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Daniel Piza

Às vésperas de uma nova Copa do Mundo, e pela primeira vez no continente africano, o futebol ainda é menosprezado como parte indissociável do mundo contemporâneo. Estudiosos de questões econômicas, como a globalização, e socioculturais, como a idolatria, poderiam observá-lo com mais atenção, mas os poucos que o fazem caem em velhos termos como consumismo, alienação, etc. Ou então há os que gostam do esporte e tentam justificá-lo como afirmação de identidade, como alguns intelectuais brasileiros que acham que o estilo de jogo nacional é uma espécie de roteiro para nossa chegada a uma civilização melhor que as outras. O futebol, como os demais esportes, não é nem uma coisa nem outra. É negócio, é entretenimento e serve como encenação dos valores de uma sociedade; mas não é um ópio que esconde os problemas reais, nem um espelho que revela grandes ideais.

Sei, claro, que esses comportamentos vão ser dominantes nas coberturas. Cobra-se da seleção brasileira “lavar a honra” do país, e qualquer coisa que não for o hexacampeonato vai soar como fim do mundo, sempre com um ou dois bodes para expiar a culpa; a TV, em especial, programa emocionalmente a audiência nesse sentido, como se viu em tantas edições passadas. Os que criticam o futebol por causa de vandalismos que eclodem de tempos em tempos, por sua vez, não agem menos irracionalmente; o futebol dá vazão a esses tristes conflitos porque é um raro rito coletivo em nossa época individualista, mas pode ser também uma forma de sublimar a barbárie que está em nós e que antes vazava em guerras e segregacionismos. No Brasil, é um poderoso agente de aproximação entre pessoas de classes e regiões distintas, além de um dos poucos campos em que meninos carentes podem virar exemplos públicos. Só não deve ser visto como tábua de salvação.

Por envolver tantas paixões, o futebol parece ser um dos setores mais atrasados do “país do futebol”. Com a Copa de 2014 a ser realizada no Brasil, a ocasião poderia servir para refletir melhor sobre formas de renovar e modernizar o setor, não apenas de reformar seus estádios. (Também deveria servir para atenuar problemas urbanos, como transporte e segurança, mas este é o outro assunto.) Alguns movimentos positivos começaram a aparecer. Alguns clubes estão aprendendo a dar valor à sua marca, atraindo e repatriando grandes jogadores, e reduzem suas dívidas. Em apenas cinco anos, a receita dos 21 maiores clubes brasileiros praticamente dobrou (acima de R$ 1,5 bilhão em 2009). Se a economia como um todo melhorou, desta vez o futebol parece tentar acompanhá-la.

Mas há muito ainda por evoluir, e essa evolução só virá se o debate também abandonar o Fla-Flu emotivo de praxe. Bola pra frente.

(Revista Avianca, abril/maio 2010)

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