
Mais uma vez há boa distância entre o que lemos ou ouvimos a respeito de um filme e o que ele de fato é. Sobre Amor Sem Escalas, do mesmo diretor do badalado Juno, Jaison Reitman, li que seria sutil, crítico e sei lá mais o quê. Trata-se de um filme competente, conduzido em bom ritmo, com boa atuação de George Clooney, que não precisa fazer caretas para mostrar as dúvidas debaixo de sua aparente serenidade. Só isso. Como tantos outros filmes que vemos, americanos ou não, o que ele quer mesmo é confortar as pessoas, manter a fábrica de “esperanças” em funcionamento contínuo, e não cutucar seus defeitos e ilusões.
Por alguns momentos achei que o enredo poderia ganhar uma força nova. Clooney, afinal, faz um sujeito que não tem chão, não tem casa, não é casado – e parece plenamente seguro dessa opção, a tal ponto que o noivo de sua irmã diz invejá-lo por ser mais livre e feliz. Mas ele logo encontra alguém que seria seu espelho, “mas com uma vagina”; e ele cai no mais antigo conto de fadas da humanidade, aquele da alma gêmea, da metade da laranja, etc. Essa ingenuidade insuspeitada fica evidente a seguir, e seu discurso ao final é de falso triunfo; ou seja, ser solteiro não era uma opção tranquila, apenas algum trauma do passado. E aí todo mundo vai para casa confiante em que é melhor estar mal acompanhado do que só.
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Entreouvindo intimidades
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- Ô Marisa, é melhor estar só do que mal acompanhado?
- Ora Lula, eu acho que deve ser o contrário.
- Então é melhor estar mal acompanhado do que só?
- Exatamente.
- Poxa, assim fica ainda mais difícil achar um vice pra Dilma, né?
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Realmente o seu discurso final me fez chegar pensar sobre oque era o filme afinal de contas.
Não achei ruim mas também não uma obra-prima. Foi o tipo de filme “pra fazer o pessoal se sentir bem” (até um certo ponto) na minha opinião. E hoje em dia chegar a esse ponto, já é alguma coisa…
Piza,
voce e’ casado?
Sr. Piza,
GEORGE CLOONEY É VIADO.
Na vida “REAL”.
É um ator que prometia, mas NÃO DEU, cinematograficamente falando…
“BOA NOITE, BOA SORTE”, apesar de falso e maniqueísta, historicamente é um muito bom filme.
GEORGE CLOONEY me lembra muito, fisicamente, RAYMOND BURR, que os mais jovens nunca ouviram falar, mas era uma figura forte e poderosa, UM MACHÃO BOA GENTE, sem ser AGRESSIVO. Acabou “casando” com um PORTUGUÊS, ora pois, e cultivando rosas e orquídeas ( nada contra as rosas et orquídeas ).
O CINEMA MORREU.
O CINEMA IN-TE-LI-GEN-TE quero dizer.
HOJE, só há filmes para :
a. MULHERES mal resolvidas ( todas );
b. NEGROS AMERICANOS ( para “valorizá-los” HOLLYWOODIANAMENTE );
c. VIADOS, naturalmente.
Só consigo assistir FILMES ANTIGOS.
Ou DOCUMENTÁRIOS.
Ou sobre ETs, claro.
DAQUÍ A POUCO vão fazer filmes sobre ETs GAYs, ETs MULHERES, ETs NEGROS…
ISSO É HOLLYWOOD MEU NÊGO !…
Piza, prefiro crer que todo esse foco ajustado sobre o drama individual do personagem de Clooney revela, antes, a perspectiva de uma ênfase maior. Não esqueçamos de que seu modo de vida está ligado fundamentalmente a certos aspectos da dinâmica social americana, sobretudo ligada à crise que vem solapando a sua classe trabalhadora nos últimos anos. A propósito dessa aparente leveza do way of life do protagonista em questão, talvez se trate menos de uma opção do se imagina. O que ele demonstrou foi, sim, uma enorme capacidade de adaptação, assimilando certamente os valores correspondentes. Eis como o drama me permitiu entrever claros elementos de uma narrativa trágica. Em suma: não há “recado” algum no filme. E o falso triunfo no discurso ao final é, a rigor, o testemunho de sua própria mudez.
Muito funcionalista? Talvez…
Abraços!
Prezado Piza, este comentário não tem relação com o assunto do post, mas com algo que você escreveu anteriormente sobre a autobiografia do cientista Eric Kandel, “Em busca da memória”. É que está nas bancas uma edição temática da revista Mente&Cérebro, acompanhada de um DVD com um documentário sensacional sobre o cientista. Deixo a dica a quem interessar. Abs.
Daniel,
Acho que vi um filme diferente. O personagem de Clooney não vê a esperança de um novo estilo de vida frustrado pela realidade de um outro casamento que precisava de um ladrão (escape) para se manter?
Acho que o UP do filme também se refere a esse momento de euforia de “dar uma chance ao amor” e a decepção de ver a companheira potencial levando a vida que ela queria levar.
Pois é, que ele tenha tido uma “esperança de um novo estilo de vida” e, mais ainda, que ela já adotasse esse estilo de vida reafirma a ideia conservadora de que todo mundo quer casar, até mesmo os que parecem mais independentes…
O casamento não aparece em nenhum momento como solução de nenhum problema.
Temos uma irmã divorciada; a outra, em pleno processo de casamento com um idiota imaturo; e temos o casamento do “plot twist”, que dispensa comentários sobre sua eficiência.
Conforto na idéia de um casamento, ainda que problemático? Não vi isso no filme
O filme termina com a recosntrução do personagem como ele era no começo.
Ao contrário da tradicional transformação do personagem através da estória, temos a sua reconstrução – e pelo método americano por excelencia, a neurolinguistica aplicada à auto ajuda. É a repetição de um discurso auto-elogiativo, no começo sem convicção nenhuma, mas que tende a se tornar uma “verdade” ao longo do tempo.
Quanto ás pessoas quererem viver sozinhas, bem, essa sim parece ser a ilusão suprema da humanidade.
Carregado de adolescência tardia – entre metas infantis de milhagens e cold feet no dia de assumir um compromisso – o filme tem um ponto claríssimo – na transiçào para a vida adulta, o que vocé encontra é o outro, e não você mesmo.
É um filme acima da média, sem dúvida.
“Quanto às pessoas quererem viver sozinhas, essa parece ser a ilusão suprema da humanidade.” Por quê? Ser monogâmico e ter filhos é obrigatório, é a única maneira de ser feliz? O personagem de Clooney não se reconstrói; ele apenas é obrigado a aceitar que sua esperança de outro estilo de vida deu errado. Mas pelo menos o público fica convicto de que ele, no fundo, gostaria de dar certo com alguém…
Não, pelo contrário: sequer a monogamia e filhos garantem uma existência feliz.
(Ainda que eu não entenda como é se faz para ler um filme a partir da premissa de que uma relação amorosa é algo culturalmente imposto, e não uma tendência natural do ser humano em qualquer cultura e em qualquer tempo.)
Claro que muitos escolhem viver sozinhos ou não ter filhos, mas a questão é justamente que essa escolha não vai fazer da vida de ninguém melhor ou pior. Mas a qualidade do relacionamento que se estabelece com as pessoas em sua vida vai.
O problema não é ele ser solteiro ou casado. O problema é o quanto ele agrega valor em não criar vínculos.
Caberia ao personagem aquela fala do De Niro, prestes a fugir da polícia, em Fogo Contra Fogo – “não tenha nada que você não possa abrir mão em 20 segundos”.
Ele quebra relações com pessoas para viver, mas não sem antes ter quebrado as suas, com a família, a vizinha, ecom tudo o que o prende ao chão.
No fundo, ele ser casado não faria a menor diferença. Ele seria só mais um marido e/ou pai ausente, como já é um irmão relapso. Ele seria, bem, a sua amante “com um pênis”.
A questão não é a forma do vínculo, casamento, namoro, amizade. A questão é o vinculo em si, e a falta dele. A questão é a ilusão da vida solitária, quando chega a conta dessa “independência”.
Pois é, você acaba de resumir o ponto de vista conservador do filme: a vida solitária é uma ilusão, e quem a vive é apenas alguém incapaz de manter vínculos…
Bom, conheço um razoável número de pessoas que não é casada, não tem filhos, nem um relacionamento estável (a maioria delas muito pelo contrário) mas que NEM POR ISSO deixam de ter vínculos com os amigos, com a família, e ter os pés no chão.
Você não larga o osso de que o tema do filme é especificamente a tal “relação monogâmica”, mas eu insisto de que é sobre qualquer tipo de vínculo afetivo, com pessoas, lugares e coisas ( o único “objeto” do desejo dele são…milhas!)
Nada nesse filme é um discurso pró-casamento, e, se ele é conservador, é porque investe na necessidade de ter vínculos afetivos com o mundo.
Essa postura blasée em relação à essa necessidade é, de fato muito moderna e “progressista”.
E, de fato, na visão conservadora, isso é uma ilusão. Acho que é isso que te incomoda né?
É do mesmo diretor da infame sessão da tarde “Juno”?!
Exatamente, Cimino. Alberto: esse conservadorismo americano não me incomoda, não; apenas entedia.
Pode até te entediar; não deixa de ser verdade mesmo assim.
Ah sim, desculpe. A verdade é inalcançável. Não pode ser conhecida. Existe a minha verdade e a sua. Ou sequer existe verdade.
Are we really there yet?
Eu que pergunto. Esse papo de que a vida solitária é ilusória, só é feliz quem se casa e tem filhos, soa a século 19…
pô, Daniel!
Jura que é isso que você está lendo do que eu escrevi até agora?
Fui até reler, porque achei que estava doido. Mas tá lá:
“Não, pelo contrário: sequer a monogamia e filhos garantem uma existência feliz”
E mais uma vez: o que chamo de vida solitária não são vidas como a do seu Edson da Fonseca, do post acima. Ela foi tudo menos solitária, porque foi cheia de vínculos, nas amizades que consolidaram seu amor pelas artes e pela religião.
A questão é que esses vínculos geram inevitavelmente reponsabilidades. E a vida solitária, verdadeiramente solitária de que falo, ´a de quem foge dessas responsabilidades.
Parabéns aos dois pelo debate de alto nível. Vocês deveriam fazer um talk show, hehehe.
“Verdadeiramente”… Pois eu acho que é possível ser feliz vivendo com vínculos leves e efêmeros, sim.
Porque o Alberto fala mal dos verdadeiramente solitários? Não sabia que o filme é do mesmo diretor do famigerado juno.
Embora redundante, é bom lembrar que a monogamia e o “amor romântico” são construções humanas. O que não significa que não tenham o seu lado compensatório muito prazeroso. O contrário também é verdadeiro – relações efêmeras têm uma contrapartida também. O que me irrita é o efeito manada… pô, nem nas relações se consegue ter um pouco de liberdade? Estabelecer um padrão de convívio é muito chato! Posso conhecer alguém e ter um tipo de vínculo que com o tempo se transforma em algo totalmente novo, sem ter de dar trela pra nenhuma patrulha. Quando alguém me diz: “…sabe, gosto de caras que tenham pegada”, imagino que a pessoa está se referindo a algum garanhão de pornô com pênis quilométrico! È muita padronização!
É bom saber que existem opiniões mais serenas, assentadas no chão. Sim, é um bom filme; mas fiquei com a sensação de que faltou alguma coisa ou, como observado, de que sobrou – o tal amor por conforto.
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