
Está bonita a exposição de Andy Warhol na Estação Pinacoteca. Ele tinha talento, sem dúvida, e isso fica claro em séries de retratos como as de Jackie Kennedy (toda em “blues”, como realçando sua elegância em meio ao luto) e Marilyn Monroe (cosmética em versões variadas, sugerindo que aquele rosto tão conhecido não é um rosto que conhecemos). Há uma frase de Warhol se queixando de como a mídia “programava os sentimentos” no dia da morte de John Kennedy, e é sobre isso que suas serigrafias pretendiam falar. Mas muitos outros artistas da segunda metade do século trataram desse tema com crítica mais clara (Rauschenberg, por exemplo) ou foram melhores pintores (De Kooning, Francis Bacon) – e Warhol, para os milhares de visitantes, faz parte desse mesmo mundo de famosos e marqueteiros entre os quais vivia.
Do lado de fora, sob a marquise do futuro centro de dança à frente da Sala São Paulo, uma multidão de mendigos ocupava a calçada. Essa imagem se repete cada vez mais, mas as pessoas preferem não ver.
Piza gostei do que você escreveu. O contraste que você sugere entre a imagem midiática (e seu entorno muitas vezes fútil) e a imagem real dos mendigos foi de uma sutileza e sofisticação dignas de comentário. Valeu!
“… mãos “pesadas”, dão péssimos esboços.”
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Pode crer… seu blog é uma prova disso. tsc, tsc.
André Felipe,
Não disse? Seu texto era melhor que o esboço….
Caro Daniel Piza,
você acredita que Warhol será considerado um clássico daqui um século?
Não sou muito afeito ao “talento” dele, mas é inegável que traduziu como poucos a visão de mundo(Weltanschauung) de seu tempo. É o artista pós-moderno por excelência. Suas serigrafias, herdeiras da desconstrução técnica arquitetada por Duchamp, são uma boa oportunidade para os jovens debutarem na arte do século XX.
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Mendigo é difícil de acabar, só existem medidas paliativas. Numa praça, perto de casa, estava acontecendo o mesma problema. A solução mais eficaz, apesar de não ser duradoura, é usar uma isca muito tentadora. De todas as testadas a que deu melhor resultado foi esta, segue a receita:
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- uma garrafa vazia
- 5 paçoquinhas
- um terço de água
- uma terço de pinga
- um terço de metanol
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Misture tudo, engarrafe e deixe nas imediações. É garantido. Se a infestação for grande é só repetir a operação ou colocar mais garrafas. Ou ainda usar um centésimo do que será gasto na construção da “cidade da dança” na promoção social destes seres humanos. Abs.
André Felipe,
você não entendeu…o artigo não fala de mendigo como um “problema difícil de acabar” como uma “infestação”… mas de uma questão social, de um fosso, de uma perplexidade. Não entendeu a sutileza da coisa toda. As repetições de Warhol são as repetições da reprodutibilidade técnica e do consumo. o artigo de poucas linhas tangencia o paradoxo entre a crítica de Warhol (vista como “oh, crítica da reprodutibilidade técnica) e a realidade das repetições reais da pobreza extrema no país, que, por falta de construção midiática, estão “invisíveis”, como tudo o que não recebe o tratamento “especializado” dos entendidos em comunicação .O artigo é dostoiévsk, cara.
Bebeu metanol, “cara”? Você é que não compreendeu a crítica que fiz ao mega-projeto da “Cidade da Dança”, no qual serão gastos centenas de milhões de dólares, enquanto não se faz nada para resolver de vez esta séria questão humana. Entendeu agora ou quer que eu desenhe?
responder este comentário denunciar abusoNão… por favor não desenhe…! Sou desenhista, e sei… mãos “pesadas”, dão péssimos esboços!
responder este comentário denunciar abuso.
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Papo de artista e mendigo
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- Conhece o pintor e cineasta norte-americano Andy Warhol?
- Não foi ele quem disse: “No futuro, toda a gente será célebre durante quinze minutos”?
- Ele mesmo. E você não gosta dessa declaração?
- Gosto, mas tenho receio.
- Medo do quê?
- Quando esses quinze minutos chegarem eu esteja sob a marquise dormindo, né?
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Bravo! Não consigo entender como as pessoas se comovem e/ou se estarrecem diante de uma obra, mas não conseguem fazer a devida equivalência com a vida. Talvez Ana Cristina César consiga responder: “É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço. “
… e sem contar que o tal “Palácio da Dança” terá um custo astronômico. Só os honorários dos arquitetos Herzog e De Meuron (contratados sem concurso e nem sequer concorrência pública) são “olimpicamente” maiores daquilo que o Governo do Estado de São Paulo paga para a arquitetos brasileiros via FDE, por exemplo. Que conste: nada contra a construção de um centro de excelência da dança e nem a contratação de escritórios estrangeiros (aliás, sou plenamente a favor em ambos casos), mas o desrespeito aos profissionais brasileiros é impressionante. E não me venham com a balela do “notório saber”, por favor…
Não deu pra entender, caro Ramon, a favor da construção do Palácio da dança e contra ao mesmo tempo? Não entendi….
responder este comentário denunciar abusoricardo, pára de brigar, meu camarada… deixemos essas disputas para os quadrinhos da Marvel; Êita, cabra arretado!. Explico que sou contra que se construa o Palácio da Dança nas condições em que estão sendo conduzidas as coisas e aproveito para citar somente um aspecto disso que complementa o que o André Felipe levantou. O que vou falar não é nenhuma novidade mas cabe divulgar a discussão para fora do meio arquitetônico. Só com o corte de exorbitâncias “neste” Palácio da Dança já haveria condições de acolher de forma decente e humana a essa gente com a finalidade de reinserí-las socialmente. E, mesmo assim, teríamos um espaço para a Dança tão digno quanto são a Sala São Paulo, a Estação Pinacoteca, a Pinacoteca do Estado, o Museu da Língua Portuguesa e o renovado Mercado Municipal. Para isso não faltam excelentes arquitetos a honorários nacionais, bastam os exemplos dados para confirmar isso. Ou seja, sou plenamente a favor da construção de um Palácio da Dança. E se for projeto arquitetônico de estrangeiros, talvez até melhor. Acho que isso seria ótimo para a própria arquitetura nacional, a mesma opinião do Piza e vide Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre e idealizada pelo português Álvaro Siza (Hum, “Piza… Siza” essa rima ficou feia, rs… só a rima, Daniel, só a rima que não gostei!). Mas tudo tem que começar sendo feito de maneira, no mínimo, respeitosa: pagando honorários, a qualquer que seja o projetista, compatíveis com as tabelas destinadas para um mesmo trabalho. No Rio Grande do Sul o prédio foi bancado, exclusivamente, pelo setor privado. Em São Paulo, pelo que se sabe até agora, será pelo poder público. No caso “deste” Palácio da Dança, o Governo do Estado de São Paulo aponta o “notório saber” para a escolha (repito, sem concurso, concorrência ou Licitação Pública) como brecha para justificar a contratação (por valores altíssimos para os padrões nacionais) de arquitetos do “star system” mundial, só para criar mais impacto. É uma pena, pois tudo poderia vir em perfeita medida e a preços já praticados. Grande orgulho termos um “ninho de pássaros” e a “multidão de mendigos” ficar sendo varrida, indefinidamente, como poeira! Qual será a grande obra que será construída no local para onde futuramente essa “multidão de mendigos” irá migrar, e a ser usada como objeto de marketing político? Enquanto não temos essa resposta, é poeira para cá, poeira para lá… Ah, arquitetos estrangeiros não atuam com honorários como os que se têm aqui? Bem, o que não tem remédio, remediado está. E bota bem remediado que estaria no caso deste Palácio! Só teríamos que esperar outras oportunidades para os grandes nomes da arquitetura internacional contemporânea pousarem suas naves por aqui. Mas deve haver uma saída para esse impasse, só basta sentar e pensar um pouquinho que seja; seria o caso de fazer politica, e não politicagem. Ainda por cima com o dinheiro dos outros e sem resolver problemas tão desagradáveis como o dessa gente excluída. Abs. a todos.
responder este comentário denunciar abusoData venia, mas lamento dizer: sua posição é favorável a reserva de mercado. Isso não é bom! Que o mundo possa participar da dinâmica de São Paulo. Com profundo respeito. Antonio Bezerra Neto.
responder este comentário denunciar abusoRamon, não estou brigando com ninguém não… somente deixei uma indagação no ar. Concordo com tudo o que vc disse, e digo mais: não só os profissionais da arquitetura, mas quase todas as profissões ligadas à arte, sofrem esse tipo de problema aqui no país.
responder este comentário denunciar abusoNada disso, Antonio. A “defesa de reserva de mercado” é a interpretação mais fácil. E para dissipar essa conclusão equivocada, expresso claramente que sou a favor de que arquitetos estrangeiros atuem no Brasil; repito que entendo isso como algo positivo para a arquitetura brasileira. O problema está na postura diferente que o Estado de São Paulo adota quando negocia com brasileiro e estrangeiros. No final, ressalto: “Ah, arquitetos estrangeiros não atuam com honorários como os que se têm aqui?”. E, mais adiante, aponto para a solução: “…deve haver uma saída para esse impasse, só basta sentar e pensar um pouquinho que seja; seria o caso de fazer politica, e não politicagem”. O secretário estadual de cultura João Sayad tem experiência mais do que suficiente para, por exemplo, reunir um pool de investidores que banque os honorários de Herzog e De Meuron, os mesmos responsáveis pelo projeto do “Ninho de Pássaros” na China. Isso seria entendido como fazer política. Do jeito que está sendo conduzida a coisa, com a intenção clara de gerar impacto midiático (e desrespeitando arquitetos brasileiros), é politicagem e das mais baratas, com o perdão do trocadilho. Ainda aqui poderia restar a pergunta: Então por que não se reúne um pool de empresas para aumentar os honorários pagos normalmente aos arquitetos pelo Estado? A resposta é simples e plenamente justificável: a excessão feita no caso do Palácio da Dança seria em nome do benefício que se proporcionaria à cultura arquitetônica nacional, a exemplo do que ocorreu em Porto Alegre. Assim, não se criaria qualquer polêmica como a que relatei. Isto posto, nobre causídico (atenção, isto foi só uma piadinha simpática na linha do seu “data venia”) aproveito para comentar seu comentário sobre a “urbanização em massa”. A prática de somente empurrar populações mais pobres de áreas valorizadas, sem resolver de forma adequada o problema dessa gente, está mais para “urbanismo excludente”. A “multidão de mendigos” a que o Piza se refere é oriunda sobretudo da Cracolândia, área lindeira ao futuro Palácio da Dança e que está sendo revitalizada. Não tenho a pretensão de ser a tecla “sap” do post, até mesmo porque não acho necessário esse recurso nos textos do Piza. Mas acredito que seja daí a palavra “repetições” no título do post, numa ótima brincadeira com um termo muito recorrente quando se fala da obra de Andy Warhol. Foram vistas “repetições” na exposição do ícone da arte pop, assim como quando se reparou no grande grupo de miseráveis sob a tal marquise. Como se vê, o Governo do Estado também está “fazendo arte”, só que da pior qualidade e com o nosso dinheiro. Abs.
responder este comentário denunciar abusoO Ramon quase nunca fica bravo, mas quando fica…(rsrs). Abração Ramon….
responder este comentário denunciar abuso… e Ramon, o primeiro amigo virtual que fiz aqui no blog… só pra provocar… “essa gente excluída” é toda a humanidade. A miséria é algo muito subjetivo… ela não está estampada, muitas vezes nem visível é….
responder este comentário denunciar abusoCRÍTICA AOS RESPONSÁVEIS TÉCNICOS DOS BLOGS DO ESTADÃO:
A página do Estadão na parte dos blogs estã com problemas: as vezes enviamos comentários e “somos notificados de erro”. O post Do jornalista Daniel PIza sobre o FIlme de john Houston, não foi possível comentar pois aparece um erro. O site ficou mais bonito (Exceto pelo azul da barra laterail TUDO MENOS ESSE AZUL), mas antigamente a interação era melhor. Menos chantilly e mais praticidade. Desculpem-me, e desculpe o Piza, mas não sei nem pra quem enviar essa crítica.
RIcardo Tavares
Piza, o último parágrafo do seu post é bem revelador. Impressiona-me a quantidade de despossuídos vagando pelas cidades do Brasil. A urbanização em massa talvez explique essa calosidade. Morei em Havana e jamais vi um mendigo. Nunca utilizei um cadeado. O Brasil parece pouco inspirado quando o problema é social.
Estive algumas vezes em Havana e, de fato, a mendicância está praticamente superada ali. Nunca ví nenhum sem-teto na ilha de Fidel.
responder este comentário denunciar abuso…e também não há crianças morrendo por subnutrição, tampouco analfabetismo funcional como aqui.
responder este comentário denunciar abusoSenhor Jornalista. “…aquele rosto tão conhecido não é um rosto que conhecemos.” Sua frase de hoje, 28/03/10, coincide com o que penso dela, MM. Uma de minhas atividades de internauta é organizar arquivos de fotos vintage, tenho uma imensidade. O principal assunto é ela. Não foi intencional: à medida que garimpava fotos antigas, quando encontrava alguma dela, ficava surpreso com a multiplicidade de expressões, fisionomias, maneiras de ser. Era ela, mas era outra pessoa! É inevitável a comparação: só há uma imagem da Mona Lisa é não há unanimidade de conceitos sobre ela; Marilyn tem milhares de fotos, o que nos impede de conhecê-la em sua plenitude, talvez nem ela se conhecesse ou talvez se aproveitasse das diferenças de visões. O playboy Jorginho Guinle (ainda é vivo?) declarou numa entrevista que pagou uma prostituta em Nova Iorque que jurou ser ela. Tal redução de um ser humano depõe menos contra ela, se isto for verdade, do que contra ele. Ninguém tem todas as fotos dela e, mesmo que tivesse, não poderia descrevê-la completamente. É um prazer descobrir uma foto nova, que revela uma nova Marilyn, diferente das anteriores. Parece que isto é prova da riqueza e da fragilidade do ser humano – tanta coisa a ser compreendida sobre cada um e que acaba com um suspiro. Se compreendêssemos todos os que vemos ou conhecemos em sua plenitude, talvez enlouquecêssemos. Aguentaríamos ver a nós mesmos assim?
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