Estamos dentro do pequeno e belo estádio de Port Elisabeth, cujo gramado parece esburacado daqui do alto. Temos 24º. A escalação acabou de sair e Felipe Melo está confirmado no meio, apesar da contusão que teve no tornozelo. Daniel Alves, claro, faz o papel de Elano. Na Holanda também não há surpresas. Os dois carequinhas, Sneijder e Robben, estão na lista. Li muitos qualificando este jogo como “final antecipada”, mas é besteira; afinal, pode ainda haver uma final contra Alemanha ou Argentina… Mas tanto para Brasil como para Holanda hoje é dia de mostrar o melhor.
Karo Kaká,
Konsidero você o melhor jogador brasileiro de sua geração. Sempre apostei nisso, desde que você usava o nome Cacá e chegou a ser vaiado por alguns torcedores do São Paulo, que o diziam “pipoqueiro”. Um pipoqueiro não faz o que você fez na final da Champions League de 2007, enfrentando sozinho dois markadores com velocidade, téknika e solidez. A maioria dizia que o kraque pós-Ronaldos seria Robinho, o tal Robson “Arantes do Nascimento”, que há alguns anos foi para a Europa akreditando que se tornaria o número 1 do mundo. Mas, dos atuais jogadores da seleção brasileira, só você foi número 1 do mundo, konduzindo o Milan komo se fosse o mais experiente de todos.
Você também não kometeu o desatino de ser apenas jogador de klube, desses que amarelam kom a amarelinha. Já fez bastante pela seleção. Em 2006, é verdade, komeçou bem e depois dekaiu, mas estava kom dores e não kabia a você o papel de protagonista. Ainda. Agora, Kaká, kabe. Na maneira komo o time de Dunga joga, valorizando os kontra-ataques, você tem sido fundamental. Komo os volantes não têm habilidade para armar, a ligação kom o ataque depende especialmente de suas arrankadas e passes. Então não é por akaso que você é no momento um dos jogadores no topo da lista de assistências, pois três gols vieram de seus toques.
Mas, konvenhamos, você, eu, o Brasil e o mundo sabemos que você pode e deve mais. Sei que tem tido problemas físicos, desde a pubalgia, e ainda passa por fase de adaptação ao modo Real Madrid de ser. Sei também, porém, que já superou koisas muito mais difíceis. Quem o vê em kampo, kom esse porte, não imagina que teve problemas de krescimento e quase ficou paralítico. Também é difícil entender que se sinta perseguido por sua opção religiosa, assunto que podemos debater em outro momento. Se me permite um konselho, o que mais precisa agora é de koncentração. Esta é sua hora, Kaká; a História, com maiúscula, está chamando você. Sob as vuvuzelas, preste atenção. Eskutou? Ótimo, porque ela não chama qualquer um e só chama uma vez (Pelé não vale, klaro).
O que ela está dizendo é para você não ser apenas o aluno CDF da eskolinha moral do professor Dunga e seu auxiliar Jorginho. Acho até interessante que você esteja meio irritado, brigando kom adversários, tomando kartões amarelos. Significa que não está satisfeito. Mas não seja ingênuo demais e não fique repetindo essa deklaração de que seu papel é ser garçom, servir aos outros, porque pode akabar akreditando nisso. Seu papel é ser chef; é preparar e é também dar o toque final. Busque as redes, tente resolver situações também nos espaços kurtos, chute e drible mais. Hoje, kontra a Holanda, aproveite as sobras do meio-kampo e as transforme em pratos principais. E komece a chamar esta Copa de sua Kopa.
Argentina, Alemanha, Brasil, Holanda, Espanha, Uruguai, Paraguai e Gana são os oito times das quartas de final. Como são quatro sul-americanos, três europeus e um africano, a sociologia de botequim já veio decretar que é a crise da União Europeia, a vitória da arte sobre a força, etc. Mas, convenhamos, Itália e França não eram mesmo para estar nessa lista, pelos elencos envelhecidos e divididos. A Inglaterra era, mas decepcionou e deu de frente com a Alemanha. Se o problema fosse a abertura dos campeonatos europeus aos jogadores do exterior, em 2006 a final não teria sido como foi. Além disso, o sorteio dos grupos favoreceu os sul-americanos, em especial o Brasil. E, como se sabe, apenas a Argentina está praticando um futebol característico, de muitos dribles e jogadas individuais. Devagar com as generalizações.
Todos os confrontos são imprevisíveis. Alemanha x Argentina será um duelo de estilos: a Alemanha é mais organizada e toca de primeira; a Argentina é mais acelerada e carrega a bola. Uma parece mais sólida, mas a outra pode estar num dia inspirado e mostrar como um lance de criatividade pode demolir esquemas muito bem ensaiados, caso a sintonia entre Messi, Tevez e Higuaín funcione de novo. A Espanha fará outro jogo de paciência diante do Paraguai, que só tomou um gol até agora. O Uruguai da dupla Suarez e Forlan terá de sobreviver à correria ganense.
Já o Brasil vai pela primeira vez enfrentar um adversário mais parecido, a Holanda, que gosta de ter a posse de bola, conta com defesa firme e aproveita os espaços que surgem. A chave do jogo estará no meio-campo. Ontem acompanhei o dia da seleção e percebi que há preocupação em relação aos companheiros de Gilberto Silva. Elano está praticamente fora da Copa e Felipe Melo acaba de se recuperar de lesão. Daniel Alves é a melhor opção, porque as outras são Kleberson, que não marca, Josué, que só marca, e Gilberto, que conduz demais a bola. O risco é se deixar envolver pelo meio-campo leve e hábil da Holanda. Em compensação, o ataque brasileiro é forte e Kaká vem melhorando.
Ele e Robinho, de personalidades tão distintas (ou Robinho, que comemorou seu gol contra o Chile olhando e orando para o céu, está mudando?), estão o tempo todo juntos: nos treinos, nos aquecimentos, nas brincadeiras. Quiçá melhorem a parceria em campo. Nessa dupla está o córtex frontal do sistema brasileiro.
Minha seleção da Copa até aqui: Neuer (Julio Cesar); Maicon (Sergio Ramos), Lucio (Ricardo Carvalho), Juan (Heitinga) e Lahm (Coentrão); Schweinsteiger (Kuyt), Sneijder (Ozil) e Messi (Forlan); Robinho (Tevez), Podolski (Gyan) e Villa (Higuaín). Como se vê, a lista não tem Cristiano Ronaldo, Rooney, Torres, Kaká. Mas ainda pode mudar e ter, além de Kaká e Torres, nomes como Robben, Luís Fabiano, Klose, Xavi, Iniesta, Suarez, Van Persie e outros. O bicho vai pegar.
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