais: a cidade de Dujiangyan, a 60 km de Chengdu, capital da província, e uma aldeia em sua periferia, Juyuan. O cenário é desolador. As marcas do tremor de 12 de maio estão em toda parte.

“Devagar”, eis como responde Zeyong Yi à pergunta sobre o andamento das obras em Juyuan. Ele é dono de uma loja de chá ao lado da escola de ensino médio que desabou inteira, matando cerca de 600 pessoas. Sua filha, Sha Yi, sobreviveu ao desastre. O terreno onde ficava a escola, já quase sem entulhos, está cercado. Um grupo de sete policiais faz a vigilância. Quando o repórter fotográfico Nilton Fukuda começa a tirar fotos, eles se aproximam e exigem que ele as apague. Fukuda conseguiu recuperá-las com os recursos tecnológicos da câmera.

Assim que os policiais se afastam, mais moradores rodeiam a equipe do Estado, curiosos com a presença e ansiosos para mostrar fotos e vídeos que fizeram com seus celulares. As imagens da escola arruinada e do pânico ao redor foram feitas nos minutos seguintes. A polícia chinesa apagou muitas delas, nos dias seguintes ao acidente, mas os moradores também conseguiram preservá-las. Dizem acreditar que depois da Olimpíada o governo vai acelerar as obras ali.

Enquanto vende alguns pacotes de chá, entre eles alguns pequeninos com um coração em vermelho e as inscrições “Superando o desastre”, Zeyong consegue dizer rapidamente seu nome e nos contar o que viu. Afirma que passou horas socorrendo pessoas e retirando pedras. Aponta para um homem a alguns metros e diz que ele perdeu a filha na queda da escola. O homem, que antes mostrara fotos da destruição, baixa os olhos nesse instante e balbucia algumas palavras. “Ele está dizendo que prefere não lembrar aquele dia, que só pode olhar para a frente”, diz Zeyong.

A rua ainda está suja e a maioria dos prédios abandonada. Tendas se espalham pelas travessas com alguns abrigados. Entre dezenas de lojas e casas vazias ou derrubadas, há aquelas que seguem funcionando. Alguns fazem questão de posar para foto diante de seus estabelecimentos. O motorista de táxi que nos levou até ali, Xiaoyang Lin, conta que esteve no mesmo lugar nos dias seguintes à tragédia para levar feridos para o hospital de Chengdu. Três meses depois, está de volta e diz que a única diferença é que mais destroços foram removidos. Vários acessos estão bloqueados com placas azuis que dizem “passagem proibida”.

Retornamos à estrada para Dujiangyan. No caminho vemos alguns caminhões carregados de entulho e diversos veículos do Exército. Ao chegar ao centro da cidade, vemos mais prédios trincados, inclinados e abandonados. Terrenos baldios estão ocupados por dezenas de grandes barracas azuis com abrigados, mas não nos permitem chegar mais perto. Logo adiante, o hospital está destruído quase totalmente.

Xiaoyang sugere uma rua onde muitos morreram; ali seria possível fazer fotos rapidamente sem a polícia ou o Exército perceber. A rua é totalmente dedicada a lojas de decoração e reforma, e algumas ainda funcionam, exibindo cerâmicas e azulejos na calçada. A maioria foi abandonada. Do outro lado da rua, prédios inteiros desapareceram. Um deles, parcialmente destruído, revela em seu interior uma janela com desenhos ornamentais em vidro fosco.

Seguindo mais um pouco, informa Xiaoyang, há uma ponte com controle de tráfego. Só os caminhões de entulho e pessoas autorizadas podem passar; as estradas ali estão semidestruídas. Ele aponta para a bela cordilheira de montanhas que separa Dujiangyan da cidade vizinha, Wenchuan, epicentro do terremoto que atingiu 8 graus na escala Richter, matou mais de 40 mil e feriu mais de 270 mil pessoas em toda a província de Sichuan. O próprio governo informa que o número pode ser maior, tal a quantidade de soterrados.

O sentimento de “Jiayou, Zhongguo!” (Força, China!), o grito que marcou a Olimpíada de Pequim, nasceu com a adesão à ajuda às vítimas de Sichuan. As cidades esperam agora que ele retome sua força.

‘Quando a gente conta, acham que é exagero’

Na capital de Sichuang, Chengdu, conhecida por sua qualidade de vida apesar dos mais de 7 milhões de habitantes (mais o mesmo número que não aparece por não ter “hukou”, a permissão oficial de residência), não se vêem prédios destruídos, nem mesmo rachados. Mas a memória do terremoto de 12 de maio passado continua a existir. Todos os habitantes sentiram o tremor, cujo epicentro se deu a 100 km, e um grande susto.

Um deles foi um jogador de futebol brasileiro, Renan (conhecido aqui como Augusto, seu segundo nome), 25 anos, centroavante do Sichuan Futebol Clube, time da segunda divisão chinesa. Ele mora no primeiro andar de um condomínio na zona norte da cidade, ao lado do campo de treinamento do clube. Quando o terremoto aconteceu, estava tomando banho. Imediatamente, alertado por vizinhos, ele desceu para o pátio, de toalha amarrada na cintura. Lá embaixo, ele viu os prédios chacoalhando ainda por alguns minutos e as mulheres chorando muito.

“Nunca vi nada igual”, diz. “Quando a gente conta, acham que é exagero. Fazia um barulhão e aquele prédio branco (aponta para uma construção vizinha) balançava muito.” Quando o tremor passou, Renan foi para o campo de treinamento no mesmo quarteirão, aonde as pessoas começavam a se acampar, com medo de ficar em suas casas. Ele passou duas noites ali, só aparecendo para tomar banho e pegar roupa. Quando voltou a dormir em seu apartamento, optou pelo sofá. Na beirada da mesa de centro, colocou um copo d’água; se um terremoto começasse, o copo cairia e o despertaria. Uma mala ficou de prontidão ao lado da porta.

Só depois de algumas semanas é que a vida voltou ao normal. Renan chegou aqui em fevereiro e está satisfeito com sua rotina e o salário, ainda que seu time não esteja bem no campeonato e ele não esteja seguro de que todos os jogos sejam jogados com lisura. Diz que quer passar à primeira divisão para ganhar mais – cerca de US$ 150 mil por ano – e que assim poderia viver alguns anos na China. Depois do terremoto, diz que ficou “impressionado com o patriotismo deles”. Como seus colegas de equipe, doou parte de seu salário para as vítimas.

O economista português Paulo Xavier, 25 anos, que está aqui para aprender chinês, também lembra com nitidez o dia do terremoto em Chengdu. Ele havia acabado de estudar e estava dormindo naquela tarde de segunda-feira, em seu apartamento de sétimo andar, quando o prédio começou a “balançar como um barco na tempestade”. Quadros ficaram batendo na parede, objetos e uma estante caíram; tudo durou três longos minutos. Paulo correu para baixo da ombreira da porta, onde dizem que a chance de sobrevivência aumenta. Depois desceu com os vizinhos para a rua, onde havia uma multidão. Tremores ainda se sentiram por alguns dias, ao lado de boatos de que novo terremoto viria. Depois de algumas semanas, a cidade tinha voltado ao normal. Mas diferente.

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ALTOS

Hospitalidade – Pode-se falar o que quiser, mas os chineses souberam ser simpáticos e prestativos, apesar das dificuldades de idioma e segurança. Mais de um milhão de voluntários tentavam ajudar em toda parte. Havia filas à parte para credenciados em estádios, avenidas, metrôs e aeroportos.
Arquitetura – Sede de lugares históricos com a beleza da Cidade Proibida e do Palácio de Verão, a cidade tem agora também os atrativos modernos, como os estádios olímpicos e o prédio da CCTV.
Segurança – Não me refiro à quantidade de raio-X e detector de metal, aborrecimentos como os da Praça Tiananmen, mas à segurança que se sentia nas ruas mesmo à noite. Não se soube de nenhum assalto.
Metrô – Foi duplicado para 200 km, é barato e funciona muito bem.
Limpeza – Conhecidos por alguns hábitos que não parecem muito higiênicos, os chineses mantiveram Pequim nos trinques. Raramente se via lixo nas ruas, e uma campanha estimulou a redução do cigarro. O governo chinês promete continuar o trabalho de reeducação.
Poluição – Sim, ela existe, mas a visibilidade sugere que seja maior por efeito da umidade e da pressão baixa. E, ao contrário do que se dizia, não afetou o desempenho de nenhum atleta. Usain Bolt que o diga.
Comida – Que escorpião, que nada. Os restaurantes de Pequim têm muita variedade e qualidade para quem souber aproveitar.

BAIXOS

Censura – Você pode até entender o ponto de vista chinês, de não querer manifestação sobre Tibete num momento assim, mas a paranóia foi longe. É até irônico saber que a Praça Tiananmen, orgulho da cidade por ser “a maior do mundo”, não pôde ter povo em muitas ocasiões. Diante do telão da importante avenida Wangufjin a aglomeração foi permitida e não houve problema algum. Além disso, sites foram bloqueados e um jornalista preso.
Burocracia – Aparece em muitos procedimentos da vida cotidiana chinesa, mas estou falando da demora em conceder vistos a turistas e profissionais. O resultado foi uma redução de pelo menos 20% no número de turistas esperados, com prejuízo para hotéis e restaurantes.
Maquiagem – Alegando que para receber visitas é preciso limpar a casa, Pequim levou mendigos para fora, proibiu ofertas de produtos falsos nas ruas, fez rodízio de carros pela metade. Mas os problemas voltarão.
Táxis – São baratos, como tantas outras coisas na cidade. Mas foram em número insuficiente para dar conta dos milhares de turistas que vieram. Em noites de jogos, as esquinas ficaram povoadas de pessoas à espera de táxi.
Inglês – O plano de ensinar ao menos as frases básicas do inglês não deu resultado. Até jovens voluntários não conseguiam dar informações simples. O que salvou os turistas foi o celular: pedia-se para o funcionário do hotel ou para a tradutora que orientasse o motorista diretamente.
Transmissão de TV – Mesmo sendo dona de dezenas de canais e tendo caprichado na produção, a TV estatal não mostrou muitos eventos importantes. E o mais feio: quando a China começava a perder num deles, passava a transmitir outro em que estivesse melhor, sem aviso nem nada.

(“Vista Chinesa”)

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23.agosto.2008 13:54:42

O lago e a montanha

Passei dois dias numa região da China distante de Pequim. Contarei extensamente o que vi. Mas eis aqui um aperitivo para a especulação:

(Daniel Piza)

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Critiquei e voltarei a criticar a participação brasileira na Olimpíada, não porque tenha qualquer sonho de potência, mas porque sou obrigado a apontar os equívocos do discurso ufanista. Há, porém, um ufanismo às avessas na maneira como essa crítica é exagerada tantas vezes. Me refiro à “tese” de que o problema é inerente ao modo de ser brasileiro, em geral pouco aplicado, desconcentrado, portanto inclinado a achar que já ganhou, sendo mais festivo do que metódico. Para mim não se trata de algum problema de natureza moral ou genética ou mesmo cultural dos atletas brasileiros. O problema é concreto: a falta de incentivo contínuo e de planejamento geral tem sido a marca do “modelo” esportivo nacional.

Acho ridículo, por exemplo, ficar apontando o dedo para Diego Hypólito e acusá-lo de ter “amarelado”. Ou ver ligações cósmicas entre sua queda no solo e outras derrotas brasileiras e até o sumiço da vara de Fabiane Murer. Os piadistas em expansão na mídia se fartam com esses erros e azares, mas unir esses fatos num mesmo alvo e atirar a flecha moralista da “honra” e do “patriotismo” não tem a menor graça. Não há correlação para que se estabeleça um mínimo de coerência nessa opinião. O mesmo brasileiro que apedreja é o que afaga. O mesmo sujeito que endeusou Vanderlei Cordeiro é o que demoniza Hypólito.

Se essa visão tivesse alguma lógica, Maurren Maggi não teria tido a fibra suficiente para dar a volta por cima que deu. Foi acusada e condenada por uso de substância ilícita. Alegou ter sido uma pomada, mas a quantidade encontrada não sustentava a alegação. De qualquer modo, pagou pelo que fez. Durante um período, como namorava gente famosa, o que mais se ouviu é que já teria trocado a carreira pela badalação. Aos 32 anos, porém, Maurren calou as cassandras: ganhou a medalha de ouro em Pequim, com brilho de sobra. Se tivesse sido prata ou bronze, aliás, entraria para a galeria dos “amarelões”…

Então os brasileiros são sim capazes de disciplina e de evitar o deslumbramento? O erro está em dizer “os brasileiros”. Essa brasileira Maurren Maggi é. Esse brasileiro César Cielo é. Outros talvez não sejam, muitos outros certamente não são. Mas não existe nenhum impedimento em seu DNA ou em sua raça para que sejam bem-sucedidos. Impedimentos muito mais reais são os da falta de dinheiro e organização, assim como os dessa mentalidade toda – de imprensa, torcida e autoridades em geral – que só funciona no oito-ou-oitenta.

Tal mentalidade se vê também na discussão sobre a participação em geral da delegação que representou o Brasil aqui. Muitos acham que o fato de ter tido maior número de atletas e chegado a muitas finais significa que houve evolução, ainda que pequena. Outros dizem que mesmo que o Brasil chegue às cinco medalhas de ouro como em Atenas o ridículo não se apagará. O fato é que o Brasil não foi bem e os responsáveis não são os atacados pela antropologia de botequim. Como Maurren mostrou, o pulo do gato – ou o salto da gata – se chama pragmatismo. É trabalho, não chororô.

(“Vista Chinesa”)

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