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Daniel Piza

07.março.2010 07:32:58

Capitu e Diadorim

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Hoje, véspera do Dia Internacional da Mulher, revelamos uma conversa entre as duas maiores personagens da literatura brasileira, que não à toa estão nas duas maiores obras-primas da literatura brasileira. Pouca gente se dá conta de que Capitu e Diadorim são quase contemporâneas, pois a personagem de Machado em Dom Casmurro nasceu em 1843 e morreu aproximadamente em 1881 ou 1882 e a de Rosa já era uma jovem jagunça em 1896, única data citada em Grande Sertão: Veredas. Mas o encontro aconteceu depois que foram “estudar a geologia dos campos santos”, na frase machadiana, ou ficaram “encantadas”, na de Rosa.

Capitu – Sempre quis conhecê-la, Diadorim. Achava que você fosse mais alta, mais forte, sabia? Bobagem minha.

Diadorim – Nunca precisei ser alta e forte para enfrentar os homens. Eu é que não sabia que você era tão alta e forte.

Capitu – Hoje está meio fora de moda, né? No meu tempo, porém, não tinha um homem que não olhasse para mim nas ruas.

Diadorim – Moda não me importava, você sabe. Até que eu gostava de passar uns perfumes quando tomava banho de madrugada, longe das tropas. Mas você sempre foi chegada a esses salamaleques, joias, vestidos, bailes…

Capitu – Se nós duas não tivéssemos morrido tão jovens, você mais jovem ainda, eu ia levá-la para passear pela rua do Ouvidor e duvido que resistisse. Por sinal, que coincidência que a gente se conheça neste Dia da Mulher.

Diadorim – Ora, não vejo muito sentido nisso, não. Dia de mulher é todo dia; todo dia as mulheres de hoje precisam defender de novo os direitos que já são nossos há muito tempo. Esses cabras são fogo.

Capitu – É verdade. Eu mesma: até hoje, quando falam de mim, é como se eu fosse ou inocente ou traidora. Os homens só conseguem imaginar as mulheres de um jeito ou de outro. Virei uma charada mundial!

Diadorim – Minha situação não foi diferente. Agora, como você aguentava aquele marido? Eta homem frouxo, sô!

Capitu – É que o Bentinho era tão apaixonado por mim, e me prometia uma vida tão boa. Meu erro foi achar que eu ia controlar tudo, que ele ia amadurecer aos poucos. Mas ele era um eterno adolescente, tanto que precisou escrever um livro sobre si mesmo e ainda assim continuou sem se conhecer… De quebra só me pôs falando absurdos sobre “coincidências divinas”. Ele era o primeiro a acreditar nessas coisas!

Diadorim – Mas pelo menos a gente vê ali que era um covarde. No sertão, esse aí não durava nem dois dias.

Capitu – E olhe lá… Mas confesso que queria que tudo tivesse sido diferente. Tive de ser “mais mulher do que ele era homem”, como ele mesmo reconheceu no livro.

Diadorim – E eu tive de ser menos mulher… Não tive escolha; meu dever era com meu pai, eu tinha de ser varão para que ele continuasse comandando tudo. Não fosse por isso, teria dito a Riobaldo quanto o amava também. Aquele sim era homem, viril e gentil, Tatarana na hora da guerra e quase um menino na hora em que ficava me olhando, quase um passarinho. “O sol entrado”, não é bonito isso?

Capitu – Bentinho não fica muito atrás: “Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve.” Você falando assim, parece que Riobaldo era uma mistura de Bentinho com Escobar, se bem que Escobar sabia ser doce quando queria… Mas você era sol e era lua também, como eu. Foi por isso que disse que nossa situação era parecida?

Diadorim – Foi. Tem gente por aí que acha que Riobaldo não era macho, porque ficou apaixonado por Reinaldo, não por Diadorim. Ele era, sim! É que era um homem mais sensível que aquela jagunçada tosca. Sabia ler, escrever, sabia admirar as coisas bonitas. Ele via Diadorim debaixo de Reinaldo.

Capitu – E ele sofreu muito, não sofreu? Bentinho não via nada porque não sabia ver. Mas imagino um jagunço sentindo atração por outro, sem saber que na verdade era uma mulher – e só sabendo depois que você morreu. “O diabo não existe, por isso é tão forte.”

Diadorim – Ou “Deus é o poeta, a música é de Satanás”… A nossa história é uma tragédia ainda maior que a sua. Ele não podia ver a verdade; eu não podia contá-la. Mas minha vida não teria sido nada sem ele. Quando li o livro, senti que ele pensava da mesma forma.

Capitu – A verdade é que a gente deixa os homens bem confusos. O problema deles é que demoram a perceber as diferenças. Depois se desiludem quando elas aparecem.

Diadorim – E nós percebemos muito rápido, e mesmo assim nos iludimos também. Foi bom aprender com eles a ser mais direta, a tomar iniciativa.

Capitu – Eu sempre tomei iniciativa. O problema é que tinha de fingir que não tomava. Minha vida toda tive de esconder o que sentia.

Diadorim – Eu também, nem preciso lembrar.

Capitu – Hoje não é muito diferente. Mas, sabe, sinto inveja dessas mulheres que podem trabalhar e votar e passar cantadas…

Diadorim – Melhorou muito, graças também a esses homens que escreveram nossa história. Como diz o meu, sertão é dentro da gente; mas talvez hoje existam mais veredas. Caminhar sempre dá trabalho.

(“Sinopse“)

comentários (23) | comente

23 Comentários Comente também
  • 07/03/2010 - 10:13
    Enviado por: Solange Gomes da Fonseca

    Foi tao empolgante esse romance que ultrapassou fronteiras e caiu na telinha da Globo , como um seriado.
    Eu, particularmente, na minha analise, nao achei que a traiçao foi cometida pela Capitu. O Bentinho, é que tinha um ciume doentio, devido viver um verdadeiro delirio , associado aos seus temores. Estava sempre procurando ‘pelo em ovo’. Por outro lado, se levarmos o romance a uma analise do realismo, nos levara a crer que houve sim a traiçao. Ai, fica ao criterio de cada mente perturbada ou saudavel…
    Na verdade essas questoes estao muito presente, naquilo que a gente chama de “estudos culturais”. Devido nao serem questoes novas e, sim que existiram desde sempre.
    As obras machadianas, conseguem misturar os mais ‘humanos’dos sentimentos: o ciume, a duvida, o orgulho, o medo num so personagem e, é fantastico pensar como um conjunto de diversos sentimentos se harmoniza tao bem e nao parece um pastiche. Tocar a alma de alguem significa entrar num codigo intimo e coletivo ao mesmo tempo, algo nada menos que ‘humano’, antes de ser desta ou daquela cultura.
    Razao que chamamos de obras superiores e de grandes classicos da literatura brasileira.

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  • 07/03/2010 - 14:57
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    O Dia da Mulher me faz lembrar da importância das cotas. Espero um dia q

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    • 07/03/2010 - 15:00
      Enviado por: GUILHERME CIMINO

      Continuando, espero um dia que as mulheres não precisem mais de cotas nos partidos, mas que isso foi e ainda é importante para a participação feminina na política, isso é inegável. Como outras cotas …

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    • 07/03/2010 - 21:45
      Enviado por: ricardo

      Putz, Cimino, tudo bem essa questão da mulher… mas não sei… veja a Dilma, ou outras (excessão à Erundina). Bom, deixa eu ficar quieto vai! Pra todas as mulheres: Feliz dia internacional da…

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    • 07/03/2010 - 21:50
      Enviado por: ricardo

      Desculpem-me a misoginia e misantropia: FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!

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  • 08/03/2010 - 02:09
    Enviado por: Viviane

    Gente, adorei isso! Muito legal Daniel! Essas duas personagens foram tão marcantes na nossa literatura ( e para quem as conhece apenas pela TV creio que também foram) que, na realidade, são quase reais!Talvez (desculpem o clichê) porque em todas as mulheres há uma Capitu e uma Diadorim; talvez porque cada uma represente aquilo que todas queremos ser: fortes, articuladas, belas, misteriosas e guerreiras (cada uma a seu modo). Voltando ao texto, um dos “melhores momentos” foi ambas discutindo os “personagens masculinos” de suas vidas. Adorei.

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  • 08/03/2010 - 03:26
    Enviado por: Guilherme Korte

    Sim, Diadorim…caminhar dentro da gente é mais difícil e árduo a trilhas no cerrado seco do sertão. Para você, que optou em nascer mulher nos idos de 1896 nas margens de um rio manso, na sombra do Buriti sua paixão e garra em ser mulher resistiu à tentação mundana feminina. Mesmo assim enlouqueceu e matou muitos no silêncio de sua graça, na profundeza de seu olhar. Um parabéns às Diadorins de hoje. Quantas elas existem com esse nome?

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  • 08/03/2010 - 11:38
    Enviado por: marcos

    prezado piza,
    talvez tenha entendido mal a introdução do teu artigo sobre capitu e diadorim, mas pareceu-me que consideras o dom casmurro e o grande sertão as supremas obras-primas da literatura brasileira. sendo assim, te pergunto que lugar tu dás ao brás cubas e a os sertões. a crítica internacional parece apreciar o brás cubas como a suprema realização de machado de assis, e talvez seja essa a obra brasileira mais bem conceituada no exterior. já ariano suassuna considera os sertões a maior obra literária surgida no brasil. penso que estes quatro livros estejam em pé de igualdade e que seja impossível fazer qualquer juízo de valor entre eles. o que tu dizes a respeito?
    grande abraço.

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    • 08/03/2010 - 11:48
      Enviado por: danielpiza

      Bem, não temos de escolher, temos? Brás Cubas tem um humor livre que Dom Casmurro não tem, mas Dom Casmurro é a suma da obra machadiana, aquilo que ele almejou a vida toda e, claro, tem a maior personagem feminina que ele escreveu. Os Sertões não é romance, mas Grande Sertão: Veredas vem dele e também dá voz aos personagens que aparecem apenas descritos por Euclides. As duas que escolhi são obras das quais não se pode tirar nem uma frase sem prejuízo: tudo tem sua razão de ser, nada é dispensável ou irregular.

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  • 08/03/2010 - 14:54
    Enviado por: anônimo

    Piza,

    você precisa mesmo estragar a surpresa para todas as pessoas que ainda não leram o livro? Para escrever este diálogo!?

    As pessoas que não leram ainda devem ser desconsideradas? É isso?

    Pôxa vida. Um dos maiores livros da literatura mundial cujo impacto da leitura foi dimínuido para alguns por sua causa.

    Pelo menos avisa que é spoiler, né?

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  • 09/03/2010 - 12:08
    Enviado por: anônimo

    Quer dizer que quanto mais velho é o livro, tanto mais já sabemos o que ele diz?

    Quer dizer que à sua e à minha primeira leitura de, sei lá, O vermelho e o negro, já sabíamos o que ia acontecer? (isso para falar de um livro “recente”)

    A idade do livro não tem nada a ver com a surpresa que ele pode provocar à primeira leitura.

    E esta pode às vezes ser estragada por um despretencioso exercício com chamada na primeira página on-line de um jornal de circulação nacional.

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    • 09/03/2010 - 15:39
      Enviado por: danielpiza

      Bem, Tininha, então vamos queimar todos os livros de literatura, didáticos ou ensaísticos, todos os resumos de vestibular, todas as análises sobre a duplicidade sexual de Diadorim, os DVDs da série da Globo etc etc…

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  • 09/03/2010 - 18:20
    Enviado por: Ariadne

    Tenho pena das pessoas que não podem entrar no jogo de imaginar como seria uma conversa entre duas ilustres personagens da literatura brasileira…

    Muito bom!

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  • 10/03/2010 - 02:26
    Enviado por: suerly gonçalves veloso

    Bom o diálogo e as informações sobre M. Assis. Poderia também:

    Diadorim – Somos iguais. Ocultamos o que tínhamos de mais importante: o amor.

    Capitu – Mas sempre fomos tradadas de formas diferentes.

    Diadorim – eu sou a virgem Maria!

    Capitu – eu sou Maria Madalena. Muitos falam de mim, mas poucos me conhecem.

    Diadorim – Eu sou real. Dei vida ao Pai. Maria era mãe. Eu sou filha.

    Capitu – Eu sou a ficção armazenada na cabeça dos homens. Significo o CIUMES.

    Diadorim – Eu sou a vida. Tal como Maria neguei a própria, para afirmar a do Pai.

    Capitu – Eu sou a morte. Não trouxe a Boa Nova. Mas o pecado da carne. As ilusões humanas.

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  • 10/03/2010 - 08:47
    Enviado por: André Ricardo

    Oi Daniel, ou Piza. Não sei ao certo, é a primeira vez que escrevo e, apesar de conhecê-lo, ou melhor, de já ter lido suas matérias e orelhas de alguns livros, não sei bem como começar este que deveria ser um breve depoimento…rs
    Adorei o diálogo. Quase chorei. Sou de Minas e Diadorim é forte demais pra não neblinar minha vista, e Capitu é de Machado. Fina, como Sampa, onde moro atualmente.
    É isso. Não digo “parabéns” para não soar ridículo, mas talvez “valeu” colabore melhor na finalização deste textinho.
    Abraços
    André

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  • 12/03/2010 - 10:37
    Enviado por: Everaldo Leite

    Desse diálogo só posso fazer uma consideração: MAGNÍFICO!

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  • 15/03/2010 - 11:09
    Enviado por: Adriana

    Muito bom!!! Adoro a Capitu e não a cosidero, nem traidora, nem inocente…simplesmente uma mulher livre (provavelmente aquariana). Provavelmente essas duas mulheres discutiriam hoje, futebol (provavelmente santista) e política (provavelmente PSDB,+ ou -) e seriam suas amigas, porque gente inteligente gosta de gente inteligente. Parabéns!

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  • 15/03/2010 - 14:09
    Enviado por: Sônia R.Cappi Janini

    ADOREI! Surpreendente e muito feliz essa ideia de unir tão caras e controversas personagens femininas da literatura brasileira…. e oportunas pela data.Parabéns!

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  • 29/03/2010 - 00:14
    Enviado por: Edhson FM

    ADMIRADO DANIEL, gostei tanto deste texto que aproveitei para reproduzi-lo em meu recém-criado blogue (http://efmerides.blogspot.com/2010/03/duas-mulheres-apaixonantes.html), escondendo propositadamente o nome das personagens. Boa semana.

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  • 28/05/2010 - 23:48
    Enviado por: Geraldo Santana

    Olá Daniel,
    Parabéns pela série de textos/comentários envolvendo parte da obra machadiana. Espero que você não me processe criminalmente: primeiro porque não tenho os tostões necessários para pagar as custas processuais e, em segundo lugar, porque o teu texto (eu não omiti o autor nem a fonte) contribuiu para que a meninada tivesse os olhos abertos sobre essas duas personagens maravilhosas da literatura brasileira – já haviam lido, ouvido, mas o encontro “proporcionado por você”, na véspera do Dia Internacional da Mulher, foi algo deslumbrante para eles.
    Sucesso.
    Abraços,
    Geraldo Santana

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