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Daniel Piza

18.abril.2010 07:14:41

As canções que mudaram minha vida

O que faz uma grande canção? Não é apenas a melodia agradável ou com batida empolgante, nem apenas a letra eficiente ou com versos sacados; não é nem mesmo a conjunção de uma com a outra; é a conjunção de tudo isso com o momento em que é feita, de tal modo que capta ou revela um potencial da sensibilidade, como uma polaroid de um período que pode sobreviver a ele. Letra não é poema e pode cativar com a simples musicalização de uma frase banal (“Eu sei que vou te amar por toda a minha vida”), pois as sílabas também fazem parte da sonoridade; e a música pouco é sem a letra, sem a possibilidade de que as palavras sejam repetidas pela audiência. E mesmo assim uma grande canção pode não ser um hit espontâneo, imediato, e levar algum tempo para ser uma tradução de seu tempo. A maioria dos hits, por sinal, morre; as grandes canções continuam vivas depois que saíram das paradas.

A Canção Que Mudou Minha Vida é o nome de um programa de TV francês, citado por Alain Resnais em Medos Privados em Lugares Públicos (título inacreditável para o original Coeurs, “corações”), em que um convidado escolhia uma canção que o marcou e tentava explicar o porquê (ou melhor, o como). Talvez soe forte demais dizer que uma canção mudou uma vida, mas, por isso mesmo, podemos dizer que algumas canções mudaram nossa vida. Afinal, há momentos, pessoas e lugares que não conseguimos lembrar a contento se não lembramos também a canção associada a cada um – e não por acaso todo amor tem uma trilha e este tema tem sido cada vez mais presente no cinema, em Resnais ou em autores bem menores, como o do filme (água-com-açúcar disfarçada) 500 Dias com Ela.

Há quem diga que “a canção acabou”, como Luiz Tatit ironiza em seu novo CD, mas o que está acontecendo é o contrário. Com mp3 e iPod, as canções de todas as épocas têm circulado e sido escutadas como nunca. Há um risco aí, que é a perda de espaço do CD, do álbum que une conceitualmente um grupo de canções (como as canções praieiras de Dorival Caymmi ou as canções de fossa de Frank Sinatra, para não falar de ópera rock como Tommy, do The Who, e Pink Floyd the Wall, admirada até por Jorge Luis Borges), mas a unidade canção não poderia estar mais em voga. Uma prova disso é a lista da revista Esquire que me caiu recentemente em mãos, “50 canções que você deveria ouvir agora”, o que até alguns anos atrás seria uma lista de CDs.

***

Que CD extraordinário é o novo de Peter Gabriel, Scratch My Back! Ele “coça as costas” de 12 compositores que admira, interpretando as canções com um arranjo extremamente sofisticado, com andamento lento e uma orquestração inspirada em pós-minimalistas como Arvo Pärt e Steve Reich, e ao mesmo tempo com um apelo emocional muito direto. Gabriel sempre foi melhor de show do que de obra (como Prince, tem mais talento musical do que suas canções dão a entender), mas aqui fez um disco que “acontece”, que invade a sala de sua casa. Mistura clássicos do pop como Heroes, de David Bowie, The Boy in the Bubble, de Paul Simon, e The Power of the Heart, de Lou Reed, além de Talking Heads e Neil Young, com joias recentes como Street Spirit, do Radiohead, My Body Is a Cage, do Arcade Fire, e a excelente Flume, de Bon Iver, de longe a melhor das listadas pela GQ. A canção está longe de morrer. Se a vida é feita de momentos, nada melhor para ilustrar isso.

Stacey Kent decidiu homenagear a canção francesa em seu novo CD, Raconte-moi, mas a primeira faixa é – em francês – Águas de Março, de Tom Jobim, que ela diz ser “a melhor canção do planeta”. Ela conta que escutou diversas gravações, como as de Elis Regina e João Gilberto, e não dá para não afirmar que a sua está abaixo. Mas tem afinação e swing e o CD traz outras interpretações bem boas, muitas de compositores jovens, outras de antigos, como Le Mal de Vivre, de Barbara, que tem o segredo das grandes canções, que era também, obviamente, o segredo das canções de Tom: ao chorar o desencontro amoroso, ela celebra a vida. Talvez seja por isso que a maioria das melhores canções são tristes no fundo. E mesmo quando alegres ou aceleradas na forma, como em Jorge Ben ou nos Beatles, basta prestar atenção à letra para ver que pedem para a chuva parar e o sol chegar.

Greil Marcus mostra isso como poucos no livro Like a Rolling Stone, inteiramente dedicado a contar como, onde, quando e por que Bob Dylan compôs essa canção. Gosto muito de Hurricane, que também tem essa qualidade narrativa – o videoclipe já existia antes de ser inventado – que as grandes canções têm, mas não há como negar a importância da escolhida por Marcus. Ele mostra o contexto histórico e político (o que faltou no documentário que comentei semana passada, Uma Noite em 67, sobre o festival da Record, mas o objetivo não era esse), a “encruzilhada” de Dylan entre o folk e o rock e entre a fama e a originalidade; e acima de tudo descreve o que é a canção, sua dinâmica variada, sua força emocional, suas sombras intencionais – um som tão rico que ela “nunca é tocada duas vezes da mesma maneira”. Boa.

***

Nem sempre as melhores canções são as que mudaram nossa vida e vice-versa. Quando escuto Pai, de Fábio Jr (confesso), ou Sentado à Beira do Caminho, de Roberto Carlos, me lembro da infância. Ou Nelson Gonçalves cantando numa novela “Caboooocla, seu olhar” (que mais tarde ouvi na versão superior de Orlando Silva). Mas muitas vezes as melhores são também as que mudaram. Quando escutei Retrato em Branco e Preto pela primeira vez, com João Gilberto, e também com ele Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, descobri um mundo à parte, de uma riqueza melódica e harmônica, que casou bem com a fase de amadurecimento que vivia – assim como o cancioneiro americano de Gershwin, Porter e Berlin. Como separar Joana Francesa, de Chico Buarque, do namoro que ela embalava – com sensualidade digna de um Marvin Gaye? Se eu fosse ao programa francês, certamente citaria Chet Baker cantando “I fall in love too easily/ I fall in love too fast” (Sammy Cahn), com uma doçura melancólica que não sai da memória. E o que é descobrir os citados Beatles, Dylan e Pink Floyd quando se é adolescente e se quer expressar o desajuste em verbos e atitudes?

Canções envolvem atitudes desde que os trovadores as usavam para cantar as mulheres com intenções profanas sob a elegância provençal. Ou, como dizia o valsista, o bom da vida são “vinhos, mulheres e canções”. Há incontáveis atitudes, e não apenas a rebelde, e as canções importam mesmo quando – ou especialmente quando – não têm essa pretensão toda. Há grandes cancionistas vivos, com os mais diversos recados existenciais, e lamento muito que a tirania da música-pulsação tire espaço de coisas menos gritantes. Peter Gabriel homenageia alguns em seu CD, no qual senti falta apenas de Leonard Cohen, e temos ainda Tom Waits – muito refinado a partir de uma base quase rústica, tirada de circos e cabarés – e Elvis Costello, gravado até por Ute Lemper e Anne Sofie von Otter. E dois dos maiores hits da primeira década do século 21, You Know I’m no Good, de Amy Winehouse, e Crazy, de Gnarls Barkley, são duas grandes canções.

Mas chega. Meu catálogo poderia encher páginas, mas acho que a esta altura o leitor já está ligando o som.

comentários (23) | comente

23 Comentários Comente também
  • 18/04/2010 - 08:05
    Enviado por: Tweets that mention As canções que mudaram minha vida | Daniel Piza -- Topsy.com

    [...] This post was mentioned on Twitter by Literaturas. Literaturas said: As canções que mudaram minha vida: O que faz uma grande canção? Não é apenas a melodia agradável ou com batida emp… http://bit.ly/b8GeXv [...]

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  • 18/04/2010 - 09:55
    Enviado por: Jo lima

    Há uma coisa que a música permite – e que a literatura,ao pé da letra, não – que é você pegar uma canção e ter vários formas de ela ser cantada e assim recriando-a. Para mim, um exemplo é a canção My Funny Valentine, ouvida na voz de Chet Baker e Sinatra. Já admito que a versão que adoro é a de Chet. O impressionante é que quando Chet termina de cantá-la, a cena que me vem a cabeça e da amada que vai aos poucos o abandonando para nunca mais voltar – enquanto na versão de Frank vejo a amada até indo, mas, passado um tempo que nem dá tempo pra porta fechar, ela volta e se atira nos braços do amado e os dois trocam juras de amor eterno.

    Aliás, se eu fosse dono de gravadora, lançava cds em que o tema seria uma música só – Summertime, Águas de Março, I’ve got you under my skin, Night and day etc – que teriam 10 versões diferentes.

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  • 18/04/2010 - 12:29
    Enviado por: alberto

    Obrigado.

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  • 18/04/2010 - 13:12
    Enviado por: José Rubem

    Na verdade, Piza, o filme do Resnais se baseia num livro intitulado Medos Privados em Lugares Públicos. Quem mudou o título para Couers foi ele. Claro que, uma vez que ele mudou o nome, as traduções talvez devessem segui-lo (nos EUA também ficou Private Fears…). Mas não se trata de um absurdo “inacreditável” da cabeça de um tradutor, como em tantos outros casos.

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  • 18/04/2010 - 13:37
    Enviado por: Priscilla Bremer

    Admito que esta eh a primeira vez que envio comentários pessoais sobre coluna lida no jornal. Habitualmente nao leio durante a semana, por múltiplas razoes, no entanto, sempre tive uma necessidade interior muito grande pelo jornal de domingo! Ah! Momentos prazeirosos na leitura do que os colunista escrevem… o resto costuma ser delegado ao embrulho de itens diversos…
    Mas a delicia suprema deste domingo deu-se em especial ao ler sua coluna, habitualmente ja bastante apreciada, com o tema particular das canções…
    Sempre acreditei que para cada momento vivido, haveria uma trilha sonora especifica, nao vinculada a um compositor ou interprete em especial, mas particularmente a canções, muitas vezes mais expressivas quando executadas por um ou outro interprete/musico.
    Por exemplo, uma das minhas preferidas, “While my guitar gently weeps”, o compositor foi George Harrison, mas duas em particular me emocionam mais: Jeff Healey, e a versao gravada por Eric Clapton com o filho de George, no Concerto no Royal Albert Hall, justamente em homenagem ao compositor. Existe algo no ar, que nao ha como dizer, somente se sente.
    E por ai vai, a lista.
    Obrigada, por enriquecer e emocionar o meu domingo. Escreveu tao bonito que me “apaixonei” …
    Priscilla

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  • 18/04/2010 - 20:23
    Enviado por: daniel galligani

    Ola Daniel…. Gostei muito desse post…. Acho legal que o Chet Baker quando gravou suas musicas foi acusado de um falso cantor…. essa suavidade era tida como feminina…nada digno da época dos grandes crooners…. bem..ainda bem que o tempo é uma boa peneira não? mostra que as vezes o que reluz é ouro sim senhor hehe…
    Daniel… quer ver um blog de uma escola publica no meio do mato numa cidade minuscula? olha ai…. zulmirao.zip.net da escola Zulmiro Alves de Siqueira da cidade de jarinu…. abraço… e entra la.. é importante divulgar.. temos que ter boas idéias

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  • 19/04/2010 - 02:17
    Enviado por: Mauro Souza

    Eu e a Brisa

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  • 19/04/2010 - 06:58
    Enviado por: rené

    Chet Baker é uma das coisas mais impessionantes na música, pela delicadeza da colocação da voz e pela impressionante colocação do instrumento. Pena que pouco divulgado

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  • 19/04/2010 - 10:05
    Enviado por: Renata

    Oi Daniel,
    Fantástico artigo. Assim como você, eu acredito que as canções marcam para sempre momentos importantes da vida das pessoas que têm sensibilidade para isso.
    Minha vida tem trilha sonora…
    Um grande abraço,

    Renata

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  • 19/04/2010 - 12:01
    Enviado por: José Fernando Gullo

    Qual seria a lista citada na magnífica revista GQ ?
    Qual edição da GQ , de que país ?
    Excelente seu artigo de domingo , parabéns !

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  • 20/04/2010 - 10:06
    Enviado por: Andréa

    Caro Daniel,
    Que falta fazem seus comentários musicais e outros tantos extremamente pertinentes nas manhãs da Rádio Eldorado !!!
    Você abandonou a rádio ou está apenas em longas férias?
    As manhãs sem o Daniel Piza muito entristecem os ouvintes da Eldorado…

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  • 20/04/2010 - 16:40
    Enviado por: Álvaro

    Caro Daniel.

    As letras são importantes, claro, mas você deu a entender que músicas instrumentais não podem ser marcantes.

    Nenhuma sinfonia ou um jazz-não-cantado entram na sua lista? Na minha, entrariam vários, hehe.

    Abraço e parabéns pelo texto.

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    • 20/04/2010 - 16:57
      Enviado por: danielpiza

      Álvaro, não dei a entender nada disso, e quem me lê sabe quanto prezo clássica, jazz e a música instrumental brasileira, de Garoto a Yamandu. Mas o tema do texto são canções. Abraço.

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  • 20/04/2010 - 19:29
    Enviado por: antonio bezerra neto

    É tão bom ouvir a melancolia de Chet Baker. Paraece acenar para abissos nunca vistos.

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  • 21/04/2010 - 02:35
    Enviado por: Bento Moura

    Piza,
    É perfeito ler ” Adrienne Mesurat” e atrás Chet em ” White Blues”.
    O progressivo enlouquecimento da moça junto aos compassos – descompassos do músico: Ambos se entrelaçam e criam uma espécie de ‘cumplicidade’ meio paradoxal… Ok, não sei se cumplicidade seja a palavra adequada, então diria, uma espécie de comunhão – ainda que biográfica.

    Gosto muito quando você escreve sobre literatura, e se aceitar minha sugestão/pedido, poderia fazê-lo com (e sobre) “República dos Sonhos”, “As Ondas” e ” A terceira margem do rio” ?
    Valeu.

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  • 22/04/2010 - 17:43
    Enviado por: Antônio Gonçalves Caneiro

    Há outra foto de Chet Baker, feita no mesmo recinto dessa divulgada no vídeo, mas com uma diferença fundamental: em vez de “close-up”, a foto distancia o músico e o coloca isolado num canto, descrevendo sua posição na vida. Quando a vi, lembrei uma frase de Paulo Mendes Campos, numa das crônicas que escrevia na revista Manchete: “O adolescente não é poeta, é uma vítima da poesia”. A frase bate com um filme já esquecido, estrelado por Kirk Douglas (vivo ainda o bastante para apoiar moralmente o neto condenado pela justiça), numa biografia disfarçada do também pistonista Bix Beiderbecke. Chet pertence à categoria de artista para o qual só existe sua arte (Modigliano, Van Gogh, uma enorme quantidade de jazzistas). Todos temos alguma coisa dele e não conseguimos separar o que ele é de sua música (verbos no presente, como é de rigor). Num momento deste Brasil desgraçado por uma eleição que, já se sabe, não vai adiantar nada para o povo, fiquemos com os que são tão desprovidos de egoísmo destruidor que não conseguem elevar sua voz e são massacrados pelas circunstâncias. São os santos que podemos ter em nossos dias atuais.

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  • 23/04/2010 - 17:59
    Enviado por: ricardo

    A música independe de raciocínio, independe da razão. Diferentemente das outras artes, a música nos capta ou não. È a maior das artes, tanto pela lembrança emotiva (èpocas vividas, situações, amores, etc), como pela identificação imediata, sem mediação intelectual. Lembro-me quando ouvi Chet Baker pela primeira vez…não “entendia” nada de Jazz, curtia só rock and roll e MPB. Mas o cara me fisgou, e daí fui pra outros (Miles Davies, Bird,etc). A maior e mais democrática das artes: A música. Até o dito “Brega” não nos importa, quando nos fisga. A música é a comunicação da alma.

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  • 24/04/2010 - 10:13
    Enviado por: Meu iPod básico | Daniel Piza

    [...] meu iPod tivesse apenas 50 canções, quais seriam? Ensaiei uma lista básica, para convidar os mais [...]

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