O cronista Luis Fernando Verissimo escreveu certa vez uma história para a TV em que a vida de um grupo de amigos era narrada por seus indefectíveis encontros de quatro em quatro anos: eles haviam selado o pacto de torcer juntos pelo Brasil em todas as Copas. Casamentos, divórcios, filhos, empregos, desempregos, mudanças de endereço e sexualidade – tudo era resumido e reavaliado nessas datas. Qualquer um de nós, da mesma forma, pode rever sua própria biografia usando as Copas como capítulos.
Não estranha, portanto, que a dois meses de iniciar a Copa do Mundo da África do Sul os produtos editoriais e audiovisuais sobre o assunto já apareçam com força nas bancas e lojas. Isso é recorrente, claro, mas a quantidade e a qualidade parecem cada vez maiores. E tardiamente, na verdade: o maior evento esportivo do planeta daria ensejo a muito mais ideias, mesmo que não fossem tão bem sacadas quanto a de Verissimo. Como os ídolos do cinema ou as canções populares, grandes jogos pontuam nossa memória emocional – e os grandes jogos de Copa de maneira ainda mais intensa, pela periodicidade e importância.
Ao ler ou folhear O Mundo das Copas, do jornalista Lycio Vellozo Ribas (editora Lua de Papel, 608 págs., R$ 69,90), a sensação não é outra. É um almanaque realmente completo, com uma quantidade de informações e curiosidades que nenhum Google pode suprir numa mesma sentada. Para fazer par com ele, a coleção de filmes oficiais Copa do Mundo Fifa 1930-2006 começou a sair na sexta-feira. São 15 DVDs semanais a R$ 9,90 cada, e o primeiro é o da Copa de 70. Assim como o álbum de figurinhas do Mundial da África do Sul que o Estado publica hoje, o registro afetivo do evento é o que tem dado o tom.
Pegue então como exemplo o capítulo de O Mundo das Copas sobre a da seleção tricampeã. A abertura conta quais eram as regras, a bola, os estádios e os participantes, seguidos pela tabela dos grupos. O texto seguinte mostra como o Brasil se preparou e quais eram os 22 convocados, com idade e clube de cada um. Depois há a ficha de cada jogo, com a descrição de cada gol e uma sinopse comentada ao lado, destacando os melhores jogadores; semifinais e final, obviamente, recebem mais espaço, com arte de um dos gols. Há ainda a lista de todos os artilheiros e uma ficha de cada campeão, mais curiosidades e uma seleção dos melhores da Copa.
Em 1970? Foram Mazurkiewicz (Uruguai), Carlos Alberto (Brasil), Cera (Itália), Beckenbauer (Alemanha) e Cooper (Inglaterra); Clodoaldo, Gerson, Pelé e Rivelino; Jairzinho (Brasil) e Müller (Alemanha). A exclusão de Tostão pode render longos papos de botequim, mas esse é o risco e a graça dessas listas. Ainda mais depois de vê-lo em ação no DVD da Fifa, que traz o documentário original completo da Copa, com 90 minutos de duração. Nos extras há sempre biografias de jogadores que fizeram história nesses 76 anos, como, no caso, Roberto Baggio e Ronaldo. Há também um Dossiê Placar, um livreto de 32 páginas com tabelas, estatísticas e fichas dos jogos.
As últimas cem páginas do livro de Ribas ampliam a goleada de dados. Há quadros com a evolução tática e curiosidades como “as dez maiores viradas” ou “as dez maiores goleadas” e um comparativo da altura dos jogadores, apenas a título de ilustração (afinal, Messi tem 1m69 e é o maior jogador às vésperas da Copa de 2010). Algumas tabelas dão o que pensar, como a que mostra a queda na média de gols por Copa, que chegou a 5,37 em 1954 e baixou a 2,29 em 2006; ou seja, o futebol atual é, sim, mais disputado e marcado. Outro quadro provocante é o das “grandes ausências da história”, que incluem Di Stefano, George Best e Weah. Está aí uma ideia: uma história sobre os craques que não foram às Copas, sentados diante da TV, sofrendo como jogadores e curtindo como torcedores ao mesmo tempo. Verissimo?
“I spent a lot of money on booze, birds and fast cars. The rest I just squandered.” (George Best)
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As Copas são eventos verdadeiramente familiares. Até aqueles que odeiam futebol não perdem uma jogo de Copa com os amigos.
Quanto à média de gols, devemos levar em consideração também a evolução dos goleiros, que antigamente eram, com todo respeito, ridículos.
Comprei o barato!
Daniel, tudo bem? Você tem mais informações sobre esses DVDs da Copa? É material inédito ou seria aqueles documentários da Fifa, acho que que compõem o DVD Fifa Fever, se não me engano. Eu pesquisei mas não encontrei essa informação. Obrigado!
Sim, Fernando, são os mesmos filmes do “Fifa Fever”, afinal os documentários oficiais de cada Copa. Os extras, como as biografias, é que são novidades.
responder este comentário denunciar abusoOla Piza,
Gostaria de ouvir seus comentarios sobre Jorge Mautner e Ná Ozetti.
Abraços
Ju
[...] Piza, no Blog do Estadão, sobre O Mundo das Copas, livro do curitibano Lycio Vellozo Ribas, que será lançado hoje (5ª [...]
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