
Se alguém acha que o objetivo de Roberto Carlos era voltar e jogar a Libertadores pelo Corinthians, está enganado: ele quer muito mais. Em entrevista exclusiva na quinta-feira, no campo de treinamento usado pelo clube em Itu, o jogador disse que quer ganhar a Libertadores e outros títulos, jogar mais três ou quatro anos e chegar aos 40 atuando pelo Corinthians. E também quer voltar à seleção, da qual diz que saiu por pressão de imprensa e na qual não vê lateral esquerdo com seu perfil. Aproveitou e defendeu seu desempenho na Turquia, criticando o Fenerbahçe por atraso de salário, comentou os problemas do Real Madrid dos galáticos e disse que o novo time do Corinthians já está se entrosando. Para ele, a volta de jogadores de renome mostra que o futebol brasileiro está aprendendo a se organizar com empresas e marketing.
Você e Ronaldo pertencem a uma geração que, em comparação com a dos anos 80, foi mais bem-sucedida no futebol europeu. Ficaram cerca de 14 anos fora e ganharam muitos títulos coletivos e individuais. E aí de repente vocês voltam ao Brasil para encerrar carreira. O futebol brasileiro vai ser sempre feito de jovens revelações e veteranos consagrados?
Acho que não. O futebol brasileiro não é mal organizado. Eu não encerrei a carreira no Real Madrid por quê? Porque não cheguei a um acordo sobre os anos de contrato. Não terminei meu contrato no Fenerbahçe por quê? Porque o clube não era tão bem organizado quanto pensei. Não paga em dia, não tem estrutura de treinamento, não tem história a não ser na própria Turquia. Não pode continuar enganando o mundo.
O que falta nos clubes brasileiros?
O que hoje o Corinthians tem: empresas que patrocinem, que queiram participar, empresas importantes.
Você acha que sua volta e a do Ronaldo podem simbolizar essa mudança?
Não só a nossa. A do Fred para o Fluminense, a de outros grandes jogadores. Isso faz com que grandes empresas invistam nos clubes. Mas o Corinthians hoje é referência porque tem muitas empresas patrocinando. Sabe usar o nome do clube, sabe trazer o jogador e sabe explorar a imagem do jogador.
Ronaldo tem participação em anúncios na camisa. Você não vai ter isso, mas vai ter no licenciamento das marcas, é isso?
Todo o licenciamento é meu.
Você acha que daqui a um tempo o futebol brasileiro vai conseguir reter mais craques, disputar melhor com os clubes estrangeiros?
Exato. Jogadores brasileiros têm imagem no mundo todo, que pode ser explorada. E aí não precisa tanto ir para fora. Não é igual à nossa época. A gente cavava nosso espaço para ir para fora ganhar dinheiro. Antes, sinceramente, eu nem pensava em voltar para o Brasil. Agora tive a felicidade de voltar para um time grande. E pelo que eu estava jogando no Fenerbahçe. Ao contrário do que dizem alguns, eu estava muito bem lá. Fui o jogador que mais esteve em campo nos últimos dois anos. Fiz 110 jogos pelo Fenerbahçe, sempre em nível alto.
E quando você se decepcionou com o Fenerbahçe você pensou em voltar ao Brasil. Para qual time pensou primeiro?
Pensei em Brasil. Tinha possibilidade de Santos, Palmeiras, mas o Corinthians estava praticamente fechado.
Você balançou em relação ao Santos.
É, mas foi coisa minha, mais pessoal, sonho de infância. O Corinthians me ofereceu um projeto. Mostrou o que o Ronaldo tem e me ofereceu um também, relacionando a imagem do clube e a minha. E é o ano do centenário. Foi muita coincidência, tudo. Não vim aqui para ganhar apenas a Libertadores; vim para ganhar tudo que possa ganhar com o Corinthians nesses três anos. Minha meta é jogar mais três, quatro anos, chegar até os 40 anos jogando.
O Corinthians investiu muito para este ano. A conta não pode ficar pesada lá na frente?
O Corinthians nos próximos 10 ou 12 anos é um clube estruturado. A parte financeira não vai afetar em nada. Ouvi o Neto dizendo que se a gente não ganhar a Libertadores a dívida vai de R$ 100 milhões para R$ 500 milhões. Ele não sabe o que está acontecendo. A gente sabe. O Corinthians é um clube que vende muito, tem dinheiro de televisão, tem um marketing.
A referência das pessoas talvez seja a história da MSI, que entrou e depois deixou a situação ruim, e houve aquele episódio em que a torcida quis invadir o campo quando o time de Tévez, Nilmar e outros perdeu na Libertadores.
Mas as pessoas que estão controlando o clube hoje são muito bem capacitadas. Não que a anterior não fosse. Mas hoje o clube é muito bem estruturado. Montou um grande time para ganhar muitos títulos nos próximos 3 ou 4 anos. Se um Ronaldo for embora daqui a dois anos, por exemplo, outro craque vai chegar.
Mas que ganhar a Libertadores teria um gosto especial tem, não? Você tem três Champions, mas não Libertadores.
Seria muito, muito bom. E também faz muito tempo que não ganho o Paulista, o Brasileiro… Há 14 anos! (risos)
Você acredita nessa história de que o Corinthians não ganha a Libertadores porque é um time muito caseiro, local?
Não tem nada a ver. Tudo depende do planejamento. O jogador brasileiro ganha pelo que joga. Também diziam que a seleção não ganhava Copa América. Fomos lá em 95, ganhamos; fomos lá em 97, também. O negócio é jogar mais bola que o adversário. Não tem essa de catimba. Futebol hoje é velocidade, experiência. Brasileiro quer se divertir com responsabilidade. Os números estão aí para demonstrar a superioridade do futebol brasileiro.
O Corinthians se preocupou em ter dois bons jogadores para cada posição. Tcheco e Danilo, Defederico e Dentinho, Ronaldo e Iarlei, etc… É por aí?
A defesa está bem também. Temos o Chicão e o William, mas também o Paulo André, que é muito bom jogador, e agora chegou o Leandro do Barueri. Com a espinha dorsal que tem o time – goleiro, zagueiro, meio-campo e atacante –, ficamos fortes.
E o entrosamento? Danilo joga pela esquerda, Tcheco também, Defederico é canhoto, você… O próprio Ronaldo gosta de cair pela esquerda…
Pelo que vemos aqui nos treinamentos coletivos, de posse de bola, já estamos adaptados, tocando sem ver. E a gente já conhece os jogadores, sabe os movimentos que vão fazer. Quando cheguei, estava preocupado com isso. Mas o ambiente está tão bom, e os treinamentos estão nos dando tanta confiança, que vai ser muito gostoso jogar.
Você acompanhou o Corinthians no ano passado?
Acompanhei tudo. Desde a estreia do Ronaldo até o final. Se forçasse um pouco mais, o Corinthians teria sido campeão do Brasileiro também.
Houve a venda no meio do ano: André Santos, Christian, Douglas.
Mas hoje, se vender, tem peça de reposição.
No Fenerbahçe você estava jogando mais atrás, sem avançar muito, e o André mais à frente.
Ele tem cacoete de meio-campo. Eu sou lateral. Mas gosto de apoiar muito, de ir até a linha de fundo. Eu alternava com ele, mas ele jogou mais à frente e isso até complicou a situação dele com a seleção brasileira. O jeito como o Cafu e eu jogávamos era diferente. A gente marcava e atacava. Hoje só o Máicon faz isso. O Daniel Alves também tem jogado mais como meia. O Marcelo, no Real Madrid, também não é lateral.
Com quem você se vê atuando ali pela esquerda? O Danilo cai muito por ali.
Aqui já treinei com o Danilo, com o Jorge Henrique e com o Dentinho. Com os três funcionou muito bem.
O Ronaldo não deve aguentar 50 jogos por ano. E você?
Eu sou fominha. Quero jogar todos, desde que não prejudique o time.
Existe o “risco galáticos”? Principalmente quando o Beckham chegou, em 2004, o Real Madrid que tinha você, Ronaldo, Zidane e Figo decepcionou. Por quê?
Não ponho a culpa na imprensa, mas essa história de chamar de “galáticos” atrapalhou muito. E o clube começou a querer fazer excursões, cobrando caro por jogos amistosos, o que é normal, para recuperar os gastos. Os adversários entravam em campo como se fossem disputar final de Copa do Mundo. Nós, jogadores, fomos tentando tirar isso. Diziam que o Beckham tinha sido contratado para vender camisa, mas ele é um grandíssimo jogador. O Real Madrid é muito, muito grande, mas lá dentro faltava alguma coisa. Criavam muita polêmica. Não adianta você criar um monstro que depois não dá certo.
Mas aqui também existe cobrança para que vocês não sejam tão baladeiros, para o Ronaldo emagrecer…
O Ronaldo, gordo ou magro, careca ou cabeludo, é sempre o Ronaldo.
Mas o jogador brasileiro tem essa fama na Europa de ser baladeiro, de não gostar de treinar muito. Até na Turquia isso tem acontecido. Por quê?
Assim como falam da violência, da pobreza. Existem problemas, mas a imagem não pode ser só essa. Todo mundo gosta de estereotipar.
No Brasil isso acontece também. Você mesmo, com essa carreira, ouve muita coisa.
É uma questão de educação, de respeito. Quando ganha, pode sair; quando perde, não pode. Como se jornalista não fosse a balada!
Qual o melhor jogador com quem você atuou?
O Beckham.
Melhor que Ronaldo e Zidane?
Não. Eles são únicos. O Ronaldinho (Gaúcho) também. Nossa geração fez uma história bonita. Mas o Beckham é ótimo jogador.
O que acha quando culpam um jogador pela derrota? Em 1998 disseram que o Brasil perdeu porque o Ronaldo teve uma convulsão. Em 2006 foi o peso dele, ou você ajeitando o meião…
Ganhar sempre é muito complicado. E no dia seguinte todo mundo esquece o que você já ganhou. Em 1998 também reclamaram que eu chutei a bandeirinha. Chutei porque o juiz não viu que a bola não tinha saído. Ou a bicicleta que errei contra a Dinamarca. Ou essa história que inventaram sobre o meião. Eu estava onde tinha que estar. O Brasil não jogou bem? Então critica todo mundo, não precisa isolar um lance ou uma pessoa. O Parreira me cumprimentou porque consegui anular o Ribéry, que todo mundo dizia que era o jogador mais perigoso por ali. O Zidane desequilibrou. Ele até chegou ao nosso vestiário depois do jogo e me disse: “Desculpe pela temporada que fiz no Real Madrid. Mas o que eu não fiz lá eu fiz hoje aqui.”
Que outros laterais vê na seleção? Não há um Máicon pela esquerda ainda, um jogador que saiba avançar e recuperar.
Eu espero que o André volte à seleção, que o Kléber volte. A não ser que eu volte…
Você quer voltar?
Eu já disse algumas vezes: eu não saí da seleção por ter perdido a Copa do Mundo ou por mau ambiente. Saí por causa de alguns jornalistas que quiseram acabar com minha carreira, inventando aquela história do meião. Não voltei para o Corinthians por causa da Copa do Mundo; voltei porque acabou meu ciclo europeu. Voltei para jogar pelo Corinthians, para ser campeão paulista, da Libertadores, brasileiro… Um dos três títulos vou ganhar, disso tenho certeza absoluta. Em três anos dá para ganhar uns quatro títulos pelo menos. Mas sei que se jogar bem posso voltar à seleção.

O Ano Joaquim Nabuco, que se inicia oficialmente amanhã, data do centenário de morte do líder abolicionista e escritor, com eventos no Rio de Janeiro e Recife, já surpreende em especial seis pessoas: Sylvia Maria, a Vivi; José Thomaz; Joaquim Aurélio; João Maurício; Maria do Carmo, a Nininha; e Afrânio. Trata-se dos netos de Joaquim Nabuco (1849-1910), todos filhos de José Thomaz, o único dos cinco filhos de Nabuco que teve filhos. “Estou admirado com a repercussão da iniciativa”, diz João Maurício. “É muito bom saber que meu avô continua a ser lembrado.”
Como Nabuco se casou tarde, poucos meses antes de completar 40 anos, e José Thomaz era o caçula, os netos não conheceram o avô. “Nunca o vi como um homem da família, e sim como figura pública”, diz João Maurício. José Thomaz também conta que primeiro se familiarizou com a importância e a obra do avô graças ao que lhe foi ensinado na escola. “O pouco que sabemos dele na intimidade se deve a algumas lembranças do nosso pai, que tinha apenas 7 anos quando ele morreu.” Uma lembrança recorrente entre os netos, que moram no Rio e foram entrevistados por telefone pelo Estado, é a do avô limpando os amplos bigodes do ovo que comia todas as manhãs, segundo o pai lhes contava.
Todos, porém, guardam alguns objetos pessoais e documentos deixados por Nabuco, muitos dos quais foram emprestados para a mostra Joaquim Nabuco, Cidadão do Mundo, já exposta no Rio e que deve correr capitais neste ano. Entre eles, estão os reproduzidos nesta página: o tinteiro, o relógio, a espada e o bilhete inédito em livro do presidente americano Theodore Roosevelt, enviado a Nabuco quando embaixador em Washington, em 1907. A maior parte do acervo dele, assim, está dispersa entre os netos e também na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife.
Vivi Nabuco é uma das mais ativas promotoras da obra do avô. Por sua editora Bem-Te-Vi, publicará neste ano dois volumes com os simpósios realizados nas universidades Yale e Wisconsin, nos EUA, com especialistas de várias disciplinas e procedências. “São textos de grande valor, que discutem o pensamento e a vida dele com muitas percepções novas”, diz Vivi. Segundo sua irmã Nininha, o motivo para que ainda haja cartas e manuscritos de Nabuco não coligidas em livro é a vontade de manter o interesse avivado. “Não queremos dar tudo, mas aos poucos, para que ele seja sempre lembrado.”
Nininha é a que soa mais entusiasmada ao falar do avô, que todos dizem ser “cultuado” pela família desde a geração anterior. “Sou louca por ele”, diz. “Ele pregou a revolução pela paz, sem luta de classes. Era muito moderno e com apenas 19 anos advogava para escravos. Ao mesmo tempo, era essa personalidade única, porque nunca se beneficiou de nada.” Nininha exalta também a prosa do avô, “sem floreado”, e sua capacidade de escrever objetivamente sobre o próprio pai, o senador Nabuco de Araújo, em Um Estadista do Império.
Ela lembra que a avó, Evelina, tinha apenas 38 anos quando Nabuco morreu e que jamais tirou as roupas pretas, de luto, e uma folha de hera de ouro no pescoço, que simbolizava sua fidelidade. “Era religiosíssima, de uma religiosidade muito suave, delicada, e acho que influenciou meu avô nisso.” Conta que o avô prezava muito vestir bem, inclusive em casa. “Ele nunca estava relaxado e nunca se deixava ver com roupas de baixo.”
José Thomaz também diz que na família sempre se comentou muito a bondade de Nabuco. “Era um homem sem rancores, incapaz de fazer uma crítica impiedosa.” E lembra o episódio em que ele, acompanhando Evelina a uma missa dominical numa igreja católica de Londres, viu um padre e decidiu se confessar. “Foi aí que ele teve a conversão, ou, como ele dizia, a reversão, pois reverteu à fé de infância.” Nininha prefere lembrar sua “grande inteligência” e “personalidade estruturada”. Entre os Nabucos, o mais importante acervo é intangível.
(Escute aqui o comentário na rádio Eldorado)
O título não atrai muito, História do Brasil com Empreendedores, mas o novo livro de Jorge Caldeira (editora Mameluco) volta a um tema da maior importância e o aprofunda: como o Brasil antes da vinda de dom João em 1808 já era uma economia maior que a da matriz? Isso não bate com a velha tese da economia colonial como um sistema baseado principalmente no latifúndio exportador escravista. Contrariando o marxista Caio Prado Jr., em cuja obra mostra irônicas semelhanças com o conservador Oliveira Vianna (em conceitos como “ideias fora do lugar”), Caldeira mostra o contingente de empreendedores que davam início ao mercado interno, homens livres que não tinham escravos em sua grande maioria (e mesmo o tráfico negreiro era dominado por brasileiros).
O biógrafo do Barão de Mauá aponta corretamente para o campo de pesquisas e debates ainda mal explorado: o atraso brasileiro no século 19. Enquanto os outros países aboliram a escravidão e aderiram à industrialização, gerando uma classe média crescente, o Brasil hesitou demais, sob a oligarquia monarquista. Com parcas universidades, ferrovias e bancos, e sem ouvir apelos de homens como Euclides da Cunha e Joaquim Nabuco – de quem comemoramos o centenário de morte – sobre a necessidade de multiplicar a posse de terras, perdeu o trem do capitalismo, o qual só começaria a acelerar no século 20. As distorções, sofremos na pele até hoje.
Quando a desgraça é tanta, é comum buscar explicações sobrenaturais, divinas ou diabólicas, e ontem houve quem falasse em “maldição” sobre o Haiti. Num momento em que o país, cuja história é tão marcada por banhos de sangue e descalabros políticos, parecia começar a retomar algo parecido com uma normalidade institucional, a caminho de eleições, com apoio da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, vem esse terremoto e devasta cidades e milhares de vidas. Os trabalhos de reconstrução, pelo que se vê nas fotos, serão enormes, e é preciso pensar em ir além do ciclo de solidariedade que se instala nessas ocasiões – ações humanitárias que chegam de todas as partes em caráter de urgência – e evitar que os avanços recentes caiam também por terra.
Para os brasileiros, o luto é maior porque entre os mortos estava Zilda Arns, médica que ajudou a consolidar o Terceiro Setor, indo além de noções como caridade ou paternalismo, agindo na solução duradoura dos problemas de mortalidade infantil e saúde em geral, com independência política e inovações como o soro caseiro. Que ela, com esse conjunto de qualidades, seja um símbolo para o próprio Haiti – para que de novo recomece a remover os escombros de seu destino geográfico e histórico.
O repatriamento continua em alta. Como os destaques de 2009 foram Ronaldo, Petkovic e Adriano, além de bons momentos de Fred, neste ano parece que muitos clubes brasileiros decidiram buscar veteranos no exterior. O futebol local, assim, parece cada vez mais dividido entre eles e os jovens recém-saídos das bases; na faixa intermediária, de 21 a 29 anos, encontramos apenas os que não deram certo no exterior ou tiveram algum problema na carreira, como o próprio Adriano, ou escolheram destinos inexpressivos no futebol e expressivos na conta, como Valdívia e Douglas, ora sondados para retornar. E o caminho mais rápido é bater na porta do clube onde já se foi ídolo. Giovanni, por exemplo, está de volta ao Santos, embora haja dúvidas de que sua técnica ainda possa compensar a falta de mobilidade e poder decisivo que o marcou nos últimos anos.
O Corinthians não foi atrás de antigos ídolos, afora Edu no ano passado, mas investiu alto em jogadores com experiência em Libertadores. Repatriou Roberto Carlos, que já não corre todo o lado do campo, mas tem, como Ronaldo, um currículo de títulos e prêmios na Europa que merece muito mais respeito. O clube também repatriou outro ídolo de clube adversário, Danilo, depois de vencer disputa financeira com o São Paulo, e espera que ele jogue o que jogava antes de ir para o Japão. Trouxe ainda Tcheco, que já trabalhou com Mano Menezes no Grêmio, e Iarley, que participou de cinco Libertadores. Desse modo, com exceção da lateral direita e da zaga, tem dois bons jogadores para cada posição. Há comentaristas que já têm certeza de que não vai dar certo, mas o clube e o treinador fizeram o que tinham a fazer. Agora é calibrar a competição interna para que jogadores como Jorge Henrique, Defederico e até Dentinho cresçam com ela em vez de se sentirem desprestigiados.
Os outros times brasileiros na Libertadores – São Paulo (que contratou, por exemplo, o jovem Fernandinho e o rodado Marcelinho, outro repatriado e ex-ídolo), Internacional, Cruzeiro e Flamengo (que conseguiu manter Adriano e ainda pensa em Vagner Love, o repatriado do Palmeiras) – não investiram tanto, mas isso não significa que não tenham chances equivalentes, até porque o Corinthians pode sofrer com desentrosamento. Seja como for, o torneio promete, ou melhor, o ano promete, com a Copa do Mundo. A corrida para entrar na convocação final de Dunga começa agora, e isso fará Adriano, Ronaldo, Fred e muitos outros, como Ronaldinho Gaúcho (jogando bem de novo, no Milan, depois de três anos de brilho empanado), darem o melhor no primeiro semestre. Um reserva talentoso e um título prestigioso animam mais que muitas torcidas.
OUT OF AFRICA
A Copa Africana de Nações, em Angola, começou com a tragédia de um atentado contra seleção de Togo. Jogadores de outros times, como Drogba, da Costa do Marfim (que a imprensa brasileira trata como grande obstáculo para o Brasil na primeira fase, mas apenas empatou com Burkina Faso), teriam sido ameaçados. Fazer ilações a partir disso, condenando a ideia de realizar uma Copa do Mundo no continente africano, não ajuda em nada; apenas demonstra a ignorância sobre ele. Há um deserto da Namíbia e muitas diferenças entre um país e outro. Toda precaução de segurança já era necessária antes mesmo do ocorrido e, assim como Munique em 1972, o evento já ficou marcado por esse fato não esportivo. Mas não chutemos para fora o bom senso. Evitemos repetir o festival de estereótipos e hipocrisias que vimos na cobertura da Olimpíada de Pequim.
(“Boleiros”)
Em Paraty, onde passei o réveillon, choveu nos dois primeiros dias, uma chuva bonita e aromática para quem está na Mata Atlântica, mas trágica para quem construiu em encostas sem licença ambiental ou para cidades que não cuidam de bocas de lobo e da permeabilidade do solo. Nos outros cinco dias pegamos sol quase constante, sem chuva, e sair de barco pela Costa Verde é comprovar o que Rubem Braga escreveu sobre a “intimidade entre serra e mar” que em regiões como o Saco do Mamanguá – ao sul da baía de Paraty – produz belas perspectivas, molduras de colinas para o mar, a mata e suas cores.
No Lago Azul, apesar do nome, a água esmeralda convida ao mergulho entre peixes e anêmonas (desta vez não vimos golfinhos nem tartarugas), e o olhar se detém nas cascatas de árvores e nos paredões de pedras, onde avistamos saguis, calangos e capivaras.

Comemos muito bem em endereços como a ilha do Catimbau e na cidade. A 10 km de Paraty a caminho de Cunha, perto de uma cachoeira de pedra que funciona como tobogã, descobrimos o Villa Verde, um restaurante no meio da mata com uma jardinagem que pedia para ser fotografada.




Flores de dois metros de altura, avencas, bromélias, orquídeas, riachos, patas-de-elefante, bananeiras, palmiteiros, helicônias – nâo à toa Burle Marx e Tom Jobim eram apaixonados pela Mata Atlântica, que hoje se diz reduzida a 7%. Há medições que falam em 16%, mas isso não autoriza nem um metro a mais de ocupação desordenada e destrutiva.

As cartas escritas por Van Gogh (1853-1890) já foram editadas muitas vezes e em diversas formas, mas nenhuma como Vincent Van Gogh – The Letters em caixa de seis volumes pela editora Thames & Hudson. O subtítulo explica o porquê: The complete illustrated and annotated edition. Além de completa, ilustrada e anotada, a edição é belíssima: todos os volumes são grandes, em capa dura, e a caixa em que são embutidos é também firme e ilustrada. Com preço mínimo de US$ 480 (cerca de R$ 840, sem frete) para importar nas livrarias virtuais, faz um presente de fim de ano único, como uma jóia de palavras e cores. Para quem não pode ou não quer gastar tanto, criou-se um site: www.vangoghletters.org.
O pintor holandês deixou mais de 800 cartas escritas ao longo da vida, além de 80 outras que recebeu de parentes e amigos. Os estudiosos Leo Jansen, Hans Luijten e Nienke Bakker se debruçaram sobre elas durante 15 anos para produzir o recém-lançado compêndio. Como se sabe, essas cartas formam um dos maiores testemunhos de criação artística da história, porque esse é o assunto central de Van Gogh, além de questões financeiras e práticas. Principalmente para o irmão Theo, ele explica detalhadamente o que está pesquisando e produzindo, envia esboços nos quais assinala a cor que usará em cada área das figuras, comenta outros grandes artistas – como Rembrand e Millet, em destaque, e também as estampas japonesas (“ukiyo-e”) – e faz referências culturais, sobretudo literárias, de Homero a Zola, passando por Balzac, o qual mal termina de ler já começa a reler.
Embora sejam tão conhecidas, reler as cartas sempre tem a utilidade de lembrar alguns fatos que destoam de certas imagens convencionadas a seu respeito. Van Gogh não era um artista “maldito” ou “intuitivo”, mas extremamente lúcido e disciplinado, concentrado em sua busca de uma arte completa, que conteria – e contém – a profundidade dramática de um Rembrandt com as luzes solares de um Millet, numa composição que renova a relação entre figura e fundo como no “ukiyo-e”. Quando vemos uma tela de Van Gogh, os traços febris, as cores vivas, as pinceladas breves e a oleosidade espessa dão a sensação de algo feito num surto de inspiração, mas na realidade há um plano e um processo extremamente elaborados, conscientes.
Reler as cartas numa edição tão visual e minuciosa, em que cada informação ou alusão é explicitada (se ele conta que está pintando um quadro, vemos esse quadro ao lado; se remete a alguma obra de outro artista, idem), acentua algumas observações. Primeiro, a tolice que é dizer que Van Gogh não era grande desenhista. Só o diz quem supõe um ideal renascentista de desenho, em que o traço busca a mímese exata daquilo que retrata, e ignora que a Van Gogh não interessava isso, mas uma síntese objetiva do que lhe interessava numa paisagem ou pessoa; seu desenho é tão bom que já sugere o que o pincel fará, como a direção de seus gestos e os pontos de sombra ou densidade. Segundo, tanto na cópia de telas alheias que visita em museus ou vê em livros como na forma metódica com que deseja se corresponder com outros artistas, há em Van Gogh o zelo de quem queria ser reconhecido em larga escala.
Mesmo que tenha escrito esses textos sem pensar em publicação e posteridade, Van Gogh lhes deu um raro caráter reflexivo e confessional ao mesmo tempo. Em Arles, nas cartas de 1888-89 reunidas no volume 4 (o volume 6 é todo dedicado ao aparato editorial: contexto histórico, mapas, índices), ele escreve passagens como: “Quando vim para cá esperava que fosse possível criar amantes da arte – até agora não fiz nem um centímetro de progresso no coração das pessoas. (…) Mas até agora a solidão não me incomodou muito; encontrei um pôr-do-sol mais forte e seu efeito na natureza mais interessante.” Esse contemporâneo de Rimbaud que não o conheceu nem o leu, mas com quem tem datas e questões tão próximas (nasceram e morreram jovens quase nos mesmos anos; fugiram de suas origens, mas nunca perderam contato com elas por cartas; combateram os sentidos regrados ou embotados da arte convencional, etc.), também precisou enfrentar a solidão para chegar aos corações “ad aeternum”.
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