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Daniel Piza

27.março.2010 15:00:28

Bernard Shaw em ‘pocket show’

shaw

George Bernard Shaw viveu 94 anos (1856-1950) escrevendo e falando sem parar. Nascido em Dublin, chegou a Londres aos 20 anos disposto a se tornar um romancista e a satirizar sem dó a cultura vitoriana. Os romances não vingaram, mas Shaw se vingou: foi crítico de arte, de literatura, de teatro e de música – analisando agudamente artistas modernos como Richard Wagner – e tornou suas iniciais G.B.S. tão conhecidas quanto temidas no decadente Império Britânico, além de fazer discursos em convenções socialistas. A dramaturgia veio em seguida, com a mesma energia: ele fez mais de 50 peças. Escolha um tema, enfim, e Shaw terá escrito sobre ele – com gafes graves, como os elogios a Hitler e Stalin por seu anticapitalismo, mas quase sempre com estilo e brilho.

O livro se chama Quatro Peças Curtas, com boa tradução de Domingos Nunez, e não chega a 170 páginas, mas essas características de Shaw estão todas ali, em versão “pocket show”. A primeira é Como Ele Mentiu para o Marido Dela, de 1904, que tem a forma de uma peça de salão e ao mesmo tempo reverte as peças de salão: a infidelidade não é vista aqui como um pecado a ser condenado no desfecho da trama. A próxima peça é A Dama Negra dos Sonetos (1910), um “divertissement” em torno de Shakespeare, que pede de presente à rainha Elisabeth um teatro, mas ela recusa por suas “obscenidades”. Em O Recruta Dennis (1915) temos outra obsessão de Shaw, a questão do patriotismo. É a melhor de todas. “O mundo está desmoronando à minha volta”, diz Dennis, durante a 1ª Guerra Mundial, e foi isso mesmo que aconteceu, segundo os historiadores. A última é Um Quê de Realidade (de 1910, mas publicada só em 1926; o título também poderia ser Um Lampejo de Realidade), uma diatribe do “discípulo do diabo” Shaw a respeito de um frade que, digamos, tem uma certa queda por dinheiro.

Inéditas no Brasil, essas peças fizeram parte da pesquisa da Companhia Ludens, fundada em 2003 para encenar obras de autores irlandeses (como Brian Friel). A trupe não montou esses textos; apenas os utilizou como material para Idiota no País dos Absurdos (The Simpleton of the Unexpected Isles), peça de 1935 que também não havia sido traduzida, e que recebeu direção do próprio Domingos Nunez. Mesmo assim, com esse caráter mais ligeiro e quase experimental, a publicação dessas peças serve para manter vivo o nome de Shaw. Nem todo grande autor é grande até nos momentos menores.

comentários (18) | comente

18 Comentários Comente também
  • 27/03/2010 - 18:03
    Enviado por: Quatro Peças Curtas de Bernard Shaw – Musa Editora

    [...] Bernard Shaw em “pocket show” – de Daniel Piza [...]

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  • 27/03/2010 - 19:29
    Enviado por: Tweets that mention Bernard Shaw em ‘pocket show’ | Daniel Piza -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by Literaturas. Literaturas said: Bernard Shaw em ‘pocket show’: George Bernard Shaw viveu 96 anos (1856- 1950) escrevendo e falando sem parar. Nasc… http://bit.ly/cnrrUn [...]

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  • 28/03/2010 - 13:28
    Enviado por: Wilson

    Piza, qual a editora da publicação?
    Abraço,
    Wilson

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  • 28/03/2010 - 20:22
    Enviado por: smorgasbord

    Caro Piza,

    ‘… mas sempre com estilo e brilho’.

    Será que podemos dizer isso? Bernard Shaw foi um típico socialista radical. Apoiava claramente tanto o socialismo soviético, como o nacional-socialismo alemão, com todas as letras. Não se pode esquecer de sua concordância explícita com ambos os genocídios: o dos hitleristas, com seus assassinatos por razões raciais, e o dos stalinistas. Esse último começou bem antes, foi igual ao do nazismo em crueldade, entretanto foi em um número bem maior.

    Convido a todos a assistirem ‘The Soviet Story’, do diretor estoniano Edvins Snore, onde os artigos de Shaw em jornal e mesmo gravações de seus discursos integram parte desse importante documentário. Premiado em 2008, conta com uma versão quase completa em espanhol no youtube em seis partes, como ‘La História Soviética’:

    1 – http://www.youtube.com/watch?v=0JgdvTAIeAU
    2 – http://www.youtube.com/watch?v=oi6CjkXuGes
    3 – http://www.youtube.com/watch?v=UuNSWaipt4w
    4 – http://www.youtube.com/watch?v=Ae0cdc7P4yA
    5 – http://www.youtube.com/watch?v=6CX6GUoRZKE
    6 – http://www.youtube.com/watch?v=dnNCTzdhT1E

    As passagens com Shaw encontram-se no fim da parte 2, e no início da parte 3. Mas todo o vídeo é muito interessante.

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    • 02/04/2010 - 08:37
      Enviado por: danielpiza

      “Quase sempre com estilo e brilho.” Não me tire o quase. E aproveite e leia a produção de Shaw que importa: as peças como “Santa Joana” e os ensaios.

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    • 02/04/2010 - 12:19
      Enviado por: Ramon

      Tanta gente boa que deu escorregadas feias… Günter Grass, Heidegger, Ezra Pound… mas o título de “Lambão do século XX” não seria melhor deixar com Papini?

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    • 02/04/2010 - 18:30
      Enviado por: ricardo

      Ramon, Deixe de ser lambe-botas de jornalistas lambe-botas, seja você mesmo! Tenha a ousadia de confrontar também… afinal… você está ganhando o quê em só concordar com opiniões de pessoas que ressaltam na mídia? naõ tem personalidade? E claro, o jornalista Piza, não publicará meu comentário….óbvio, pois não “condiz com a opinião do blog”! … Como é louco uma vez admirar, para depois desprezar completamente!

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    • 02/04/2010 - 18:42
      Enviado por: ricardo

      E quanto ao genial Shaw, é quase uma afronta vê-lo publicado aqui, já que (e sendo fiel leitor, desde os 14, de tudo o que de Shaw se publicou por aqui), talvez ele nem lesse o que aqui se comenta, ou jogaria um fogo cruel nas opiniões do “articulista”. Claro….esse post nem será publicado… e imagine minha cara de preocupação com o fato….

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    • 02/04/2010 - 19:40
      Enviado por: Ramon

      Ricardo, preste atenção, meu comentário foi uma observação ao que disse outro colega nosso, o “smorgasbord”, no sentido de acrescentar… mais serenidade, amigo, senão perde-se o foco da conversa. Ab.

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  • 28/03/2010 - 22:26
    Enviado por: Cláudio

    Peraí Piza, você só pode estar de brincadeira! Colocar apenas como gafe o fato de Shaw ter elogiado Hitler e Stalin é absolutamente revoltante!
    Você nem menciona o fato de que foi um efusivo e entusiástico defensor da Eugenia e da ingerência do estado sobre a vida dos cidadãos considerados “geneticamente inferiores”.
    Já em 1910, numa palestra na Sociedade de Educação Eugenista, em Londres, declarou: “Uma parte da política eugenista nos levará ao uso extensivo da câmara letal. Um grande número de pessoas deixaria de existir simplesmente porque perde-se tempo com seu cuidado”.
    E aproximadamente duas décadas mais tarde, em 1934, da maneira mais cínica possível – certamente na esperança de mostrar ao mundo que também era um homem cheio de compaixão por seus semelhantes, mais precisamente por aqueles que queria empurrar para as câmaras letais – teve a desfaçatez de vir a público para apresentar a seguinte solicitação de teor altamente humanista: “Faço um apelo aos químicos para que descubram um gás humano que mate instantaneamente e de forma indolor. Que seja absolutamente fatal, mas humano, sem ser cruel.”

    Shaw era o mal personificado, uma aberração intelectual, e este fato você, Piza, jamais poderia ter deixado de lado neste seu artigo, se é que você se preocupa com a sua credibilidade.

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    • 28/03/2010 - 22:27
      Enviado por: danielpiza

      Eu disse que foi grave. Mas consultar o Google e nunca ter lido Shaw não lhe dá o direito de chamá-lo de mal e aberração. Sartre também elogiou Mao e nem por isso foi um filósofo desprezível. Shaw foi um baita crítico e dramaturgo.

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  • 29/03/2010 - 09:47
    Enviado por: Cláudio

    1) Gafe: ação e/ou palavras impensadas, indiscretas, desastradas;mancada (Dicionário Aurélio). Apoiar Hitler, Stalin e fazer apologia da Eugenia não representou uma tomada de posição impensada de Shaw, e sim consciente.
    2) Quer dizer então que o Google é uma fonte de segunda categoria? Se assim for, portanto, se algum internauta tomar conhecimento dos seus artigos através dessa ferramenta deverá descartá-los e dos mesmos desconfiar logo de cara?
    3) Como é que você pode afirmar que nunca li Shaw, se nem me conhece?! Caramba, me parece que a sua paixão por Shaw não tem mesmo limites, até mesmo o hábito das gafes dele você está herdando.
    4) Acusar Shaw de “mal personificado” e “aberração intelectual” então não é um direito meu? Incrível ouvir isto de um homem de imprensa, supostamente defensor da liberdade de expressão!

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    • 29/03/2010 - 10:22
      Enviado por: danielpiza

      Claro que é um direito seu. Cada um com suas manias. Mas é que achei estranho suas referências a duas passagens do Shaw que são exatamente as referidas na Wikipedia. Isso de um sujeito que escreveu mais de 50 peças…

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  • 29/03/2010 - 11:39
    Enviado por: ricardo

    Já ouvi muita gente descendo o sarrafo em Nelson Rodrigues, por exemplo, por ter apoiado a ditadura na época braba. Há que ter um esforço em separar as coisas, pra depois juntá-las novamente, e depois separá-las de novo. È um tema e tanto, mas concordo com o articulista: TEM QUE LER O CARA PRIMEIRO. Não é ir descendo a lenha e ponto final. E pessoal: cuidado com o Wikipédia, ela é boa pra rememorar alguns fatos e não pra se estudar em profundidade! Não tem jeito, tem que ir aos livros…

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  • 29/03/2010 - 11:46
    Enviado por: ricardo

    E tem mais… a maioria que critica o Socialismo, não sabe nem o que significa o socialismo, sabe que o “Che guevara” é o cara estampado nas camisetas e leu “o pensamento vivo de marx”. Os grandes sistemas filosóficos produzem o que chamam da parte vulgarizada do pensamento, mas tem que ter um pouco de insistência na reflexão íntima. TEM QUE LER O OUTRO LADO TAMBÉM pra formar opinião.

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    • 30/03/2010 - 18:26
      Enviado por: smorgasbord

      Ricardo, seria mesmo muito bom que os socialistas, além de eventualmente ler Vico, Hegel, Marx, Engels, Lenin, Shaw, Sartre, Gramsci, Brecht, Hobsbawm, Neruda, escapassem dos buracos negros da esquerda, e lessem de repente com atenção os maiores filósofos do século XX. Que tal, para começar, Isaiah Berlin, Karl Popper, Ludwig von Mises, e Friedrich Hayek?

      Tenho 67 anos, e ainda estou para conhecer um socialista sequer que tenha real noção das duas posições, socialismo e liberalismo, que representam o debate importante hoje – em contraste com esse infantilismo esquerda-direita que grassa por aí. Aliás, nenhum que pudesse argumentar sobre o racionalismo e o anti-racionalismo com conhecimento de causa.

      Há que deixar de ficar encantado com o próprio umbigo!

      A crítica, claro, não se aplica a quem tenha lido e possa discutir – digamos – pelo menos Popper e Hayek. Que pode ser o seu caso.

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  • 30/03/2010 - 10:37
    Enviado por: Quatro Peças Curtas de Bernard Shaw

    [...] Bernard Shaw em “pocket show” – de Daniel Piza (O Estado de S. Paulo, 27/03/2010 – Caderno Sabático, n°3) [...]

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