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Daniel Piza

28.dezembro.2011 07:57:05

Inté

Parada de fim de ano. Volto no dia 11. Feliz 2012 para todos nós.

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27.dezembro.2011 07:55:57

Um país de poucos

Passamos de carro ao lado do futuro Shopping JK, na fronteira de Vila Olímpia e Itaim, e minha mulher nota uma placa do BNDES com aquele logo “Brasil – Um País de Todos”. É um empreendimento privado, de luxo, que vai trazer grandes grifes ainda inéditas no Brasil, gerando um comércio tal que sem dúvida em pouco tempo estará dando retorno. Por que, então, dinheiro público emprestado para isso? É como nos patrocínios culturais para grandes nomes do show biz nacional ou internacional, que não precisam ter a menor preocupação quanto a seu potencial de mercado. Enquanto isso, a infraestrutura urbana ao redor daquele empreendimento, como as inúmeras calçadas destruídas ou inacabadas demonstram, é ridícula. E tome desigualdade e transtorno.

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26.dezembro.2011 16:37:10

Lágrimas

O final de ano veio marcado por mortes de pessoas marcantes. O ator Sérgio Britto, remanescente dos tempos em que o teatro brasileiro ditava rumos culturais como jamais depois; o carnavalesco Joãosinho Trinta, de uma ousadia que deveria ser o padrão da festa, mas quase sempre foi a exceção; a cantora cabo-verdiana Cesaria Évora, inesquecível com sua voz docemente triste e seus dançantes pés descalços. E o polemista inglês Christopher Hitchens, infelizmente lembrado mais por sua confusa adesão ao neoconservadorismo de Bush II do que por sua corajosa crítica cultural na velha e boa linhagem libertária, ou dissidente, dos britânicos; como já notei, ele caiu em óbvia contradição com seu ataque às religiões, se bem que nestes também foi confuso, como ao desprezar a cultura visual do cristianismo (que legou, entre outras conquistas, o Renascimento).

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26.dezembro.2011 10:36:28

Ano anódino

O primeiro ano de Dilma Rousseff, como previsto, não disse a que veio. Imagino que os membros do governo durmam bem, cientes de que o índice de popularidade espelha o do emprego, como as últimas pesquisas comprovaram. A arrecadação continua subindo, apesar da desaceleração produtiva, e o investimento estrangeiro especulativo quase cobre o déficit gerado pelas importações. Logo, sendo pequenos os riscos políticos e econômicos a curto prazo, eles apostam na força inercial da cultura brasileira. E não fazem nada: nenhum programa eficiente, nenhuma reforma estrutural, nada.

Já a realidade cotidiana, que não necessariamente aparece nas intenções de voto (por que o eleitor vai trocar seis por meia dúzia, se as coisas não estão tão ruins e os políticos parecem todos iguais?), é sofrida. O custo de vida beira o absurdo. A arquitetura dos sistemas institucionais é mais desumana que a de Niemeyer, como se vê no corporativismo do Judiciário e no racismo das polícias. A insegurança e a habitação têm índices calamitosos. A corrupção corrói o dinheiro e o espírito público, impune como sempre (qual dos ministros demitidos por pressão pública serão de fato julgados e condenados?). Etc. Mas o brasileiro não desiste nunca… E nem protesta.

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25.dezembro.2011 07:45:18

De presentes e ausências

Nesta época é comum ver, além das retrospectivas, os apelos piegas ao tal espírito natalino, abusos de expressões como “renovar esperanças”, previsões furadas de astrólogos, tarólogos e outros loucos, textos que lamentam onde estão os natais d’antanho, mensagens de boas festas com listas de virtudes. Meu impulso é perguntar por que as pessoas não procuram ser assim o ano todo, e não apenas no solstício que foi apropriado pela religião e pelo folclore para se tornar uma data paradoxal em que se discursa sobre bons sentimentos enquanto se consome em ritmo febril; até mesmo os nacionalistas se calam diante do fato de que a festa não tem cara do calor de 34 graus. E então me ponho a pensar em como generosidade e respeito, para ficar só nesses dois itens, andam em falta nos tempos atuais, especialmente nas grandes cidades, e em como a tecnologia que deveria nos aproximar nos tem dispersado. Mas lembro os Natais de infância, comparo com o dos meus filhos e as diferenças se tornam irrelevantes, porque os prazeres e as questões são muito parecidos. E os dias deliciosamente desocupados, desacelerados, convidam ao balanço do ano, ainda que tenha tido tantas tristezas em meu caso, e sem balanço não há avanço.

Somos carne e pensamento, um não se dissocia do outro, e do mesmo modo o Natal é ficar feliz em dar e receber presentes, é ver as crianças alegres com o que ganham e pronto, sem místicas nem melancolias. Lembro que meu avô nos levava em seu Opala, no banco da frente, câmbio atrás do volante, para procurar o Papai Noel. Olhávamos para o céu e achávamos que qualquer luzinha era a carruagem de renas. Quando voltávamos, ele já tinha passado e deixado os presentes sob a árvore. Um primo mais velho me disse: “Cheguei até a ver a perna dele saindo pela janela”. Eu devia ter uns oito anos e achei estranho; afinal, era só ter ficado ali que com certeza o veríamos, já que eu nunca tinha conhecido ninguém que não ganhasse presentes todo santo Natal. (Eu já estava acometido desta mania de descrença: antes de fazer 6 anos, na minha primeira viagem de avião, assim que ficamos acima das nuvens perguntei ao meu pai onde estavam os “anjinhos”. Não era ali que diziam que eles moravam?) De qualquer modo, afora as comidas saborosamente calóricas, quase sempre o presente fazia a dita magia da noite. Digo “quase sempre” porque uma vez pedi um Piloto Campeão e ganhei uma Motocleta. Inconformado, reclamei: “Que Papai Noel burro!” Mas a Motocleta, espécie de triciclo evoluído, me divertiu muito mais ao descer a rampa do abacateiro na chácara que tínhamos.

Ver o sorriso de filhos e sobrinhos é boa maneira de encerrar o ano, como o fecho de capítulo de um livro que ainda não terminou, e mesmo que não chegue a redimir o capítulo ruim. Perdi minha mãe e, apesar das falas pseudo consoladoras do tipo “É a vida” (não, é a morte mesmo) e “Tudo vai ficar bem” (defina “bem”), a dor ganha intervalos, mas a ausência fica. Tive também uma decepção pessoal, que abalou minha confiança, me tirou alguns quilos, me fez ver de novo como nossos melhores esforços podem ser os mais injustiçados, como a ingenuidade é amiga da vaidade, como a efusão brasileira pode ocultar inveja ou egoísmo. Também não fico feliz ao pensar que para tantas pessoas uma experiência insubstituível como ter filhos pode ser vista como algo que “atrapalha” ou, pior, que justifica manter relacionamentos frios ou frustrantes, em vez de renová-los. Mas terminei meu capítulo com páginas encorajadoras, confiante não apenas em ter superado a fase crítica, mas também em não ter deixado o desencantamento tomar conta. Aí está, se me permitem o toque natalino: não deixar o desencanto tomar conta é o melhor presente.

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24.dezembro.2011 10:44:19

Clássicos e viajantes

Enquanto as outras áreas culturais fecham para entressafra, os livros bons não param de sair. Na saudabilíssima tendência de novas edições e traduções de clássicos, vejo, por exemplo, os dois volumes de Maupassant, Bola de Sebo e os contos O Horla – A Cabeleira – A Mão – O Colar (editora Artes e Ofícios), que foi de uma influência às vezes subestimada sobre o gênero moderno, em sua abertura ao que não se explica e não se controla. Pode-se dizer que Maupassant levou o conto aonde Flaubert não tinha ido tão claramente, mas sem Flaubert – que lhe dava dicas de estilo caminhando nas ruas de Paris – ele nem teria aonde ir.

Me delicio ainda mais com a Nova Antologia do Conto Russo (Editora 34, organização Bruno Barretto Gomide), que vai de Karanzim (1792) a Sorókin (1998), passando por Puchkin, Gógol, Liermontov, Dostoievski, Turgueniev, Tchekhov (o muito bem tecido Ariadne, de 1895), Tolstoi, Gorki, Pasternak, Bunin (um xodó dos russos, que não entendem como o autor desse Insolação é menos cotado no exterior), Bábel e Nabokov. Dos contemporâneos, acho Tatiana Tolstaia, a sobrinha neta de Tolstoi, representada por A Noite, a dona de um lirismo único. Os russos, claro, são muitas vezes lembrados por seus romances intensos e panorâmicos, mas não foram menos notáveis nas formas breves, ainda que menos produtivos.

Ainda sobre clássicos, acaba de sair o Dicionário de Luís de Camões (Leya, coordenação Vitor Aguiar e Silva), alentado volume de mais de mil páginas que alguns escritores brasileiros bem mereciam, como Machado e Rosa. A escrita é um tanto técnica e formal às vezes, mas verbetes como Maneirismo em Camões são verdadeiras iluminações. Afinal, Os Lusíadas é do mesmo período de Montaigne, Shakespeare, Cervantes e outros (de 1570 a 1620, digamos), com sua combinação de artifício e melancolia, de complexidade e incerteza, na transição do Renascimento para o Barroco. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança”, mas o canto de Camões permanece.

A extraordinária iniciativa do livro Grandes Expedições à Amazônia Brasileira, de João Meirelles Filho (Metalivros), ganha agora outro volume, dedicado ao século 20. Lamento que tenha sido decidido não dar aqui o capítulo da importantíssima missão de Euclides da Cunha no Acre em 1905, com resultados geográficos, diplomáticos e literários que se comparam a poucos, mas isso não tira a força do livro. Expedições sanitárias como a de Oswaldo Cruz, fantasiosas como a de Percy Fawcett, etnográficas como a de Lévi-Strauss, socializadoras como a do irmãos Villas Bôas, artísticas como a de Margaret Mee, poéticas como a de Thiago de Mello – estão ali, junto a nomes como Burle Marx, Krajcberg e Jacques Cousteau. E ainda há tanto, tanto a estudar e compreender.

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21.dezembro.2011 07:29:24

‘Jogo bonito’

É curioso, mas não surpreendente, que tenha sido necessário o Barcelona confirmar sua óbvia superioridade técnica e tática sobre o Santos para que muitas pessoas lamentem o nível medíocre do futebol brasileiro. No resto do tempo, é a mesma ladainha: temos o melhor campeonato do mundo, com vários clubes candidatos ao título; a ginga nacional é imbatível desde que não haja complexo de vira-lata; Neymar nada teria a aprender jogando num grande clube europeu, pois a mestiçagem nos fez o povo eleito na arte do futebol; etc., etc. Como acham que nos bastam “auto-estima” e dinheiro, pois a habilidade é um dom que Deus ou o DNA já nos deu, são incapazes de reconhecer uma entressafra de talentos – da qual um Neymar sozinho não nos redime – e a melhor fase de outras escolas do ludopédio.

Daí essa desculpa de que o problema do Santos foi justamente não jogar à brasileira. Sim, é verdade, a escola de Pelé sempre foi a da realização de todos os fundamentos (passes, dribles, chutes) associada ao improviso, à criatividade, à ousadia; foi combinar aproximações e simulações para atingir o objetivo da vitória. E é isso que, simplesmente, como disse Pep Guardiola, faz o Barça. O time mantém a bola rolando de pé em pé, sem chutões nem chuveirinhos, fica no campo do adversário a maior parte do tempo e busca frequentemente o gol, busca entrar na área para nocauteá-lo com classe. Mas, opa, quem disse que é assim que os brasileiros interpretam seu próprio futebol? O que se ouve é que organização nunca foi nosso forte, que nossa “essência” é o efeito sem esforço, a poesia sem prosa, que a vantagem no placar é menos relevante que um drible da foca – e que faltou ao Santos “se divertir” para fazer frente ao Barcelona…

Ao mesmo tempo – e este hiato é o problema central – não vemos nada disso aqui. É um futebol cheio de faltas, trombadas, correrias desordenadas, bolas rifadas, de escassos gols e brilhos – como o futebol do campeão nacional deste ano, o Corinthians. Os treinadores ficam à beira do gramado gritando “Tira daí!”, “Mata a jogada!”, “Pega, pega!”, “Cruza na área!”. E depois têm a cara de pau de dizer que o Barcelona joga “sem atacantes” – como se Messi não ficasse sempre a menos de 20 metros da área e não fizesse um gol por partida, como se Villa ou Pedro não entrassem em diagonal às costas da zaga o tempo todo, como se os meias Xavi, Iniesta e Fábregas não apoiassem muito e não marcassem decisivos gols. Veja Daniel Alves: ele é um lateral e joga na linha dos zagueiros… adversários! Nada de “volantes de contenção”, nada de atacantes paradões e toscos.

Fico à vontade para criticar o futebol brasileiro dos últimos cinco ou seis anos porque, enquanto todos chamavam a geração de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu de “estrangeiros” e “mercenários”, eu os defendia como herdeiros honrosos de um estilo que combina refinamento e eficiência. Agora é preciso pensar diferente para jogar diferente. Ou melhor, para voltar aos bons tempos do “jogo bonito”.

(“Boleiros”)

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Acrescente à lista de melhores livros do ano O Rio É Tão Longe, de Otto Lara Resende (Companhia das Letras, organização Humberto Werneck). São suas cartas a Fernando Sabino de 1944 a 1970. Escritas sem parágrafos como num jorro de associações e evocações, lembram muito o Otto real, coloquial, embora ao vivo fosse mais divertido ainda. Dele sempre se disse que era melhor conversando do que escrevendo, então é natural que surja a opinião de que essas cartas são sua melhor obra. Mas ele escrevia divinamente, e quem leu seus contos, seu romance O Braço Direito e suas crônicas, como a coletânea agora reeditada Bom Dia para Nascer (em número bem maior do que o original), sabe do que estou falando. E quem escreve bem o faz em qualquer gênero, de um bilhete ao porteiro até um tratado de filosofia.

Otto jamais quis publicar essas cartas, mas as escrevia com aplicação literária, digamos; tanto é que agradece a Sabino em 19 de agosto de 1964 por finalmente escrever “uma carta de verdade, pra valer” (e o volume nos deixa frustrados por não ler as respostas de Sabino, que comparava Otto a Mário de Andrade como os grandes epistológrafos brasileiros). Os encantos para o leitor são muitos, por mais que se estranhe a escassez do tema político num período tão complicado. Adido em Bruxelas e em Lisboa, Otto também fala pouco sobre a cultura de onde está, muito mais ansioso em ter de Sabino notícias dos amigos. Este é um dos maiores atrativos, ratificar o privilégio dessa geração de conviver entre si: morremos de inveja dos encontros de Otto com Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Antonio Callado, Vinicius de Moraes e, claro, a turma formada por Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino… Facebook para quê?

Também vemos um Otto nada diplomático, xingando o crítico Wilson Martins, tendo bloqueios criativos e se queixando dos afazeres, exceto os familiares, ele que era pai de quatro filhos e marido amoroso. E, por trás do humor e da religiosidade, sempre sentindo um gosto de jansenismo: “Vejo meu nome impresso, me dá um aborrecimento de morte, uma contrariedade sincera, profunda e estapafúrdia, parece acusação pública, prestação de contas, julgamento. Por isso resumi meu nome de Otto Oliveira de Lara Resende para Otto Lara Resende, agora para Otto Lara e já estou me assinando O. Lara, amanhã começo a assinar O., depois engulo esse O. com pontinho, como numa dessas mágicas de circo, sumi, desapareci (…).” Não, não desapareceu; está vivíssimo em todos os seus textos.

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18.dezembro.2011 10:47:09

Ofuscante Barça

Deu o esperado: show, goleada, chocolate. O Barcelona venceu com facilidade o Santos, com mais de 70% de posse de bola, o dobro de finalizações e, claro, várias jogadas de técnica e beleza com Xavi, Iniesta, Daniel Alves (sim, como não?) e ele, Messi, autor de dois golaços, ofuscando Neymar completamente. O Santos cometeu o erro que tantos cometem contra o melhor time do mundo: ficou assistindo sua troca de bola, passes rápidos e, no momento adequado, incisivos. Não tinha marcação forte nem contra-ataque consistente. Ganso se destacou pela indolência mais uma vez. Neymar perdeu gol cara a cara e em duas boas ocasiões perdeu a bola por preciosismo. Como um todo, a equipe mal pegou na bola e, quando pegou, não teve calma, lucidez, autoconfiança; a tônica era a ansiedade, a precipitação. Justissimamente, o Barcelona venceu com muita classe e poderia ter feito mais. E Messi de novo mostrou por que é o melhor.

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De vez em quando leio que essa história de dizer que o cancioneiro brasileiro moderno (ou MPB, rótulo às vezes usado de forma muito restritiva, “esquecendo” glórias como Pixinguinha ou Nelson Cavaquinho) é dos melhores do mundo, ao lado do americano, do inglês e do cubano, seria um exagero nacionalista ou algo parecido – já que há também a “chanson” dos franceses, a “canzone” dos italianos, o tango de Gardel a Piazzolla, o fado, etc. Mas o repertório criado na terra de Tom Jobim continua sendo admirado pelos músicos mais talentosos do planeta. E gravado por cantoras como Stacey Kent, que em seu novo CD, Dreamer in Concert, além de quatro clássicos americanos e dois franceses, interpreta Corcovado, Águas de Março e Samba Saravá e até arrisca o português em O Comboio. Ou por Amy Winehouse, cujo disco póstumo, Lioness: Hidden Treasures, faz versão cheia de “scats” de Garota de Ipanema. Sim, ela fará mais falta como compositora, naquele seu motown apocalíptico.

São duas áreas em que a contribuição brasileira ao mundo é inegável, o futebol e a canção, embora com todos os problemas o futebol ainda produza um Neymar. Não que não haja diversos talentos jovens na música brasileira, mas os tempos já foram melhores. Não à toa ainda se fala demais de veteranos como Chico e Caetano, que deram inteligência às letras honrando a tradição da melodia. O novo CD de Chico, com seu nome, trouxe coisas bonitas como Sinhá e Essa Pequena, mas é engraçado como seus defensores foram obrigados a argumentar que na primeira audição o prazer não é dos maiores… Caetano encerra o ano com uma belíssima canção, Recanto Escuro (“É fácil: nem ter que pensar/ nem ver o fundo”), no CD novo de Gal Costa, canção que justifica as demais. A versão ao violão, que ambos apresentaram no Programa do Jô, é melhor que a do disco, com arranjo feito de um pulso eletrônico e algumas inserções instrumentais que pouco somam. Mas que melodia!

Num campo menos acessível, tivemos CDs de Dori Caymmi e André Mehmari, com sofisticação harmônica hoje rara. Da nova geração, intérpretes como Marisa Monte e Maria Rita diluíram ainda mais seus estilos, e compositores como Tiê e Marcelo Camelo também só pareceram se repetir num registro mais aguado. Não temos no atual momento nada que se possa comparar com nomes como Tom Waits e Elvis Costello, mesmo que estes tenham lançado CDs sem nada muito especial (respectivamente, Bad as Me e National Ransom), o que também se pode dizer de Radiohead ou Madeleine Peyroux. E muito menos temos uma novidade do porte da inglesa Adele, cujo segundo CD, 21, a fez de longe o destaque do ano. Suas canções e sua voz têm qualidade e impacto, daí seu sucesso com os mais diferentes públicos e críticos.

No mais, foi um ano dominado mais por eventos (de todos os gêneros, com o calendário brasileiro cada vez mais cheio) do que por criações. Vi poucas e boas apresentações, como as de Paul McCartney, Ute Lemper e a mais antológica de todas, de Keith Jarrett, agora entesourada em CD. Na chamada “erudita”, vive-se ainda basicamente do passado, mesmo que reinventado como as Suítes para Violoncelo de Bach por Dimos Goudarolis. De brasileiros, claro, Nelson Freire não faltou de novo, e seu Liszt tem belezas como as Consolações. Estamos consolados.

CADERNOS DO CINEMA

Meia Noite em Paris, de Woody Allen, é o filme mais satisfatório do ano. Muita gente não percebeu que ele é muito mais que um exercício de nostalgia com a capital francesa como cartão postal, mas uma ironia ao mundo americanizado de hoje em que aparência e consumo são os únicos assuntos. Outro filme que não menospreza a inteligência do espectador, mesmo que ele não o mereça, é A Pele que Habito, de Almodóvar, um Hitchcock à latina, de grande apuro visual. Não troco esses dois filmes pela falsa profundidade de Melancolia, de Lars Von Trier, e Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami. No Brasil, não tivemos nada que combinasse talento e sucesso, a começar por tentativas de “blockbuster” como Bruna Surfistinha. Não foi um grande ano.

Depois da safra do Oscar, vencido por O Discurso do Rei (e na categoria de filme estrangeiro pelo forte dinamarquês Em Um Mundo Melhor), e de relativas injustiças cometidas contra A Origem e Bravura Indômita, o cinemão hollywoodiano pouco nos deu também. A Árvore da Vida foi muito comentado, mas é um videoclipe criacionista, de roteiro confuso, limitado à beleza das imagens. Prefiro Planeta dos Macacos, não apenas por seu entendimento de Darwin, mas pela vitalidade narrativa. Crianças e adolescentes se divertiram mais, ainda que com sequências de sucessos (Harry Potter, Piratas do Caribe, Carros, Kung Fu Panda), e o destaque não foi uma sequência: foi Rio, do brasileiro Carlos Saldanha.

De resto, vimos filmes bonitinhos e só, como Inquietos, de Gus Van Sant, e agora Um Dia, dirigido mais flacidamente por Lone Scherfig, baseado no romance de sucesso de David Nicholls, com Anne Hathaway. O filme poderia se chamar “A perdida e o pavão”, pois os personagens no livro são mais interessantes. Para variar.

A ARTE DE VER

Nas demais artes, não fui tão assíduo, mas desconfio que as opções são menos numerosas mesmo. As exposições de Saul Steinberg e M.C. Escher, por exemplo, foram muito bem-vindas, ainda que a segunda bem mais completa. Ambos levaram as artes gráficas – os jogos de espelho, a força das linhas – a outro patamar, lá onde as classificações caem por terra. Já a mostra na Bienal com nomes antes pouco vistos no Brasil, como Damien Hirst, e os trabalhos de Olafur Eliasson para a Pinacoteca cumpriram antes uma função informativa do que um deleite estético. Eliasson tem coisas muito melhores. Para mim, que estou saudoso de escrever sobre grandes exposições, o ano foi sobretudo marcado pela perda de pintores como Lucian Freud e Cy Twombly.

Também nas artes cênicas estive um tanto ausente, mas gostei da peça Pterodáctilos, dirigida por Felipe Hirsch, e de mais um trabalho caprichado do grupo Corpo, Sem Mim, em cima das cantigas de Martin Codax. Por incrível que pareça, a TV teve performances memoráveis em séries históricas como Game of Thrones e Os Bórgias, ainda que esta tenha desaparecido do canal TCM. Continuei acompanhando O Império do Contrabando, com o ótimo Steve Buscemi, e também Fringe, esta também maltratada pela Warner local, que vive reprisando episódios fora da ordem. Já a TV brasileira teve um ano de mesmice.

(“Sinopse”)

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