ir para o conteúdo
 • 

Daniel Piza

31.março.2008 15:35:27

Anatomia da ficção

Baptistão

O novo livro do ótimo crítico literário James Wood, How Fiction Works (Jonathan Cape), é um achado. Por incrível que pareça, há pouco debate sobre o fazer da ficção, embora haja muitas teorias e historiografias e outras chatices. Livros anteriores, como Aspectos do Romance, de E.M. Forster, e A Arte da Ficção, de Henry James (que traduzi 13 anos atrás), já tinham abordado o tema, mas não com a minúcia quase instrumental de Wood. O livro, curto, é tão cheio de idéias e sacadas, e Wood pesca frases e passagens tão bem em sua vastidão de leituras, que mal dá para resumir. Ainda há muito que explorar, mas ele navega tão longe dos lugares-comuns da crítica que abre horizontes.

Wood, que é inglês e atualmente resenhista da revista The New Yorker, discute, em destaque, o papel do discurso indireto livre na ficção moderna. Ele é uma fusão do discurso direto (o personagem fala com sua voz própria) e o discurso indireto (o narrador informa o que o personagem diz), de tal modo que aproxima narrador e personagem, criando uma ambivalência que enriquece os sentidos. Wood discorda dos que dizem que a narrativa moderna só pode ser em primeira pessoa, por estabelecer o narrador inconfiável. Uma narrativa em terceira pessoa pode ser ainda mais incerta, diz Wood. E dá como exemplo maior Flaubert, um dos pais da ficção moderna, que explorou ao máximo a tensão entre fato e versão, entre transparência e artifício.

***

Machado de Assis também é um mestre nisso. Em Quincas Borba, capítulo 99: “Saiu o moleque; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos no bolso do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo.”

Note como na pergunta do segundo período passamos de vez para dentro da mente de Rubião, e como Machado recorre ao ponto-e-vírgula para transmitir as hesitações de seu personagem. O fato de ter escrito Quincas Borba (1891) em terceira pessoa é muito relevante. Depois de Brás Cubas (1881), em que usa a primeira pessoa (que não é o autor, como certa crítica ainda pensa, mas um narrador) até para liberar seu humor e ceticismo depois de quatro romances formatados na convenção moralista de seu tempo, voltar à terceira pessoa ajudou a construir o caminho que levaria a Dom Casmurro (1900), em que lapida à perfeição o jogo de sentidos entre o factual e o fabricado. Bentinho não é nem um manipulador completo nem a vítima que tenta se dizer.

***

Wood associa o discurso indireto livre à figura moderna do “flâneur”, do indivíduo urbano que perambula num cenário que se transforma continuamente, meditando sobre suas impressões. Sobre esse personagem é lançado um monte de detalhes, desconexos ou aleatórios, e o trabalho do narrador é ajustar o foco e escolher o que registrar. Wood analisa como Flaubert e seus herdeiros – de Henry James a Saul Bellow, de Virginia Woolf a John Updike – selecionam os detalhes, em contraste com o acúmulo onisciente que marcava o “romanção” do século 19. Cita até uma cena de não-ficção, em Um Enforcamento, de George Orwell (que incluí em Dentro da Baleia e Outros Ensaios), que descreve o homem a caminho da forca se desviando caprichosamente de uma poça d’água.

Wood mostra, assim, como o conceito de realismo é restritivo. Realismo não é registrar mecanicamente a realidade, e boa parte da invenção de uma escrita está naquilo que deixa de fora. Toma Dostoiévski como exemplo, pois seus solilóquios se dirigem ao leitor como indivíduo, que lê em silêncio, não ao público em um templo ou platéia. Logo, podem estar mais próximos do verdadeiro discurso mental, menos eloqüente e mais coloquial do que no passado. O personagem não sabe explicar totalmente o motivo de seu comportamento. Isso faz sua linguagem mais realista, e não menos. Do detalhismo de Flaubert e do psiquismo de Dostoiévski nasceu a ficção moderna; nasceu Proust, Joyce, Rosa, etc.

***

Wood menciona o escritor chileno Roberto Bolaño, em alta no mundo todo, e cujos contos de Putas Assassinas acabam de sair no Brasil. Wood se refere ao romance Os Detetives Selvagens, uma das obras pós-modernas que chamam atenção para o fato de que o personagem é ficcional e, “num fino paradoxo”, provocam no leitor o desejo de vê-lo como real. Mas não gosta de livros como os de Robbe-Grillet (fundador do “nouveau roman”, morto neste ano) ou B.S. Johnson (autor de The Unfortunates, livro de páginas soltas que cabe ao leitor ordenar) em que terminamos sem ter convivido com os personagens.

Do extraordinário conto de Bolaño, Gómes Palácio: “A estrada tinha deixado de ser uma linha reta. Pelo retrovisor vi um muro enorme se erguendo além da cidade que deixávamos para trás. Demorei para reconhecer que era a noite. No toca-fitas a cantora começou a gorjear outra canção. Falava de um povoado perdido no norte do México, onde todo mundo era feliz, menos ela. Pareceu-me que a diretora estava chorando. Um pranto silencioso e digno, mas incontível.” Bolaño não precisa dar o nome da diretora da faculdade, nem descrevê-la com algo mais do que duas linhas (“uma mulher de olhos esbugalhados, gorducha, de meia-idade, que usava um imenso vestido estampado com quase todas as flores do Estado”), para nos dar a impressão de que conhecemos a personagem, de que a percebemos ao mesmo tempo patética e empática.

***

Outra discussão importante que Wood comenta é a do conceito-chavão de “personagem consistente”, como se houvesse apenas um modo de construí-lo. “Acho que os romances tendem a fracassar não quando seus personagens não são vívidos ou profundos o bastante, mas quando o romance em questão fracassou em nos ensinar como nos adaptar a suas convenções, fracassou em manejar uma fome específica por seus próprios personagens, por seu próprio nível de realidade.” Nota, em seguida, como Saul Bellow não criou personagens com os quais nos identificamos (não saímos nos perguntando “o que Augie March ou Charlie Citrine fariam?”), mas pelo interesse estético e filosófico do autor neles (o que faz de Moses Herzog um símbolo, um catalisador de percepções).

Vejo, por sinal, Jorge Amado – cuja obra começa a ser relançada com estardalhaço pela Companhia das Letras – sendo saudado como “criador de personagens”, numa espécie de tentativa de lhe conferir um gabarito que a crítica teima em lhe negar, apesar do sucesso comercial. Amado não tinha grande texto e desconhecia todos esses procedimentos sutis da ficção moderna, mas, como Erico Verissimo, era um contador de histórias nato, capaz de captar figuras de uma região. Num país em que escritores “não sabem bater escanteio”, como disse um que sabia, José Lins do Rego (que, como Amado, criou sua obra a partir da leitura do Brasil por Gilberto Freyre), não é qualidade desprezível. O que ele não faz é investir seus tipos de inquietações mentais.

***

Em A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, porém, Amado fez uma versão dionisíaca, tropical, do Velho e o Mar de Hemingway: “Ninguém sabe como Quincas se pôs de pé, encostado à vela menor. Quitéria não tirava os olhos apaixonados da figura do velho marinheiro, sorridente para as ondas a lavar o saveiro, para os raios a iluminar o negrume. (…) Pedaços de mar lavavam o barco, o vento tentava romper as velas. Só a luz do cachimbo de mestre Manuel persistia, e a figura de Quincas, de pé, cercado pela tempestade, impassível e majestoso, o velho marinheiro.”

Estamos diante não de uma pessoa, mas de um herói, romanticamente mitificado, em meio ao machismo e ao “socialismo moreno” do autor. E, no entanto, a rapidez da descrição e a força dos detalhes, inclusive a repetição da expressão “velho marinheiro” – tudo dá fecho a uma história que nos cativa, tornando o protagonista um sujeito “larger than life”, até porque entendemos como ama a vida tanto quanto a morte e, se o sonho de apagar tal fronteira lhe reservou tal destino, ele ao menos sobrevive na lembrança dos outros, entre os quais estamos nós, leitores. Talvez porque premido pela pressa de entregar o texto à revista Senhor (e esta é uma das questões que faltam no livro de Wood: o tamanho que cada história deve ter), Amado foi como nunca direto ao ponto. Ali onde a ficção mostra a riqueza da realidade.

(Sinopse.)

comentários (21) | comente

21 Comentários Comente também
  • 31/03/2008 - 17:13
    Enviado por: Sérgio Roswell

    Prezado Piza,

    E Í Í…

    Vamos com calma !

    Quem é que vai conseguir discutir/conversar com você ? Respeite nossa fragilidade mental e ignorância…

    O ponto e vírgula de Machado de Assis é um assombro, realmente. Como um garoto de 12/14 anos podia perceber ? Perceber, percebia mas não com tanta profundidade…

    Meu atual “Livro de Cabeceira” ( antes de dormir ) têm me tirado o sono…(Estou RELENDO, gósto de RELER o que gósto de LER), é “Memórias do Subsolo” de Dostoievsky, of course, na tradução de Bóris Schnaiderman.

    “MEMÓRIAS DO SUBSOLO”, creio, dá bem uma idéia do discurso DIRETO e do discurso INDIRETO uma “Fusão” que aproxima NARRADOR e PERSONAGEM e, no meu caso, LEITOR também. Sim, porque, de fato, DOSTOIEVSKY se dirige ao LEITOR como INDIVÍDUO. O Psiquismo de DOSTOIEVSKY realmente não pode explicar totalmente o comportamento do “Homem do Subsolo”.

    Ao reler “Memórias do Subsolo” reencontrei um solilóquio do “Homem do Subsolo” apropriado por George Orwell, em “Nineteen Eight-Four”. O “Homem do Subsolo” soliloqueia se DOIS MAIS DOIS SÃO QUATRO, questionando a “Realidade”.

    Bem, em “Nineteen…” O’brein, o fanático intelectual stalinista pergunta, na sessão de tortura e lavagem cerebral, a Winston Smith, amarrado sem poder se movimentar: “VOCÊ SE LEMBRA, WINSTON, QUANDO VOCÊ ESCREVEU EM SEU DIÁRIO QUE “LIBERDADE” É A LIBERDADE DE DIZER QUE DOIS MAIS DOIS SÃO QUATRO ?” (tradução livre).

    Claramente, para mim, “O Homem do Subsolo” foi o modelo encontrado por Orwell para WINSTON SMITH. Ambos são uma mesma personagem. Em contextos diferentes.

    “How many fingers am I holding up, Winston?”
    “Four.”
    “And if the Party says that it is not four but five…then how many?”
    “Four.”
    The word ended in a gasp of pain…”
    ( “Nineteen Eight-Four”, George Orwell, claro…).

    Um “Post” maravilhoso.
    E muito complexo. É um ELOGIO…
    Levarei DIAS para analisar.

    Sou Modesto.
    Poderia dizer que levaria HORAS…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 17:24
    Enviado por: Emilia

    Acho estranho ter deixado Stendhal de fora, justo ele que faz que vai contar e se detém. Ele que parece ludibriar o leitor para que não tome partido.
    Também Balzac que, algumas vezes, mistura-se a suas personagens, forma círculos concênctricos colocando um narrador dentro do outro. E Camus em “O Estrangeiro” que nos coloca até como a testemunha que terminará o livro por ele.

    Certo, certo, tem um monte de bons escritores e ele teve de pinçar alguns representativos de diversos momentos e idomas.

    Quanto ao tamanho que cada história deve ter, acho que só para fins de catalogação (conto, novela, etc.), porque os contos de Machado são curtos (pois são contos) e profundos, assim como os de Maupassant. Deixam um certo desejo, um certo querer mais, como para aplacar a dor que eles provocam. Mas o que mais? E alguns romances podem deixar esta mesma fome. Quando terminam, não a sensação de missão cumprida, mas a do luto.

    Livro interessante… e igualmente sua sinopse, você mexeu com minha curiosidade! Principalmente por dizer que ele sai do lugar-comum da crítica.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 17:29
    Enviado por: danielpiza

    Roswell: “Memórias do Subsolo”, na tradução do Boris Schnaiderman, foi o primeiro livro de Dostoievski que li. Sim, tudo vem dele, como Orwell, como Camus, como Kafka e tantos mais… Emilia: James Wood cita Stendhal e Balzac, sim, eu que não tinha como listar todas as citações! Sobre Stendhal diz justamente o que você disse e que achei muito bem formulado: “ele que faz que vai contar e se detém”. Obrigado a ambos.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 19:56
    Enviado por: TrainSpotta

    Caro Piza,

    Mas quem não pára de contar é Proust. E, por não parar de contar, ele, para mim, constrói o maior monumento literário dedicado a todos nós. Fico imaginando como Marcel Proust narraria “A morte de Ivan Ilitch”, do Tolstói. Que seria para ele aquela desesperança de afeto, semelhante e antônima do quarto do menino em Chambray ? Por que são eles tantos – e magníficos – e contam, por vezes, histórias tão parecidas sob geografias físicas e humanas tão diversas ? Se – como bem mencionou Roswell a respeito do desvio da poça d´água do condenado de Orwell – é esta a nossa condição, Amado e seus homens faceiros, flâneurs em Salvador ou em Ilhéus, os mineiros enegrecidos de Zola, a suave nobre inglesa de James, que se debate em meio à ascendente e milionária burguesia nova-iorquina do final do século XIX, todos esses somos nós, em outras línguas, em outros ambientes mas em circunstâncias absolutamente semelhantes. Opino que, seja o narrador em primeira pessoa, onisciente, seja o escritor deixando a responsabilidade para o personagem que ele criou ditar seus próprios rumos, fica mais a importância do discurso literário e do sujeito do escrito.

    Não sei se escritores brasileiros “não sabem bater esconteio”, não sei, mesmo. Às vezes isso me parece mais aborrecimento, enfado, que crítica, propriamente dita. Há muita gente boa de bola por aí, mas, reconheçamos, escrevemos numa língua escondida, na mais morta das línguas mais vivas do mundo. Pode ser que, o que nos falta, seja uma CBF mais ativa, um departamento de marketing mais enjoado como esses dos países castelhanos. Mas havemos de convir que os de língua inglesa conseguem fazer o maior mundo do mundo a cada semana e, aí, não há como discutir com este novo jornalismo classificatório porque ele dita. Period. E dita para que as resenhas sejam escritas, livros sejam vendidos – mas não obrigatoriamente lidos – e pessoas possam discorrer sobre a resenha do maior do mundo daquela semana e parecerem, bem, quase tão maiores que os maiored do mundo. É uma língua tão atravessada que nem Camões é conhecido. Veio Saramago para nos consolar( não sua literatura, estamos falando naquilo que se refere aos craques, aos stars internacionais do ofício e seus agentes).
    Nem Guimarães Rosa, nem Guimaraens o Alphonsus, nem ninguém, nem Cruz, nem Souza, nem Eça, nem Aquela…a língua ainda está por ser descoberta e isso é uma pena, sem trocadilhos românticos.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 20:01
    Enviado por: ROBIM RATU 4 QUEJO BERRO DAGUA

    SR . CIOMINO , SÓ O SR. FALOU DA FERRINHA !!!! GRADESSEMOS O SR. PELA LEMBRANSA.

    SR. PITIÇA, BANOITE, AQUI TÁ SÓ ESTRELAS BRILHANDO NU CEUS DE ARARAQUARA MAIS, KCT MEU !! O QUE EU QUERIA MESMO ÉSABER ONDE ENCONTRAR O LIVRO XAMADO : A VOLTA DOS QUE NUNCA FORAM , ISCRITO PELO MANU XICO DO BAR SAI DI FASTO

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 20:26
    Enviado por: Sérgio Roswell

    Prezado Piza,

    Prezado TrainSpotta,

    Quem falou da poça d’água do Orwell, foi o Daniel Piza, não EU.

    “O cadafalso ficava a uns cinquenta metros. Observei as costas morenas e desnudas do prisioneiro, que caminhava na frente. Andava desajeitadamente com os braços amarrados, mas com bastante firmeza, com aquele modo bamboleado de andar dos indianos, que nunca indireitam os joelhos. A cada passo os músculos deslizavam de volta ao lugar, os cachos de cabelo sobre o couro cabeludo subiam e desciam numa dança, os pés se imprimiam no cascalho molhado. E uma vez, apesar dos homens que lhe agarravam cada ombro, PISOU LIGEIRAMENTE DE LADO PARA DESVIAR DE UMA POÇA D’ÁGUA NO CAMINHO”.
    “Um Enforcamento” In “Dentro da Baleia” e outros ensaios, organizados por Daniel Piza, Companhia das Letras, não consta o ano, pag.55.

    EU juraria que essa cena era de “Burmese Days”…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 20:42
    Enviado por: Sérgio Roswell

    Prezado Piza,

    Não concordo com Woods quando diz que Saul Bellow “não criou personagens com os quais nos identificamos”.

    Bem, me identifiquei tanto com Tommy Wilhelm, de “Seize the Day”, que quase estourei meus miólos do cérebro com um tiro de revólver…Rompi amizades de anos, por causa do livro e dos personagens. E não me arrependo. Talvez, sim, dos “miólos”…

    NÃO GOSTO de Jorge Amado.

    Um Autor que escreve correndo para entregar um texto a uma revista não merece meu respeito.
    Aliás, é do “Conhecimento Geral” ( fiquei sabendo na USP ) que Jorge Amado escrevia tudo às carreiras, VAGABUNDEANTEMENTE, sujo, à mão mesmo, sem datilografar, COM ERROS CRASSOS DE GRAMÁTICA QUE ERAM CORRIGIDOS PELOS “REVISORES” DE SUAS EDITORAS…Tudo para ganhar DINHEIRO com o nome “Jorge Amado”. UM MITO PARALISANTE. MAIS UM. MAIS UM BAIANO…

    SE, SE, Jorge Amado fosse bom…
    Tudo isso seria desculpável.
    Como não é ( bom ) só agrava o problema…

    ESCREVEU CORRENDO PARA ENTREGAR O TEXTO PARA UMA REVISTA…E, POR CAUSA DISSO, SEU TEXTO FICOU…”MELHORZINHO”.

    JAMES WOOD, tenho certeza, NÃO falou de Jorge Amado em seu livro…

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 20:57
    Enviado por: Paulo

    Piza, só uma curiosidade: como conseguiu ter acesso a esse novo texto de James Wood, se o livro ainda está com o status de “pre-order” na Amazon Books?

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 21:46
    Enviado por: Sérgio Roswell

    Prezado Piza,

    Por causa da poça d’água de Orwell, “Wood mostra, assim, como o conceito de realismo é restritivo. Realismo não é registrar mecanicamente a realidade”.

    Certo.

    Mas, o que é “Realidade” ?

    E até que ponto pode ser considerada “Mecânica” uma descrição ?

    Para não dizer que não falei de flôres…nordestinas… “Vidas Sêcas” é extremamente realista. E Graciliano Ramos põe lucidez num animal. BALEIA é o maior Personagem da literatura brasileira.

    Nenhum registro é puramente “Mecânico” em Literatura. Depende do modo como se LÊ. Ou se VÊ a vida.

    Pode haver algo mais bocó que José de Alencar ? Que NÃO tinha realismo, mecânico ou de qualquer tipo, nenhum…MACHADO buscava a “Realidade” psico-social do momento. DOSTOIEVSKY buscava MAIS…

    Graciliano Ramos é realista.
    Descreve cruamente uma realidade.
    Tão cruamente que a humanidade está num animal. Os seres humanos são quase máquinas. O ser vivo, com “insights” superiores é, apenas, o animal. BALEIA.

    Os grandes escritores PROCURAM a “Realidade”. Procuram se superar. Superar o meramente “humano”. A “Realidade” verdadeira.

    Se for “Mecânica” o “Registro” será…”Mecânico”.

    Nós, seres humanos, é que sonhamos com uma “Realidade” falsa. E nos deixamos enganar. Por Mitos. Ou falsas impressões. Que duram a VIDA INTEIRA.

    A poça d’água de Orwell é uma descrição mecânica. A REAÇÃO do prisioneiro foi errada. Um paradoxo. Orwell se impressionou com o PARADOXO. Não foi pena do prisioneiro…

    Não concordo que o Realismo seja Restritivo. Não enxergar e aplicar o Realismo é que é restritivo. Não confundir REALISMO com REGIONALISMO…essa PORCARIA !

    Não é um jogo de palavras.
    João Cabral é RESTRITIVO.
    Enxerga ( ? ) só PARTE da Realidade.
    A Pedraria.

    Fernando Pessoa ( que Deus me perdoe a comparação ) procurava a REALIDADE. Completa. O mais possível. SEM RESTRIÇÕES. DAÍ SEUS VÁRIOS HETERÔNIMOS…Uma busca. Da Realidade REAL.

    Sem RESTRIÇÕES…

    GRACILIANO também.
    BALEIA o fez encontrar.
    BALEIA é a única a superar o “Regionalismo”. BALEIA é a única REALISTA.

    Uma Chatice ?
    Pode ser.
    Depende do que você QUER ver.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 21:52
    Enviado por: Sérgio Roswell

    Prezado Piza,

    — THE END —

    responder este comentário denunciar abuso

  • 31/03/2008 - 23:17
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    Não há exemplo mais atordoantemente moderno
    de discurso indireto livre do que o Ulisses, de Joyce.
    Nossos pensamentos não são formais, formatados, fraseados,
    são na verdade fusões, conexões, lembranças;
    ao mesmo tempo, estamos nos observando a pensar.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 06:23
    Enviado por: antonio bezerra neto

    Caro Sérgio, o regionalismo não é uma íngua literária. Kafka não “exonera” Praga de seu mundo judaico para descrever seus dramas. Em todo escritor há um crosta de sua terra. Isso acontece também na música, nas artes plásticas, no cinema, etc.

    Existe sim, o regionalismo banal, coisa muito longe de Graciliano Ramos, um dos ícones de nossa literatura. No mais, continuo atento aos seus elásticos e bons comentários.

    Talvez você tenha muitas restrições ao doutor Ariano Suassuna. Pois digo, ele é universal. Ibérico como poucos.

    O comentário de GUILHERME CIMINO é provedor para muitas reflexões. Parabéns.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 08:31
    Enviado por: Jonas

    Outros dois livros que entram bem na mente do protagonista com essa narração deliciosamente inconstante, entre primeira e terceira pessoa, são Fima, do Amóz Oz, e Uma Questão Pessoal, do Kenzaburo Oe. Para não falar do Teatro de Sabbath, do Roth.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 08:38
    Enviado por: danielpiza

    Paulo: comprei na Amazon inglesa. Roswell: no texto explico o que entendo por registrar mecanicamente a realidade: tentar dar todos os detalhes da cena, esquecendo que escrever também é deixar detalhes de fora. Cabral e Graciliano, como disse Bezerra, não são típicos regionalistas. Ambos têm qualidade de pensamento que transcende o cenário. Cabral vê uma ética na linguagem, Graciliano é uma espécie de precursor desconhecido do existencialismo (compare “Angústia” e “O Estrangeiro”). Jonas: e tem o “Não Diga Noite” do Oz em que ele alterna as vozes do marido e da mulher, brilhantemente. No “Operação Shylock” Roth contrapõe as vozes dos sósias. Etc, etc. Abraços.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 09:26
    Enviado por: Geraldo Medeiros

    Piza,
    já tem tanta gente escrevendo sobre futebol, e tão pouca gente escrevendo (bem) sobre literatura e cinema! Por que você e Zanin não deixam o futebol para quem vive disso e nos brindam com coisas que vocês fazem tão bem, como comentários sobre cinema e livros?
    A propósito, quem disse que não acreditava em escritor que escrevia apressado para entregar o texto e receber o dinheiro da editora, ou jornal ou seja lá o que for – deveria estar-se referindo a Balzac, e não apenas a Jorge Amado. Balzac era tão açodado na sua premência de escrever prá receber dinheiro que chegava a misturar as coisas, como fez com A Mulher de 30 anos, onde meteu um conto sobre um pirata que nada tinha a ver com a história que estava contando.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 10:45
    Enviado por: danielpiza

    Porque, Geraldo, entre outras coisas, escrever sobre futebol é escrever sobre algo que me dá prazer (quando é jogo bem jogado) e algo que me ensina muito sobre a cultura do meu país. Escrevendo sobre a seleção brasileira de 1997 a 2002, por exemplo (vide meu livro “Ora Bolas”), aprendi como em nenhum romance sobre o comportamento bipolar do brasileiro, sua ansiedade em construir e destruir mitos. Em outros países, como Inglaterra, EUA, Espanha e até mesmo Argentina e França, não existe esse preconceito contra quem escreve sobre esportes.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 11:12
    Enviado por: lauro marques

    Daniel Piza, parabéns pela resenha — literária, de fato, me deu vontade de ler o livro.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 11:45
    Enviado por: GUILHERME CIMINO

    E parabéns pela defesa, não do futebol em si, mas da paixão pelo futebol como elemento da cultura brasileira!

    responder este comentário denunciar abuso

  • 01/04/2008 - 16:24
    Enviado por: André Felipe

    Caro Daniel, obrigado pela dica preciosa.
    Por favor, Daniel, de maneira geral, você saberia me dizer como foi a recepção de Machado de Assis e sua obra por seus contemporâneos em Portugal? Depois dos últimos(e ótimos) posts fiquei com esta dúvida.

    responder este comentário denunciar abuso

  • 16/04/2010 - 23:44
    Enviado por: Livros que ensinam a escrever | Recanto das Palavras

    [...] ensina a fragmentar os temas em vários aspectos como, por exemplo, o narrador e o estilo. Leia uma resenha de Daniel Piza para este [...]

    responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário:

Arquivo

Tags

Blogs do Estadão