Histórias de crime não são comuns em Machado de Assis (1839-1908), tanto que nenhum de seus três romances mais conhecidos – Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro – gira em torno de assassinato, roubo ou alguma contravenção tão crua. Mas sua literatura é tão rica de observações sobre os impulsos ingovernáveis de cada indivíduo em face das circunstâncias, como aqueles herdeiros escravocratas com seus delírios de grandeza (ou em alguns contos como A Cartomante, que termina com um homicídio), que os estudiosos seguem encontrando nela uma fonte sem fim – como agora o poeta Marco Lucchesi e o psiquiatra Daniel Martins de Barros.
O livro de Lucchesi, O Dom do Crime, é um breve romance, espécie de “divertissement” erudito. Ele não incorreu na vulgaridade de romancear a vida de Machado e misturá-la com algum crime de época, recurso hoje tão comum em candidatos a best-sellers que acreditam em fórmulas como a do thriller histórico. Fez um livro que dialoga em temas e estilo com a obra e a vida de Machado, mas o narrador é um contemporâneo de Machado, com traços semelhantes (as doenças, as leituras, o agnosticismo) e dessemelhantes (ele nunca se casou, por ser “impossível dormir duas vezes com a mesma mulher”, como atravessar duas vezes o mesmo rio).
Esse narrador tem uma tese a respeito de Machado: a de que Dom Casmurro foi inspirado no famoso crime da Rua dos Barbonos, de 6 de novembro de 1866, em que José Mariano da Silva matou a esposa, Helena Augusta, por suspeita de adultério. O escândalo repercutiu na cidade, em jornais como aquele em que Machado trabalhava, o Diário do Rio de Janeiro, e se somou a outros do mesmo feitio, naquele que seria o auge do Segundo Reinado. Não à toa, o júri foi “seguido na imprensa como um folhetim sedutor”. Mariano era um médico respeitado, que circulava com desenvoltura pela Corte; Helena, como tantas personagens de Machado, uma moça de classe inferior, que ascendera com o casamento e fazia questão de ostentar isso em joias e vestidos.
Uma agregada, Leonor, foi quem fez o papel de Iago e plantou em Mariano a semente do ciúme: Helena viveria de conversas com o vizinho, Raimundo Martiniano, confirmadas pela escrava Espiridiana. Ao voltar de um baile e suspeitar da recente presença do “comborço”, do suposto amante, Mariano matou a mulher com um golpe de bisturi na jugular. No tribunal, o assassino confesso é defendido por um célebre advogado, Busch Varella, que alega privação da razão e culpa o vizinho sedutor. Não é difícil adivinhar a sentença – naqueles tempos de “honra” machista, como ainda agora neste Brasil…
O romance, bem escrito, numa costura de ações e reflexões pontuada por alguns achados estilísticos (“Grassava uma epidemia de crimes passionais dentro do frágil coração do Império”), envolve o leitor, deixando-o curioso tanto pelo relato do crime quanto pelos paralelos com Dom Casmurro. Mas não consegue em nenhum instante convencê-lo de que o clássico de 1899 é tão calcado assim no crime de 1866, até porque o que importa em Bentinho é sua covardia, o fato de não ter feito o que quis fazer (pensa em matar Capitu e desiste; pensa em matar o filho e desiste; pensa em se matar e desiste), não se ele tinha ou não provas definitivas a respeito da traição.
O livro de Martins de Barros, Machado de Assis: A Loucura e as Leis, escolhe outro caminho: é uma antologia de 12 contos do gênio comentados à luz da psiquiatria forense. Lá estão, naturalmente, O Alienista (“instrumentalização da psiquiatria em favor do establishment político-econômico”, por meio de “teorias pretensamente científicas”), O Espelho (em que a turvação de consciência do alferes Jacobina é equiparada a uma doença conhecida como Síndrome de Ganser) e A Causa Secreta (cujo sadismo mostra a “banalidade do mal”, na expressão posterior de Hannah Arendt), mas também textos menos conhecidos como A Ideia do Ezequiel Maia e Uma Partida.
“Lidar com a maldade pode ser um desafio maior do que a já complexa tarefa de lidar com o crime”, escreve Barros, depois de A Verba Testamentária, e lembra que “a imensa maioria dos delinquentes não apresenta qualquer diagnóstico médico e, ainda mais, a maioria esmagadora dos pacientes psiquiátricos não comete infrações”. No conto, a depressão de Nicolau é tratada como uma deficiência do baço, e sua internação tem apenas efeito paliativo. Mais uma vez, o que Machado diz, com atualidade impressionante, é que acreditar em remédios para os males da alma tem a mesma matriz da crença da religião em rezas para os males do corpo. Ou seja: a ilusão de que a natureza humana é indivisível e controlável.
Acompanhando o noticiário de TV sobre o conflito contra os traficantes no Rio, que ontem levou o Bope e a Marinha a ocupar a Vila Cruzeiro, tive a sensação de estar vendo a Fox News ou coisa do gênero. Todos, jornalistas e especialistas, aplaudiam a ação como uma conquista de território inédita, como uma façanha histórica, a primeira batalha numa guerra vitoriosa. A fuga dos bandidos para o Morro do Alemão teria mostrado sua fraqueza, sua desorganização, o impacto das Unidades Pacificadoras sobre seu comércio de drogas. Diante de mais de 50 mortes, inclusive de crianças e idosos com balas nas costas, vi alguns até dizendo que em São Paulo, naqueles dias em que o PCC parou a cidade com atos de guerrilha terrorista semelhantes, “foi muito pior” porque mais de cem morreram, como se a comparação atenuasse os erros.
O que me pergunto: não foram os traficantes que começaram a onda de violência, por comando de chefões presos em penitenciárias supostamente isoladas? Então como é que se pode pintar a ação como uma estratégia de efeito duradouro? Se as facções, como ADA (na Rocinha) e CV (no Alemão), estão unidas porque perderam apoio comunitário para UPPs e milícias, isso significa que ali a pacificação só se fará pela força bélica? Não era esse o discurso de campanha de Sérgio Cabral e Eduardo Paes. A polícia carioca é a que mais mata no mundo e o problema só aumentou. E o mais importante: nos últimos anos, o Brasil avançou muito pouco no setor de segurança também por culpa do governo federal, que sempre posa de “apoiador” nessas horas como se tivesse pouco a ver com tudo aquilo. Os presídios são fábricas de facções e as fronteiras são muito mal vigiadas. O território a conquistar, em suma, é bem maior.
O que mais me espanta nessa derrota e desclassificação do Palmeiras, ontem, no lotado Pacaembu, é o espanto com que se reagiu a ela. Por ter ganhado por 1 a 0 do Goiás no jogo de ida, já havia tanta certeza assim de que esse time – tão limitado quanto o outro alviverde – chegaria à final da Sul-americana? Só posso entender tanta importância dada a esse torneio, por sinal, por causa da carência de títulos nos últimos anos. Nem mesmo dois técnicos de currículo como Felipão e Muricy conseguiram dar jeito nessa carência. O que a torcida deveria fazer, além de se iludir menos, é cobrar do clube a contratação de melhor elenco. Ponto.
Testemunhamos na última semana dois episódios que mostram que no futebol há um espaço para individualidades e imprevistos que não cabem nos esquemas previsíveis e nas explicações habituais. O primeiro foi o de Messi no amistoso da Argentina contra o Brasil, na quarta passada: quando os brasileiros se preparavam para escutar o apito final e os locutores soltavam elogios desmedidos para Ronaldinho e para o empate por 0 a 0, Douglas perdeu a bola no meio, Messi recuou, tabelou, avançou em diagonal, saiu de falta e bateu rasteiro no contrapé, marcando um golaço com sua marca. Escrevi no blog que o grande problema não foi a distração ou ingenuidade dos brasileiros: foi a ausência de um fora de série, como o próprio Ronaldinho no Barcelona de cinco anos atrás.
Em última análise, aquilo que o técnico Mano Menezes chamou de “acidente” esconde um drama bem maior, o mesmo que se viu na Copa: o Brasil está carente de um fora de série, de alguém que decida na maioria das grandes ocasiões, que reinvente os caminhos do campo mesmo quando repete a jogada de sempre. O time de Mano tem talento e juventude, mas tem também inexperiência e alguns jogadores, como Robinho, que jogam bem abaixo do que acreditam – do que o próprio jogador acredita e do que muitos comentaristas acreditaram, quando o compararam oito anos atrás com Pelé, que chutava forte e era objetivo como Robinho raras vezes soube ser. Messi e Cristiano Ronaldo, que no momento disputam liderança e artilharia no Espanhol com belos gols e ótimas equipes, estão bem acima dos melhores jogadores brasileiros.
O outro episódio foi a distensão que tirou Ronaldo no primeiro tempo do jogo entre Vitória e Corinthians, o qual o time paulista já vinha vencendo graças a um lance seu com Danilo. Não é verdade que o Corinthians seja tão dependente assim de Ronaldo, que afinal não jogou nem um terço da temporada. Bruno César, artilheiro da equipe neste ano, não estava e Dentinho também não, pois Iarley não sabe jogar no meio dos zagueiros e deveria tomar aulas de domínio de bola (assim como Danilo aprender a chutar com a direita). E Ronaldo deve ter sua parcela de culpa, por não conseguir fazer oito partidas seguidas desde 2005 e desfalcar de novo o time. Aliás, a seleção também jogou contra a Argentina sem um 9 e se deu mal. Os centroavantes não estavam obsoletos?
Se não fazia tanta falta no primeiro turno, Ronaldo se tornou fundamental na reta final com seus gols, passes e presenças. Muitos o chamaram de ex-jogador em atividade, outros disseram que estava como Romário aos 40 anos; mas o fato é que ele seria titular e destaque em qualquer time brasileiro e nunca ficou apenas na área concluindo as jogadas. À medida que os jogos decisivos foram chegando, sua importância foi aumentando. Quando saiu de campo, o time perdeu a calma, ficou nervoso e desorganizado, desperdiçou as poucas chances que criou e só não levou a virada porque mais uma vez o goleiro Júlio César foi muito bem. Diante de um adversário desesperado por pontos e da saída do craque, teve um baque psicológico e tático, mesmo com tantos experientes.
O presidente Andrés Sanchez mostrou lucidez inusual em cartolas – e nele mesmo em outras ocasiões – e não culpou juiz, regulamento ou adversário que teria “entregado” o jogo, embora meu gosto por futebol não tenha nada a ver com o desse tipo de torcedor que quer que o time perca de propósito. Culpou a perda de pontos fáceis num momento em que o Fluminense jogava melhor e assumia a liderança, com o bom elenco e o técnico vitorioso que tem. Mas o clube também teve culpa por não ter arranjado em dois anos um centroavante para substituir Ronaldo com alguma eficiência. Pernas-de-pau fazem faltas; craques fazem falta.
(“Boleiros”)
O fato de eleições para presidente e governador serem simultâneas deixa de canto muitas discussões importantes que deveriam ser feitas sobre administrações estaduais, responsáveis por itens tão fundamentais quanto a educação. Os adversários de Geraldo Alckmin falaram muito sobre o preço alto dos pedágios (o pior não é isso; é que se pague o mesmo por distâncias bem diferentes, o que não ocorre em nenhum país desenvolvido) e sobre o baixo nível do ensino (por mais que se ponha a culpa na heterogeneidade da população paulista). Mas haveria muito mais para falar. Um sistema à beira do colapso, como alguns técnicos já se cansaram de avisar, é o energético. O fornecimento elétrico em São Paulo está no limite, com frequentes oscilações e apagões, e não aparece ninguém para investir dinheiro – sem aumentar impostos – e racionalidade no sistema.
Por falar em canções para as mulheres, outro dia mencionei Guillaume de Machaut, o poeta da Borgonha do século 14 analisado no livro de Johan Huizinga. E perdi a oportunidade de recomendar um CD que há tempos quero recomendar, Art of Love, em que o músico Robert Sadie adapta os poemas de amor de Machaut. Entre outros, tem a participação de Brad Mehldau tocando piano em várias faixas, de Romero Lubambo na guitarra e de cantores como Madeleine Peyroux e Milton Nascimento. Milton fez a versão Tu, meu Sonho Vivo, que tem um verso característico do que Huizinga diz, “meu corpo treme de amor, desespero”, em sua mistura de sagrado e profano, idealismo e melancolia.
A sensação é a de que, se fosse pintor, o poeta Ferreira Gullar não faria muito diferente do que faz Gianguido Bonfanti no livro Ossos e Vozes (editora Contra Capa), que terá lançamento hoje à noite no Rio de Janeiro, na galeria Gustavo Rebello Arte. A exposição traz não apenas as ilustrações (guaches, nanquins e gravuras) que Bonfanti fez para os poemas escolhidos de Gullar – principalmente dos dois livros mais recentes, Muitas Vozes, de 1999, e Em Alguma Parte Alguma, este recém-publicado –, mas também outros trabalhos inéditos de Bonfanti, como a nova série de autorretratos a óleo, dos quais Gullar é admirador de primeira hora. Além disso, livro e exposição são mais um presente ao poeta pelo aniversário de 80 anos.
Os 17 poemas foram escolhidos pelo próprio Gullar e seguiram o critério de terem sido publicados apenas uma vez e dialogarem (involuntariamente) com a pintura de Bonfanti, um artista muito menos conhecido no Brasil (e em São Paulo) do que deveria ser, com influências da figuração expressiva de Iberê Camargo e Frank Auerbach, entre outros, e que já teve retrospectiva no Museu Nacional de Belas Artes e livro de arte publicado na França pela Acatos. O livro da dupla tem duas versões: uma em brochura para distribuição e a outra em capa dura, forrada de pano, acompanhada de caixas com alguns dos trabalhos reproduzidos no livro, que é voltada para colecionadores.
É fácil entender, vendo as imagens, por que Gullar escolheu poemas como o primeiro, Extravio, com versos como “estou disperso nas coisas”, “estou desfeito nas nuvens” e “extraviei-me no tempo”. Ou Bananas Podres 2, em que fala de “uma ciranda/ de rostos consumidos/ de olhares humanos entre trapos/ na poeira de fogo”. Ou ainda Poemas Portugueses 5, quando diz: “eu colho a ausência que me queima as mãos”. Sem se referir a um quadro de Bonfanti, essas expressões de Gullar – esses relâmpagos sempre ricos de memórias – são a mais perfeita tradução de sua pintura. Poucas vezes texto e imagem, talvez desde Murilo Mendes e Ismael Nery, combinaram tão bem na arte brasileira.
O futebol é mesmo irônico. O líder do campeonato visita um dos times da zona do rebaixamento e, nervoso e desorganizado em campo, cede o empate e vê a liderança escapar. Mais que a saída de Ronaldo (que obviamente faz a diferença, como já vinha fazendo até 25 minutos, mas jogou apenas 9 dos 36 jogos até aqui) e o pênalti de Ralf (um toque involuntário, mas que cortou a trajetória da bola e Símon interpretou como falta), o Corinthians não soube enfrentar o desespero do Vitória, mesmo com a experiência de seu elenco. Já o Fluminense, depois de perder várias chances e ceder o empate, encaixou o esquema, viu o desmotivado São Paulo perder dois jogadores por expulsão e Conca brilhou de novo. Agora o time de Muricy Ramalho tem tudo para ser campeão, passando pelos reservas do Palmeiras e pelo rebaixado Guarani. Se for, ninguém poderá dizer que o título não estará em boas mãos – e bons pés.
Prezado Daniel,
Em junho do ano passado, você publicou a carta de uma leitora, Norma, que tinha visto a peça sobre Simone de Beauvoir com Fernanda Montenegro. Desde então ensaio escrever para você também, respondendo a ela. Na semana passada, assistindo a essa minissérie do Luiz Fernando Carvalho, Afinal, O Que Querem as Mulheres?, pensei: “Vai ser agora”. Pois eu queria defender as mulheres do que a Norma disse em alguns trechos. Ela se queixou, por exemplo, daquele movimento dos sem-namorado, com mulheres que parecem sonhar com o “amor eterno”, e das que desistem disso e passam a escolher homens por interesse, porque o sujeito tem dinheiro ou fama ou, pelo menos, faz rir. Eu, que tenho a mesma idade que a Norma, 33 anos (ela disse ter 32 então), embora seja casado, acho que elas são bem mais sutis que isso. Pelo menos as melhores.
Fui pesquisar sobre o título da minissérie, que é uma frase do Freud, numa carta em que diz que depois de 30 anos analisando a alma feminina ainda era incapaz de entender o que elas queriam. Como sempre fazem esses filósofos, remeteu o problema para as artes: “Se quiser saber mais sobre feminilidade, avalie suas próprias experiências ou recorra aos poetas ou espere até que a ciência dê informação mais profunda e coerente”. Como a ciência ainda não avançou quase nada no tema e muitos poetas são homens exaltando ou chorando as amadas, prefiro me basear na minha experiência. Freud, por sinal, era um tanto careta nesse assunto: achava que as mulheres não gostavam de mudança e só tinham o objetivo de ser mães; e viveu de acordo com essas premissas. Mas, convenhamos, mais do que compensou ao mostrar o custo da repressão sexual.
É verdade que ainda existe nas mulheres muita idealização sobre relacionamentos, uma cobrança de perfeição que é difícil quitar, um impulso para colocar o homem no centro de sua vida – fingindo que não – e transferir para ele problemas que não pode resolver. Me pergunto se boa parte desse comportamento não é uma reação aos séculos em que ficou submissa, reprimida, no papel de reprodutora sem opinião. Ok, mais de 150 anos se passaram desde que Emma Bovary recusou esse papel, e as gerações seguintes poderiam ter aprendido que o troco à submissão não é querer que os homens realizem todas as suas vontades – as quais aumentam toda vez que são satisfeitas… Lembro aquela canção do Bob Dylan, It Ain’t me, Babe, em que ele diz que não é o cara sempre forte, protetor e gentil que a namorada quer, o cara que jura que nunca vai embora e morrerá por ela se preciso. Mas não é simples assim.
A Norma disse que invejava a experiência de vida da Simone, apesar de ela ter idolatrado um homem, Sartre, que nunca lhe deu o verdadeiro prazer sexual, que ela só foi ter com um escritor americano, Nelson Algren. Mas não disse que o problema também estava em Sartre ou mesmo no Algren, que não conseguiram dar a ela a mente e o corpo juntos! Esse nível de exigência das mulheres é muito bom para todos, Daniel, e sei que você sabe disso. Acho que foi Bill Cosby, o comediante de TV, que respondeu à pergunta de Freud dizendo que as mulheres querem é que os homens parem de fazer essas perguntas tolas… Quando uma mulher faz charme ou seduz para ganhar presentes, quando presta atenção em nossa conversa em busca de inteligência e humor, quando nos obriga a reinventar flertes e mostrar respeito, quem ganha é a civilização.
Nós, homens, somos como André (Michel Melamed), a quem Lívia (Paola Oliveira) chama de “patético” e abandona. Como ele, passamos horas tentando entender a complexidade virtual das mulheres com nossos mecanismos ultrapassados, como máquinas de escrever, gravadores de rolo e expressões de criança. Elas são em 3D e as olhamos sem óculos. São um dial inteiro e procuramos uma só sintonia. São um piano que tocamos com um martelo. Somos tão banais, Daniel, que se a minissérie se chamasse Afinal, O Que Querem os Homens?, com quase unanimidade responderíamos: queremos a Paola Oliveira. Freud e Sartre talvez dissessem que essa é a redentora objetividade masculina, invejada pelas mulheres, e de fato o que mais falta a elas é lembrar que a libido é fundamental para a liberdade ou, como diz um amigo, que mulher não deveria virar parente. Só que há muitos outros pontos na questão.
O homem mais enganado de todos será aquele que achar que isso tudo é porque elas não dissociam sexo e amor. Ao contrário, elas sabem, depois de abandonar o idealismo juvenil, que podem amar um homem por quem perderam a atração ou se sentir atraídas por um que jamais amariam. A maioria dos casamentos, por sinal, está num estágio ou no outro. Sim, pode até ser que em média os homens queiram transar mais vezes, mas uma média não define uma essência. Conheço muitas e muitas mulheres que estão desesperadas com a falta de vontade e criatividade dos maridos. Queriam um sexo tão intenso quanto o amor que sentem ou sentiam. Que mal pode haver nisso, Norma?
Falei dos poetas que cantaram suas amadas durante séculos, desde os trovadores provençais até Chico Buarque e Elvis Costello. Os cientistas e documentaristas mostram como na natureza é comum o cortejo e a competição dos machos por suas fêmeas. Mas as coisas mudam, as mulheres também, e uma das coisas que distinguem o ser humano dos outros animais é que não faz amor apenas para reproduzir ou confirmar laços afetivos. Nas últimas décadas, Daniel, o que tem acontecido? Cada vez mais são as mulheres que fazem canções para falar dos homens. Diana Krall, Madeleine Peyroux e Norah Jones começaram a compor, já não interpretam apenas. Björk, que é tão vanguarda quanto Radiohead, repete “Como pude ser tão imatura?/ Achar que ele substituiria tudo que falta em mim”. Amy Winehouse confessa ter chorado no chão da cozinha, Lady Gaga diz que prefere um mau romance a uma amizade. Viva, elas estão se expressando!
Aos poucos, com todas as diferenças, encontro mulheres como a minha, Daniel, que entendem que os relacionamentos podem ser de vários gêneros: pode ser um romance clássico, cheio de capítulos e peripécias; pode ser um conto, com fim breve, nem por isso definitivo; pode ser um poema, que é mais breve que um conto e pode ser mais memorável que um romance; ou pode ser tudo isso, como um romance modernista, com ameaças de epílogos e rupturas, ziguezagues e recomeços. E nada mais próprio ao ser feminino do que essa noção aberta e móvel da vida. Elas querem poder, claro, e cada vez mais estão chegando lá. Mas elas querem, acima de tudo, querer. Sexo, amor, dinheiro, joias, risadas, talento, poder. Afinal, o que não querem elas sempre souberam.
Do seu leitor, Henrique.
Até aqui Dilma Rousseff só tem apontado para as continuidades, como a confirmação de Guido Mantega. A continuidade pode sair muito cara: as contas externas pioraram; a desindustrialização é um fato; os juros reais continuam altos e terão de subir porque a inflação subiu; não há marcos para atrair investimentos privados e estrangeiros suficientes para as obras de infraestrutura como as da Copa de 2014, a começar pelos aeroportos; a maquiagem do superávit fiscal não esconde o resultado medíocre de estatais como Petrobras e Eletrobras; a CPMF tende a voltar e o ambiente produtivo é um dos mais caros e lentos do mundo.
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