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Daniel Piza

26.julho.2011 07:04:12

Inté

Tiro descanso de alguns dias. Até a semana que vem.

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25.julho.2011 16:53:40

Chico só letra

Escutei rapidamente Chico, o novo CD dele, na sexta-feira, dia em que chegou às lojas, depois de algumas ações na internet (quando Chico descobriu a pólvora: explodem ataques pessoais na rede, e ele mesmo, apesar de ídolo e best seller, é chamado de velho e bêbado). Não dá para dizer dele como se diz de Woody Allen, que ele se repete, mas num nível alto, em constante renovação em torno dos mesmos temas. Chico se repete, mas sem vigor, a começar pela voz; e as melodias ressoam antigas, ainda mais nos arranjos de Luiz Claudio Ramos. Como era de esperar, as letras se salvam, ao menos aqui e ali, e quem não vê graça em “Por uma estátua ter adoração/ Amar uma mulher sem orifício” é o mesmo que elogiaria Cole Porter por um verso desses e pela referência ao mito de Pigmalião. Mas eu diria que o Chico escritor, hoje, tem muito mais a dizer do que o compositor.

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25.julho.2011 15:02:26

Sebald, coragem e literatura

Citei na semana passada o escritor Robert Walser, cujo romance Jakob von Gunten – na verdade um romance em fragmentos, na forma de um diário – foi publicado recentemente no Brasil, mais de cem anos depois. Um dos autores contemporâneos de língua alemã que mais o estudaram foi W.G. Sebald, um baita escritor, infelizmente morto em 2001, também de modo precoce. Dele é publicado agora Guerra Aérea e Literatura (Companhia das Letras, tradução Carlos Abbenseth e Frederico Figueiredo), que é um exemplo de como desafiar a cultura estabelecida de seu próprio país. Sebald, autor de livros inesquecíveis como Austerlitz e Os Emigrantes, analisa a recusa e a dificuldade dos escritores alemães de retratar os bombardeios e sofrimentos infligidos a esse povo durante a Segunda Guerra Mundial. Mostra o problema até mesmo nos que correram esse risco, com medo da represália moral, quando o dever da literatura é descrever todos os lados das questões.

Sebald diz coisas como: “A capacidade do ser humano de esquecer o que não quer saber, de não fazer caso daquilo que está diante do seus olhos, poucas vezes foi posta à prova de forma tão rigorosa como na Alemanha daquele tempo. Em um primeiro momento, o puro pânico determinou a decisão de prosseguir como se nada houvesse acontecido.” Mas, no segundo momento, quando a verdade histórica deveria aparecer até para que não se repetisse, poucos autores estiveram à altura. A coragem de Sebald era intelectual e moral. Ave rara.

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25.julho.2011 07:00:35

Pessoa eterno

Ganhei da minha mulher a fascinante edição fac-similar de Mensagem, de Fernando Pessoa, que reproduz o original do escritor tal como está na Biblioteca Nacional de Portugal. Vemos as páginas datilografadas e as pequenas anotações e correções à mão do autor, inclusive a troca do título, que antes seria Portugal. Percebo que há uma moda intelectual que diz que esse não é o melhor Pessoa, afinal foi seu único livro publicado em vida (boa parte de sua poesia saiu em revistas e jornais) e com o nome verdadeiro, não sob um dos heterônimos, logo com certo aroma de ufanismo ou oficialismo. Mas basta ler alguns versos para esquecer essa objeção ideológica e, lendo um pouco mais, fica claro que há muita ironia no lugar de patriotismo – inclusive quando Pessoa diz que “o mar com fim será grego ou romano/ o mar sem fim é português”. Só quem não tem a “febre de navegar” não vibra com esse livro.

Muito mais que os modernistas paulistas, Pessoa foi moderno e eterno.

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Quando se vê o lauto banquete que a máquina pública faz com nosso dinheiro, digerindo cada vez mais o que produzimos para fastio de seus ocupantes, familiares e apaniguados, tirando de muitos para alimentar a poucos, há um contraste direto com as propostas de Oswald de Andrade “contra as elites vegetais”, que vivem de especulação e espoliação. Ao mesmo tempo, o repasto com as verbas do contribuinte montado pelo Partido da República (sic), com Waldemar Costa Neto à ponta da mesa, e a gordurosa ajuda do poder público ao estádio do Corinthians, em Itaquera, são praxes muitas vezes justificadas pela tal alegria pré-cabralina do brasileiro que Oswald exalta em seu Manifesto Antropófago de 1928. O Brasil ainda prefere deglutir a si mesmo.

Me refiro a Oswald porque ele foi homenageado da Flip e é tema de um livro bem amplo, Antropofagia Hoje? (Realizações Editora, org. Jorge Ruffinelli e João Cezar de Castro Rocha). Na Flip (que perdeu muito com a ausência de Antonio Tabucchi, pois nomes como James Ellroy e Valter Hugo Mãe não estão à mesma altura), afinal, tivemos a celebração esperada, por Antonio Candido, José Miguel Wisnik e Zé Celso, e no livro temos mais debates e contextos (como a lembrança do manifesto Dadá de Francis Picabia, que inspirou o de Oswald). Mas o fato é que os romances de Oswald são pouco lidos hoje, ainda mais em comparação com Macunaíma, de Mario de Andrade, que, por sinal, deglutiu as ideias de Oswald e as devolveu melhoradas nesse livro. E que esse Brasil dos seguidores de Oswald está longe de encarnar o mito que ele roteirizou.

O manifesto dele é um produto de suas leituras muito peculiares e limitadas de Freud somadas à crença no comunismo e no surrealismo. Ou seja, imagina um Brasil que não segue o caminho da chamada “civilização”, que seria o caminho da sublimação, da repressão sexual, da catequização religiosa, um Brasil muito mais instintivo do que lógico ou, na visão de Zé Celso, dionisíaco em vez de apolíneo. Agora, considere a realidade. Temos uma classe dirigente que gasta dez vezes mais dinheiro pagando juros do que combatendo a fome, um Estado que todo ano bate recordes de arrecadação enquanto o PIB continua entalado na garganta da corrupção e da ineficiência. E não só na política. Esta cultura supostamente liberada e matriarcal é uma das menos seculares do mundo, com altos índices de violência contra a mulher. Como escrevi no texto incluído no livro, “Pindorama também castra e discrimina. E muito”.

Mas já passa da hora de ver que uma coisa está relacionada com a outra. O primeiro a celebrar o espírito festivo e anticrítico dos brasileiros é o oligarca, o poderoso ao estilo Sarney, que sempre escreve sobre isso. O padrão oligárquico, como previu Joaquim Nabuco muito antes de Oswald, continua a dominar o sistema brasileiro. Nele, afetos são sempre alegados como justificativas para as famigeradas ações entre amigos como as que devoraram o orçamento do Ministério dos Transportes. Ou veja o argumento dos que defendem a isenção fiscal e a linha do BNDES para o estádio do Corinthians: ali será a abertura da Copa do Mundo e isso seria muito bom para a imagem do Brasil “lá fora”. Afinal, comemos o futebol que veio da Inglaterra e nos tornamos a escola principal da culinária ludopédica, certo? Em nenhum momento alguém apresentou números do retorno concreto para esses mais de R$ 800 milhões que sairão do nosso bolso nos próximos anos.

Raciocínio para quê, afinal? Somos adeptos da magia, não da ciência… Pobre Oswald. Tão citado quanto esquecido.

(“Sinopse”)

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23.julho.2011 07:21:03

Harry, história

Certo, Harry Potter passou pelo ritual de entrada na vida adulta e o tom dito “sombrio” dos últimos filmes tem relação com esse fim da adolescência. Mas, agora que a saga de sete livros e oito filmes acabou, não é difícil lembrar melhor a criatividade visual e da leveza dos primeiros filmes, como naquelas cenas do jogo de quadribol ou as lutas contra animais mitológicos, em contraste com as batalhas grandiloquentes do bem contra o mal nos derradeiros. Ou lembrar o quarto filme, a meu ver o mais completo, por unir aquela leveza com a tensão de uma competição pelo Graal e a revelação de que Harry e Valdemort não são tão separados assim. Com o tempo, porém, Harry foi sendo cada vez mais o “enviado”, o impuro que se torna heroi ao combater as trevas racistas. Em compensação, o “acting” melhorou muito, e Ralph Fiennes decidiu roubar a cena como vilão.

O segredo da saga juvenil? Mesclar história de bruxos, referências mitológicas e ambiente escolar. E tecnicamente os filmes são mais inventivos do que os livros. Harry agora é história.

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Mais ainda que a morte de Cy Twombly, a de Lucian Freud, aos 88 anos, é um golpe no gênero da pintura, como toda morte de um mestre. Ao lado de Francis Bacon, Freud, neto do autor de A Interpretação dos Sonhos, nascido em Berlim e radicado na Inglaterra, renovou a pintura figurativa num momento em que quase todos os críticos diziam que estava morta e que abstratos – como o próprio Twombly em sua fase dos garranchos – a teriam “superado”. Ironia da história, Freud representa hoje muito mais a grandeza da pintura do que um Twombly. Com seus retratos de seres carnais, com veias à flor da pele, ossos ou pelancas à vista, olhos mergulhados em traumas ou memórias, uma presença volumosa na superfície da tela, como que prestes a sair para o ambiente, ele mostrou como é inesgotável o campo da figura humana, de suas expressões físicas e psíquicas. Os rótulos de “realista” ou mesmo “hiper-realista” não colam nele, pois sempre foi muito além do que uma câmera pode mostrar ou ampliar; seu olhar pessoal se traduzia em cada pincelada, de grande apuro técnico, e seu objetivo nunca foi apenas criar uma sensação de realidade exterior, e sim distribuir diversos focos de tensão numa massa heterogênea que, à primeira vista, tem uma força unificada, repleta de ironia e sensualidade, de visceralismo em camadas. Renovar é sempre mais difícil e prazeroso do que se bastar em ser novidade.

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Porque tem dois atacantes rápidos, que se movimentam muito e sabem fazer gol, William e Liédson, que ontem abriu o placar contra o Botafogo; porque tem jogadores para dar a bola para eles, como Danilo e Jorge Henrique, além dos laterais, em especial Fábio Santos; porque tem dois volantes que marcam bem e saem para o jogo com responsabilidade, Ralf e Paulinho, autor do segundo gol; porque tem boas opções de banco, como Emerson, que aos poucos pode ganhar espaço; e porque tem uma defesa firme, que resistiu à pressão do mandante sem fazer muitas faltas. Rapidez, coesão e bom nível técnico médio – eis o segredo. Não é uma equipe muito superior às outras, mas tem mais clareza e segurança em sua proposta.

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20.julho.2011 07:33:41

Amadureçam!

Quando pediam a Nelson Rodrigues um conselho para os jovens, o dramaturgo e cronista soltava o vozeirão sem hesitar: “Envelheçam”. Descontando o conservadorismo do anjo pornográfico, podemos ajustar o conselho para: “Amadureçam”. Pois amadurecer não significa o mesmo que envelhecer, perder o atrevimento e a inquietude, e sim saber os melhores momentos para cada coisa, saber extrair os prazeres que deem retorno e perdurem, encontrar uma lucidez em meio ao caos. Quando digo que a seleção de Mano Menezes é imatura, portanto, não me refiro exatamente à falta de milhagem ou malandragem, mas ao excesso de preciosismo e nervosismo.

Há jogadores muito jovens que já são maduros, como Pelé aos 17 anos ou Ronaldo aos 19, embora mesmo os fora de série precisem de tempo para aprimorar a técnica e dominar os brios. Neymar é um craque, e a conquista da Libertadores como protagonista em tão precoce idade está em seu currículo, mas ainda precisa amadurecer para que seja o que todos queremos que seja. Ele não brilhou em nenhum jogo, e no melhor deles dividiu os holofotes com Pato, ambos autores de dois gols, e com o lateral Maicon. Considerando a participação toda, ficou bem abaixo do esperado. Como André Santos, Daniel Alves e o próprio Pato, pecou especialmente por conduzir demais a bola, deixando de dar o passe para um jogador mais bem colocado até para devolvê-la.

Ganso também não jogou o que sabe. O leitor pode lembrar que ele é mais velho, 21 anos, mas o fato é que sua carreira profissional é recente e que se trata de um novato com a camisa amarela, como os demais. A outra jovem revelação, Lucas, 19 anos, também não foi bem quando entrou nos segundos tempos, e pelo mesmo motivo: pegava a bola, limpava um, tirava outro e… perdia na sequência. Até mesmo Ramires, que é volante e, logo, não pode entregar a bola com facilidade ao inimigo, cometeu o mesmo erro. O que vemos, portanto, é um padrão: houve, em média, pouco espírito de equipe, e o exagero de ações individualistas prejudicou o coletivo.

Mas não foi só isso. Olhe a média de gols de Pato e Neymar, para ficar apenas nos dois atacantes mais próximos da trave adversária. Não, eles não são goleadores, então faz sentido que tanta gente sinta falta de Romário e Ronaldo, cuja lacuna não será preenchida tão facilmente. Para um time jogar sem homem de área, precisa, como o Barcelona de Messi (que lá faz quase um gol por partida), jogar mais adiantado e ter muitos atletas com frieza diante da meta, com aquela tranquilidade que é um dom e também um sinal de maturidade. Não perder a objetividade e a clareza diante do goleiro não é coisa para qualquer um, muito menos para quem está ansioso como um adolescente.

Sobre os pênaltis, que passaram à história por motivos patéticos – quatro cobranças erradas em seguida, com olhadinha lamentável para a grama depois, como se ela não fosse a mesma para os paraguaios –, já foi lembrado que quem os desperdiçou está longe de ser inexperiente, como Elano, mas qual a contribuição dos outros três, Fred, André e Thiago Silva, para a história da seleção? E pensar que queriam Fred ou Adriano no lugar de Ronaldo em 2006… Ali vimos outro traço de imaturidade, esse recorrente na cultura brasileira: a vontade de transferir a culpa da forma mais imediata e esfarrapada que houver.

Ao contrário do que Nelson Rodrigues dizia, o problema, como em 1950 (conforme Pelé notou), foi o complexo de superioridade, não o de inferioridade. Foi aquela velha mania nacional de “jogador brasileiro tem mais técnica e só perde para si mesmo”. Cadê essa famosa técnica na hora de bater o pênalti? O vexame de 1950 serviu para o amadurecimento em 1958. Que o dessa Copa América 2011 sirva para a Copa de 2014. Mas não basta o tempo passar; é preciso pensar, fazer a autocrítica e trabalhar com seriedade. Amadureçam!

(“Boleiros”)

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18.julho.2011 09:09:53

O sabor que fica

A eliminação do Brasil na Copa América teve um sabor ridículo, porque o último sabor é o que costuma ficar – e perder quatro pênaltis seguidos vai para a história da infâmia ludopédica, ainda mais com olhadinhas para o gramado para tentar justificar o erro. Mas ninguém em sã consciência pode negar que o Brasil jogou melhor que o Paraguai o tempo todo, com boas atuações de Robinho e André Santos e ótimas oportunidades desperdiçadas por Pato e Neymar, além da grande tarde do goleiro paraguaio. Mas a falta de pontaria do ataque e a irregularidade de quase todos, como Ganso, o camisa 10, são sintomas de que o time não está maduro, de que pecou por carência de experiência e excesso de máscara. A ausência de veteranos para fazer a transição e de jogadores com mais faro artilheiro – afinal, Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Adriano entraram em decadência muito cedo, logo depois de ter atingido o auge – pesaram também. Acho que Mano Menezes, mesmo tendo tirado o trio de jovens talentos do ataque, ainda tem crédito, mas o fato de não ter Eliminatórias para disputar daqui até a Copa de 2014 pode atrapalhar o amadurecimento dessa geração.

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